REFORMAR A IGREJA, EIS A MISSÃO DE FRANCISCO
A cruz da reforma
Enzo Bianchi
Jornal “La Repubblica” – Roma (Itália)
07-11-2015
Quanto mais o Papa Francisco realizar a reforma da
Igreja, mais pesada será a cruz sobre as suas costas: ao lado do reconhecimento
e da gratidão dos cristãos que tentam viver o Evangelho e dos “justos” até
mesmo não cristãos, ao lado do reconhecimento dos pobres, aparecerá o desprezo,
a deslegitimação, a ofensa dos poderes mundanos, internos e externos ao mundo
eclesial.
Em
alguns momentos da história da Igreja, emerge a necessidade de reforma: "Ecclesia semper reformanda" [trad.:
a Igreja está sempre sendo reformada]
é um adágio retomado muitas vezes no segundo milênio e na Igreja latina, até
dar origem a Igrejas "reformadas" ou "da Reforma", suscitar
uma "Contrarreforma" e provocar divisões e separações de cristãos
dentro da mesma Igreja.
Reforma
da Igreja toda e de cada cristão que, no seu próprio caminho espiritual, deve
absolutamente "deformata reformare",
isto é, dar nova forma ao que se tornou
"disforme" em relação ao Evangelho. Mas essa exigência universal
de reforma é fundamental para aqueles que, na Igreja, têm a responsabilidade de
governo ou são figuras exemplares para todos os cristãos: papa, bispos,
presbíteros, monges...
Muitos
se lembram da reforma "gregoriana",
tentada pelo Papa Gregório VII, no
século XI, ou a reforma amarga e muito curta do papado, realizada na sua pessoa
pelo Papa Celestino V, no fim do
século XIII: [Ignazio] Silone [1900-1978, escritor e político
italiano], no seu "A aventura de um
pobre cristão", descreveu de modo literário o caso do eremita eleito
papa contra a sua vontade e, depois, induzido ou forçado a renunciar por ser
impotente diante das manobras da Cúria e das intrigas dos cardeais.
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PAPA CELESTINO V (final do século XIII) Buscou realizar reformas na cúpula da Igreja, mas foi levado a renunciar |
Mas
não podemos nos esquecer de outras tentativas de autoridade por parte daqueles
que, diante da corrupção desenfreada
e especialmente romana, pediam a reforma da Igreja "in capite et in membris" [trad.: na cabeça e nos membros], no papado e em todo o corpo eclesial.
Podemos
recordar, ao menos, outros dois papas: Adriano
VI, holandês eleito papa em 1522, logo encontrou muitas oposições, até
mesmo por parte da Cúria por causa da sua vida austera. Enquanto já se expandia
a reforma de Lutero, o Papa Adriano se mostrou decidido na luta contra os maus
costumes dos eclesiásticos, pediu uma limitação das despesas da corte, promoveu
uma vigilância sobre o uso do dinheiro e sobre a administração lucrativa das
indulgências, iniciou uma drástica redução dos escritórios curiais. Reconhecendo as razões do movimento
protestante, chamou a Igreja a uma reforma, defendida também por Erasmo, mas
fracassou na sua tentativa: morreu depois de um ano e alguns meses de
pontificado, com apenas 54 anos.
Permanecendo
nas reformas tentadas pela "cúpula", encontramos o Papa Marcelo II: como bispo e cardeal,
participou do Concílio de Trento, contestando àquela cúpula a qualificação de
"representar a Igreja universal", pois estavam ausentes tanto o
Oriente cristão quanto os reformados protestantes. Em 1555, foi eleito papa,
manteve o seu nome de batismo e rejeitou
qualquer pompa e fausto triunfais para a sua coroação como papa. Logo se
mostrou convencido da urgência da reforma da Igreja – começando pela Cúria – e
da vida de padres e monges, já
acostumados a abusos e comportamentos escandalosos, não concedeu favores aos
parentes e assumiu ele mesmo, com rigor, um estilo de vida evangélico, pobre e
humilde. Mas o seu pontificado durou menos de um mês...
Outras
tentativas foram feitas pelo Concílio de Trento, em particular através da obra
de alguns bispos e santos fundadores ou reformadores de ordens:
significativamente, os historiadores já não falam mais de "contrarreforma", mas sim de "reforma católica".
Mas
a necessidade de reforma emergiu novamente com força no século passado, como
testemunha o próprio título de uma obra
fundamental de um dos grandes teólogos do Vaticano II, o Pe. Yves Congar: "Verdadeira ou falsa reforma na Igreja".
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PADRE YVES CONGAR (1904-1995) Teólogo dominicano francês que atuou como assessor durante o Concílio Vaticano II. Em 1994, Papa João Paulo II elevou-o à dignidade de Cardeal. |
Assim,
o Papa João XXIII e o Concílio por ele desejado – continuado
e levado a cumprimento por Paulo VI
– realizam uma reforma tanto do estilo
do papado, quanto de toda a vida litúrgica e espiritual da Igreja, quanto ainda
do modo de ser dos cristãos na companhia dos homens.
Esse início de reforma, que recomeçou com Bento
XVI, hoje foi retomado fortemente pelo
Papa Francisco, que, a esse respeito, foi explícito desde o início do seu
pontificado, manifestando o desejo resoluto de uma Igreja pobre e
misericordiosa.
Esse
seu programa essencial requer reformas em diversos níveis:
- desde
a forma do exercício do papado
- até
a unidade visível das Igrejas cristãs,
- das estruturas da Cúria – que deve estar a
serviço do papa e ainda mais a serviço das Igrejas locais de todo o mundo –
- até
o estilo de vida de todos os eclesiásticos.
E
isso, simplesmente, em nome do Evangelho, do qual o Papa Francisco quer ser
servo e ministro.
Há
dois anos e meio, esse sucessor de Pedro,
que gosta de se definir como "bispo
de Roma, a Igreja que preside na caridade", mostrou que quer ser, em primeira pessoa, um realizador daquilo que
prega. Não é um rigorista, nem propõe uma interpretação literal do
Evangelho, não quer exercer um ministério de condenação, mas pede que os cristãos se reconheçam
pecadores, porque essa é a sua realidade, e não sejam corruptos, cínicos, duros de coração, insensíveis às
exigências do Evangelho e à contínua conversão que isso requer.
As
resistências que ele encontra fazem parte de uma "necessitas" [trad.: necessidade]
predita por Jesus aos seus discípulos e por ele sofrida: quando aparece o justo, então o ímpio se desencadeia; quando algumas
vidas cristãs conseguem fazer brilhar o Evangelho, então irrompem as trevas;
quando alguém anuncia o Evangelho e o vive, então lhe atiram pedras.
Quanto
mais o Papa Francisco realizar a reforma da Igreja, mais pesada será a cruz
sobre as suas costas: ao lado do reconhecimento e da gratidão dos cristãos que
tentam viver o Evangelho e dos "justos" até mesmo não cristãos, ao
lado do reconhecimento dos pobres, aparecerá o desprezo, a deslegitimação, a
ofensa dos poderes mundanos, internos e externos ao mundo eclesial.
O cardeal Coccopalmerio declarou: "Esse papa começa a dar medo!".
Medo
a quem?
Àqueles que
são surdos às exigências da justiça, àqueles que não querem escutar os pobres,
àqueles que gostam de se servir dos outros pelo seu poder, pela sua afirmação,
pelas suas riquezas...
As
supostas revelações desses dias, que não constituem uma grande novidade,
certamente ferem aqueles que acreditam na justiça e amam a Igreja: são
indicadoras do "mistério de iniquidade" em ato, como já denunciava
Bento XVI, até mesmo no espaço preparado justamente para a justiça e o serviço
dos irmãos e das irmãs.
Não
gastaremos nenhuma palavra para comentá-las: isso significaria alimentar ainda
mais fofocas e murmurações que o Papa Francisco denuncia constantemente como
atentado à verdade e à caridade.
Não
cedamos a calúnia fácil demais, não condenemos ninguém sem tê-lo escutado e
tenhamos uma visão realista até mesmo da Cúria, onde trabalham com dedicação,
competência, transparência e honestidade homens que buscam, também no exercício
do governo, viver o Evangelho e o leal serviço ao papa e a todas as Igrejas.
E
se é verdade que um "cristão não
pode falar de pobreza e viver como um faraó", como disse o Papa
Francisco, continua sendo verdade que falar de pobreza nos faz corar a todos, e
que a palavra pobreza queima os lábios de quem a pronuncia.
Se
Ignazio Silone escreveu "A aventura
de um pobre cristão" sobre o Papa Celestino V, poderíamos dizer sobre
o Papa Francisco: "A aventura de um
cristão pobre".
Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão
original deste artigo, clicando aqui.
Fonte: Instituto Humanitas
Unisinos – Notícias – Segunda-feira, 9 de novembro de 2015 – Internet: clique aqui.
O Papa: agora vamos mudar a questão
dos imóveis do Vaticano
Andrea
Tornielli
Vatican
Insider
06-11-2015
O Papa “não perdeu a paz”. Aqueles que o viram nestes
dias dizem que está sereno e determinado a prosseguir nas reformas. E o
primeiro passo será justamente a gestão do patrimônio imobiliário e dos
aluguéis. Francisco disse duas palavras secas e inequívocas a um interlocutor
que lhe perguntou sobre o escândalo das casas: “Haverá mudanças”.
O
Pontífice está profundamente amargurado com a traição e a infidelidade dos dois
investigados no segundo Vatileaks: o
padre espanhol Lucio Ángel Vallejo Balda
e a leiga Francesca Immacolata Chaouqui.
Mas não está preocupado com o conteúdo dos documentos que foram vazados, fruto
de uma profunda investigação interna que ele mesmo pediu a fim de reunir
elementos para as reformas. E entre as reformas que parece determinado a
introduzir imediatamente está a reforma
da administração do patrimônio imobiliário da Santa Sé, as casas e os
apartamentos, cuja gestão está a cargo da Apsa
e da Propaganda Fide.
“Francisco não perdeu a paz, nem nestes dias,
nem depois de ter aprovado a prisão dos dois membros da Cosea que cederam os
documentos que foram parar nos livros publicados nestes dias”, confiou à
imprensa uma das pessoas mais próximas ao Pontífice. E acrescentou: “O Santo Padre está amargurado com a
traição dos colaboradores infiéis, mas não está preocupado com o conteúdo dos
documentos divulgados”.
O
Papa Bergoglio encontra-se nestes dias em constante contato com os
colaboradores, que o atualizam sobre as investigações em andamento. Mas o
panorama que emerge ao se ler os livros dos jornalistas Emiliano Fittipaldi e Gianluigi
Nuzzi já era perfeitamente conhecido há tempo. “Uma investigação cuidadosa e profunda – recorda um monsenhor
próximo ao Papa – desejada pelo próprio
Vaticano”.
Considerando
o que aconteceu, Francisco “não acredita
na existência de nenhum complô”. Tratou-se, e o repete a quem se encontra
com ele nestas horas, de “uma traição e de uma infidelidade” por parte de duas
pessoas que obtiveram sua absoluta confiança. Uma delas, Francesca Chaouqui,
agora está procurando envolver meio mundo. Bergoglio não parece nenhum pouco
arrependido por ter nomeado a comissão de estudo e análise sobre os bens
vaticanos, assim como também não com o fato de ter criado a Secretaria da Economia, encomendada ao
cardeal George Pell.
Ele
recordou em várias ocasiões que nas primeiras semanas do Pontificado os 15
cardeais encarregados de avaliar a situação econômica da Santa Sé indicaram a
necessidade de envolver especialistas, fazer um monitoramento e chegar a um
dicastério unificado que se ocupará da racionalização dos gastos e da
administração dos recursos. “A Cosea [Comissão Relatora de Estudo e Orientação
sobre a Organização da Estrutura Econômico-Administrativa da Santa Sé] foi o primeiro instrumento para realizar
este trabalho inicial”.
Um
dos temas mais criticados que aparece nos livros de Fittipaldi e Nuzzi é a administração do Óbulo de São Pedro, a
ajuda econômica que os fiéis de todo o mundo “oferecem ao Santo Padre como
sinal de adesão à preocupação do Sucessor de Pedro com as múltiplas
necessidades da Igreja universal e com as obras de caridade a favor dos mais
necessitados”. Em 2012 (este é o
dado que ambos os livros publicaram), mais
da metade destas esmolas milionárias foi utilizada para equilibrar os balanços
da Santa Sé e para manter 180 missões diplomáticas vaticanas no mundo.
“Francisco sabe que é normal – explica um dos seus
colaboradores –, porque isso é um apoio
para o Papa e há momentos de crise econômica e financeira que exigem o emprego
de parte daqueles fundos para ajustar os balanços”. Isso já aconteceu no
passado, e com uma entidade muito maior: em 1995, o cardeal Edmund Szoka, então presidente do Governadorado, anunciou
que pela primeira vez depois de 23 anos, tinha havido um “surplus” e que o Óbulo de São Pedro não teria sido utilizado para
cobrir o déficit da Santa Sé. Ou seja, foi utilizado durante muito tempo.
Também
não surpreenderam a Francisco as notícias sobre as “resistências” que a Cosea
encontrou ao desempenhar seu trabalho. Para ilustrar a situação com um
exemplo, Francisco recorda muitas vezes que em um dicastério vaticano foi
encontrado uma notável soma de dinheiro em espécie dentro de um armário. Também
recorda o exemplo do funeral de um cardeal, que faleceu há muito tempo. A
empresa de serviços funerários que sempre trabalhou com o Vaticano pediu
honorários no valor de 9 mil euros. O cerimoniário pediu outros orçamentos e
outras empresas lhe enviaram propostas pela metade desta quantia; a antiga
funerária diminuiu imediatamente o custo. “Agora,
graças ao trabalho da reforma que se fez, é necessário pedir três orçamentos”.
O Papa Bergoglio sabe que está
a meio caminho. Conhece as resistências que seguem existindo e as dificuldades
que encontrou a Secretaria da Economia. Também está por dentro da situação dos imóveis que
pertencem ao Vaticano ou a organismos e fundações vinculados à Santa Sé. “O
Papa me disse recentemente – revelou seu colaborador: ‘Há riquezas do Vaticano
que são riquezas da humanidade, e nós apenas cuidamos delas’. E depois há
também muitos imóveis. Com o aluguel, mantém-se o funcionamento da cúria romana
e também o trabalho das missões, muitas obras sociais, hospitais e escolas”.
Mas a gestão destes imóveis e destes
aluguéis é um dos próximos passos da reforma: “Haverá mudanças”, garante
Francisco.
Traduzido do italiano por André Langer. Acesse a versão original
deste artigo, clicando aqui.
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