A graça de um papa como Francisco
França, Itália, Europa e a graça de Francisco
Eugenio Scalfari
Jornal “La Repubblica” – Roma (Itália)
22-11-2015
Papa Francisco. Nunca houve um papa como ele. Digo
mais: um Pastor, um Profeta, um revolucionário: em nome da sua fé e em cerca de
dois bilhões de cristãos que habitam o planeta, deslocados em quase todos os
continentes.
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PAPA FRANCISCO: recordando que Deus é Misericórdia! |
Nestes
dias turbulentos, todos nos fazemos muitas perguntas: por que ocorrem fatos tão
horríveis, massacres de inocentes, decapitações transmitidas pela televisão,
medo das pessoas, serviços secretos mobilizados, bombardeios aéreos, vigilância
inutilmente reforçada, na Europa, na Bélgica, no Iraque, na Síria, na Turquia,
no Egito, no Líbano, no Mali, em Bangladesh, em meio mundo, com previsões de
outros tantos horrores na Itália do Jubileu?
Eu
também estou profundamente chocado e preocupado, mas não surpreso, e a razão é
esta: eu sei há algum tempo que a
história da humanidade, desde que ela existe, é dominada pelo poder e pela
guerra. O amor e a paz são dois sentimentos alternativos que, de vez em
quando, interrompem os dois primeiros, mas são interrupções breves, pausas de
repouso muitas vezes abaladas. Dentro de muitos de nós, o amor e a paz são
sentimentos permanentes, mas o poder e a guerra sempre têm a melhor em toda a
parte, em qualquer época, em qualquer país e em qualquer tempo. E o motivo é simples: nós, ao contrário de
outros seres vivos, temos um "ego".
E
esse "ego", assim que nasce dentro de nós, precisa ter absolutamente
um território seu, conquistá-lo, defendê-lo, ampliá-lo. Precisa emergir em
todos os níveis sociais e tenta fazê-lo como pode, seja pobre ou rico, de pele
negra ou branca ou mulata, homem ou mulher.
Os
animais, para satisfazer as suas necessidades primárias, também devem lutar
para conquistar a presa, presa também eles de outros animais. Poder e guerra
também são para eles instintos dominantes, mas não são conscientes disso. Nós
sim, nós somos "ego" em cada
instante da nossa existência, e esse é o motor que nos anima e determina o
nosso destino. O Fatum [o
Destino]. Lembram-se? Os deuses olímpicos da cultura grega levavam a melhor não
só sobre os homens, mas também sobre outros deuses.
Zeus
sabia que devia respeitar o Destino
que era muito mais do que um deus: era a lei que domina o Cosmos e, portanto,
poder e guerra, a lei da natureza é essa. O
antídoto não é o amor e a paz, que, como eu já disse, são intervalos
breves, pausas de repouso; mas é a
liberdade, a liberdade consciente. E
a beleza não como ideal romântico, mas lírico e profundamente evocativo: a
música, a dança, o conhecimento.
Liberdade e beleza, esses
são os valores, onde o "ego" não é apagado, de fato, mas, ao
contrário, potencializado e afastado da busca do poder, resgatado pela
perversão da guerra e guiado para aquele além-do-homem que, no Zaratustra de Nietzsche, é o último e mais excelso nível que a
nossa espécie pode alcançar e que deveria unir todos os homens de boa vontade.
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A EUROPA, OS ESTADOS UNIDOS E A CULTURA OCIDENTAL são os alvos preferidos e prioritários do Estado Islâmico |
A
Europa é hoje o objetivo do terrorismo liderado pelo Estado Islâmico que, doravante,
chamaremos de Califado. Nós somos apenas
o seu alvo, eles atacam onde quer que possam, mas é a Europa o terreno
escolhido e com ela os Estados Unidos da América. Enfim, o Ocidente, a
civilização ocidental em todas as modalidades que essa civilização exprime, nas
suas religiões, na sua economia, nos comportamentos das pessoas comuns e de
suas classes dirigentes.
O
Califado é, por sua vez, uma classe dirigente composta por poucas pessoas, não
mais que uma centena, em grande parte proveniente:
- do exército iraniano de Saddam Hussein,
- dos muezim afegãos,
- dos talibãs doutrinados por Bin Laden e pela Al Qaeda; árabes sobretudo, mas também
- paquistaneses e sauditas.
Bin Laden, a quanto se saiba, era
profundamente religioso, mas os dirigentes que compõem o Califado não o são
absolutamente, mesmo se fingem sê-lo. As
células que o Califado dirige têm, talvez, um verniz de religiosidade
fundamentalista. O seu grito de guerra é “Alá Akbar” [Deus é grande!] e muitos deles chegam ao ponto de se
explodirem sonhando com um além onde as virgens lhes aguardam como prêmio. Mas a grande parte dos terroristas
espalhados pela Europa não tem qualquer vocação religiosa. São os jovens
das periferias, a segunda ou terceira geração dos subúrbios que não puderam ou
não desejaram integrar-se com a sociedade com a qual convivem. Alguns
estudaram, outros não, mas todos se sentem enganados, muitos recorrem à droga
e/ou à aventura, ao ódio, às armas, são estes o seu modo de sobrevivência, mais
a exclusão aumenta, mais a polícia torna-se a inimiga deles, mais é fácil recrutar-lhes
para os mensageiros do Califado.
Os
subúrbios são o terreno de cultura dos terroristas e o “Eu” joga aqui a sua
mais secreta e perversa partida. O “Eu” dos excluídos reclama uma satisfação,
um território psicológico, a esperança de não ter medo, mas de incuti-lo nos
outros. Sejam esses outros cristãos ou ateus ou islâmicos, mas integrados e não
excluídos: estes são o seu alvo. Alvos anônimos, não os conhecem, mas são, de
todo modo, outros e diversos deles e, portanto, para matar. Para difundir o
medo e satisfazer, assim, o seu horrível “Eu”.
Observando
bem, também o “Eu” do Califa e de seus
companheiros é bastante desenvolvido, deseja poder, riqueza, prazeres.
Deriva da Al Qaeda, mas é bem diferente em relação a Bin Laden. Cruel tanto
quanto ele ou mais que ele, mas extremamente mais sofisticado. Não é de todo
impossível que se torne um verdadeiro e próprio Estado árabe sunita. No fundo,
Ibn Saud*
começou assim a sua carreira e transformou uma tribo em um reino entre os mais
poderosos do Oriente Médio. A sua família já conta com cerca de trezentas
pessoas, possui muitos bancos, empresas, alianças de negócio em todo o
Ocidente, na França, na Inglaterra, na Itália, na América, na Alemanha, em
todos os lugares. Detesta os xiitas, mas se distingue também dos sunitas. Entre
os chefes do Califado é um exemplo a ser imitado e, talvez, a ser conquistado. Sem sangue, possivelmente. O sangue escorre em outros lugares.
Devido
o fato da França ser o principal
terreno de batalha do Califado e das suas milhares de células europeias, essa
nação, além de contar com o maior número de vítimas inocentes, assumiu a condução
da Europa. O presidente Hollande compreendeu imediatamente que, infelizmente
para os franceses, o papel de líder da Europa era o aspecto politicamente e,
mesmo, economicamente positivo e ele demonstrou de sabê-lo assumir perfeitamente,
a partir dos símbolos até a concreta ação política.
Entre
os símbolos, há um que, pessoalmente, me comove não somente agora, mas desde
sempre, toda vez que acontece de escutá-la: La Marseillaise [A
Marselhesa]**, hino nacional até agora, mas
europeu no período das guerras contra as monarquias absolutas da Europa, quando
a grande Revolução liderada pelos girondinos e por Danton bloqueou a invasão
dos monarcas europeus e o exército republicano comandado por Kellerman venceu a
batalho de Valmy.
Toda
vez que na França há um atentado, o povo se reúne nas praças e entoa a Marselhesa
enquanto, contemporaneamente, a canta a Assembleia Nacional. Assim ocorreu após
o atentado ao Charlie Hebdo, mas
agora é cantada pelos jogadores de futebol antes do início das partidas em
muitos países europeus, foi entoada em Londres na Câmara dos Comuns no salão de
Westminster, na Itália em uma espécie de sessão conjunta das Câmaras, enfim,
transformou-se em um hino europeu no lugar do Hino à Alegria da sinfonia de
Beethoven.
[ .
. . ]
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Jogadores cantam o hino nacional francês: A Marselhesa |
Por
fim, há outro personagem que é
fundamental para superar essa trágica situação: o Papa Francisco. Nunca
houve um papa como ele. Digo mais: um Pastor, um Profeta, um revolucionário: em
nome da sua fé e em cerca de dois bilhões de cristãos que habitam o planeta,
deslocados em quase todos os continentes.
Francisco apela ao Deus
único.
Todas as religiões monoteístas devem se irmanar em nome do Deus único, que não é e não pode ser um Deus vingativo, mas
é um Deus misericordioso e, como tal, deve ser adorado pelos fiéis dessas
religiões, começando, obviamente, pelos cristãos, pelos muçulmanos, pelos
judeus.
O
Alcorão fala de "morte dos infiéis" e oferece aos fundamentalistas um
pretexto para encobrir as suas ações criminosas com algumas passagens
corânicas. Mas eles esquecem que o seu profeta Maomé, construtor da religião
islâmica, colocou como primeiro ponto de referência Abraão.
No topo do Islã, portanto,
está Abraão, que escutou da voz do Senhor a ordem de sacrificar o seu filho,
Isaac. Essa
ordem abalou o coração de Abraão profundamente, mas a sua fé o forçou à
obediência: ele levou o seu filho consigo a uma colina e, ali, olhando para o
céu acima dele, puxou uma faca das suas vestes para matar o filho, como lhe
tinha sido ordenado por Deus.
Mas,
naquele momento, a voz de Deus o deteve: "Eu queria ver a força da tua fé, mas eu quero que Isaac viva feliz,
como eu e contigo. Acaricia-o, educa-o, e vocês dois serão por mim amados e
iluminados".
Esse é o Deus de Abraão e de
Isaac, e é um Deus misericordioso. Por isso, são blasfemos e condenáveis os
terroristas do Califado que invocam Alá e, no Seu nome, matam centenas de
Isaac, filho de Abraão e amado por Alá
Akbar. O único Deus, que os judeus
chamam de Javé ou Elohim, e os cristãos chamam de Pai.
É
isso que Francisco prega, e esse é o tema do Jubileu da Misericórdia. A sua palavra, em um momento como este, é
dirigida especialmente aos islâmicos, para que reconheçam o seu Deus
misericordioso, que é o mesmo que todas as religiões monoteístas deveriam
venerar.
*
Abdalazize ou Abd
al-Aziz Al Saud, mais conhecido como Ibn
Saud (Riade, 24 de novembro de 1880 – Taif, 30 de Novembro de 1953), foi
rei do Hijaz e do Nedj entre 1926 e 1932 e o primeiro rei da Arábia Saudita
entre 1932 e 1953. Na historiografia saudita, ele é chamado o primeiro rei do
terceiro estado Saudita (o primeiro durou de 1744 a 1818, e o segundo de 1819 a
1891). Ibn Saud era membro da família Al Saud que tinha governado praticamente
toda a Arábia durante os cem anos anteriores ao seu nascimento. Porém, quando
Ibn Saud nasceu a sua família tinha perdido a sua relevância em detrimento da família Al Rashid e este foi obrigado a
exilar-se quando era ainda uma criança no Kuwait, onde cresceu na pobreza. Decidido
a reconquistar as terras que a sua família tinha perdido, organizou com cerca
de vinte homens a tomada de Riade. A
cidade, que era dominada pela família Al Rashid, foi tomada em 1902. Após o fim
da Primeira Guerra Mundial, os ingleses reconheceram-no como emir de Hasa e de
Nedj. Entre 1913 e 1926, Ibn Saud tomou Al-Hasa,
o resto do Nejd e Hijaz (Fonte: Wikipédia).
** A Marselhesa foi composta pelo oficial Claude
Joseph Rouget de Lisle em 1792, da divisão de Estrasburgo, como canção
revolucionária. A canção adquiriu grande popularidade durante a Revolução
Francesa, especialmente entre as unidades do exército de Marselha, ficando
conhecida como A Marselhesa. Seu
título era originalmente Canto de Guerra
para o Exército do Reno. O hino foi composto a pedido do prefeito de
Estrasburgo, Philippe-Frédéric de
Dietrich, dias depois da declaração de guerra ao imperador da Áustria, em
25 de abril de 1792. O canto deveria ser um estímulo para encorajar os soldados
no combate de fronteira, na região do rio Reno (Fonte: Wikipédia - neste link encontra-se, também, a letra completa em francês e a tradução em
português).
Acesse a versão original, em italiano, deste
artigo, clicando aqui.
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