O QUE VEM DE NOVO POR AÍ... NA POLÍTICA?
“PT x rapa” não vale mais
José Roberto
de Toledo
Chegam a 70% os que têm opinião desfavorável sobre o PT
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Os tucanos (PSDB) contra os da estrela vermelha (PT): essa polarização parece estar com os dias contados. A conferir! |
Há uma mudança radical em
curso na política brasileira. Ela ainda não se verificou nas urnas e, por isso,
deve ser tratada como hipótese a ser provada. Mas todas as pesquisas de opinião mostram que a polarização PT x anti-PT
não é mais o único campo no qual se luta pelo poder no Brasil. A nova arena
eleitoral terá mais e novos atores disputando o papel de protagonista que antes
era reservado necessariamente a um petista. A eleição de 2016 porá a hipótese à
prova, com chances de elevá-la a tese.
Duas
novas pesquisas – uma delas revelada aqui em primeira mão – reforçam essa
suspeita. Segundo levantamento inédito do Ibope, apenas 12% dos eleitores brasileiros declaram-se hoje simpatizantes do
PT. É a mais baixa taxa de petismo verificada pelo instituto desde 1989.
Perante a opinião pública, o partido
regrediu para onde estava antes de protagonizar a primeira de sete eleições
presidenciais consecutivas. Com sérios agravantes.
Segundo
o Ibope, 70% dos brasileiros revelam
hoje uma opinião mais negativa do que positiva sobre o PT. Em apenas um
ano, quem tem uma imagem “muito desfavorável” do partido triplicou de 11% para
30%, e os que declaram que ela é “desfavorável” (sem o “muito”) foram de 35%
para 40%. Entre outubros de 2014 e 2015,
a visão “muito favorável” ao PT caiu de 7% para 3%, e a “favorável” despencou
de 34% para 20%. O restante não respondeu.
De
quebra, o PT perdeu a exclusividade como partido mais lembrado. Com seus 12%,
está tecnicamente empatado com PMDB e PSDB, ambos com 10% de simpatizantes
declarados ao Ibope. Apesar de terem chegado aos dois dígitos, os tucanos não têm muito a comemorar. Desde
2014, cresceu a sua impopularidade. As opiniões
desfavoráveis ao PSDB aumentaram de 45% para 50%, enquanto as favoráveis caíram de 36% para 31% (além
de 19% sem resposta).
O
PT não acabou nem vai acabar. Porém, após 25 anos de ascensão contínua, o
partido entrou em rápida decadência. Todas as tensões acumuladas ao longo de 13
anos de domínio federal foram liberadas de uma vez só. Os últimos grãos de areia que provocaram a avalanche de impopularidade
foram a Lava Jato e a crise econômica. Soterrado, o PT é mais uma das
siglas na sopa de letrinhas partidárias.
Os
petistas argumentam que ainda não perderam uma eleição importante. Mas o
histórico sobre preferência partidária do Ibope
somado à mais recente pesquisa eleitoral do Datafolha
em São Paulo mostram que isso parece ser questão de tempo.
Os
meros 12% de intenção de voto do prefeito petista Fernando Haddad não são tão
surpreendentes quanto o perfil de quem está declarando voto nele – e o de quem
não está. Desde 1988, o PT só ganha
eleição em São Paulo quando consegue a maioria dos votos na periferia pobre da
cidade. Haddad, entretanto, vai três vezes melhor entre os mais ricos do
que entre os mais pobres.
Perdeu a periferia para
Celso Russomanno (disparado com 34%) e para Marta
Suplicy (13%). Nem mesmo dentre os cada vez mais raros paulistanos que se
declaram simpatizantes do PT, reduzidos a 11%, Haddad consegue superar
Russomanno e Marta.
Tem
22% entre eles, contra 33% e 25%, respectivamente. A ex-prefeita não terá os
votos de seus vizinhos nos Jardins e outros bairros ricos. Mas subtrai
eleitores pobres que elegeram Haddad em 2012.
Mesmo
assim, não é impossível que o atual prefeito se reeleja. No 1.º turno, basta
que ele fique em segundo lugar (onde, tecnicamente, já está). No 2.º, como de
hábito, o paulistano escolherá o menos pior. Quem tiver menos rejeição leva.
Com Russomanno, Haddad, Marta e companhia, será uma loteria.
A
testar nas urnas, o que Datafolha e Ibope sugerem é que cada vez menos eleições no Brasil continuarão sendo um embate do PT
contra a rapa. Muito menos um duelo entre petistas e tucanos. Novas metáforas virão.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Política –
Quinta-feira, 5 de novembro de 2015 – Pg. A8 – Internet: clique aqui.
POR QUE ESTAMOS
ASSIM?
Um legado do lulopetismo
Editorial
Não
deveria espantar a projeção, publicada pelo [jornal] Estado, de que 3,3 milhões
de famílias que haviam chegado à classe C entre 2006 e 2012 farão o caminho de
volta para a base da pirâmide até 2017. Também não deveria causar surpresa
a previsão segundo a qual o PIB per
capita brasileiro terá em 2020 o mesmo nível de 2010, afetando
drasticamente o padrão de vida da festejada “classe média emergente”. Trata-se
da confirmação das advertências que há tempos vêm sendo feitas a respeito da
fragilidade dessa ascensão social, tratada na última década pelo governo
petista como a prova do acerto de sua política econômica.
Em meio a uma recessão que
promete ser longa e dolorosa, ficaram claros os erros grosseiros dessa
política, em especial aqueles que arrebentaram as contas públicas em nome do assistencialismo travestido de redistribuição de renda e que construíram a tal
“nova classe média” com base exclusivamente no aumento do poder de consumo,
garantido pelo crédito farto que só existia em razão da conjuntura externa
favorável. Na época de ouro do
lulopetismo, no entanto, quem quer que ousasse apontar a vulnerabilidade dessa
nova classe média era logo classificado de “pessimista” – ou, pior, inimigo
do povo.
No
décimo aniversário do Bolsa Família, em outubro de 2013, quando a tempestade
que se aproximava ainda era confundida com chuva de verão, o ex-presidente Lula
caprichou na retórica divisiva [que
provoca divisão], atribuindo as críticas à política petista a uma certa
“elite” incomodada pela “ascensão do pobre”. “O cidadão vai para o aeroporto, chega
lá e vê a empregada dele com a família no avião, pegando o lugar dele. Eu sei
que é duro”, discursou Lula. No mesmo embalo, durante a campanha de 2014, a
presidente Dilma Rousseff disse que “33 milhões viajaram de avião em 2002, hoje
são 113 milhões e, em 2020, serão 200 milhões” – algo que, segundo ela,
“incomoda muita gente”.
Ao final de 2015, o sonho da
classe C que viaja de avião se transformou no pesadelo dos pobres que mal
conseguem pagar a passagem de ônibus para ir atrás de um emprego. “Estamos vivendo,
infelizmente, o advento da ex-nova classe C”,
resumiu o economista Adriano Pitoli, responsável pelo estudo da Tendências Consultoria Integrada que
mediu o impacto da crise nessa faixa socioeconômica.
A
pesquisa levou em conta uma projeção segundo a qual a economia deverá recuar
0,7% ao ano entre 2015 e 2017 e a massa real de rendimentos cairá 1,2% ao ano,
ao mesmo tempo que o desemprego deverá chegar a quase 10%. Nesse cenário de
dificuldades, emergem os problemas
estruturais que tornam difícil para os que chegaram à classe C lá permanecer:
- baixa escolaridade, que limita a possibilidade de obter empregos de melhor remuneração;
- acesso a trabalho apenas no mercado informal, com escassa proteção social; e
- nenhuma poupança, já que, graças ao estímulo oficial ao consumo, a pouca renda acabou sendo comprometida integralmente na aquisição de bens, geralmente por meio de forte endividamento.
A
situação calamitosa da economia afeta especialmente a base da pirâmide, mas
será sentida em quase todas as outras faixas de renda. “É uma década perdida em termos de padrão de
vida”, disse ao jornal Valor
o pesquisador Armando Castelar, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre-FGV).
E a
perspectiva é sombria para os próximos anos: segundo o economista Antonio
Corrêa de Lacerda, também ouvido na reportagem, o PIB per capita em dólares deve cair de US$ 11.566 em 2014 para US$
8.490 neste ano e para US$ 7.900 em 2018. Isso significa que a renda dos
brasileiros estará cada vez mais distante do padrão de países desenvolvidos –
mesmo aqueles que enfrentam brutais dificuldades, como a Grécia, cujo PIB per
capita é de US$ 21.682.
Esse
é, pois, em resumo, um dos grandes legados do lulopetismo, que será sentido por
gerações, e que só poderá ser superado por meio de uma grande mobilização nacional em torno de um projeto
de país radicalmente distinto das fantasias irresponsáveis criadas por Lula e
companhia bela.
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