ENTENDA O TERROR: Por que Paris? O que é o Estado Islâmico?
O que se sabe sobre os ataques na França
Série de atentados terroristas realizados pelo Estado
Islâmico
deixou ao menos 129 mortos
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TORRE EIFFEL O mais importante e famoso símbolo de Paris iluminado com as cores francesas para homenagear as vítimas dos atentados terroristas. Foto: Benoit Tessier - REUTERS |
Na
sexta-feira 13, Paris voltou a ser alvo de um ataque terroristas com múltiplos
atentados ocorridos em seis locais. Ao menos 129 pessoas morreram.
Autoridades
europeias investigam o caso e buscam suspeitos de realizarem o ataque ou terem
conexão com os terroristas. O que já se sabe sobre o caso:
1.
Autoria
O Estado Islâmico divulgou um vídeo
reivindicando a autoria dos atentados na França
2.
Balanço
Segundo procurador-geral francês, 129
pessoas morreram e 352 ficaram feridas, sendo 99 em estado grave
3.
Locais atacados
La Belle Equipe, Boulevard Voltaire, Casa
de shows Bataclan, Pizzaria La Casa Nostra, Le Carillon e Le Petit Cambodge,
Stade de France
4.
Terroristas
Ismael Omar Mostefai: francês, 29 anos, se
explodiu em Bataclan. Bilau Hadif: estava com 2 homens-bomba no estádio.
Ibrahim Salah: se explodiu no Boukevard Voltaire. Ahmad Al Mohammad: francês,
28 anos, atacou o estádio. Samy Aminour: atacou o Bataclan
5.
Foragido
França confirmou que busca pelo 8.º
suspeito de ter participado dos ataques e lançou uma ordem de busca e detenção
contra Abdeslam Salah, de 26 anos, nascido em Bruxelas. Ele teria dois irmãos envolvidos
nos ataques também: um preso na Bélgica e um morto
6.
Prisões
Sete pessoas foram presas na Bélgica desde
sábado em conexão com os atentados. Na França, em 48 horas, 168 operações de
busca e apreensão acabaram com 23 presos, 104 em prisão domiciliar e 31 armas
apreendidas
7.
Mentor
Bélgica e França identificam o suspeito de
ser o cérebro dos ataques em Paris: Abdelhamid
Abaaoud, 28 anos e nascido em Molenbeek, periferia de Bruxelas. Com origens
marroquinas, o jovem era considerado o maior recrutador de europeus para lutar
na Síria
8.
Veículos
Seat Leon de cor preta: teria sido usado em
2 atentados, na Rue La Fontaine-au-Roi, onde fica a pizzaria, e na Rue de
Charonne, onde fica o Le Belle Equipe. Volkswagen Polo preto: encontrado perto
da casa de shows Bataclan, usado para levar terroristas
9.
Resposta
No domingo 15 de novembro, a França
realizou diversos ataques com 10 aviões militares contra posições do EI na
Síria
10.
Vítimas
Das 129 pessoas mortas nos ataques, 103 já
foram identificadas. Uma lista oficial com os nomes ainda deve ser divulgada
11.
Alerta
O primeiro-ministro francês, Manuel Valls,
diz que novos ataques contra a França e outros países europeus podem ocorrer
Fonte: ESTADÃO.COM.BR –
Internacional
– 15 de novembro de 2015 – 10h31 – Internet: clique aqui.
PARA ENTENDER O
TERROR!
Estado Islâmico nasceu em 1999 e cresceu
com guerras no Iraque e Síria
DIOGO BERCITO
O
pai do Estado Islâmico foi o jordaniano Abu Musab al-Zarqawi, um radical como
diversos em sua geração, cuja formação se deu no Afeganistão durante o conflito
com a antiga União Soviética.
Em
1999, Zarqawi fundou o Al-Tawhid wa al-Jihad (Monoteísmo e Jihad, em árabe).
Em
menos de duas décadas, a organização iria se tornar globalmente conhecida como
Estado Islâmico, com um histórico de crucificar crianças, escravizar mulheres e
decapitar inocentes.
No período, estendeu seu
território no oeste da Síria e no norte do Iraque para algo entre 90 mil km²
(uma Jordânia) e 250 mil km² (Reino Unido), conforme a estimativa.
As ações terroristas de
Zarqawi foram marcadas pela sua interpretação restrita do que é o islã. Ao
contrário de outros líderes fundamentalistas, ele levou ao extremo a ideia de
"takfir" –declarar um muçulmano apóstata e, assim, justificar sua
morte.
O Iraque, após a invasão
americana de 2003, era terreno fértil para a ideologia do Al-Tawhid wa
al-Jihad. Ali, a organização passou a se chamar Al Qaeda no Iraque.
Zarqawi aproveitou-se das
rivalidades locais para estimular a violência sectária entre sunitas e xiitas.
No caos, pensava, triunfaria.
Organizações como a Al Qaeda
insistiam em que a criação de um Estado islâmico era um objetivo futuro, quase
idealizado. Zarqawi, por outro lado, acreditava que poderia estabelecê-lo a
partir da desordem política.
Não à toa a revista oficial
do Estado Islâmico hoje cita Zarqawi em todas as suas edições, nas primeiras
páginas: "A fagulha foi acendida aqui no Iraque e seu calor vai continuar
a intensificar-se, se Deus assim permitir".
Zarqawi foi morto em 2006 por
duas bombas lançadas por um avião americano, cada uma pesando 230 quilos. Sua
liderança foi herdada por Abu Ayyub al-Masri e Abu Omar al-Baghdadi, por sua
vez mortos em 2010.
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ABU BAKR AL-BAGHDADI Atual líder supremo do Estado Islâmico, autodeclarado "califa" |
A organização terrorista
passou a ser controlada por Abu Bakr al-Baghdadi, uma misteriosa figura com uma
biografia ainda carcomida por lacunas. De formação religiosa e passagem pela
prisão durante a presença americana, Baghdadi espalhou sua sombra pela região.
Mais uma vez, o caos. A
guerra civil na Síria, respingada no vizinho Iraque, lançou a região em novos
conflitos sectários a partir de 2011.
Dois anos depois, a
organização terrorista trocaria seu nome para Estado Islâmico no Iraque e no
Levante.
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Samir Abd Muhammad al-Khlifawi (morto em janeiro de 2014), mais conhecido pelo nome de guerra Haji Bakr |
SADDAM
Uma das figuras centrais
nesse processo foi Haji Bakr. Antes membro da Inteligência de Saddam Hussein,
Bakr estruturou as forças do Estado Islâmico, incluindo ex-militares iraquianos
entre os líderes. Ele morreu em janeiro de 2014, no norte da Síria.
Fortalecidos, militantes
infiltraram-se em cidades sírias e iraquianas, aproveitaram-se das vistas
grossas dos governos regionais e, em junho de 2014, moveram as peças no
tabuleiro: conquistaram a cidade de Mossul, no Iraque.
Ali, em 29 de junho, Baghdadi
declarou seu califado.
A organização passou a ser
chamada Estado Islâmico, agora com pretensão global. Em vestes negras, Baghdadi
discursou na Grande Mesquita de al-Nuri. Declarou-se califa de todos os
muçulmanos.
Ao dizer-se representante do
islã e definir todos os outros governos regionais como apóstatas, o Estado
Islâmico tornou-se inimigo de potências como a Arábia Saudita.
Apesar dos bombardeios
constantes de forças ocidentais, a organização terrorista mantém o controle
territorial.
Financiada por meios que
incluem o tráfico de petróleo e a venda de reféns, o Estado Islâmico reúne uma
multidão de militantes –cuja estimativa ainda varia enormemente.
Um relatório recente afirma
que 30 mil milicianos estrangeiros viajaram à Síria e ao Iraque desde 2011.
Alguns deles, descontentes com a exclusão social. Outros, seduzidos pela
aventura. Muitos, como o belga Brian de Mulder, filho de uma brasileira, foram
convencidos pelo projeto de califado baseado na religião.
Em cidades como Raqqa e
Mossul, esses guerreiros vivem a partir de regras restritas que proíbem fumo,
mistura entre os sexos e música.
Mas, apesar da ideia corrente
de que o Estado Islâmico tenha devolvido a região à Idade Média, seu território
é governado por um emaranhado de instituições públicas apropriadas por
terroristas a partir das estruturas modernas que existiam ali.
Assim, numa imitação
perversa, moedas foram cunhadas, passaportes foram impressos, multas de
trânsito foram emitidas e currículos escolares foram modificados.
UTOPIA
O califado islâmico que esses
militantes querem estabelecer no Oriente Médio é uma construção idealizada do
modelo político surgido no século 7 no que é hoje a Arábia Saudita. O
"califa", como explica o próprio termo em árabe, era o
"sucessor" do profeta Maomé, que havia unificado a região em torno da
religião islâmica.
Invasões e crises dinásticas
levaram à constante reformulação de como se poderia administrar uma comunidade
de muçulmanos. O califado do século 7 transformou-se, progressivamente, em uma
utopia, o espelho de dias de esplendor e justiça.
Diversos pensadores voltaram
a essa ideia durante a história. Mas, com o esfarelamento do Império Otomano,
no início do século 20, o califado foi oficialmente abolido. E, apesar de
Baghdadi, segue extinto para as principais lideranças islâmicas e quase
totalidade dos muçulmanos.
Não, porém, para o Estado
Islâmico – organização terrorista cujo obituário, diante dos fatos recentes,
ainda não pode ser escrito.
Estado Islâmico
A
bandeira segue a tradição da cor preta associada aos primeiros anos do islã.
Suas palavras dizem “Não há um deus a não ser Deus, e Maomé é seu mensageiro”
O QUE É O ESTADO ISLÂMICO
É uma organização
terrorista que declarou, em 29 de junho de 2014, um califado em um território
entre a Síria e o Iraque
QUAL É O OBJETIVO
A meta do Estado
Islâmico é estabelecer um califado — Estado regido pela lei do islã, a sharia–,
e governar todos os muçulmanos
O LÍDER
Abu Bakr al-Baghdadi.
Nascido de família salafista (vertente estrita do islã). Juntou-se à Al
Qaeda no Iraque em 2003
DE ONDE VEM O DINHEIRO
O EI controla poços e
refinarias de petróleo, lucrando com o seu contrabando. Também cobra impostos e
obtém dinheiro de resgates
Principais opositores
Estados Unidos,
Rússia e França
Têm realizado ataques aéreos em posições do Estado islâmico
Exército iraquiano
Disputa o domínio do país com o Estado Islâmico
Têm realizado ataques aéreos em posições do Estado islâmico
Exército iraquiano
Disputa o domínio do país com o Estado Islâmico
Peshmergas
(forças curdas)
Defendem cidades curdas dos avanços do EI no Iraque
Exército sírio
Envolvido na guerra civil tem no EI seu mais forte adversário
Defendem cidades curdas dos avanços do EI no Iraque
Exército sírio
Envolvido na guerra civil tem no EI seu mais forte adversário
Cronologia
- 1999
O jordaniano Abu Musab al-Zarqawi, radical envolvido no conflito entre Afeganistão e URSS, funda o Al-Tawhid wa al-Jihad (Monoteísmo e Jihad, em árabe)
- 20 de março 2003
Coalizão liderada pelos EUA invade o Iraque para impedir suposto programa nuclear do regime de Saddam Hussein. Guerra durou até 2011, quando governo americano iniciou retirada das tropa
- 2004
Zarqawi prega lealdade a Bin Laden e a organização passa a se chamar Al Qaeda no Iraque (AQI)
- 2006
Zarqawi é morto por ataques americanos e Abu Ayyub al-Masri e Abu Omar al-Baghdadi assumem a liderança do grupo, que passa a se chamar Estado Islâmico no Iraque (ISI)
- 2010
Com a morte dos dois líderes, a organização passa a ser conduzida por Abu Bakr al-Baghdadi, que havia sido mantido preso pelos EUA entre 2005 e 2009
- Março de 2011
Começa a guerra civil na Síria, que opõe forças do ditador Bashar al-Assad, grupos rebeldes, curdos e radicais islamitas
- Abril de 2013
Baghdadi anuncia a fusão entre seus forças no Iraque e na Síria e a criação do Estado Islâmico no Iraque e no Levante (Isis na sigla em inglês)
- Junho de 2014
Conquista a cidade de Mossul, no Iraque. No dia 29, Baghdadi declara a criação de seu califado
Fonte: Folha de S. Paulo – Mundo – Paris sob ataque – 16/11/2015 – 02h00 – Internet: clique aqui.
Estado Islâmico surgiu da invasão do Iraque
pelos EUA, diz autor americano
Entrevista com Todd Green
Claudia
Trevisan
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TODD GREEN Professor de religião do Luther College (Iowa - EUA) |
O
que está na origem do surgimento do Estado Islâmico (EI) não é a religião
muçulmana, mas questões políticas relacionadas ao histórico ocidental
colonialista, ao apoio dos EUA a regimes autocráticos no Oriente Médio e à
invasão americana do Iraque, avalia o professor de religião Todd Green, que acaba de lançar o livro
The Fear of Islam: An Introduction to
Islamophobia in the West (O Medo do Islã: Uma Introdução à Islamofobia no
Ocidente).
“Não
podemos contar a história do ISIS separada da política externa dos Estados
Unidos”, disse ao Estado, usando uma das siglas pelas quais o grupo é
conhecido. Segundo ele, a gênese do EI está na invasão do Iraque pelos Estados
Unidos, que abriu caminho para o surgimento da Al Qaeda no Iraque, a
organização precursora do grupo que hoje controle parte dos territórios daquele
país e da Síria.
Professor de religião do
Luther College, em Iowa,
Green é crítico da ativista Ayaan Hirsi Ali, que nasceu na Somália, foi
submetida à mutilação genital e hoje vive nos Estados Unidos. “Ela ignora a
história de violência ocidental, incluindo o colonialismo”, afirma. “Ela coloca
toda a culpa nos muçulmanos e no islã e há muitos no Ocidente que a adoram por
isso.”
A
seguir, trechos da entrevista:
O sr. escreveu um
artigo no qual disse que perguntar se o Estado Islâmico é islâmico ou não é uma
questão equivocada. Por quê?
Todd Green: É
uma pergunta simplista e a resposta não é tão relevante como se supõe. O grupo
muitas vezes invoca ensinamentos do islã para tentar justificar o que está
fazendo. Mas isso não nos diz nada sobre o que realmente motiva o ISIS (outra
sigla pela qual o grupo é conhecido).
A
presunção por trás da pergunta é a de que se nós entendermos o aspecto
religioso, nós entenderemos o que motiva o ISIS e poderemos derrotá-lo. Nós
temos o mesmo pressuposto em relação à Al Qaeda.
A
maneira mais fácil de complicar essa questão é perguntar como o islã pode
produzir o ISIS e, ao mesmo tempo, Malala Yousafzai, a mais recente vencedora
do Prêmio Nobel da Paz? Ambos se baseiam no islã como fontes de inspiração. O
que o foco no islã realmente nos diz sobre o que move um grupo como ISIS? Há
muitas forças mais complicadas, sociais, econômicas e políticas. São as
condições políticas que levam à emergência do ISIS.
A
pergunta também é problemática porque desvia nossa atenção de uma questão mais
perturbadora: qual o papel da política externa dos Estados Unidos em criar as
condições que levam ao surgimento do ISIS. Não haveria ISIS se não fosse pela
invasão e ocupação do Iraque pelos EUA, que abriu a porta para a Al Qaeda no
Iraque, o grupo precursor do ISIS. Não podemos contar a história do ISIS
separada da política externa dos Estados Unidos.
A principal força é
política?
Todd Green: Sim.
E o mesmo ocorre com a Al Qaeda. Quando você lê e estuda os textos de Osama
bin-Laden, vê que ele se refere com frequência à Palestina, às tropas
americanas, à Arábia Saudita, a intervenções militares americanas, à história
do colonialismo americano. Isso não torna o que ele faz correto, da mesma
maneira que não justifica os atos do ISIS. Mas se nós queremos explicar como
esses grupos emergem, nós precisamos ser honestos em relação às circunstâncias
políticas que dão origem a eles.
Uma
das histórias interessantes em relação ao ISIS envolve o jornalista francês
Didier François, mantido em poder do grupo por cerca de dez meses e libertado há
um ano. Quando ele fala de sua experiência, ele diz que quase todas as suas
conversas com membros do ISIS eram políticas, não eram religiosas.
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DIDIER FRANÇOIS Jornalista francês que foi sequestrado pelo Estado Islâmico e, depois de passar dez meses refém, foi libertado em abril de 2014 |
Se é uma questão
política, qual a melhor maneira de enfrentá-la?
Todd Green: Se
vemos como um problema político, nós focamos em soluções políticas. Mas se
vemos como um problema do islã, a resposta é a de que essa é uma questão que os
próprios muçulmanos devem resolver. Os Estados Unidos tendem a ignorar essas
realidades políticas. Se você lê o relatório da Comissão do 11 de Setembro, a
conclusão final sobre por que ele ocorreu está relacionada ao islã, a um
problema interno do mundo islâmico. Não há nenhuma reflexão naquele documento
sobre o papel desempenhado pelos Estados Unidos, incluindo nosso apoio a
regimes autocráticos e terríveis, que é amplamente conhecido no Oriente Médio.
E o conflito
Israel-Palestina?
Todd Green: Até
que haja uma boa solução para esse conflito sempre haverá tensões. Mas não vejo
vontade política suficientes nos Estados Unidos para fazer o que é necessário
para resolvê-lo. O apoio a Israel ainda é pouco questionado na elite política.
Qual é sua resposta
para Ayaan Hirsi Ali (que nasceu na Somália e hoje vive nos EUA), para quem a
violência do Estado Islâmico e de outros grupos extremistas tem raízes no islã
e há uma necessidade de reformá-lo?
Todd Green: No
meu livro eu falo bastante de Ayaan Hirsi Ali. Ela é uma ex-muçulmana que usa
seu status de iniciada para criticar o islã. Sua audiência não são os
muçulmanos. Sua audiência é o Ocidente. Mas quando examinamos seus argumentos,
eles se desmontam rapidamente. Em primeiro lugar, houve vários movimentos de
reforma do islã, principalmente a partir do século 19. Em segundo lugar, a
ideia de que a violência é conectada de maneira orgânica ao islã pressupõe que
1,6 bilhão de pessoas no mundo interpretam os textos e tradições do islã da
mesma maneira, o que não é verdade. Na última década, três vencedores do Prêmio
Nobel da Paz eram muçulmanos. O Corão tem passagens que encorajam atos de
violência ou guerra justificada, mas encontramos isso na Bíblia também.
Minha
maior crítica em relação a Hirsi Ali é que ela ignora a história de violência
ocidental, incluindo o colonialismo. Ela ignora a predominância do racismo na
história do Ocidente. Ela coloca toda a culpa nos muçulmanos e no islã e há
muitos no Ocidente que a adoram por isso.
Eu
trato da questão da violência do islã no meu livro, mas também abordo a questão
da violência ocidental. A percepção de muitos políticos e de pessoas como Ayaan
Hirsi Ali é a de que o islã equivale à violência e o Ocidente, à paz. O
Ocidente tem uma história de escravidão, de exploração de populações nativas e
algumas tentativas de genocídio. Nós torturamos, e não apenas na guerra ao
terror. Isso é violência e é parte da percepção que as pessoas têm dos Estados
Unidos em outras regiões. Mas nós não falamos disso. Nós falamos do islã e a
violência.
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AYAAN HIRSI ALI Escritora que nasceu na Somália (África), ex-muçulmana que escreve sobre o Islã. Ayaan vive, atualmente, nos Estados Unidos. |
E qual é a solução?
Todd Green: É
necessário ter uma significativa reavaliação da política externa no Ocidente,
em especial nos Estados Unidos. Nós temos um histórico muito ruim quando se
trata de apoiar democracias no Oriente Médio. Nós favorecemos muitos regimes
autocráticos em razão da estabilidade que eles nos oferecem.
Em
casa, nós temos que construir mais relações entre muçulmanos e não-muçulmanos.
Nos Estados Unidos quase dois terços da população diz que não ter uma relação
pessoal com alguém que é muçulmano. Quando você não conhece um muçulmano, é
fácil permitir que toda a sorte de desinformação preencha esse vácuo. Mas
quando tem amigos, vizinhos e colegas de trabalho que são muçulmanos é mais
fácil contextualizar a situação diante do ISIS [Estado Islâmico]. Outra questão é a educação. Nós
não sabemos o suficiente sobre o islã.
O fracasso da
Primavera Árabe acaba justificando essa visão mais realista e pragmática da
política externa americana, não?
Todd Green: Certamente
há muita desilusão com a Primavera Árabe. Mas seu fracasso não decorre do fato
de a maioria da população não querer a democracia, mas sim do enraizamento
desses regimes autocráticos no Oriente Médio e da ambivalência do Ocidente em
relação a quem apoiar na região. No começo da Primavera Árabe no Egito, a
administração Obama estava fortemente ao lado de (Hosni) Mubarak, que era um
clássico ditador, com um histórico horrível na área de direitos humanos.
Hillary Clinton o chamava de amigo da família. Só dias antes de ele deixar o
poder é que os Estados Unidos começaram a adotar um tom diferente.
Quando
olhamos para pesquisas Gallup, nós vemos que há uma grande parcela da população
no Oriente Médio que quer democracia. Isso para mim é promissor. Mas regimes
autocráticos enraizados não desaparecem facilmente.
Como o sr. define
islamofobia?
Todd Green: Minha
definição básica é o medo, hostilidade e ódio em relação aos muçulmanos e ao
islamismo e as práticas discriminatórias e excludentes que decorrem disso. É um
sentimento enraizado na mentalidade de muitos governos e nações ocidentais,
onde essas ansiedades são proeminentes em amplos segmentos da população. Há uma
longa história, que remonta à Idade Média e obviamente vem até o Século 21. Não
é um medo novo, ainda que algumas das forças que o movam hoje sejam um pouco
distintas do que eram 500 ou 600 anos atrás.
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Livro de Todd H. Green - tradução do título: "O medo do islã: uma introdução à islamofobia no Ocidente" |
E quais são essa
forças?
Todd Green: Eu
atribuo a atual islamofobia a três forças. A primeira é política. Há uma longa
história de imperialismo ocidental que constrói os muçulmanos como o inimigo.
Em parte pela percepção de que muçulmanos ficam no caminho de ambições imperialistas,
seja no choque com o Império Otomano no século 16, no colonialismo europeu do
início do Século 20 ou no imperialismo americano do século 21. Os muçulmanos
são percebidos como um grande obstáculo e frequentemente são desumanizados.
As
outras duas causas são a falta de conhecimento que muitos ocidentais têm em
relação ao islã. Muito poucas pessoas nos Estados Unidos ou na Europa realmente
sabem alguma coisa sobre tradições e história islâmicas. A maioria do que
pensamos que sabemos vem principalmente da mídia, que tende a associar o islã à
violência e ao terrorismo.
Ou
vêm de pessoas dedicas a produzir medo, como Pamela Geller. É o que chamo no
meu livro [foto ao lado] de indústria da islamofobia. Isso cria um vácuo de ignorância que faz
com que seja mais difícil ver os muçulmanos como humanos, como pessoas que
compartilham muitos dos valores, esperanças e medos que nós temos.
Qual o papel de Pamela
Geller nessa indústria?
Todd Green: Às
vezes me refiro a isso como islamofobia profissional. Quase sempre são
ativistas ou blogueiros de direita, às vezes políticos na Europa e nos Estados
Unidos, que ganham a vida demonizando e desumanizando muçulmanos. Nós não
saberíamos quem eles são além de sua devoção a esse empreendimento. Não é um
grupo de pessoas que ocasionalmente critica o islã. São pessoas que se
beneficiam financeira e politicamente do esforço de demonizar muçulmanos.
O atentado contra a
revista Charlie Hebdo na França e a tentativa de atacar o concurso de
caricaturas de Maomé no Texas facilita a vida dos que promovem a islamofobia,
não?
Todd Green: É
difícil não concluir que isso impulsiona a carreira de alguém como Pamela
Geller. Eu acredito que ela explora esse tipo de tragédias. O concurso de
caricaturas de Maomé no Texas era uma resposta ao tiroteio contra a Charlie
Hebdo em Paris. De muitas maneiras, o evento era uma exploração da grande
tragédia que ocorreu.
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PAMELA GELLER Ativista política norte-americana e comentarista |
Como o sr. compara os
dois episódios? Geller apresentou o seu evento como uma defesa da liberdade de
expressão.
Todd Green: Eu
não acredito que nenhum dos eventos deve ser tratado como uma questão de
liberdade de expressão. Certamente não acredito que esse é o tipo de discussão
que deveríamos ter em relação ao evento de Geller. Não era sobre liberdade de
expressão. Geller gostaria que falássemos de que isso é um conflito entre a
proibição da liberdade de expressão do islã. Mas não é sobre isso. É sobre ódio
e é sobre isso que deveríamos falar em relação a Geller.
No
caso do Charlie Hebdo é um pouco mais complicado porque a revista se dedica à
sátira e ela não é dirigida apenas contra muçulmanos. Tenho uma série de
críticas em relação à Charlie Hebdo e tenho uma divergência fundamental quanto
à definição do que é sátira. E não penso que tudo o que eles fazem é sátira.
Mas eles não criticam apenas muçulmanos, enquanto Geller só ataca muçulmanos.
Se o que Charlie Hebdo
faz não é sátira, o que é?
Todd Green: É
humor ruim. Não sei nem se humor é a palavra correta. Certamente é comentário
político, mas na minha definição, sátira tem por alvo pessoas em posição de poder
ou privilégio. E os muçulmanos na França e no restante da Europa não estão em
posição de poder e privilégio. Eles integram comunidades marginalizadas, não
têm muitos líderes proeminentes e tendem a não ter voz. Focar uma comunidade
que já é marginalizada fica fora do propósito da sátira política. Sátira é
realmente sátira quando atinge aqueles que estão em posição de poder e
privilégio.
Fonte: ESTADÃO.COM.BR
– Blogs – Claudia Trevisan – 16 de maio de 2015 – 11h48 – Internet: clique aqui.
Resolvido
o problema sírio, resolve-se o terrorismo?
Clóvis Rossi
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Na cidade de Al Bab, no nordeste da província setentrional síria de Alepo, um prisioneiro recapturado pelo Estado Islâmico é crucificado e torturado! |
John Kerry, o secretário
norte-americano de Estado, diz, com segurança e com razão: é impossível
resolver o problema representado pelo Estado Islâmico sem antes resolver a
questão síria.
Concordo, Kerry, mas há uma
pergunta inevitável: resolvido o problema sírio, resolve-se realmente o
problema do terrorismo?
Mikhail Bogdanov,
vice-ministro russo das Relações Exteriores, parece achar que sim. Disse à
Folha de S. Paulo que o problema sírio é de governança e, uma vez estabelecida esta, nos
termos negociados em Viena no sábado, 14 de novembro, ela estaria assegurada, acha
Bogdanov.
Em Viena, o que se acertou é
um processo de transição, após um indispensável cessar-fogo, seguido de
eleições dentro de 18 meses.
Aí a Síria teria um governo
legítimo, o que lhe daria condições de estabilizar-se. Enquanto isso, no
entanto, Bogdanov defende, como quase todo mundo, a continuação e/ou a
intensificação das operações militares contra o Estado Islâmico (ele jura que a
Rússia está operando contra os terroristas instalados na Síria, uma jura que
não tem total credibilidade no Ocidente; os EUA, por exemplo, acreditam que a
Rússia ataca todos os adversários do ditador Bashar al-Assad, terroristas ou
não).
Muito bem, digamos que os
caminhos Kerry e Bogdanov confluam e se inicie um processo de paz na Síria.
Combinaram com o Estado
Islâmico? Não. Derrotá-lo militarmente exigiria pôr tropas em terra, o que é
complicado, como admite Laurent Fabius, o chanceler francês: "Para uma intervenção
militar por terra, seriam necessárias várias dezenas de milhares de homens,
resultando, provavelmente, em pesadas perdas", disse ele em recente
entrevista ao "Parisien".
Sem tropas em terra, é pouco
provável que o Estado Islâmico permita a realização de uma eleição minimamente
normal em prazo tão curto.
Mesmo na hipótese de que o
grupo terrorista seja desalojado dos territórios que ocupa na Síria e no
Iraque, o problema do terrorismo não desapareceria.
Seria simplesmente deslocado
das decapitações no Oriente Médio para, por exemplo, explosões na França. Como
informa o "Financial Times" deste fim de semana, a França calcula que
existam 571 cidadãos do país lutando por organizações terroristas, o que inclui
246 que já retornaram ao seu país.
Como os atentados da
sexta-feira envolveram, ao que tudo indica, apenas oito terroristas, há 30
vezes mais "soldados" já disponíveis em solo francês.
Na verdade, são muitos mais,
sempre segundo o "Financial Times": cidadãos franceses envolvidos em células
terroristas (adormecidas, mas facilmente mobilizáveis) são cerca de 2.000, e há
outros 3.800 que mostram sinais de radicalização islamista.
Em outros países europeus e
mesmo nos Estados Unidos, há um "exército de reserva" em condições de
atacar a qualquer momento e que terá sangue nos olhos se o Estado Islâmico for
expulso do seu autodenominado califado.
Entende-se, nesse cenário
sombrio, por que os líderes do G20, que são as grandes potências mundiais, não
estão conseguindo ir além de declarações óbvias de condenação à barbárie.
Fonte: Folha de S. Paulo – Colunistas –
16/11/2015 – 02h00 – Internet: clique aqui.
Por
que a França?
Gilles Lapouge
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Socorro a uma das vítimas feridas em ataques terroristas em Paris Sexta-feira, 13 de novembro de 2015 |
Todos os jornais franceses
apareceram ontem com suas primeiras páginas em cor negra sobre a qual se
destacavam, em enormes caracteres brancos, um título curto, às vezes, uma única
palavra: "Horror!" ou "Carnificina". E também: "Terror
em Paris", "A guerra em plena Paris".
Depois, vieram os editoriais
e os artigos. E sempre a tentativa desesperada de encontrar adjetivos ou
substantivos adequados para relatar os fatos. Tudo convém: infâmia, vergonha,
ignomínia etc. Mas as palavras são dramaticamente insuficientes, impotentes.
Essa profusão de termos e a
sua inutilidade constituem a primeira lição da noite de morte e luto. Para dar
uma noção do que ocorreu no Stade de France, nas ruas do bairro da Republique
ou no Bataclan, não há palavras. É o fim das palavras. Da linguagem. Como se a
linguagem humana fosse incapaz de retraçar fatos como esses. Como se os
dicionários mais completos só conseguissem traduzir o que se passou pelo vazio,
o silêncio.
Claro que não podemos evitar
lembrar de outra tragédia na França, em janeiro deste ano: o assassinato por
jihadistas de jornalistas do semanário Charlie Hebdo. E é verdade que um fato
se espelha no outro. Um como o outro, esses ataques foram cometidos pela mesma
besta imunda.
Contudo, a diferença é
grande. O massacre no Charlie Hebdo tinha um alvo claro e um motivo
reivindicado - castigar um jornal que havia publicado por diversas vezes
caricaturas ferozes sobre o profeta Maomé.
Na noite de sexta-feira, os
assassinos obedeceram um protocolo diferente: assassinar aleatoriamente. É a
guerra. Mas contra quem? Contra o ser humano.
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MAPA COM OS LOCAIS DOS ATAQUES TERRORISTAS EM PARIS Sexta-feira, 13 de novembro de 2015 |
Tudo isso ocorreu em Paris.
Ou seja, à identidade de seres humanos, as vítimas do Estado Islâmico, é
preciso acrescentar mais uma particularidade: elas vivem na França. Quer dizer
que os jihadistas do Estado Islâmico [EI] quiseram punir especialmente, entre os humanos, os
humanos ocidentais, e, entre os ocidentais, humanos franceses.
A França é detestada pelos
homens da morte - tanto quanto os EUA. As razões?
[1ª] A mais inteligível é o
envolvimento de Paris na coalizão contra o EI liderada pelos americanos. No
Iraque, e na Síria aviões Rafale e Mirage franceses bombardeiam posições do
grupo extremista.
[2ª] Mas a memória do ódio vai
longe. O EI não perdoa a França por ter assinado, em 1916, o acordo
Sykes-Picot, que desmantelou o Império Otomano e dividiu seus despojos entre a
França, que recebeu o Líbano, e a Inglaterra, que ficou com a Síria.
[3ª] Enfim, a
França cometeu outra vilania. Entre todos os Estados, é aquele que observa com
maior vigilância o secularismo - estatuto que autoriza e protege todas as
religiões sem privilegiar nenhuma delas.
[4ª] A noite infernal de
sexta-feira mostra que o perigo jihadista não vai cessar de crescer. O momento
é favorável aos assassinos. A França é um dos países que envia mais aprendizes
assassinos à Síria. Lá eles são recebidos, passam por uma lavagem cerebral, são
instruídos a matar.
A vida da França vai sofrer,
após essa noite abominável, uma violenta metamorfose. Um exemplo: em menos de
15 dias, Paris será centro do mundo, pois hospedará a COP-21, a grande
conferência sobre o clima. Uma centena de chefes de Estado, de Putin a Obama,
estarão presentes. Cerca de 40 mil pessoas durante 15 dias tentarão buscar
meios de enfrentar um outro flagelo enfrentado pelo homem, o aquecimento
global. Será que um dos cérebros do EI não vai achar que essa é uma
oportunidade para enviar alguns soldados do inferno?
Traduzido do francês por Terezinha Martino.
Fonte: ESTADÃO.COM.BR – Internacional –
15 de novembro de 2015 – 02h01 – Internet: clique aqui.
CONSEQUÊNCIAS DO TERROR
Para
ensaísta, guerra chegou à Europa e retornará “em breve” aos EUA
Sylvia Colombo
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DAVID RIEFF Escritor norte-americano |
Para o ensaísta
norte-americano David Rieff, "a guerra chegou à Europa e certamente
retornará aos Estados Unidos da América [EUA], num futuro não muito distante."
Filho da intelectual e
ativista Susan Sontag (1933-2004),
crítica da ação dos EUA durante o governo Bush e da reação ao 11 de Setembro,
Rieff é autor de ensaios sobre imigração, guerras contemporâneas e políticas
intervencionistas dos EUA.
Questionado sobre os ataques
em Paris, na última sexta-feira (13), Rieff afirmou à Folha de S. Paulo: "Se essa
situação de guerra na Europa persistir por mais uma década, acho difícil
acreditar que as democracias ocidentais poderão permanecer sendo democracias,
pelo menos no que diz respeito ao tema da segurança, mesmo com relação ao que
são nos dias de hoje".
Crítico da ação dos EUA no
Iraque em 2003 e autor de livros como "Democratic Dreams and Armed Intervention"
(sonhos democráticos e intervenção armada) e "Bosnia and the Failure of
the West" (Bósnia e o fracasso do Ocidente), Rieff considera que "é
precisamente a liberdade dos países desenvolvidos que os faz vulneráveis nos
dias de hoje aos assassinos e aos kamikazes modernos".
O ensaísta acredita que,
"num futuro como o que parece estar próximo, serão poucos os que
escolherão uma liberdade sob risco constante de vida em vez de uma segurança
confortável".
E complementa: "Temo que
nossas sociedades se transformem em sociedades mais ditatoriais. Não que se
transformem em ditaduras puras, mas sim em híbridos de elementos democráticos e
antidemocráticos –como já o são no que diz respeito à economia".
Fonte: Folha de S. Paulo – Mundo – Paris sob ataque –
16/11/2015 – 07h00 – Internet: clique aqui.
Oriente Médio sem cristãos
Adriana Carranca
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Igrejas cristãs vem sendo sistematicamente destruídas pelo Estado Islâmico nas regiões que conquistam, seja no Iraque como na Síria |
Soldados
do Curdistão iraquiano, conhecidos como peshmergas, declararam ontem vitória no
Monte Sinjar, ocupado em junho do ano passado pelos combatentes do Estado Islâmico [EI],
quando milhares de yazidis, minoria politeísta que vivia reclusa nas montanhas,
e cristãos assírios, que ocupavam suas planícies, foram massacrados pelos
islamitas. O monte fica na província o Nínive, parte do território no Norte do
Iraque que os curdos almejam como Estado independente. Eram terras antes
vigiadas pelas forças iraquianas, que fugiram rumo a Bagdá com o avanço do EI.
O vácuo foi ocupado pelos curdos, que vislumbraram a chance de expandir seu
território e ganhar mais autonomia.
No
último ano, os curdos se tornaram os principais aliados dos EUA na guerra
contra o EI. Com apoio de drones americanos, eles têm conseguido impedir o
avanço e recobrar território dos combatentes islâmicos.
Mas
há outro lado, mais obscuro, dessa história. Os curdos têm sido acusados por
organizações como a Human Rights Watch de impedir a volta de antigos moradores
aos territórios reconquistados, uma limpeza étnica que visa a um Estado
exclusivamente curdo.
As planícies onde fica o
Sinjar são terras historicamente ocupadas por cristãos assírios, convertidos
ainda no primeiro século. Eles viviam em cidades como Mossul desde sua fundação
- a cidade continua sob domínio do EI. Quando o EI avançou sobre Nínive, os
cristãos não puderam defender-se porque não lhes era permitido ter armas. Os
terroristas caçaram os moradores de casa em casa - em cada porta, marcavam com
spray a letra "n" de nasara (cristãos, em árabe). Nos meses
seguintes, relatos vindos dos vilarejos ocupados descreviam a crucificação de
homens que teriam se recusado a aceitar o Islã, mulheres escravizadas e usadas
para o sexo por serem "infiéis", crianças retiradas dos pais e
entregues a famílias muçulmanas, igrejas queimadas.
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Interior de uma igreja cristã que foi queimada e completamente destruída por milícias do Estado Islâmico na Síria |
Aterrorizados e sem refúgio
seguro, pelo menos dois terços dos 1,5 milhão de cristãos iraquianos deixaram o
país. O mesmo ocorre na vizinha Síria. Antes da guerra, os cristãos eram 10%
dos 22 milhões de sírios - ou pouco mais de dois milhões de pessoas. Hoje,
acredita-se que não ultrapassem 400 mil.
Entre eles, estão centenas de
assírios sequestrados pelo EI em Hassakah, em fevereiro. Em agosto, a milícia
curda Unidades de Proteção do Povo (conhecida como YPG) retomou a província.
Esta semana, líderes das
poucas igrejas que sobrevivem em Hasakah denunciaram o confisco de propriedades
de cristãos que deixaram a região. Em Qamishli, controlada pelo YPG e por
tropas leais a Assad, famílias curdas receberam notificação de que seus filhos
estavam proibidos de estudar em escolas cristãs. Crianças serão transferidas a
instituições curdas que adotaram o currículo aprovado pelo Partido da União
Democrática, braço político do YPG.
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MALOULA Única localidade na Síria aonde ainda se falava a língua de Jesus, o aramaico. Foi destruída pelo Estado Islâmico e muitíssimos cristãos fugiram! |
A comunidade cristã síria é
uma das mais antigas. Acredita-se que o apóstolo Paulo tenha se convertido a
caminho de Damasco. Maloula, a 50 quilômetros da capital, é a única vila onde
ainda se fala o aramaico de Jesus. A aldeia foi atacada por grupos ligados à
Al-Qaeda; igrejas e monastérios, destruídos. Em maio, forças de Assad
recuperaram o vilarejo, mas a maior parte da população fugira.
Embora minoria, os cristãos
sírios eram parte da elite. Eles cofundaram o Partido Baath, de Assad, no poder
desde 1963. Por décadas, a Síria abrigou cristãos perseguidos em outras partes
do Oriente Médio. Mas o aprofundamento do sectarismo tornou o país inseguro
demais. O Líbano, que tem 30% da população cristã passou a ser refúgio, mas
voltou a enfrentar atentados terroristas.
Milhares de cristãos têm
migrado para a Europa. Antes 14% da população do Oriente Médio, eles hoje não
passam de 4% segundo o Pew Research Center. Líderes das igrejas locais já falam
no fim do cristianismo na região.
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