AFINAL, O QUE É EDUCAR?
Mente aberta
Entrevista
com Fernando Savater
Filósofo espanhol, autor de 80 livros,
entre eles O valor de educar
Vitor Hugo
Brandalise
Numa semana de Enem e de acusações de doutrinação, o
filósofo espanhol Fernando Savater vai no
bê-á-bá.
“Educar é ensinar a conviver, é formar cidadãos e não
empregados, é despertar a vocação. É, enfim, fascinar sem hipnotizar.”
Cruzaram-se
por acaso essa semana, em São Paulo, os filósofos Simone de Beauvoir, francesa, ícone do feminismo, e Fernando Savater, espanhol, reconhecido
pensador da filosofia da educação, com livros traduzidos em 20 países. Savater
esteve no Brasil para o evento Fronteiras
do Pensamento, na quarta-feira. Beauvoir,
que morreu em 1986, esteve por aí, em rodas de conversa e redes sociais, estrela de questão da prova do Enem, o
que levou dois deputados reacionários a qualificarem o teste como “doutrinação”
feminista, e seus seguidores a chamarem a filósofa de “nazista” e “pedófila”.
Defensor de “educar para a
tolerância”,
Savater sorriu quando Beauvoir apareceu a ele, em forma de pergunta. Respondeu
assim: “Sempre que ouvi falar de doutrinação na educação foi de pessoas
relacionadas à intolerância religiosa, cujo único fim no ensino é, sempre, doutrinar.
E, porque são intolerantes, doutrinam
para pior. Na Espanha franquista, os padres o faziam. Temo que seja assim
em todo lugar.”
Savater soube também que, por aqui,
pedir a alunos que escrevam sobre violência contra a mulher, tema da redação do
Enem, ainda causa polêmica. “Se houve
controvérsia, é preciso mesmo falar disso em aula”, disse o filósofo, que
defende, em O Valor de Ensinar (Planeta),
“escolas plurais, que ensinem a respeitar, inclusive, aquilo de que não
gostamos”.
Autor
de mais de 80 livros sobre ética, política educação, Savater cultiva a clareza
e a linguagem simples em seus textos. Certa vez, foi acusado de “trivial”.
Rebateu: “trivialidade é o que fica na cabeça de um imbecil quando escuta
alguém falar com clareza”. E é porque ainda não estão lá tão claras as razões
do governo paulista para fechar 94 escolas (30 delas com notas acima da média
e, entre as que ficam na capital, a maioria está na periferia), que Savater
quis falar sobre isso apenas “por princípio”. “Sempre vou preferir que se feche um McDonald's do que se feche uma
escola”, como disse ao Aliás.
As
escolas devem educar especialmente para uma profissão ou para a vida?
Fernando Savater: Para mim, educação é transmissão do que consideramos
essencial de nossa cultura, de nossa vida às outras gerações. Há essa
faceta, de ensinar destrezas que sirvam para o trabalho, mas também há a
formação cívica e ética. Comparo a educação com uma pessoa em sua casa, onde
estão todos os seus bens preciosos, quadros, livros, discos. De repente, há um
incêndio, e é preciso salvar aquilo de que gostamos. É isso, o que há de valioso, o que queremos passar adiante, a razão de
ser da educação. Mas o que acontece é que hoje a educação se considera
simplesmente laboral. Queremos formar empregados, pessoas rentáveis, que ganhem
e façam ganhar dinheiro, rapidamente. Essa pode ser uma opção, mas não é a base
da educação. O fundamental no ensino é
formar cidadãos, pois na democracia somos todos governantes. E, como somos
governantes, é preciso educar para não sermos malgovernados. Se cairmos nas mãos de ignorantes,
fanáticos, cínicos, a democracia será prejudicada, ou impossibilitada, como
aconteceu em alguns lugares.
O
que se perde a partir dessa ênfase laboral?
Fernando Savater: Se torna só adestramento,
pobre do ponto de vista existencial. Os gregos rechaçavam isso. Viam o Império
Persa, que não educava os filhos, só ensinava um ofício. Ao filho de um
artesão, o artesanato. Mas não havia formação cidadã. Já os gregos desprezavam
isso. Queriam formar um cidadão capaz de
encontrar seu próprio destino, e não alguém que nasce para ocupar um lugar
determinado. As escolas devem ser sempre abertas à liberdade de escolha.
Com método, com disciplina. Paradoxalmente, na educação, liberdade e autonomia são frutos da disciplina.
Como
a escola auxilia na busca por vocação?
Fernando Savater: A escola é um lugar onde a
pessoa se civiliza. A família é um mundo de afetos, importantes para o
desenvolvimento, mas todo centrado no que é nosso. Nossa casa, os filhos mais
bonitos, a melhor mãe. Aí surge a sociedade, que começamos a entender na escola,
onde encontramos pessoas com quem não temos laços, mas que precisamos
respeitar. É o que acontecerá ao longo da vida, que em grande parte se dá em um
mundo não afetuoso, do trabalho, da política. A escola é um lugar para aprender que não é só brincando que se
demonstra o amor à vida, mas também cumprindo atividades socialmente
necessárias e desenvolvendo uma vocação. Pois cada vocação é uma forma de
amar a vida e uma arma para lutar contra o medo de viver. Vale a pena enfrentar
tudo isso? Uma boa escola ajuda a tirar
o medo. Os pais devem auxiliar, aconselhar sem pressionar, porque serão
pouco ouvidos, de toda forma. Já os
professores devem ser capazes de despertar a vocação do aluno, de educá-lo para
que deseje educar-se mais. Fascinar, sem hipnotizar.
Um
exame nacional, o Enem, citou Simone de Beauvoir e foi qualificado de
“doutrinação”. Tratar de temas como esse em exames é doutrinar?
Fernando Savater: Na escola há uma
doutrinação permanente, não? E nem todas as doutrinas são ruins. Às crianças se
ensina a não bater nos menores, a respeitar os adultos... São doutrinas, e nos
parece normal. O problema não é doutrinar ou não. Ao estudar filosofia na
escola, é preciso saber o que disse Simone de Beauvoir. O que o professor não
pode fazer é dizer que essa é a verdade e que não há outra. Há que ensinar
pensamento crítico, e é preciso aplicá-lo. Sempre
que ouvi falar mal de doutrinação na educação foi de pessoas relacionadas a
algum tipo de intolerância religiosa, cujo único fim no ensino é doutrinar.
E, porque são intolerantes, doutrinam para pior. Na Espanha, os que se opuseram
sempre a tudo o que parecia uma ética cívica foram os padres, que passaram o
franquismo todo doutrinando, para pior, os espanhóis. Temo que seja assim em
todo lugar.
Por
que defende que assuntos como intolerância, violência, drogas sejam tratados na
escola?
Fernando Savater: Há quem acredite que se
educam as crianças para que continuem crianças, mas as educamos para que sejam
adultos. E melhores do que nós. Então é preciso tratar do que nos preocupa. Uma
criança de 3 anos não tem de ouvir sobre o aborto, mas há um momento em que
esse assunto, e outros, relacionados à sexualidade, ou à morte, terão de ser
tratados. Para isso estão na escola. É onde se revela o outro, os vínculos
capazes de unir a criança aos demais, a outros países, onde não há os mesmos
costumes, os mesmos gostos, a mesma ideologia.
Nesse
mesmo exame o tema da redação, violência contra a mulher, causou controvérsia.
Fernando Savater: Às vezes acontece na
Espanha. Parece um acordo dos que, desgraçadamente, propagam a tradição machista de que o varão é dono
da mulher. Mas isso já é senso comum. Não é preciso ser feminista para saber
que o marido não pode bater na mulher. Se houve controvérsia aqui sobre esse
assunto, é porque é preciso mesmo falar dele nas escolas.
Outro
assunto debatido é a inclusão de termos como gênero nos planos de ensino. Qual
sua opinião a respeito?
Fernando Savater: São temas delicados, é
preciso cuidado. Mas deve-se tratar de gênero, orientação e diversidade sexual,
porque as crianças vão se deparar com isso. Há crianças que desde novas têm
dúvidas. A escola existe para explicar situações humanas e resolver problemas
humanos. E essas são situações humanas, não algo que o demônio introduziu.
Falar disso é uma questão de tolerância, um dos princípios das sociedades
pluralistas. E passa pela escola, que
precisa ensinar a conviver inclusive com aquilo de que não gostamos.
Escolas
no Brasil usam exames como o Enem para fazer propaganda. O que isso indica?
Fernando Savater: Avaliações são importantes
como controles, para ver se os alunos estão aprendendo e se o professor está se
fazendo entender. Mas não podem se tornar a finalidade da escola. Quando se
tornam, está relacionado aos males do ensino privado, que causa essas
distorções. O fundamento do ensino é que
seja público. Esse deve ser sempre um dos pilares de um bom Estado, pois as
pessoas que mais precisam de escola são as que não podem pagar. Por isso o
orçamento da educação deve ser o maior. O
Exército não pode ter mais dinheiro do que as escolas. É verdade que a boa
educação é muito cara. Mas a má educação custa muito mais. Nada sai mais
caro a um país do que ter seus cidadãos mal informados e ignorantes.
Muitos
alunos já não tomam nota, mas sim tiram foto da lousa. Isso é uma perda?
Fernando Savater: Para mim, o ensino tem
certa dimensão de artesania. As crianças têm de aprender que o que conta é o
professor, e sua própria relação com ele, e não com a máquina. Sou partidário de que a certas idades não
se entre com celular na classe. Porque, se o aluno não escreve, só tira fotos do que os outros escrevem, corre
o risco de nunca conseguir escrever algo direito. Acho que há um período em
que o melhor é minimizar a tecnologia. Que
se use lápis, caderno, lousa. Dispositivos eletrônicos, no fundo, distraem.
Hoje, um dos problemas das crianças é a dificuldade de se concentrar.
Naturalmente, elas já se distraem com o que veem na janela, um pássaro, uma
mosca. Mas nós, professores, sempre tentamos que se mantenha a atenção. Sem atenção não se faz nada de importante,
não há arte, nem ciência. E, se a criança pensa mais no aparelho divertido
que têm, é difícil que preste atenção no professor. Voltando às notas, creio
que elas ajudam a fixar, a refletir sobre o que se aprende. Eu mesmo, após
décadas dando aulas, comecei a refletir sobre educação depois de convidado a
escrever sobre ela.
Uma
mudança no ensino em São Paulo priorizou manter numa mesma escola alunos de
mesma faixa etária. Qual sua opinião sobre isso?
Fernando Savater: Considero benéfico alunos
de diferentes idades numa mesma escola. Os maiores e os pequenos ficam juntos
no recreio, se veem, falam. Para mim, parece bom tudo o que faça com que as
crianças vejam aspectos diversos da realidade, ou seja, que há pessoas mais velhas
com diferentes gostos e ambições.
O
governo fechou 94 escolas no Estado. Fecham-se escolas, em qualquer lugar do
mundo?
Fernando Savater: Não sei dos pormenores do
plano. Mas, por princípio, vou sempre preferir que se feche um McDonald’s do
que se feche uma escola.
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