COMO EVITAR O CAOS CLIMÁTICO?
O teatro das negociações Internacionais
Agnès Sinaï *
A lentidão das negociações sobre o clima contrasta com
a rápida aceleração da história humana. Enquanto isso, as instâncias
internacionais mostram-se incapazes de criar ferramentas e modos de pensar à
altura dos desafios colocados
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PETRÓLEO - UMA MATRIZ ENERGÉTICA A SER SUBSTITUÍDA |
Em
construção em uma ilha artificial na Lagoa de Lagos, na Nigéria, a vila Eko Atlantic periga ser submersa
até o fim do século. Nas zonas costeiras do país, com a elevação do nível dos oceanos decorrente do aquecimento global, a
água pode chegar a penetrar 90 km continente adentro.1 Eko Atlantic se
tornaria uma dessas ruínas do futuro que servem para os geólogos reconstituírem
a história da Terra.
Há
3 milhões de anos, na época do Plioceno,
a quantidade de CO2 na atmosfera era a mesma de hoje. A temperatura
era de 2 a 4 °C mais quente, e o nível do mar, de 10 a 20 metros mais elevado
que hoje. Hoje, não se sabe exatamente em que ritmo as geleiras da Antártida
derreterão. Algumas hipóteses, notadamente o cenário do Potsdam Institute, estimam que, se todos os combustíveis fósseis
fossem queimados, o mar se elevaria ao ritmo de 3 metros por século no próximo
milênio.2
Do ponto de vista químico, a composição da atmosfera atual é excepcional em
relação às variações naturais do efeito estufa no último milhão de anos.
Comparado à observação do clima no passado, o aquecimento de 3 °C (cenário médio) que poderia ocorrer ao longo do século XXI representa uma mudança
abrupta e de amplitude comparável a uma transição glacial/interglacial –
porém acelerada, pois a transição glacial/interglacial ocorreu ao ritmo de 1 °C
a cada mil anos.3
A
humanidade é hoje a força principal que governa o funcionamento do planeta. Em
pouco mais de duas gerações, tornou-se uma potência geológica. Além disso, um conjunto de sinais prova que suas
atividades produzem um impacto telúrico durável de magnitude comparável ao que,
no passado, caracterizou fenômenos como as glaciações, o despertar dos vulcões
ou a queda de meteoritos. Os estratos geológicos legados pela urbanização,
barragens, produção industrial, atividades mineradoras e agrícolas contêm
inúmeros fósseis dessa fase inédita sobre a Terra. Substâncias totalmente novas emitidas pelos seres humanos desde 1945
são uma característica típica do Antropoceno: radionuclídeos, gases
fluorados, produtos oriundos de bio e nanotecnologias. A globalização da petroquímica deu lugar a uma “paleontologia do
plástico”, segundo a expressão do geólogo Jan Zalasiewicz. As partículas de fuligem expelidas pelas
indústrias alcançam o Polo Norte. A
sociedade industrial deixará seus rastros em estratos do solo, do ar e dos
oceanos por milênios.
A
mudança climática se inscreve no que o geógrafo Will Steffen, o geoquímico Paul
Crutzen e o historiador John Mac Neill nomearam como a “grande aceleração” da história humana.4 Esse período de
exuberância, que vem de 1945 até hoje, coincide com a era do petróleo, da
descolonização, da democratização e do consumo. Diante dessas dinâmicas, as
negociações da ONU equivalem a uma usina de lentidão e fracassam em colocar em questão o sistema produtivo e
resolver problemas de energia, justiça e desenvolvimento. Essa lentidão
também caracterizou as sessões de preparação para a COP 21, em Genebra e Bonn,
por meio de textos que a unanimidade dos 196 países considera muito complexos.
A
EXTERNALIZAÇÃO DA NATUREZA
Realizadas
em uma bolha, as negociações patinam. A mudança climática coloca a diplomacia
ambiental perante uma nebulosa de incertezas e de incompatibilidade de tempos.
Durante a “COP” [Conferência das
Partes], os políticos do clima permaneceram impotentes diante da necessidade de
novas ferramentas e formas de pensamento que estejam à altura do problema.
Essa grande negação da realidade se manifesta primeiro por uma retórica
contábil oriunda das ciências econômicas, viciada em analisar custos e
benefícios em função de projeções estatísticas. Estimulada pela crença no crescimento indefinido (ver artigo abaixo), a modernidade industrial externalizou a natureza, percebida como um
estoque inerte, como um catalisador de fluxos financeiros que precisam
remunerar “os serviços prestados” pelos ecossistemas. Os 2 °C de aumento
máximo da temperatura do planeta, balizador das negociações, inscrevem-se nessa
maneira de pensar, que pressupõe certa estabilidade ou previsibilidade.
Bastaria gerenciar o clima com a engenhosidade humana e mobilização política. Em realidade, é difícil determinar um nível
aceitável de gases do efeito estufa para estabilizar o clima, pois ninguém sabe
quando será o ponto de virada catastrófico para a humanidade.
Os
autores do magistral Gouverner le climat?
[Governar o clima?] avançam com a noção de “cisma
de realidade” para designar a desconexão
profunda entre os processos materiais que degradam o clima e as instâncias
multilaterais que funcionam há vinte anos.5
[“Cisma de realidade”:]
[1º] Parece
frívolo pretender resolver os problemas causados pela combustão de energias
fósseis regulando apenas os rejeitos, sem colocar a questão da extração. De forma absurda, as negociações focam
emissões de CO2, sem atacar os modos de desenvolvimento econômico,
as regras do comércio internacional
ou o funcionamento do sistema energético
mundial.
[2º] Outro
exemplo de desconexão: o Protocolo de
Kyoto não fez nada além de legitimar a hegemonia dos mecanismos de mercado
em nível internacional como meio de proteção do meio ambiente, tomando o clima como um bem econômico mensurável e
homogêneo. Os “mecanismos de flexibilidade” tendem a promover a redução das
emissões onde é mais eficaz economicamente. Essa lógica de compensação foi
estendida às emissões decorrentes do desmatamento com o mecanismo REDD (Redução
das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal). Na Europa, o mercado de
carbono, European Trading Scheme, foi
um grande fracasso.
[3º] Por
fim, o terceiro cisma: a Convenção-Quadro
das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês) não tem nenhuma influência sobre o sistema
de livre-comércio empreendido pela Organização Mundial do Comércio (OMC),
cujas regras se sobrepõem à proteção do clima. Essa hierarquia de normas também
está nas negociações comerciais transatlânticas. As tratativas em torno do
acordo de livre-comércio entre Europa e Canadá que se desenrolam desde 2013
trazem uma sombra sobre as políticas climáticas: a Europa abre suas portas ao
petróleo não continental de Alberta.6 Segundo um estudo da associação
norte-americana Natural Resources Defense
Council (NRDC), as importações europeias de areias betuminosas, que
aumentaram para 4 mil barris por dia em 2012, podem crescer de maneira
espetacular: até 700 mil barris por dia daqui a 2020.7 O oleoduto Energy East, construído pela TransCanada, poderá abastecer as
refinarias europeias por meio de um mercado transatlântico liberado de qualquer
entrave.
Como
sublinha o historiador Dipesh
Chakrabarty, a crise climática coloca na ordem do dia a colisão entre três
histórias:
- a da Terra,
- a da evolução humana sobre o planeta e, finalmente, a mais recente,
- a da civilização industrial.8
Essas
três histórias evoluem em escalas e velocidades diferentes, e obrigam as
sociedades modernas a rever seus modos de pensamento. É preciso compreender que a vida terrestre não repousa sobre bases estáveis.
O Antropoceno abriu uma brecha na história da Terra, e essa fissura obriga a
repensar o destino humano segundo o princípio de uma incerteza radical quanto
aos efeitos do nível da temperatura, dos pontos de virada, dos fenômenos
irreversíveis e dos excessos possíveis do sistema climático.
PLANEJAR
O ABANDONO DO CARBONO
Nessas
circunstâncias, o climatologista James
Hansen recomenda aos políticos planejar
o abandono do carvão como combustível fóssil. Mais que um princípio de
precaução, trata-se de um “princípio
máximo”, que permite visar ao “melhor dentro do pior cenário”. Segundo um
estudo de Christophe McGlade e Paul Ekins, da Universidade College de Londres, um terço das reservas de petróleo, a metade das de gás e cerca de 80%
das de carvão deveriam permanecer inexploradas para evitar o superaquecimento
do planeta.9 As reservas fósseis do globo recuperáveis
nas condições técnicas e econômicas atuais representam um estoque de 2.900
gigatons (Gt) de CO2, ou seja, três vezes mais que as emissões consideradas
como teto dentro do objetivo de limitar o aquecimento global a mais 2 °C.
“A
crise climática levanta grandes questões
de justiça: justiça entre gerações, entre pequenas ilhas-nação e países
poluentes (no passado e no futuro), entre países desenvolvidos,
industrializados (historicamente responsáveis pela maior parte das emissões) e
os países em via de industrialização”, resume Chakrabarty. Atualmente, apenas alguns países (entre doze e catorze) e uma pequena
parte da humanidade (cerca de um quinto da população mundial) carregam a
responsabilidade histórica das emissões de gases do efeito estufa.
Falta
mencionar o aspecto do direito.
Durante a Rio+20, em junho de 2012,
um movimento da sociedade civil de mais de quinhentas organizações surgiu para
colocar fim à impunidade das empresas transnacionais. O movimento End
Ecocide on Earth trabalha para
modificar o Estatuto de Roma, fundador da Corte Penal Internacional, com o
objetivo de instituir o crime de
“ecocídio”. Um grupo de juristas elaborou duas propostas de convenções
chamadas “Ecocrime” e “Ecocídio”.10 Ambas permitiram reforçar e harmonizar em
escala mundial a prevenção e repressão de crimes ambientais. O ecocídio figuraria entre os crimes mais
graves, no mesmo nível do crime contra a humanidade. O relatório recomenda
a instituição de um procurador internacional de meio ambiente e a criação de
uma Corte Penal Internacional de Meio
Ambiente, além da formação de um Grupo
de Pesquisa e Opinião pelo Meio Ambiente (Green) e a instauração de um Fundo Internacional de Indenização pelo
Meio Ambiente e pela Saúde Pública. Para concretizar esse conjunto inédito
de medidas, escreve a jurista Mireille-Delmas-Marty, é preciso “universalizar a
reprovação” das medidas atuais e “se abrir à esperança de um destino comum”.
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Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas Criado em 1988 pela Organização das Nações Unidas |
DA DESCOBERTA CIENTÍFICA À TOMADA DE
CONSCIÊNCIA POLÍTICA
1824. Em Memória sobre as temperaturas do globo terrestre e dos espaços
planetários, o físico Joseph
Fourrier enuncia, pela primeira vez, o princípio do efeito estufa.
1896. Em artigo publicado no Journal of Science, o químico sueco Svante August Arrhenius (1859-1927),
Prêmio Nobel de Química em 1903, propõe um cálculo do efeito estufa associando
concentração de gás carbônico e temperaturas terrestres.
1941. O geofísico sérvio Milutin Milankovitch publica sua teoria
astronômica do clima, que estabelece os principais ciclos climáticos
responsáveis pelas variações da radiação solar sobre a Terra.
1957. Instalação na Antártida da base
soviética de Vostok.
1958. O cientista norte-americano Charles Keeling (1928-2005) começa, na
base de Mauna Loa (Havaí), a observar a concentração de gás carbônico na
atmosfera. Demonstra o papel da atividade humana no aumento rápido dessa
concentração (315 partes por milhão em volume [ppmv] em 1958, 380 ppmv em
2005).
1972. A Conferência de Estocolmo coloca a proteção do ambiente na lista das
preocupações internacionais. Criação do Programa
das Nações Unidas para o Ambiente (Pnua).
1987, setembro. Assinatura
do Protocolo de Montreal, cujo
objetivo é eliminar as substâncias que reduzem a camada de ozônio.
1987, outubro. Uma
equipe franco-russa estabelece uma correlação direta entre temperatura e
concentração de gás carbônico na atmosfera ao longo de 160 mil anos
transcorridos.
1988, junho. O
discurso sobre o aquecimento climático do climatologista norte-americano James Hansen perante o Congresso dos
Estados Unidos inicia um debate público a respeito do assunto.
1988, dezembro. Criação,
pelas Nações Unidas, do Painel Intergovernamental
sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
1992. No
Rio de Janeiro, a Cúpula da Terra
adota a Convenção-Quadro das Nações
Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC), cuja autoridade encarregada da
tomada de decisões é a Conferência das
Partes (COP). Estabelece-se um plano de ação para o século XXI com vistas a
permitir um desenvolvimento sustentável com proteção ambiental.
1997. Pelo Protocolo de Kyoto, os 84 países signatários se comprometem a
reduzir o total de emissões de gases do efeito estufa, antes de 2012, em 5% com
relação ao nível de 1990. Mas os principais países emissores (Estados Unidos e
China) não assinam o documento.
2009. Fracasso da COP 15, em Copenhague,
que termina com uma declaração de intenções – não ultrapassar um aquecimento de
2 °C –, mas sem objetivo quantitativo nem data estipulada.
2012, Dezembro. A
COP 18, em Doha, prolonga o protocolo de Kyoto, mas assiste ao afastamento da
Rússia, do Japão e do Canadá. Programa-se um acordo global ambicioso para 2015.
N O T A S
1. Nnimmo Bassey, “L’Afrique et les
catastrophes climatiques qui s’annoncent” [A África e as catástrofes climáticas
que se anunciam]. In: Crime climatique.
Stop! L’appel de la société civile [Basta de crime climático! O apelo da
sociedade civil], Seuil, Paris, 2015.
2. Ricarda Winkelmann, Anders Levermann, Andy
Ridgwell e Ken Caldeira, “Combustion of available fossil fuel resources
sufficient to eliminate the Antarctic ice sheet” [A combustão de combustíveis
fósseis ainda disponíveis é suficiente para eliminar a camada de gelo da
Antártida], Science Advances, Washington/Cambridge, v.1, n.8, 11 set. 2015.
3. Valérie Masson-Delmotte e Christophe Cassou, Parlons climat en 30 questions [Falando
de clima em 30 perguntas], La Documentation Française, Paris, 2015.
4. Will Steffen et al., “The trajectory of the
anthropocene: the great acceleration” [A trajetória do Antropoceno: a grande
aceleração], The Anthropocene Review,
Londres, 19 jan. 2015.
5. Stefan Aykut e Amy Dahan, Gouverner le climat? 20 ans de négociations
internationales [Governar o clima? 20 anos de negociações internacionais],
Presses de Sciences Po, Paris, 2015.
6. Ler Emmanuel Raoul, “Sous les sables
bitumineux de l’Alberta” [Sob as areias betuminosas de Alberta], Le Monde Diplomatique, abr. 2010.
7. Danielle Droitsch, Luke Tonachel e Elizabeth Shope,
“What’s in your tank? Northeast and Mid-Atlantic states need to reject tar
sands and support clean fuels” [O que há em seu tanque? Estados
do Nordeste e Médio Atlântico precisam rejeitar areias betuminosas e apoiar
combustíveis limpos], NRDC Issue Brief, Nova York, jan. 2014.
8. Dipesh Chakrabarty, “Quelques failles dans
la pensée sur le changement climatique” [Algumas falhas no pensamento sobre a
mudança climática]. In: Emilie Hache (org.), De l’univers clos au monde infini [Do Universo fechado ao mundo
infinito], Éditions Dehors, Bellevaux, 2014.
9. Christophe McGlade e Paul Elkins, “The
geographical distribution of fossil fuels unused when limiting global warming
to 2 °C” [A distribuição geológica de combustíveis fósseis não utilizados
quando a temperatura atingir o limite de mais 2 °C], Nature, Londres, n. 517, 8 jan. 2015.
10. Laurent Neyret (org.), Des écocrimes à l’écocide. Le droit pénal au secours de l’environnement
[Dos ecocrimes ao ecocídio. O direito penal a serviço do meio ambiente],
Bruylant, Bruxelas, 2015.
*
Agnès Sinaï é jornalista especializada em questões
ambientais. Diretora da obra Économie de
l’après-croissance. Politiques de l’Anthropocène II [Economia do
pós-crescimento. Políticas do Antropoceno II], Presses de Sciences Po, Paris,
2015.
Fonte: Le Monde Diplomatique
Brasil – Ano
9 – Número 100 – Novembro 2015 – Pgs. 22-23 – Internet: clique aqui.
Crescimento ou clima: é preciso escolher
Jean Gadrey
Economista
Os negociadores da COP de Paris vão varrer para debaixo
do tapete a incompatibilidade entre a limitação do aquecimento do planeta e a
busca infinita por crescimento econômico. Quando este for retomado pelos países
desenvolvidos, os objetivos climáticos se tornarão inatingíveis. Outros
caminhos rumo ao progresso humano merecem ser explorados.
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JEAN GADREY Economista francês |
Existem
múltiplas explicações para a “queda
tendencial da taxa de crescimento”1
observada há diversas décadas nos países ricos e mais recentemente nos
emergentes. Mesmo os economistas mais midiáticos começam timidamente a imaginar
a hipótese de um mundo sem crescimento, ao menos nos países ditos avançados. É
o caso, nos Estados Unidos, de Paul
Krugman e Larry Summers, para
quem “uma estagnação secular é
plausível”.2 Na França, Thomas Piketty também alerta: “Seria razoável apostar no retorno do
crescimento para resolver todos os nossos problemas? Isso não resolveria os
desafios essenciais que os países ricos devem enfrentar”.3 Por sua vez, Daniel Cohen nos exorta: “Libertemo-nos de nossa dependência do
crescimento”.4 Algumas andorinhas não fazem verão, mas
esses exemplos não são insignificantes, ainda que nenhum reclame a intervenção
de um fator explicativo essencial: o esgotamento, já em andamento, da maioria
dos recursos naturais do crescimento.
No
entanto, o culto está tão impregnado na
mentalidade dos dirigentes políticos que, mesmo quando eles proferem
discursos exaltados sobre a luta contra a mudança climática, eles se apressam
em lembrar que o crescimento continua um imperativo. François Hollande deu o tom, em discurso em Sassenage (Isère), em
agosto de 2015: “Vocês sabem que a França vai acolher a Conferência sobre o
Clima; ela deve, portanto, ser exemplar. Ao mesmo tempo, a transição
energética, a questão climática, também são desafios para o crescimento. Nós queremos apoiar o crescimento,
estimulá-lo. Definitivamente, ele está presente quando utilizamos os
instrumentos da transição energética”. O
presidente francês em seguida pronunciou a palavra “crescimento” catorze vezes
em dois minutos, em particular nesta sequência: “Meu objetivo é a
diminuição do desemprego, e a redução dos impostos é também uma maneira de
atingir um maior crescimento. Pois há mais consumo, mais confiança, e haverá
mais crescimento. Tudo, assim, está ligado ao crescimento; o crescimento pode
também nos permitir atingir a diminuição dos impostos, e a redução dos
impostos, a ter mais crescimento”.5
Como pretender ser exemplar
sobre o clima ligando tudo ao crescimento? Essa contradição não incomoda diversos
dirigentes, que partilham uma nova
religião: o “crescimento verde”, uma transição destinada a estimular o
crescimento, o qual facilitará a transição. O ex-presidente norte-americano George W. Bush tinha resumido seu credo
em matéria de meio ambiente com a seguinte fórmula: “O crescimento econômico
não é o problema, é a solução”.6
O
MITO DO CRESCIMENTO VERDE
Com
certeza, diante da mudança climática e de outras manifestações da crise
ecológica, seria preciso investir maciçamente nas energias renováveis, no
isolamento dos prédios, na eficiência energética, na agroecologia, na mobilidade
sustentável etc., e então organizar o crescimento. Mas, ao colocarmos a tônica
nos setores específicos cuja expansão seria desejável, ignoramos as questões
mais incômodas. Quais atividades e
produções devem necessariamente diminuir, levando em conta seu impacto negativo
sobre o clima, a biodiversidade, a saúde humana...? Além disso, qual
proporção dos combustíveis fósseis seria imperativamente necessário deixar no
solo para limitar o aquecimento? E se for entre 60% e 80%, como afirmam as
avaliações mais recentes, que consequências podem existir num crescimento
mundial ainda amplamente propulsionado por essa matriz? Mais amplamente, o crescimento econômico, mesmo fraco, é
compatível com as taxas de redução de emissões de gases do efeito estufa hoje
exigidas para não ultrapassar os limites críticos de concentração na atmosfera?
Devemos
ao economista Michel Husson7
projeções bem simples, que permitem determinar daqui até 2050 a taxa de
crescimento do PIB mundial – ou do PIB per capita – compatível com os
diferentes cenários do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas
(IPCC). Ele as estabeleceu em função das hipóteses sobre o ritmo de redução da
“intensidade CO2 do PIB mundial”.8
Conclusão:
“O objetivo-piso do IPCC [uma
divisão por dois das emissões globais entre 2010 e 2050] só pode ser atingido graças a uma combinação de hipóteses muito
otimistas sobre o ritmo de redução da intensidade-CO2 do PIB
[menos 3% por ano, ou seja, o dobro do ritmo observado nos últimos vinte anos] e a aceitação de uma diminuição marcada do
crescimento do PIB per capita [0,6% por ano em média no mundo]. Já o objetivo mais ambicioso – uma
diminuição de 85% das emissões de CO2 daqui até 2050 – parece
completamente inatingível”. Isso exigiria um efeito de redução drástica da
intensidade-CO2 e uma redução absoluta do PIB per capita.
É o
mesmo que dizer que o “crescimento
verde” é um mito, se postularmos, unindo esses dois termos, um crescimento
compatível com a finitude dos recursos materiais (combustíveis fósseis,
minerais, terras aráveis, florestas, água...) e com uma estrita limitação dos
riscos climáticos e outros danos causados aos oceanos, à biodiversidade etc. Mas, então, como pensar em um mundo livre
desse culto? Seria preciso aceitar uma regressão social em nome da ecologia?
Os devotos do crescimento estão encerrados
em esquemas de pensamento nos quais o futuro só pode se parecer com uma
reativação do passado. Eles não imaginam que se possa “perseguir” outra coisa
além das quantidades produzidas e consumidas com grande reforço das campanhas
publicitárias, da obsolescência programada e da vida a crédito. E eles retomam
seu argumento preferido: sem um
crescimento suficientemente forte e contínuo, não há criação de empregos, não
há redução do desemprego! O triângulo ideológico do liberal-crescimentismo
– a competitividade das empresas produz o crescimento, que produz o emprego – é
de um simplismo aflitivo. No entanto, ele continua orientando as decisões
políticas.
Na realidade, os agentes
dominantes do capitalismo neoliberal adoram o desemprego como dispositivo
disciplinar que os autoriza, por um lado, a frear as reivindicações salariais
e, por outro, a intensificar e aumentar a precariedade do trabalho para elevar
os lucros.
Nenhum projeto pós-crescimento chegará ao fim se não convencer que a
“perseguição” do bem viver em um ambiente preservado é claramente mais
eficiente para vencer o desemprego do que as receitas batidas do
liberal-crescimentismo.
E,
contudo, o crescimento só é necessário para a criação de empregos no modelo atual, que repousa na busca perpétua de ganhos de produtividade:
produzir sempre mais com o mesmo volume de trabalho. Nesse modelo, um
crescimento nulo ou fraco, mais fraco que os ganhos de produtividade, leva à
regressão do volume de trabalho e, portanto, do volume de empregos se o tempo
de trabalho médio por pessoa permanece inalterado. Podemos com certeza então reivindicar medidas de redução ou de partilha
do tempo de trabalho – é essa inclusive a resposta mais eficiente para o
aumento do desemprego a curto e médio prazo; mas nem por isso saímos do produtivismo.
Para
isso, deve-se trocar o velho programa da
“partilha dos ganhos de produtividade”, herança dos “Trinta Gloriosos Anos”
e do fordismo, pelo da partilha dos
ganhos de qualidade e sustentabilidade. Orientar o sistema de produção e de
consumo segundo uma lógica qualitativa do “tomar conta” (das pessoas, das
relações sociais, dos objetos, da biosfera...), colocando a qualidade dos bens
comuns sociais e ecológicos no coração das atividades humanas e da política: sobriedade na quantidade, prosperidade na
qualidade. Isso implica também combater
as desigualdades, para que os novos modos de consumo sejam acessíveis a
todos. Aliás, esta é a principal condição para que os meios populares não vejam
essa transição como marca de uma ecologia punitiva.
OUTRA
ECONOMIA, MELHORES EMPREGOS
Constataríamos
então que essa economia mais suave com
os humanos, com a natureza e com o trabalho, privilegiando as low tech (as “baixas tecnologias”,
em oposição às “altas tecnologias”, que não por isso exigem menos inovação), oferece bem mais empregos plenos de sentido
do que a economia produtivista atual. Por uma razão simples: para quantidades idênticas, portanto, sem
crescimento, seria necessário mais trabalho humano para produzir de forma
limpa, verde e saudável, em boas condições de trabalho e de emprego. A
agricultura orgânica, por exemplo, requer cerca de 30% a 40% a mais de trabalho
do que a industrial e química para produzir as mesmas quantidades de frutas, legumes,
cereais etc.
Essa visão de outra “grande
transformação” é irrealista? Não, porque tais soluções já estão sendo empregadas
um pouco em todo o mundo. Elas funcionam e tendem até mesmo a se difundir, a
despeito das tentativas de impedimento dos bajuladores do velho modelo, que
ainda estão no controle. Encontramos
diversos exemplos comprobatórios – na Índia, na América Latina, na África,
nos Estados Unidos e na Europa –, em diversas obras e documentários recentes,9
sem falar das experiências locais organizadas pela rede Alternatiba e sua
associação fundadora no País Basco, Bizi! (“Viver!”, em basco).
Cabe
aos cidadãos, na maior parte das vezes contornando os dirigentes políticos e,
mais raramente, com seu apoio, se insurgir e generalizar essas lógicas nas
quais a tríade competitividade/crescimento-consumismo-empregos
indecentes/desemprego dá espaço a outra: cooperação/bem
viver-sobriedade material-empregos decentes/atividades úteis...
N O T A S
1. Cf. os quatro posts publicados a esse
respeito em 2009 no blog do autor:
<http://alternatives-economiques.fr/blogs/gadrey>.
2. Paul Krugman, “Secular stagnation, coalmines,
bubbles, and Larry Summers” [Estagnação secular, minas de carvão, bolhas e
Larry Summers], The Conscience of a
Liberal, 16 nov. 2013. Disponível em:
<http://krugman.blogs.nytimes.com>.
3. Thomas Piketty, “La croissance peut-elle nous
sauver?” [O crescimento pode nos salvar?], Libération,
Paris, 23 set. 2013.
4. Le
Monde, 6 jan. 2014.
5. “Discurso
durante seu deslocamento a Sassenage em Isère”, 21 ago. 2015. Disponível em:
<www.elysee.fr>.
6. Discurso diante da National Oceanic and Atmospheric
Administration, Silver Spring (Maryland), 14 fev. 2012.
7. Michel Husson, “Un abaque climatique” [Um
ábaco climático], nota n.89 (PDF), 20 ago. 2015. Disponível em:
<http://hussonet.free.fr>.
8. O termo
designa as emissões de CO2 por unidade de PIB produzido.
9. Cf. principalmente Bénédicte Manier, Un million de révolutions tranquilles
[um milhão de revoluções tranquilas], Les
liens qui libèrent, Paris, 2012; Marie-Monique Robin, Sacrée croissance! [crescimento sagrado!], La découverte, 2014; Collectif
des associations citoyennes (CAC), L’écologie
au quotidien [a ecologia no cotidiano]. disponível em:
<www.associations-citoyennes.net>.
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