FRACISCO: "A IGREJA SEJA HUMILDE E INQUIETA"
Andrea
Tornielli
Vatican
Insider
11-11-2015
Papa Francisco apresenta a sua visão de como ser Igreja
aos participantes do V Congresso Eclesial Nacional (9 a 13 de novembro de 2015)
da Itália, em Florença, cujo tema central é:
«Em Jesus Cristo o novo humanismo»
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PAPA FRANCISCO Faz um de seus principais discursos desde que ocupa a Sé de Pedro! Catedral de Florença (Santa Maria da Flor), 10 de novembro de 2015. |
Francisco
não foi oferecer receitas aos “estados gerais” da Igreja italiana, nem tampouco
apresentar um “projeto bergogliano” para substituir outros projetos ou fechar
velhas estações eclesiais. No entanto, suas palavras representam um divisor de
águas.
Em
seu longo e articulado discurso, pronunciado sob a cúpula do “Duomo” [catedral],
em Florença, com o afresco do Juízo Final, o
Papa propôs à Igreja italiana um minimalismo evangélico centrado na visão da
humanidade de Jesus:
- na predileção pelos pobres e
- na abertura ao diálogo e
- à confrontação com todos.
Não
fez discursos abstratos sobre o “humanismo”, mas, ao contrário, utilizou
palavras “simples e práticas”.
Apontou três sentimentos de
Jesus:
- a humildade,
- o interesse pela felicidade do outro,
- a beatitude evangélica.
Ao
traçar o caminho, Francisco sugere a todos que dirijam a visão ao “cristianismo genérico” do povo de Deus,
inclusive onde houver um pequeno rebanho um pouco estardalhado, ao invés de
apostar em movimentos organizados pelas elites de assalto, pelos projetos que
acreditam influenciar o pensamento de massa mediante as “batalhas culturais”.
Porém
desta vez, a verdadeira notícia se
encontrava nas últimas linhas do texto. Francisco, após ter repetido que
não será ele quem traçará o novo percurso da Igreja italiana (mas, sim, os
próprios religiosos italianos), fez um
único pedido:
«Em cada comunidade, em cada paróquia, em cada diocese,
procurem colocar em curso, sinodalmente, um aprofundamento da “Evangelii Gaudium”,
para obter dela os critérios práticos e para realizar suas disposições».
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Tradução: 5º Congresso Eclesial Nacional Florença, 9 - 13 de Novembro de 2015 "Em Jesus Cristo o novo humanismo" |
Esta
exortação apostólica, um verdadeiro
documento programático do Pontificado, foi publicada há dois anos. Se o
Pontífice convida a retomar esse texto, evidentemente considera que a Igreja
italiana não fez isto ou não o suficiente.
[ .
. . ]
A “conversão pastoral” que Francisco
aponta com seu Pontificado é algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, mais
radical. É uma Igreja “inquieta”, que
sabe se colocar em discussão pelo Evangelho, que abandona qualquer efeito
colateral, qualquer “substituto de poder, de imagem, de dinheiro”. Uma
Igreja que não dorme nas glórias da própria hegemonia, de suas seguranças
econômicas e estruturais.
[ .
. . ]
Traduzido
do italiano pelo Cepat. Acesse a
versão original deste artigo, clicando aqui.
Fonte: Instituto Humanitas
Unisinos – Notícias – Quinta-feira, 12 de novembro de 2015 – Internet: clique aqui.
IMPERDÍVEL !
Eis uma seleção das principais frases e propostas de
Papa Francisco à Igreja italiana e, por conseguinte, à toda Igreja Católica
Stefania
Falasca
«Um
novo humanismo? Não, aquele dos “sentimentos de Cristo Jesus”», como diz São
Paulo.
O
aguardado discurso à Igreja italiana foi pronunciado por papa Francisco aos pés
do Ecce homo, na Catedral de Santa Maria da Flor, em Florença, convidando a deixar-se olhar por Jesus. E, justamente, em
ter os mesmos «sentimentos de Cristo», que Francisco prevê o caminho do
catolicismo italiano [e, por que não dizê-lo,
mundial].
A
chave desta importante afirmação de São Paulo, severa e, ao mesmo tempo,
materna, concentra-se nesta prospectiva para um percurso de renovação da vida. Retomando
as motivações expressas na [exortação apostólica] Evangelii gaudium, o Papa, como também em outras ocasiões,
focalizou duas tentações heréticas a serem vencidas na Igreja: aquela do pelagianismo
e aquela do gnosticismo.
Para
a totalidade da Igreja, exprime duas recomendações: a inclusão social dos pobres e o diálogo.
Aos
bispos, pede para serem verdadeiros pastores a serviço do
povo, não autorreferenciais e pregadores de complexas doutrinas,
expressando, enfim, o desejo de ver hoje o desdobramento de uma Igreja mãe.
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PAPA FRANCISCO Fala a representantes de todas as dioceses italianas acompanhados de seus respectivos bispos Catedral "Santa Maria del Fiore", Florença, 10 de novembro de 2015 |
Eis
os principais trechos e aspectos do discurso de Papa Francisco:
Quais são os «sentimentos de Cristo»?
Humildade,
desinteresse, bem-aventurança.
Estes
são as três características «que desejo hoje apresentar à vossa meditação sobre
o humanismo cristão que nasce da humanidade do Filho de Deus», afirma
Francisco.
E
estas características dizem algo também à Igreja italiana que hoje se reúne para
caminhar junto.
Primeiro: «Que não devemos ser
obcecados pelo poder, mesmo quando este tem a face de um poder útil e funcional
à imagem social da Igreja».
Segundo: Que «se a Igreja não assume os sentimentos de Jesus, se desorienta,
perde o sentido. Se os assume, no entanto, sabe estar à altura da sua missão.
Os sentimentos de Jesus nos dizem que uma Igreja que pensa em si mesma e em
seus próprios interesses seria triste. As bem-aventuranças, de fato, são o
espelho no qual olhar-nos, aquele que nos permite saber se estamos caminhando
sobre a estrada certa: é um espelho que não mente».
Para
o Papa, uma Igreja que apresenta estas três características – humildade,
desinteresse
e bem-aventurança
– é uma Igreja que «sabe reconhecer a ação do Senhor no mundo, na cultura, na
vida cotidiana das pessoas».
«Eu
já disse isso muitas vezes e repito-o ainda hoje a vocês», afirma Francisco
retomando a Evangelii gaudium:
«Prefiro uma Igreja acidentada, machucada e suja por ter saído pelas ruas,
antes que uma Igreja doente pelo fechamento e a comodidade de agarrar-se às
próprias seguranças. Não desejo uma Igreja preocupada de ser o centro e que
acaba presa em um emaranhado de obsessões e procedimentos».
Por isso:
1.
O primeiro sentimento é a humildade.
A obsessão de preservar «a própria glória, a própria “dignidade”, a própria
influência não deve fazer parte de nossos sentimentos». A glória de Deus não coincide com a nossa. A glória de Deus que
«brilha na humildade da gruta de Nazaré ou da vergonha da cruz de Cristo nos
surpreende sempre».
2.
Um outro sentimento de Jesus que dá forma ao humanismo cristão é o desinteresse. «Cada um não procure o
seu próprio interesse, mas antes aquele dos outros» como pede São Paulo. A humanidade do cristão é sempre de saída.
«Não é narcisista, autorreferencial» retoma Francisco. E citando a exortação [Evangelii gaudium] recorda: «Quando o
nosso coração é rico e está muito satisfeito de si mesmo, então não há mais
lugar para Deus. Evitemos, por favor, de fechar-nos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos nos quais nos sentimos tranquilos».
«A nossa fé – afirma Francisco – é revolucionária por um impulso que vem do
Espírito Santo. Devemos seguir este impulso para sair de nós mesmos, para sermos
homens segundo o Evangelho de Jesus. Toda vida decide-se sobre a capacidade de
dar de si mesmo. É nisso que transcende a si mesma, que chega a ser fecunda».
3.
O sentimento de Cristo Jesus da bem-aventurança.
«Nas bem-aventuranças o Senhor nos indica o caminho». «Para os grandes santos,
a bem-aventurança relaciona-se com humilhação e pobreza» recorda o Papa. Mas
também na parte mais humilde do povo há muito desta bem-aventurança: «é aquela
de quem conhece a riqueza da solidariedade, do partilhar mesmo o pouco que se
possui; a riqueza do sacrifício cotidiano de um trabalho, às vezes duro e mal
pago, mas realizado por amor pelas pessoas queridas; e também aquela das
próprias misérias, que todavia, vividas com confiança na providência e na
misericórdia de Deus Pai, alimentam uma grandeza humilde».
As duas tentações a se vencer
Francisco
destaca, especialmente, dois perigos para a Igreja italiana [e por que não
dizê-lo, mundial]:
1.
A primeira tentação é aquela
pelagiana [para
saber o que foi o pelagianismo, clique aqui e aqui].
Aquela que «empurra a Igreja a não ser humilde, desinteressada e
bem-aventurada. E o faz com a aparência de um bem». O pelagianismo – explica Francisco
– leva a ter confiança nas estruturas, nas organizações, nos planejamentos
abstratos. Frequentemente, leva mesmo a assumir um estilo de controle, de
dureza, de normatividade. «A norma dá ao pelagiano a segurança de sentir-se
superior, de ter uma orientação precisa. Nisto encontra a sua força, não na
leveza do sopro do Espírito».
Para o Papa,
diante dos males e problemas da Igreja, não se deve cair na heresia pelagiana procurando «soluções em conservadorismos e
fundamentalismos, na restauração de condutas e formas superadas que nem mesmo
culturalmente têm capacidade de serem significativas». Porque «a doutrina cristã não é um sistema fechado
incapaz de gerar perguntas, dúvidas, interrogações, mas é viva. Tem um rosto
não rígido, tem corpo que se move e se desenvolve, tem carne macia: chama-se
Jesus Cristo». A própria reforma da Igreja é, pois, alheia ao pelagianismo,
diz o Papa. Uma vez que a Igreja está semper
riformanda [em constante reforma]. «Ela não se esgota no enésimo plano para
mudar as estruturas. Significa, ao invés, enxertar-se e enraizar-se em Cristo,
deixando-se conduzir pelo Espírito. Então, tudo será possível com genialidade e
criatividade».
O Papa pede,
assim, que a Igreja italiana se deixe levar pelo sopro do Espírito. Seja uma Igreja livre e aberta aos desafios
do presente, jamais na defensiva pelo medo de perder alguma coisa. E,
encontrando as pessoas pelas ruas, assuma o propósito de São Paulo: «Fiz-me
fraco com os fracos, para ganhar os fracos; fiz-me tudo por todos, para salvar
a todo custo alguém» (1Cor 9,22).
2.
A segunda tentação é aquela
do gnosticismo [para saber o que foi e é o gnosticismo, clique aqui].
Esta tentação leva «a confiar no raciocínio lógico e claro, o qual, porém,
perde a ternura da carne do irmão». A fé do gnóstico é «uma fé fechada no
subjetivismo», desencarnada e distante da realidade e do próximo.
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"ECCE HOMO" [Eis o homem] Parte do afresco da cúpula da Catedral de Florença para o qual Papa Francisco chamou a atenção dos presentes em várias passagens de seu discurso |
A
Igreja italiana – afirma Francisco – tem grandes santos cujo exemplo pode ajudá-la
a viver a fé com humildade, desinteresse e alegria, de Francisco de Assis a Felipe
Neri. E cita, também, os personagens de Guareschi onde «a oração de um bom pároco se une à evidente
proximidade com as pessoas».
Proximidade
às pessoas e oração são a chave «para viver um humanismo cristão popular,
humilde, generoso, alegre». «Se se perde
este contato com o povo fiel de Deus – retoma Francisco – perdemos em humanidade e não vamos a nenhum
lugar».
O que, portanto, está solicitando o Papa? O que se deve fazer?
Dirigindo-se
aos seus interlocutores, Francisco afirma: «Cabe a vocês decidirem: povo e
pastores juntos». E convidando, novamente, a observar o Ecce homo pede para imaginar «o que nos pede Jesus a cada um de nós
e à Igreja italiana». «Poderia dizer: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei por
herança o Reino preparado para vós desde a criação do mundo, porque tive fome e
me destes de comer... mas poderia também dizer: “Afastai-vos para longe de mim,
malditos, no fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos, pois
tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber...» (Mt 25,
31-46).
Aos
bispos, o Papa pede para serem pastores: «Seja esta a vossa
alegria. Será o povo, o vosso rebanho a sustentar-vos. Além da oração, aquilo
que faz estar de é um bispo, é o seu povo». Pastores, não pregadores de complexas doutrinas, mas anunciadores de Cristo. Pede para ter em vista o essencial, o querigma [o cerne da mensagem cristã]. «Não
há nada de mais sólido, profundo e seguro deste anúncio». «Mas – destaca Francisco
– seja todo o povo de Deus a anunciar o Evangelho, povo e pastores, quero
dizer».
Duas recomendações
Para
toda a Igreja italiana [e também mundial],
o Papa recomenda de modo especial:
1.
A inclusão social dos pobres, que possuem um lugar
privilegiado no povo de Deus.
2.
A capacidade do encontro e
do diálogo
para favorecer a amizade social, procurando o bem comum.
Em
relação ao pobres, Francisco recorda que os pobres conhecem bem, por
experiência, os sentimentos de Cristo. «Penso no Spedale degli Innocenti [Hospital
dos Inocentes, concebido pelo artista Filippo Brunelleschi, que recebeu a
encomenda em 1419] – cita como exemplo – uma das primeiras arquiteturas
renascentistas do mundo, que foi criada para o serviço de crianças abandonadas
e mães desesperadas. Frequentemente, estas mães deixavam junto aos recém-nascidos
medalhas quebradas ao meio, com as quais se esperava, apresentando a outra
metade, poder reconhecer os próprios filhos em tempos melhores. Vejam, devemos
imaginar que os nossos pobres possuem uma medalha quebrada. Nós temos a outra
metade. A Igreja mãe tem a outra metade da medalha de todos e reconhece todos os
seus filhos abandonados, oprimidos, cansados».
Em
relação à capacidade de diálogo e de encontro, Francisco insiste sobre o fato que
a Igreja seja «fermento» de diálogo, de encontro entre culturas e diversas
comunidades, de unidade. Insiste sobre o fato de não ter diálogo, porque «é justamente o confronto e a crítica que
nos ajuda a preservar a transformação da teologia em ideologia». E recorda
que «dialogar não é negociar.
Negociar é procurar obter a própria “fatia” do bolo comum. Não é isto que
entendo. Mas é buscar o bem comum para todos. Discutir juntos, pensar nas
soluções melhores para todos. Mesmo que, muitas vezes, o encontro se veja
envolvido no conflito, mas isto não se temer nem ignorar, mas aceitá-lo,
resolvê-lo e transformá-lo em um elo de ligação de um novo processo».
Além
disso, recorda que a melhor maneira para
dialogar «não é aquela de falar e discutir, mas aquela de fazer alguma coisa
junto, de construir junto, de fazer projetos: não sozinhos, entre
católicos, mas junto àqueles que têm boa vontade». Este nosso tempo – retoma –
requer que vivamos os problemas e não os vejamos como obstáculos: «Saí pelas
ruas e ide às encruzilhadas: todos aqueles que encontrardes, chamai-os, nenhum
excluído. Sobretudo, acompanhai quem ficou à margem do caminho. Onde quer que
estejais não construí jamais muros nem fronteiras».
O sonho de uma Igreja mãe
«Agrada-me
uma Igreja italiana inquieta, sempre mais próxima dos abandonados, dos
esquecidos, dos imperfeitos. Desejo uma Igreja alegre com o rosto de mãe, que
compreende, acompanha, acaricia. Sonhai, também vós, com esta Igreja, crede
nela, inovai com liberdade».
O
humanismo cristão que se é chamado a viver – diz o Papa – afirma radicalmente a
dignidade de toda pessoa como Filho de Deus, estabelece entre todos os seres
humanos uma fundamental fraternidade, ensina a compreender o trabalho, a
habitar a criação como casa comum, fornece razões para a alegria e o humor,
mesmo em meio a uma vida muito dura».
Papa
Francisco, dizendo que não cabe a ele dizer «como realizar este sonho» dá,
enfim, uma indicação: de realizar, em modo sinodal, um aprofundamento da Evangelii gaudium, a fim de
extrair-lhe critérios práticos e para colocar em ação suas disposições.
Para ler, baixar e imprimir o discurso de Papa Francisco
em sua íntegra, traduzido ao português, clique aqui.
em sua íntegra, traduzido ao português, clique aqui.
Para ler o documento escrito por Papa Francisco, que ele
recomenda ser aprofundado e colocado em prática pela Igreja [a Evangelii gaudium], clique aqui.
Este documento (Evangelii
gaudium) também encontra-se publicado pelas
editoras católicas, podendo ser adquirido ou encomendado
nas livrarias de nossa Igreja.
Traduzido do italiano por Telmo José Amaral de Figueiredo.
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