OS BISPOS SE PRONUNCIAM SOBRE A ATUAL CONJUNTURA SOCIOPOLÍTICA
CNBB divulga nota sobre a realidade sociopolítica
brasileira
«O Congresso Nacional e os partidos políticos têm o
dever ético e moral de favorecer a busca de caminhos que recoloquem o país na
normalidade. É inadmissível alimentar a crise econômica com uma crise política
irresponsável e inconsequente.»
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PRESIDÊNCIA DA CNBB Bispos que coordenam a entidade |
A
Presidência da Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nesta quinta-feira (27 de outubro),
durante coletiva de imprensa, nota sobre “A
realidade sociopolítica brasileira: dificuldades de oportunidades”. O texto
foi aprovado pelo Conselho Permanente
da instituição, que esteve reunido em Brasília, de 27 a 29 deste mês.
Na
nota, a CNBB manifesta-se a respeito do momento de crise na atual conjuntura.
“A permanência e o agravamento da crise política e econômica, que toma conta do
Brasil, parecem indicar incapacidade das
instituições republicanas que não encontram um modo de superar o conflito de
interesses que sufoca a vida nacional, e que faz parecer que todas as
atividades do país estão paralisadas e sem rumo”, declaram os bispos.
Eis a nota.
A realidade Sociopolítica Brasileira:
Dificuldades e Oportunidades
O Conselho Permanente da Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, reunido em Brasília de 27 a 29 de outubro
de 2015, comprometido com a vivência democrática e com os valores humanos,
consciente de que é dever da Igreja cooperar com a sociedade para a construção
do bem comum, manifesta-se acerca do momento de crise na atual conjuntura
social e política brasileira.
A
permanência e o agravamento da crise política e econômica, que toma conta do
Brasil, parecem indicar a incapacidade das instituições republicanas que não
encontram um modo de superar o conflito de interesses que sufoca a vida
nacional, e que faz parecer que todas as atividades do país estão paralisadas e
sem rumo. A frustração presente e a incerteza no
futuro somam-se à desconfiança nas autoridades e à propaganda derrotista,
gerando um pessimismo contaminador, porém, equivocado, de que o Brasil está num
beco sem saída. Não nos deixaremos tomar pela “sensação de derrota que nos
transforma em pessimistas lamurientos e desencantados com cara de vinagre”
(Papa Francisco – Alegria do Evangelho,
85).
Somos todos convocados a:
- assegurar a governabilidade que implica o funcionamento adequado dos três poderes, distintos, mas harmônicos;
- recuperar o crescimento sustentável;
- diminuir as desigualdades;
- exigir profundas transformações na saúde e na educação;
- ampliar a infraestrutura;
- cuidar das populações mais vulneráveis, que são as primeiras a sofrer com os desmandos e intransigências dos que deveriam dar o exemplo.
Cada protagonista terá que ceder em prol da
construção do bem comum, sem o que nada se obterá.
É
preciso garantir o aprofundamento das conquistas sociais com vistas à
construção de uma sociedade justa e igualitária.
Cabe à sociedade civil exigir que os governantes do executivo, legislativo e
judiciário recusem terminantemente
mecanismos políticos que, disfarçados de solução, aprofundam a exclusão social
e alimentam a violência, entre os quais:
- o estado penal seletivo,
- as tentativas de redução da maioridade penal,
- a flexibilização ou revogação do Estatuto do Desarmamento e
- a transferência da demarcação de terras indígenas para o Congresso Nacional.
No genuíno enfrentamento das atuais
dificuldades pelas quais passa o país, não
se pode abrir espaço para medidas que, de maneira oportunista, se apresentam
como soluções fáceis para questões sabidamente graves e que exigem reflexão e
discussão mais profundas com a sociedade.
A superação da crise passa pela recusa sistemática de toda e qualquer
corrupção, pelo incremento do
desenvolvimento sustentável e pelo diálogo
que resulte num compromisso comum entre os responsáveis pela administração dos
poderes do Estado e a sociedade. O
Congresso Nacional e os partidos políticos têm o dever ético e moral de
favorecer a busca de caminhos que recoloquem o país na normalidade. É
inadmissível alimentar a crise econômica com uma crise política irresponsável e
inconsequente.
Recorde-se que “uma sociedade política dura
no tempo quando, como uma vocação, se esforça por satisfazer as carências
comuns, estimulando o crescimento de todos os seus membros, especialmente
aqueles que estão em situação de maior vulnerabilidade ou risco. A atividade legislativa baseia-se sempre no
cuidado das pessoas” (Papa Francisco ao Congresso dos EUA). Nesse sentido,
com o espírito profético inspirado na observância do Evangelho, a CNBB reitera que o povo brasileiro, os
trabalhadores e, principalmente, os mais pobres não podem ser prejudicados em
nome de um crescimento desigual que reserva benefícios a poucos e estende a
muitos o desemprego, o empobrecimento e a exclusão.
A construção de pontes que favoreçam o
diálogo entre todos os segmentos que legitimamente representam a sociedade é
condição fundamental para a superação dos discursos de ódio, vingança, punição
e rotulação seletivas que geram um clima de permanente animosidade e conflito
entre cidadãos e grupos sociais. Esse clima belicoso, às vezes alimentado por
parte da imprensa e das redes sociais, poderá contaminar ainda mais os corações
e mentes das pessoas, aprofundando abismos e guetos que, historicamente, maculam
nossa organização social. Ao aproximar-se o período eleitoral de 2016, é responsabilidade de todos os atores
políticos e sociais, comprometidos com a ética, a justiça e a paz,
aperfeiçoarem o ambiente democrático para que as eleições não sejam contagiadas pelos discursos segregacionistas que
ratificam preconceitos e colocam em xeque a ampliação da cidadania em nosso
país.
A
corrupção se tornou uma “praga da sociedade” e um “pecado grave que brada aos
céus” (Papa Francisco - O rosto da misericórdia, n.19). Acometendo tanto instituições
públicas, quanto da iniciativa privada, esse mal demanda uma atitude forte e
decidida de combate aos mecanismos que contribuem para sua existência. Nesse
sentido, destaca-se a atuação sem
precedentes dos órgãos públicos aos quais compete combater a corrupção. A
contraposição eficaz à corrupção e à sua impunidade exige, antes de mais nada,
que o Estado cumpra com rigor e
imparcialidade a sua função de punir igualmente tanto os corruptos como os
corruptores, de acordo com os ditames da lei e as exigências de justiça.
Deus nos dê a força e a sabedoria de seu
Espírito, a fim de que vivamos nosso ideal de construtores do bem comum, base
da nova sociedade que almejamos para nós e para as futuras gerações.
Brasília, 28 de outubro de 2015.
Dom Sergio da
Rocha
Arcebispo
de Brasília-DF
Presidente da CNBB
Dom Murilo S. R.
Krieger
Arcebispo
de São Salvador da Bahia-BA
Vice-presidente da CNBB
Dom Leonardo
Ulrich Steiner
Bispo
Auxiliar de Brasília-DF
Secretário-Geral da CNBB
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