EU SOU AQUILO QUE EU MOSTRO DE MIM!
O RETRATO DE ESSENA O’NEILL
Leandro Karnal
Historiador
e Professor de História Cultural da UNICAMP
Ao denunciar a mentira da imagem que criou de si mesma
nas redes sociais, a jovem australiana foi corajosa, mas incapaz de subverter a
lógica da exposição midiática.
“Uma Essena realmente revolucionária teria apagado o
perfil. E submergido no anonimato que o tempo fugaz das redes impõe”, diz o
historiador.
Oscar Wilde descreveu um jovem de
beleza sedutora. Dorian Gray
impressionava a todos, mas guardava um segredo terrível no sótão. O rosto
verdadeiro de Dorian estava numa pintura que envelhecia e mostrava os efeitos
da vida dissoluta. O jovem que circulava pelo mundo londrino era falso. O
encanto de Dorian era obtido à custa do envelhecimento da imagem. Talvez, sem
querer, o texto de 1890 analisou o
primeiro grande perfil em rede social do mundo contemporâneo.
Se
a metáfora do embelezamento artificial
do photoshop for válida, o processo é
mais universal e antigo. Quando o livro de Wilde foi escrito, o império
britânico era governado pela rainha Vitória. Ao assumir o trono, ela foi
retratada a óleo diversas vezes, no brilho radioso dos seus 18 anos. Porém, a
Vitória real era baixa e pouco graciosa. A natureza fora avara em distribuir
atributos físicos à sobrinha do rei. Mas, nas pinturas, ela parecia muito
melhor. Como sabemos? Muito cedo, ela conviveu com a invenção da fotografia e
foi a primeira soberana inglesa a ser amplamente registrada. As fotos mostram o quanto a técnica dos
pintores criava, melhorava, embelezava. Basta pesquisar e comparar [a rainha] Vitória a óleo e Vitória em foto. São
seres diferentes. Talvez isso valha até
hoje: fotos em preto e branco costumam melhorar quem é um pouco mais, digamos,
experiente. Fotos em close, com máquinas de alta resolução, são um desafio
para pessoas que vivem em patamares estéticos mais modestos.
Sabemos
da importância da cenografia:
sorrimos, encolhemos a barriga, mostramos o melhor ângulo, arrumamos a roupa.
Todos esses gestos são herdeiros do belo Dorian
Gray. Apagamos fotos que mostram
resultados ruins. Divulgamos as que consagrariam o ideal de quem eu suponho ser
e do que eu suponho que os outros gostarão que eu seja. Quem eu sou de
verdade é sempre um desafio.
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ESSENA O'NEILL Jovem australiana de 19 anos de idade |
Por
que estamos pensando nisso? Essena
O’Neill é uma adolescente australiana comum. Passou grande parte da sua vida registrando e postando nas redes
sociais os melhores resultados da sua imagem. Teve sucesso: chegou a meio
milhão de seguidores. Bonita, melhorou tudo com boas roupas, luz adequada,
ângulos corretos. O que ela fez com muito método é feito por quase todo mundo. Sentiu prazer com muitas curtidas e
considerou-se popular. Dormia sorrindo com o êxito fugaz da rede e deve ter
angariado muitas relações com a fama. Aprendeu
cedo como o mundo é generoso com a beleza.
Um dia ela teve uma crise. O vazio das aparências a
pegou, talvez. Entrou em contradição
entre o que postava e o que sentia, entre quem era de fato e o que supunham que
ela fosse. Essena real tornou-se inimiga da Essena virtual. Como a
personagem de Oscar Wilde, ela atacou sua própria imagem. A adolescente passou a publicar legendas demolidoras, falando como tudo
aquilo era falso e tinha sido ensaiado. Denunciou as muitas tentativas até
acertar, as poses artificiais, o absurdo da cena zen meditando na praia ou da
magreza conseguida com inclinações calculadas do tronco. Resultado? Virou uma celebridade ainda maior. Ela teve mais acessos
e chamou a atenção do mundo. Por quê?
Temos uma raiz platônica e
cristã na condenação da aparência. Usamos expressões ambíguas como “aquilo que somos
por fora e por dentro”, como se meu sorriso fosse menos eu do que meu intestino
ou como se minha humildade me pertencesse mais do que minha vaidade. Pessoas
ponderadas e mais velhas recomendam a jovens bonitas: “cuide mais do seu
interior”. Recriminamos quem se mira por
horas em espelhos. Nossa crítica à vaidade aumenta à medida que os motivos
para sermos vaidosos diminuem. Nosso envelhecimento é a fonte da nossa virtude.
“Não
tire tanta foto de si”, pois, é
óbvio, eu já não quero mais tirar de mim.
Essena foi uma jovem submetida à pressão das redes sociais.
Acreditou na personagem que ela elaborava. Foi
uma boa atriz no papel de si mesma. Teria sido influência de alguma leitura
ou aconselhamento a crise que ela demonstrou ao se atacar publicamente como
produto midiático? Ou seria um golpe publicitário? Ela teria visto como chance de expansão de curtidas uma reviravolta na
sua trajetória? Este “sincericídio” que ela praticou seria fruto de medo,
sabedoria, cansaço ou desejo de expansão da influência com outra personagem? Talvez nunca saibamos porque,
provavelmente, ela também não sabe.
A
resposta é pouco relevante. O mais
importante é a atenção que o mundo deu ao fato, sinal de que, autêntica ou não,
Essena dialogou com pontos delicados das redes sociais.
O
choque é antigo: entre o real e o ideal, damos braçadas sem muito rumo. Há
cenografia intencional nas fotos que estão sobre nosso aparador na sala.
Retratam a família que desejaríamos ter nos seus momentos de estetização,
harmonia ou sofisticação turística. Não
há fotos das discussões, da dor, de como engordamos ou de como foram tediosas
nossas cenas em casa. Lá somos todos sorrisos, belos, felizes e com uma
vida interessante. Fotos familiares são
desejos embalsamados.
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VÊNUS DE MILO Estátua encontrada na Grécia, provavelmente do século II a.C. Museu do Louvre - Paris (França) |
A
estátua da Vênus de Milo agrada a
mais gente do que o quadro A Origem do
Mundo, de Courbet. O mármore
mostra uma mulher idealizada, sem pelos e perfeita. O quadro é uma genitália
cruamente exposta, real e desafiadora. Achamos
mais palatável o que mente mais, idealiza mais ou cria uma alternativa ao peso
imperioso da natureza e da realidade. Sei que a mulher exposta na revista
masculina é fruto de um esforço técnico para reduzir imperfeições e aplainar
caprichos da mãe natureza. Mas não é exatamente por isso que eu compro a
revista? Se eu quisesse realidade, olharia para o lado. A imagem virtual funciona como o álcool: eu não bebo apesar de o álcool produzir relaxamento,
aumento de confiança e até desnorteio. Bebo, exatamente, por isso. Os corantes tornaram-se tão
indispensáveis à indústria da alimentação como o photoshop para as imagens
públicas das redes sociais. O fundo da caverna de Platão é confortável, tem
gente por perto com valores similares, a luz não cega e o que vemos é
agradável.
Rilke, poeta, definiu o belo como o grau do terrível que
toleramos e que desdenha destruir-nos. É uma definição linda e enigmática. As redes sociais jorram o belo por todos os
poros. Flores, sorrisos, o pôr do sol, praia, corpos, festas, animais de
estimação fofinhos e muita alegria. Ah, e as comidas que impressionam. As
imagens são nosso álcool estético, nosso ópio em fótons. Não as vemos apesar de elas
não serem tão sinceras, mas exatamente
porque não são. À custa de repetição, essa beleza torna-se nosso roteiro de
vida e de experiência de mundo. Com o tempo, toda a chatice daquela noite de
Natal será conservada apenas pela linda foto da mesa posta e pessoas sorrindo.
E a mariposa da minha memória, ávida de luz, vai se fixar naquilo, produzindo
uma vida feliz como construção/reconstituição do passado. Toda memória é um diálogo do presente com o passado e um processo de
criação. A luz certa, a roupa adequada e um claro sorriso ajudam muito a
fixar esse momento, o único que desejo guardar.
Essena fez uma apoteótica
carreira postando imagens melhoradas e preparadas. Seu sucesso foi
gigantesco. De repente, por motivos pouco claros para o grande público, caiu no
oposto e passou a duvidar da sua imagem e a revelar os andaimes da construção.
Como Ícaro, despencou rápido do sol para o impacto do mar.
O
que seria mais notável no processo? Essena
estetizou uma personagem e, depois, tentou desconstruir, mas mantendo as fotos
das redes sociais. Com isso ela
reafirmou como nosso mundo é dependente da IMAGEM. Ao dizer antes “esta sou
eu” e agora “esta não era eu de verdade” e postando fotos nas duas situações,
ela continua na mesma gramática de produção de sentido. O real ou o imaginário são, duplamente, dependentes da imagem no mundo
líquido. A legenda pedindo curtidas ou denunciando a armação é, igualmente,
suporte do único mundo possível.
Essena
mostrou que Dorian Gray pode rasgar o retrato do sótão, mas nem esse gesto
teatral o ajudará a responder quem ele é de fato. Essena é virtual, porque ninguém desta geração consegue pensar o mundo
fora do virtual ou sem ele, ao menos. Uma Essena revolucionária teria
simplesmente apagado o perfil. Bastaria não postar por um mês e ela teria
submergido no anonimato que o tempo fugaz das redes impõe. Mas isso teria sido
demais. Nem a nova Essena, a autêntica
(?), aguentaria tamanho desprendimento. Ela foi capaz de um gesto muito corajoso, mas não foi capaz de
subverter a própria lógica da exposição midiática. Isso talvez já não
esteja ao alcance de uma jovem criada no século 21. Essena sorria com as curtidas
de suas fotos planejadas. Continua sorrindo com a Essena que desnuda a rede.
Ela foi protagonista nas duas situações. A
jovem possui, agora, dois retratos de Dorian Gray: o belo e o decadente.
Ambos pertencem a ela e foram pintados por ela. Em resumo: mentira e verdade, para existirem, têm de ser fotografadas e postadas.
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