O QUE PENSAR SOBRE A DIVULGAÇÃO DE NOVOS ESCÂNDALOS NO VATICANO?
O novo Vatileaks: contas secretas, astúcias
e gastos faraônicos
Giacomo
Galeazzi
Vatican
Insider
04-11-2015
A revolução da sobriedade de papa Francisco tem muitos
pesos nas asas.
Os documentos contidos nos livros VIA CRUCIS, de
Gianluigi Nuzzi, e AVARIZIA, de Emiliano Fittipaldi, iluminam realidades
inéditas e narram outras que já tinham vindo à tona nos últimos meses.
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Título do mais recente livro do jornalista italiano GIANLUIGI NUZZI: "VIA CRUCIS - A partir de gravações e documentos inéditos, a difícil luta de Papa Francisco para mudar a Igreja" |
Documentos
reservados sobre a riqueza, os escândalos e as inconsistências entre a “Igreja pobre e para os pobres” de Bergoglio e
o ritmo real da vida no Vaticano de hoje. Em conjunto, os livros traçam com
tons obscuros um panorama inquietante. Desde os enormes apartamentos de 500
metros quadrados dos cardeais da cúria até o “tesourinho” eclesiástico de 4
bilhões de euros em propriedades imobiliárias. Segredos que não foram
considerados tão reveladores sobre a situação do Pontificado a ponto de merecer
um pré-lançamento por parte dos principais meios de comunicação dos Estados
Unidos, que nunca dão descontos à Igreja. Eles
não encontraram nada de novo neles ou nenhum dado alarmante.
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GIANLUIGI NUZZI Jornalista italiano investigativo, nascido em Milão, 1969, autor de vários livros sobre escândalos no Vaticano |
Casos
novos dignos de nota
Algumas
situações já eram do conhecimento de todos. Por exemplo, o luxuoso apartamento
do ex-secretário de Estado Tarcisio
Bertone, a má gestão da saúde católica desde a Idi até o Hospital do Padre
Pio em San Juan Rotondo, passando pelos conflitos internos pela gestão das
finanças vaticanas na cúpula vaticana (cardeais: Pell, Calcagno, Parolin). A este quadro descrito pelos
meios de comunicação nos últimos meses, o livro de Nuzzi acrescenta gravações
de encontros reservados entre prelados e o Papa (“os custos estão fora de controle, existem armadilhas”, disse
Francisco).
Balanços não oficiais, campos propícios para a
corrupção e a criminalidade. Além disso, não são nenhuma novidade as:
- pompas das hierarquias,
- a fábrica de santos,
- as esmolas dos fiéis que não serão destinadas à beneficência,
- o buraco negro das aposentadorias ou
- os venenos daqueles que sabotam as reformas.
Na
pesquisa de Fittipaldi fala-se de dinheiro, imóveis, esbanjamentos. Mas também
de negócios sujos e de privilégios. O IOR
[espécie de “banco” do Vaticano], que se ocupa da gestão de quatro fundos de
caridade, não deu nem em 2013 nem em 2014 um único euro aos necessitados ou à
solidariedade, apesar de ter ativos de dezenas de milhões de euros.
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Título do livro mais recente do jornalista italiano Emiliano Fittipaldi: "AVAREZA: os papéis que revelam riqueza, escândalos e segredos da Igreja de Francisco" |
Gastos
na cúria
Pequenas
astúcias que se convertem em negócios. Como os combustíveis: garantem enormes
margens de lucro, escrevem os analistas da Ernst&Young.
Como se sabe, no Vaticano há dois postos
de combustíveis, e o preço para os clientes é 20% menor em relação ao preço
cobrado na Itália. Fittipaldi reconstrói o marco geral: há 550 cartões de
crédito que permitem comprar gasolina: 1.800 litros ao ano, 27 mil usuários.
Muitos não estão autorizados. Mas não há apenas dois novos livros que fazem
surgir novos escândalos financeiros na cúria.
Suspeitas
sobre a APSA
De
acordo com o documento interno, publicado pela agência Reuters, a APSA (Administração do Patrimônio da Sé Apostólica) teria sido utilizada para lavar dinheiro de procedência duvidosa do
Banco Vinnat, de Giampietro Nattino, o banqueiro sobre o qual o agente
imobiliário Stefano Ricucci disse em um interrogatório do Ministério Público:
“Quem é Nattino? Você quer que me matem hoje? Esqueça. Eu digo por mim mesmo,
mas se quiser continuar, faça-o. Faça o que achar melhor, mas protejam 600
pessoas. E quem vai me proteger?”.
Dois milhões de euros teriam
sido transferidos para a Suíça poucos dias antes que o Vaticano impusesse novas
normas contra a lavagem de dinheiro e vigiasse minuciosamente as transferências. De maio de 2000 até o dia
29 de março de 2009, a carteira [conta corrente] “339” era de Nattino. A origem e o destino dos fundos seriam
“duvidosos”, pode-se ler no relatório dos investigadores vaticanos, que tem 33
páginas. Esta informação foi repassada depois para os investigadores
italianos e suíços, para que pudessem, por sua vez, verificá-la.
A
APSA ocupa-se também das finanças e dos fundos da Santa Sé. Um caixa forte que
ainda está sob a lupa.
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EMILIANO FITTIPALDI Jornalista investigativo italiano, nasceu em Nápoles, em 1974, trabalha atualmente para a revista "L'Espresso" da Itália |
Traduzido do italiano por André Langer. Acesse a versão original
deste artigo clicando aqui.
Fonte: Instituto Humanitas
Unisinos – Notícias – Quinta-feira, 5 de novembro de 2015 – Internet: clique aqui.
“Vatileaks? O Papa desfez equilíbrios atávicos, talvez corruptos,
e há reações pesadas”
Entrevista
com Andrea Riccardi
Historiador da Igreja e fundador da
Comunidade de Santo Egídio
Andrea
Carugati
L’Huffington
Post – Itália
03-11-2015
«Esta crise não existe e não existirá»
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ANDREA RICCARDI Historiador italiano da Igreja e fundador de uma associação leiga dedicada à promoção da paz e da justiça: "Comunidade de Santo Egídio" |
«Não
há dúvida, também neste caso, como aconteceu no último ano do pontificado do
Papa Bento XVI, há aqueles que de dentro querem construir um cenário de “crise
de governo” no Vaticano. Penso na fuga de notícias, mas também as alusões à
saúde do Papa. Mas acho que esta crise não existe e não existirá».
Mais uma vez temos a fuga de
notícias. Parece que nada mudou...
Andrea Riccardi: Um velho vaticanista commo Benni Lai dizia que no Vaticano há muita
fofoca porque os padres não têm em casa mulher para poder conversar sobre o que
ocorreu no trabalho... mas, é claro, trata-se de uma explicação muito leve para
descrever o que realmente está acontecendo. Desenha-se um cenário, que me parece, não corresponde ao que é verdadeiro, que
visa dar uma ideia de um Vaticano sem um governo forte, ou então, que seja
impossível reformar.
Acho
que aconteceram coisas graves, mas
circunscritas. E, sobretudo, relativas à esfera econômica sobre a qual se
abateu a foice de Francisco. O Pontífice mexeu com equilíbrios atávicos,
algumas vezes, corruptos, e isto suscitou reações pesadas no interior da Cúria.
Os documentos que estão no centro das
fugas de notícias são todas de tipo econômico e isto confirma que o desafio se
dá neste terreno. É aqui que está a areia movediça. Daqui é que se fala de
uma crise de governo ou de um Papa que não sabe escolher as pessoas certas. O Papa governa de maneira forte e com
sucesso, mas podem acontecer incidentes.
As duas pessoas presas foram
nomeadas durante o seu pontificado...
Andrea Riccardi: A senhora
Chaouqui não tinha uma posição tão importante que tivesse de ser
escolhida pelo Pontífice. Quanto ao padre Vallejo
Balda, ele já estava na Cúria e o seu nome foi sugerido pelo então
arcebispo de Madri (cardeal Rouco). Mas
o Papa não o quis como número dois de Pell (o cardeal “ministro da Economia
do Vaticano”). Assim, não se pode falar
de nomeações erradas, ainda que isto também possa acontecer...
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PADRE LUCIO ÁNGEL VALLEJO BALDA e FRANCESCA CHAOUQUI Ambos investigados por vazamento de documentação sigilosa referente à administração econômica do Vaticano |
Mas parece haver uma forte
contradição entre a espiritualidade da Igreja de Francisco e estes fatos tão
terrenos...
Andrea Riccardi: A contradição existe. O
Vaticano é uma grande administração internacional, feita por homens, uma grande
instituição com as suas debilidades. Mais ainda: é composta por tipos humanos
muito diferentes, filhos de culturas, mentalidades e hábitos diferentes. Uma Cúria muito variada, filha de uma
internacionalização que substitui a precedente, toda italiana. Uma
instituição sujeita às mesmas leis das classes dirigentes e burocráticas do
mundo, que nem sempre são de tão alto nível... acrescento que esta Cúria não está no Céu mas em Roma, e o
clima que se respira nesta cidade, certamente, não é o melhor...
Antes o senhor falava da reforma da
Cúria. Em que direção se moverá esta reestruturação?
Andrea Riccardi: Não é necessária somente
uma reforma das estruturas ou do seu conjunto, mas também de uma revolução no
recrutamento: é preciso ter a presença
de mais mulheres e leigos na máquina administrativa. A burocracia é ainda muito
clerical.
A senhora Chaouqui é uma mulher e
leiga, mas o seu perfil, inclusive nas colunas sociais, parece ser pouco idôneo
para a Igreja...
Andrea Riccardi: Não a conheço, mas recordo
que ela não tinha um posto importante. Até agora o recrutamento é feito por
cooptação clerical e isto é um limite. São necessárias regras: se numa grande
empresa são revelados documentos reservados, imediatamente se demite.
O Vaticano nunca será uma simples
empresa...
Andrea Riccardi: Mas chegou o momento de
superar este ar de segredo que circunda o Vaticano. João Paulo II dizia que o
segredo pontifício é conhecido por todos em Roma, menos pelo próprio Papa. Acho
que a reserva deve ser mantida sobre algumas questões, mas sobre todo o resto
deve haver mais publicidade e transparência. Caso contrário, qualquer folheto
de um cardeal torna-se um caso...
Acho que Francisco, com o
seu estilo de vida parco e com o discurso sobre a “esclerose” da Cúria romana,
está indo nesta direção, ou seja, na direção do fim de uma ideia principesca
destas funções.
Ou seja, naquele discurso temos o programa do Pontificado, e é neste terreno
que se colocam estes incidentes e talvez outros que acontecerão. É um caminho
difícil.
É aqui que residem os riscos de uma “crise
de governo” inclusive dentro da maioria que elegeu Bergoglio?
Andrea Riccardi: Sem dúvida, há muitas
resistências. Pessoalmente, não ouvi bispos falar criticamente do Papa. Assim,
acho que, hoje, há somente a vontade de prospectar este cenário, pois o seu
governo é muito forte.
Pelo que se sabe de algumas antecipações
do livro Avarizia [trad.: Avareza] do jornalista Fittipaldi,
emerge que o apartamento do cardeal Bertone foi reformado com o dinheiro de uma
fundação destinada a recolher fundos para o Hospital
Bambin Gesù. São instantâneos que mostram uma Igreja opulenta, muito distante
do espírito franciscano.
Andrea Riccardi: Uma coisa é a Igreja
italiana, uma outra é o Vaticano. E a primeira, certamente, está melhor que a
segunda. Não conheço o caso do Bambin
Gesù, mas recordo que já Paulo VI tentou reorganizar a máquina econômica do
Vaticano, mas houve o caso Marcinkus, muito mais grave do que o Vatileaks. Não é mistério que no último pré-conclave [reunião
dos cardeais para se escolher o novo papa],
no centro da discussão estava a exigência de mexer na máquina econômica...
Permanece a sensação, amarga, de um
Vaticano como qualquer conselho regional. Com despesas loucas...
Andrea Riccardi: A
riqueza do Vaticano é um mito. Uma só diocese como a de Colônia, na
Alemanha, é mais rica que o Vaticano... Quanto aos cardeais, ganham cinco a
seis mil euros por mês. Isto é muito menos do que o estipêndio dos embaixadores
e prefeitos. Não me parece que se possa descrevê-los com nababescos...
O senhor acha que nos últimos
acontecimentos há um papel peculiar do Opus Dei?
Andrea Riccardi: Absolutamente, não. Citar
sempre o Opus Dei faz parte da criação de um cenário à la Dan Brown [escritor
norte-americano, autor do livro Código Da
Vinci], que sempre está prospectando uma crise de governo. Um cenário
alimentado por pessoas cansadas deste Pontificado, na Cúria e no mundo
católico. Acho que há processos diferentes dentro do mesmo laboratório, mas Bergoglio na sua vida passada demonstrou
que é capaz de colocá-los em ordem...
Traduzido do italiano por IHU On-Line. Acesse a versão original
deste entrevista, clicando aqui.
Fonte: Instituto Humanitas
Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 4 de novembro de 2015 – Internet: clique aqui.
Teologia e instituição:
Francisco e o
Vatileaks 2.0
Massimo Faggioli*
L'HuffingtonPost.it
04-11-2105
Papa Francisco se sente imbuído de dois mandatos:
o primeiro dado pelos cardeais que o elegeram –
reformar e limpar a Cúria Romana e
o segundo dado pelo “povo de Deus” de conduzir a Igreja
a um caminho mais evangélico e misericordioso, menos institucional.
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MASSIMO FAGGIOLI Doutor em História da Religião e professor de História do Cristianismo no Departamento de Teologia da University of St. Thomas, de Minnesota, Estados Unidos |
Que
a Cúria Romana é sinônimo de escândalos não é um fato novo. Em si mesma, a
Cúria Romana é quase um gênero literário, mesmo antes de Lutero. O que é novo é a relação entre o papa e a
Cúria Romana – e isso não depende dos detalhes sobre esta ou aquela
revelação contida nos documentos furtados.
Há questões sobre as quais
Bergoglio age por mandato quase explícito do conclave que o elegeu:
- a reforma da Cúria Romana,
- a transformação do IOR,
- a limpeza daqueles que, na Igreja, em todos os níveis, manuseiam grandes quantidades de dinheiro.
Sobre
essas questões, o Papa Francisco não tem dificuldade de invocar e mencionar
explicitamente o consenso que emergiu entre os cardeais antes da sua eleição. O problema, até mesmo para alguns daqueles
que o elegeram, é a profundidade e a radicalidade com que Francisco está
interpretando esse mandato.
Bergoglio age e fala sem escrúpulos,
mas sobretudo governa a Igreja "etsi
Curia non daretur" [como se a Cúria não existisse],
com um substancial apoio externo que lhe vem da autoridade e popularidade
adquiridas nesses dois primeiros anos de pontificado.
Mas
há outras questões sobre as quais o Papa Francisco atua para além ou sem um
mandato explícito proveniente do conclave: viu-se isso no Sínodo, se verá isso
no Jubileu (um jubileu que se anuncia muito mais austero do que os anteriores).
Nesse
sentido, é evidente que o Papa Francisco
age por força de dois mandatos diferentes:
- o mandato do conclave: o de uma limpeza e uma reforma, mas sem exagerar ("Adelante, Pedro, con juicio", como dizia o chanceler Ferrer em Os noivos) e
- um mandato que impropriamente poderia ser chamado de "popular" (divorciados recasados, homossexualidade, desideologização da Igreja).
Os dois mandatos não
coincidem na mente de alguns eleitores do papa, e aqui estão,
provavelmente, as raízes dos tremores secundários dirigidos à pessoa do papa (a
carta dos cardeais no início do Sínodo, a falsa notícia sobre a sua saúde
etc.).
Do
ponto de vista da história da instituição da Cúria Romana, é muito interessante
ver como Francisco está procedendo para
separar não só a si mesmo de certos personagens, mas também para separar o
primado do papa da Cúria Romana – uma Cúria que, por um longo tempo, fez-se
escudo do primado do papa para fazer de tudo e até mais (inclusive
teologicamente e não só para estranhos manejos financeiros e políticos).
Francisco vê as duas
questões
- moralização da Igreja no uso dos recursos e nos estilos de vida dos seus pastores, e
- reorientação da Igreja em um sentido mais evangélico e menos institucional
como
intimamente ligadas entre si. É uma das coisas mais óbvias e, ao mesmo tempo,
mais difíceis.
É
um desafio do qual foram poupados (por muitos motivos: uma relação diferente
entre Igreja e política italiana e internacional, um sistema de informação
diferente, uma era anterior ao escândalo dos abusos sexuais etc.) os
pontificados até o Vaticano II (João XXIII e Paulo VI).
Os dois pontificados do
pós-Vaticano II (João Paulo II e Bento XVI), porém, geriram de modo separado a questão institucional (interna) e a moral (a
mensagem). Hoje, Francisco paga a conta por essa gestão, e isso joga uma
luz sobre a crise que o pontificado tem desencadeado em alguns católicos ultraortodoxos
(especialmente nos Estados Unidos, onde eu vivo e leciono).
Na
Igreja de Francisco, o problema teológico parece ser (para aqueles que são
contrários às reformas à luz da pastoralidade de Bergoglio) a relação entre
"doutrina" e "pastoral": são contrários porque veem a pastoralidade como enfraquecimento
da doutrina, como se a doutrina possa ser independente do cuidado das almas.
Mas,
para muitos escapa que há outra dimensão típica desse pontificado: com Francisco, estamos diante de uma nova
relação entre teologia e instituição. Como eu escrevi em um artigo (muito
longo), publicado em uma revista norte-americana no mês passado, ao longo dos últimos 50 anos, as mudanças
na teologia da Igreja tiveram muito pouco impacto na estrutura da instituição,
especialmente na Cúria Romana.
Francisco
foi eleito no momento de crise mais evidente que surgiu daquela insalubre
independência da instituição de uma sã teologia da Igreja. Foi isso que intuiu, ao renunciar, Bento XVI, preenchendo com essa
decisão um atraso de 50 anos de duração.
Com
todo o respeito por aqueles que acusam Bergoglio de ter trazido uma
"guerra civil" na Igreja, foi
Bento XVI e não o Papa Francisco que submeteram a Igreja a uma terapia de
choque (e os católicos nunca deixarão de ser gratos a ele por isso).
A
se julgar por tudo o que Francisco diz e faz hoje, é evidente que, para o
primeiro papa plenamente pós-conciliar como Bergoglio, esse problema de separação entre teologia e instituição é muito claro.
Uma reforma da Igreja em sentido
"conciliar" (do Concílio Vaticano II) também significa coisas muito
concretas e tangíveis, como, por exemplo, a gestão do dinheiro e da relação
entre Igreja e política.
Basta
ler o "Pacto das Catacumbas"
[clique aqui – o texto encontra-se ao final da matéria], que permeou a Igreja
latino-americana. Ele foi assinado por um grupo de bispos, nas catacumbas de
Domitila, no dia 16 de novembro de 1965, às margens do Concílio Vaticano II.
O
chamado "Vatileaks 2.0", a seu modo, é celebração e lembrança do
Pacto das Catacumbas e da Igreja que virá.
*
Massimo Faggioli, é historiador italiano, professor de
História do Cristianismo e diretor do Institute
for Catholicism and Citizenship, na University of St. Thomas, nos Estados
Unidos.
Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão
original deste artigo, clicando aqui.
Fonte: Instituto Humanitas
Unisinos – Notícias – Quinta-feira, 5 de novembro de 2015 – Internet: clique aqui.
“Francisco assusta muitos. Essas manobras tem
inspiradores até mesmo fora do Vaticano.”
Entrevista
com Francesco Coccopalmerio
Cardeal e presidente do Pontifício Conselho
para os Textos Legislativos
Orazio La
Rocca
Jornal “La Repubblica” – Roma (Itália)
04-11-2015
Para o cardeal "ministro da Justiça" da Santa
Sé, "querem fazer com que se veja que tudo vai mal para enfraquecer a
figura do Santo Padre".
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CARDEAL FRANCESCO COCCOPALMERIO Presidente do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos - Vaticano |
Cardeal Coccopalmerio, duas pessoas
presas no Vaticano, com a acusação de terem roubado documentos confidenciais. O
que acontece do outro lado do Rio Tibre ? É só um roubo "banal" de
segredos de ofício ou é uma manobra para condicionar o Papa Francisco?
Cardeal Coccopalmerio: «Eu não saberia dizer, pois
não tenho elementos diretos para julgar. Mas certamente se trata de uma
história que faz mal, desagrada a todos, começando pelo Santo Padre. Mas uma
coisa é certa: o papa não vai se deixar condicionar por ninguém. Embora
episódios semelhantes levem a pensar e a se perguntar se essas duas pessoas
agiram sozinhas ou se foram manipuladas por alguém. É legítimo se perguntar,
neste momento, quem está por trás do que aconteceu. Até mesmo fora do
Vaticano.»
Fino
jurista, colaborador durante anos do cardeal Carlo Maria Martini em Milão, o cardeal Francesco Coccopalmerio é o
presidente do Pontifício Conselho para os
Textos Legislativos, quase uma espécie de "ministro" da Justiça
vaticana. Muito estimado pelo Papa Francisco, o purpurado, mesmo sem esconder
"dor e decepção com o que aconteceu", diz estar convencido de que "o processo de renovação, de limpeza e
de transparência iniciado pelo pontífice não vai sofrer desacelerações, porque
nenhuma manobra, embora dolorosa, poderá pará-lo".
Eis
a entrevista.
No entanto, as duas novas prisões,
mas também as falsas notícias sobre a saúde do papa, a revelação da carta de
"lamentações" escrita a Bergoglio por 13 cardeais durante o Sínodo ou
a admissão pública de ter um companheiro gay feita por um prelado do ex-Santo
Ofício, levam a pensar que Francisco deve se guardar seriamente do Palácio. O
senhor não acha?
Cardeal Coccopalmerio: É verdade, trata-se de acontecimentos
que levam a pensar. Mas eu não generalizaria. Ao contrário, o Santo Padre
talvez deva se guardar de alguns, mas certamente não do Palácio inteiro [de toda a Cúria Romana – aqueles que
trabalham no e para o Vaticano]. Isso certamente é verdade. Assim como é
verdade que é bom começar a ver quem está por trás de outros Palácios, que, de
fora do Vaticano, podem ter inspirado certas manobras, porque não há dúvida de
que o papa já está começando a assustar alguns. Há um submerso que não
conhecemos e sobre o qual é bom começar a prestar atenção. Uma encíclica como a
Laudato si', para além dos elogios,
certamente tocou os interesses de determinados ambientes. Muitos a aplaudiram, mas
a muitos ela incomodou bastante.
A Santa Sé falou de "confiança
do Papa traída". Não devemos nos esquecer que os dois presos não pertencem
à velha guarda, mas são pessoas chamadas por Francisco para preencher cargos
importantes. A suspeita, portanto, de que na própria Cúria alguém visa a
desestabilizar a figura do pontífice com manobras pouco limpas realmente tem
algum fundamento. O senhor não teme perigos desse tipo?
Cardeal Coccopalmerio: Eu não gostaria de falar
sobre tentativas de desestabilização em curso. Com Bento XVI também houve uma
história dolorosa de revelação de segredo pontifício. Repito, são casos que
fazem mal, até porque dão a impressão, especialmente para quem não conhece
diretamente os mecanismos da Santa Sé, de que tudo no Vaticano vai mal e que se
tenta enfraquecer a figura do pontífice. Diante desses episódios, o impacto
sobre a opinião pública pode ser muito negativo. É compreensível que as pessoas
possam se perguntar o que está acontecendo no Vaticano.
Mas como o Papa Francisco reagiu a
essas notícias? Se ele se sente cercado e traído, as suas reformas, talvez, poderiam
sofrer uma parada. O senhor não teme isso?
Cardeal Coccopalmerio: Certamente desagradou-lhe
tomar conhecimento do fato de que alguém roubou documentos confidenciais da
Santa Sé para sabe-se lá quais motivos. Mas, conhecendo-o bem, eu sei que ele
nunca vai parar. O papa tem coragem, não se deixa condicionar, é um Pai que ama
os seus filhos e se deixa amar, e as pessoas entenderam isso imediatamente. Mas
ele também é um governador no sentido mais completo do termo e, quando ele está
certo de que deve fazer um ato de governo pelo bem da Igreja, ele segue em
frente seguro. As dificuldades não o detêm, ao contrário, ele se torna ainda
mais forte. E não há nenhuma tentativa de desestabilização que possa
bloqueá-lo. É verdade, porém, que são os seus discursos e as suas intuições
pastorais, sempre alinhados com a tradição doutrinal da Igreja, que começam a
incidir, e talvez alguns tenham medo disso. Como se viu no Sínodo.
No Sínodo, porém, também houve
divisões e muitos contrastes.
Cardeal Coccopalmerio: O Sínodo foi um alto momento
de debate entre posições até mesmo diferentes, não com choques, mas com debates
construtivos. O Santo Padre, depois, sabiamente amalgamou as várias almas com
base na sua experiência pastoral. Basta lembrar o que ele disse no seu discurso
na conclusão dos trabalhos da última sessão sinodal sobre o conceito de
doutrina e pessoa. A doutrina tradicional, lembrou ele, está clara, todos a
conhecemos, não precisa ser repetida. Mas se você fizer da doutrina algo de
estático, como uma pedra a ser jogada contra alguém, isso pode fazer mal, não
está certo. A doutrina, ao contrário, deve calar nos sofrimentos cotidianos das
pessoas. Não deve ser estática, distante das pessoas, daqueles que vivem na
dificuldade e pedem para ser ajudados e apoiados à luz que vem do Evangelho.
Essa abertura foi vista por alguns dos Padres sinodais como um perigo de
"sujar" a "pureza" da doutrina. Mas não é assim.
Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão
original desta entrevista, clicando aqui.
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