POR QUE E COMO O ESTADO ISLÂMICO SEDUZ?
Nos guetos, as origens do radicalismo
Jamil Chade
Má formação escolar e alto índice de desemprego
frustram jovens que descendem de imigrantes muçulmanos e se aproximam da
religião
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MESQUITA NO BAIRRO PARISIENSE DE COURCOURONNES |
Avô
imigrante, pai europeu, neto radical islâmico. Em Courcouronnes, na periferia de Paris, o fracasso em promover a integração da população muçulmana em expansão na
Europa se vê em cada esquina, praça, cortiço e escola decadentes. Com a
guerra a terroristas e radicais islâmicos, o desafio dos governos do continente
é fazer com que o combate não aprofunde ainda mais o sentimento de exclusão de
jovens muçulmanos e o abandono e estigmatização de bairros inteiros.
A Europa tem cerca de 20
milhões de muçulmanos. São 4,7 milhões de muçulmanos na França, outros 4,7 milhões na
Alemanha e, em pelo menos mais quatro países, a população muçulmana ultrapassa
a marca de 1 milhão. Essa população fez
crescer em muito o número de mesquitas. São 2,1 mil na França, 2,6 mil na
Alemanha e 1,2 mil na Grã-Bretanha. Entre os muçulmanos franceses e belgas,
há um medo compartilhado: o de morrer em um atentado terrorista e o de ser cada
vez mais discriminado pelos compatriotas.
Vida
cotidiana
Khalid Ben Issa, morador da periferia de
Paris, conta que essa semana passou por um momento constrangedor. Ao levar sua
esposa ao hospital para exames, ambos foram ofendidos por dois senhores no
lobby do hospital. “Assassinos”, gritaram a Issa, ao ver sua mulher com o véu.
Durante
a semana, na Grande Mesquita de Paris,
imãs de todo o país se reuniram para orar pelos mortos, condenar os ataques e
deixar claro que os atentados não tinha qualquer base no Islã. Mas o temor entre os próprios líderes
religiosos é de que aqueles que deveriam escutar a mensagem – os jovens – já
não tenham as mesquitas como referências.
Divididas
por nacionalidades, muitas das mesquitas moderadas contam com imãs
estrangeiros, que não conhecem a realidade da juventude europeia muçulmana e
nem falam francês, alemão ou inglês.
Com subempregos, o jovem da
periferia não se vê como um cidadão pleno. “Se eu me sinto francês? Até gostaria. Mas
o Estado parece não me querer”, disse Karim Abdel, um jovem de 19 anos nascido
na França, que passa seus dias entre uma quadra esportiva no centro de
Courcouronnes. Sobre sua escolaridade, ele é pessimista: “Estudar para quê?”.
Dados
oficiais apontam que 40% dos jovens
muçulmanos franceses estão desempregados. Na Bélgica, a taxa chega a 50%. Sem pontos de referência, muitos se
radicalizam, seduzidos por um discurso de ódio ao Ocidente que os desprezou.
Governos
europeus se defendem, com a justificativa de que um montante desproporcional
dos benefícios sociais vão para muçulmanos. Na Dinamarca, 30% do seguro
desemprego vai para essa população, que representa 7% da população local. Na
Alemanha, 80% dos imigrantes de origem turca vivem com benefícios sociais de
cerca de 487 euros por mês. Desse total, 70% é formado por famílias cujos
filhos não terminaram a escola.
Abdel,
porém, insiste que não quer esmolas. “O
que mais me deixa assustado é que vejo que meus amigos que estudaram estão
praticamente na mesma situação minha”, disse. “Você acha que quando um
francês com cara de árabe vai buscar um emprego ele tem alguma chance contra um
monte de brancos?”
Alienado
Um
termômetro do fracasso da integração dessa população é o sistema de educação e
a reação das crianças. Um estudo realizado pela Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE) revelou que a nova geração dos jovens imigrantes na França e Bélgica é a mais
“alienada” entre os jovens de mais de 50 países examinados. Justamente os
dois países de onde vieram a maioria dos terroristas que atacaram Paris.
Apenas
duas em cada cinco crianças imigrantes de primeira geração na França acham que
têm lugar na escola. Na Bélgica, essa taxa é de três a cada cinco. Entre os imigrantes
de segunda geração, o problema é ainda maior. Na França, apenas 39% das crianças se sentiam acolhidos em suas escolas.
“Os sistemas de educação na
França e na Bélgica são cegos para a diversidade”, disse Andreas Schleicher, diretor do Departamento de Educação da OCDE.
“Trata-se de um sistema padrão. Todo estudante recebe o mesmo tratamento,
eliminando os que são diferentes”, apontou. Um exemplo oposto é o do Canadá,
onde escolas adaptam os programas às necessidades da comunidade local.
Outra
diferença em relação aos EUA é que, na
França, raramente um professor tem origem estrangeira, o que cria um
distanciamento ainda maior entre a escola e o imigrante. Os resultados
acadêmicos, portanto, apenas espelham essa falta de acompanhamento.
“Estudantes
filhos de imigrantes tem um desempenho abaixo da média em matemática e
leitura”, disse o autor do estudo. “O impacto é levado ao longo dos anos e
transformado em oportunidades de trabalho diferenciadas entre quem é branco e
europeu e quem é negro, muçulmano ou filho de estrangeiros.”
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RUA DO BAIRRO MOLENBEEK - EM BRUXELAS - CAPITAL DA BÉLGICA População predominantemente muçulmana e de origem oriental e africana, cerca de 97.000 moradores |
Bélgica
Na
porta de um colégio público no bairro de maioria muçulmana de Molenbeek, em Bruxelas, a entrada dos
alunos numa manhã chuvosa seria como a de qualquer outro estabelecimento
escolar da Europa. Exceto pelo fato de que, nos 30 minutos em que a reportagem
esteve no local, nenhuma menina chegou sem véu.
Gilles Kepel, acadêmico
francês, culpa os governos por jamais terem de fato garantido total
reconhecimento dessa população. “Nem o sangue jorrado pelos muçulmanos lutando nas
guerras europeias, nem a reconstrução da Europa por operários muçulmanos depois
de 1945 fizeram de seus filhos cidadãos plenos”, disse. Hoje, são “cidadãos em teoria”. Mas nem socialmente se sentem
locais, nem são vistos pelo restante da população como tendo os mesmos
direitos.
O
rabino Michel Serfaty, que presta
serviços sociais em bairros pobres de Paris, admite que a falta de uma educação adequada está levando o país a profundas
divisões. “Muita gente nesses bairros nunca ouviu falar no Holocausto”,
disse. Uma de suas tarefas é a de montar grupos e levar a cada ano para uma
visita a Auchwitz. A outra é a de convencer jovens a entender que eles são tão
franceses quanto um judeu francês.
Frustração
O
discurso, porém, para na realidade econômica da população. Numa praça em
Courcouronnes, onde viveu um dos terroristas – Ismael Mostefai – adolescentes e
jovens não escondem que o assunto é como
os ataques dificultarão ainda mais as chances de emprego.
Parte
dessa juventude encontrou um caminho alternativo nos esportes, principalmente
no futebol. Hoje, as seleções da Bélgica e da França são a transposição de
garotos da periferia ao status de estrelas.
Mas
uma imensa maioria simplesmente se sente
abandonada. Pesquisas revelam que o bem-estar psicológico de crianças
imigrantes é afetado não apenas pelas diferenças entre o seu país de origem e a
França, mas também por como escolas e comunidades as ajudam a superar as
dificuldades de ser estrangeiro e construir uma nova vida. “A forma pela qual escolas respondem à imigração tem um impacto
profundo na sociedade”, apontou Andreas
Schleicher, da OCDE.
Um
estudo do Centro de Ciências Sociais de Berlim revela que, diante dessas
condições, o fundamentalismo na Europa é mais amplo que as autoridades
imaginavam e a mudança de lealdade entre gerações é nítida. Numa pesquisa com 9 mil pessoas, dois
terços apontaram que a religião é hoje mais importante que as leis nacionais.
Ahmed,
um taxista de 56 anos e filho de argelinos, conta que essa mudança entre
gerações é um fato. Ele nasceu no bairro belga de Molenbeek, berço também de alguns dos terroristas de Paris. “Era um
dos locais mais calmos do mundo. Nossos pais, estrangeiros, faziam o que podiam
para nos criar e garantir que fôssemos para a escola e universidade. Esse era o
único sonho deles”, disse. “Agora vamos todos sofrer.”
O
prefeito da cidade francesa de Chartre, Jean
Claude Gorges, admite que a administração europeia não fez o suficiente
para evitar a criação de guetos e que o que se vive hoje é o resultado de 30
anos de uma polícia equivocada. “Os
apartamentos sociais acabaram em grande parte nas mãos de imigrantes. Mas nosso
erro foi colocar todos no mesmo local”, contou. Ele não nega que a criação
de um grupo desconectado do próprio Estado francês é hoje perpetuado pela
própria classe política.
“Agora,
quando tentamos mudar, muitos prefeitos temem que a população local ache ruim
ter um estrangeiro como vizinho.”
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Internacional
– Domingo, 22 de novembro de 2015 – Pg. A16 – Internet: clique aqui.
«Eles não imaginam o inferno que os espera»
Vitor Hugo
Brandalise
Para estudioso da comunicação do Estado Islâmico, falta
de perspectiva e crise de identidade dão ideia falsa aos jovens que se unem aos
fanáticos
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JAVIER LESACA Especialista em comunicação |
Nada
fácil a tarefa de convencer milhares de jovens ocidentais a lutar pela criação
de um estado islâmico radical, que defenda a decapitação de inimigos e a pena
de morte a homossexuais. “Por meio de um sermão religioso não seria”, diz o
espanhol Javier Lesaca, professor
visitante da Universidade George Washington, estudioso das formas de
comunicação do Estado Islâmico.
“Então,
usam as melhores estratégias do mundo ocidental: videogames, filmes de terror,
hip hop. Falam com os mais jovens na língua do ocidente moderno”, explicou o
pesquisador.
Há algum tipo de jovem mais
vulnerável às mensagens de recrutamento do Estado Islâmico (EI)?
Javier Lesaca: A propaganda do EI é
dirigida a jovens de entre 15 e 25 anos de todo o mundo, que se sentem
alienados em seus países de origem e têm problemas identitários ou de adaptação
social. São campanhas que apelam a elementos culturais do ocidente (videogames,
filmes de terror, música hip hop, estilo gangster). E há poucos elementos
religiosos. É certo que jovens de origem árabe de segunda ou terceira geração
que residem em bairros marginais e pouco integrados de grandes cidades
europeias são os mais vulneráveis, mas também há dezenas de casos de jovens sem
nenhuma relação com o mundo árabe ou muçulmano que decidiram fazer parte do EI.
Eu o definiria mais como um fenômeno cultural e social do que religioso.
Que aspectos de games como Call of Duty, por exemplo, são mais
usados nos vídeos do EI?
Javier Lesaca: Usam a linguagem visual e
também a narrativa. De Call of Duty copiam
os efeitos audiovisuais e os planos subjetivos que acabam por engajar o
espectador com o vídeo. De Assassins
Creed copiam a forma de vestir. De Mortal
Kombat X, a brutalidade das execuções. De filmes como Jogos Mortais ou V de
Vingança, a narrativa em que um mascarado faz justiça em um mundo injusto e
o retransmite ao resto da opinião pública.
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Um dos games que inspiram a propaganda do Estado Islâmico, especialmente os efeitos visuais |
O senhor disse que o EI usa
as tags mais difundidas no ocidente para que suas mensagens cheguem aos jovens.
Pode dar exemplos?
Javier Lesaca: A primeira vez que
utilizaram essa técnica foi em 13 de setembro de 2014, quando distribuíram o
vídeo da decapitação do britânico David Haynes. Os responsáveis pela
comunicação do EI se deram conta de que o Twitter estava eliminando todos os
tweets que entravam com a hashtags que eles haviam criado para difundir a
decapitação, #Amessagetotheallieofamerica.
Para vencer o obstáculo, retransmitiram a decapitação usando os Trending Topics
daquele momento no Reino Unido, incluindo #iphone6
e o aniversário de um membro da banda One Direction (#HappybirthdayNiall).
Por que há tanto sucesso
nessa estratégia?
Javier Lesaca: Em um contexto de crise da
modernidade, de falta de perspectivas, de perda identitária, o EI oferece uma
aventura audiovisual pela qual vale a pena viver e, inclusive, morrer. O
problema é que a maior parte dos jovens que se unem ao EI não se imaginam no
inferno que os espera quando se integram ao grupo terrorista. Quando se dão
conta, já não podem voltar.
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Outro game que serve de inspiração à propaganda do Estado Islâmico. A forma de vestir é copiada. |
Os americanos também já
usaram o interesse de jovens por games de guerra para atraí-los ao combate.
Qual a diferença em relação ao EI?
Javier Lesaca: A primeira diferença é que
os Estados Unidos são uma democracia e um estado de direito e o EI é um grupo
terrorista. Não é o mesmo que um governo legítimo tente seduzir seus cidadãos
jovens com produtos culturais e que quem o faça seja um grupo terrorista para
recrutar assassinos. De todo modo, o certo é que o EI copia as estratégias de
comunicação pública das instituições, governos e multinacionais de todo o
mundo. Aprenderam com os melhores e copiam casos de êxito do mundo ocidental. O
EI fala com os mais jovens em uma linguagem própria do ocidente moderno.
O senhor defende o uso de
linguagem de videogame/internet no combate ao EI. De que maneira?
Javier Lesaca: O EI mostrou mais de 160
vídeos executando mais de 1200 pessoas em menos de dois anos. A imensa maioria
deles, muçulmanos da Síria e do Iraque. Eles controlam 36 produtoras
audiovisuais na Síria, Iraque, Rússia, Egito, Líbia, Argélia, Tunísia,
Afeganistão, Iêmen e África Ocidental. Todas são coordenadas pela produtora Al Hayat Media Center, a que marca a
temática dos vídeos, a estética, a duração, inclusive os dias em que se
distribuem. Por outro lado, ainda hoje é muito difícil encontrar o depoimento
de algum dos familiares de suas vítimas, explicando a dor causada pelo EI.
Creio que ainda há muito por avançar nesse terreno.
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