A PETROBRÁS... AINDA ! ! !
Ex-diretor diz que Lula intensificou uso político da
Petrobrás
ANTONIO
PITA E FERNANDA NUNES
Segundo
ex-diretor da Petrobrás, dizia-se na estatal que ex-presidente estava
impressionado com atuação de Paulo Roberto Costa, preso por suspeitas de
corrupção e lavagem de dinheiro
Envolvido
no processo que investiga a polêmica compra da refinaria de Pasadena, nos
Estados Unidos, o ex-diretor de Gás e
Energia da Petrobrás Ildo Sauer quebrou o silêncio e admitiu ao Broadcast que "o governo de
coalizão" do presidente Luiz Inácio Lula da Silva permitia que partidos
indicassem dirigentes para obter "ajuda". Segundo ele, "o
folclore" na Petrobrás era que Lula estava impressionado com a
contribuição do ex-diretor de abastecimento Paulo Roberto Costa, atualmente preso pela Polícia Federal na Operação
Lava Jato por suspeita de corrupção e lavagem de dinheiro.
O
ex-diretor classifica ainda como "piada"
o argumento da presidente Dilma Rousseff, que, na época presidia o conselho
de administração da estatal, de que aprovou a aquisição de Pasadena com base em
um resumo executivo falho, conforme a própria presidente afirmou ao [jornal] O Estado de S. Paulo, em março, por meio
de nota. Na entrevista, Sauer afirma que a
presidente Dilma se notabiliza por procurar um culpado sempre que aparece um
problema e conta que a relação entre a direção da Petrobrás e o governo era
tensa.
O senhor teve acesso ao resumo
executivo para compra da refinaria de Pasadena feito por Cerveró?
Ildo Sauer: O
sumário executivo serve como notícia de que há uma pauta. Os membros do
conselho e mais ainda o presidente (do órgão) têm acesso a toda documentação. E
o estatuto permite a ele pedir qualquer informação adicional à diretoria ou
contratar consultoria externa. Ninguém decide com base em resumo. Isso é uma
piada.
A presidente Dilma Rousseff diz que se
baseou em um resumo executivo "falho" para aprovar a compra da
refinaria.
Ildo Sauer: Eu
conheço a senhora Rousseff há pelo menos 14 anos. Ela se notabiliza por
procurar um culpado sempre que aparece um problema. Essa é a competência dela.
Ela deve ter visto que havia algum problema e chutou na canela do Nestor (Cerveró, ex-diretor da Área Internacional
responsável pelo resumo técnico sobre a compre de Pasadena). Como
presidente do conselho, ela dizer que o resumo executivo era falho é uma piada.
O estatuto diz que é privativa do conselho a decisão sobre aquisição e
participações em empresas.
Como era a relação da presidente com o
ex-diretor Nestor Cerveró?
Ildo Sauer: O diretor é subalterno ao conselheiro. A
presidente dizer que era tutelada pelo diretor, que lhe faltou informações
completas, é uma inversão completa da lógica. Mas não me surpreende. Por que a
conduta histórica dela é essa, muito errática. Quem impediu que a Petrobrás
aceitasse o resultado da primeira arbitragem contra a Astra, quando os belgas
fizeram a put option, foi o conselho.
Isso está nos autos.
Mas todo o conselho ou só a
presidente?
Ildo Sauer: O
presidente do conselho representa o governo dentro da empresa. Os demais
conselheiros são eleitos pelos votos do majoritário, o governo, e pelos
minoritários. Há um ritual de aceitação da superioridade do governo. Quando há
divergência de interesses entre a empresa e a política do governo gera
conflito.
Havia conflitos?
Ildo Sauer: São
notórias as divergências. Primeiro, as minhas com ela quanto à conduta do setor
elétrico, que virou esse desastre. Também dela com o Gabrielli (José Sergio Gabrielli, ex-presidente da
estatal). O ambiente ficava pesado. Não vou falar dos outros. Havia uma
nítida situação de quem representava quem lá dentro. Eu e Estrella (Guilherme Estrella, ex-diretor de Exploração
e Produção) tínhamos convicção de que éramos apenas representantes dos interesses
da Petrobrás, seus acionistas e da população brasileira. Nenhum interesse
estava atrás de nós.
E dos demais diretores?
Ildo Sauer: À
medida que foram sendo nomeados despachantes de interesses... É uma pequena
ironia. Quando fui demitido, diz o folclore que o Lula (ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva) se queixou a
um deputado que eu não ajudava e que ele estava muito impressionado com a ajuda
de Paulo Roberto, que ajudava muito. Eu não ouvi dele, ouvi de intermediários.
Como assim despachante de interesses?
Ildo Sauer: O
governo de coalizão do presidente Lula passou a permitir que grupos de
parlamentares e partidos se reunissem para indicar dirigentes. Não sei por que eles estavam lá, se é para
fazer gestão eficaz não precisa ter apoio de partido. Não me envolvia com isso
por que não achava que era pertinente. Acabei demitido por que diziam que eu
não ajudava. O que seria “ajudar”, até hoje eu não sei.
Quando esse processo começou?
Ildo Sauer: O
ambiente na Petrobrás começou a ficar envenenado, em primeiro lugar, nessa
relação conflituosa com o TCU [Tribunal de Contas da União], na definição clara
dos papeis de cada um para evitar a zona de sombra que envolve recursos.
Depois, quando o petróleo explodiu de preço, a Petrobrás passou a investir US$
30 bilhões, 40 bilhões, 50 bilhões por ano. Então ela virou foco de interesse
da chamada base de apoio político. Leia-se partidos e políticos. Que passaram
cada vez mais a querer indicar dirigentes. O
governo de coalizão do Lula aprofundou aquilo que já vinha do governo Fernando
Henrique.
Você percebia essa influência no dia a
dia da empresa?
Ildo Sauer: Não só
sentia como me manifestei publicamente. Em dezembro de 2006 dei uma entrevista
e depois recebi uma ligação do então ministro de Minas e Energia (Silas Rondeau) dizendo que o presidente
da República tinha ficado injuriado e que teria consequências. Era o período de
auge de divergências. Eu disse (na entrevista) que quem criticava minha gestão
é quem não entendia o papel do dirigente de uma empresa pública. Aqueles que me
criticam, exigindo a venda de gás pela metade do custo para fazer uma usina no
Ceará, como era a pressão do governo na época, na verdade queriam converter o
dirigente num despachante de interesses.
O que disseram após a entrevista?
Ildo Sauer: Avisaram
que isso não era tolerável. Fiz isso publicamente, pois internamente não tinha
mais sentido manifestar a minha convicção. Ouvi da própria Rousseff: “O Ildo
não é do governo, ele é um petroleiro”. Que lambança é essa? Não tem
divergência nenhuma entre defender a Petrobrás, para que funcione como empresa,
e ajudar o governo, desde que o governo queira fazer o que precisa ser feito.
O senhor tinha conhecimento de
irregularidades?
Ildo Sauer: Quando
isso acontece, acontece com muita sutileza. O despachante é bom quando faz tudo
e nada transparece. Parecia que aquilo de fato era o que precisava ser feito.
Examinei Pasadena com todo rigor em termos técnicos e empresariais. Agora se
havia alguma coisa escondida... Cabia ao conselho fiscalizar os diretores. Não
os diretores olhar com desconfiança os colegas. É evidente que tendo em vista a
história anterior dos gestores, tinha que olhar com todo o rigor.
As indicações políticas influenciaram
o negócio de Pasadena?
Ildo Sauer: Quem
pode responder são os próprios gerentes que fizeram as negociações ou uma
investigação policial entorno das negociações, e eu sugiro lá fora. Se houve
algo de errado, então o Ministério Público e a Polícia Federal tinham que
investigar quem fez, e não generalizar.
Há politização das investigações de
Pasadena?
Ildo Sauer: O que
não entendo é por que abrir uma questão sete anos depois do ocorrido? Esse
procedimento abre um precedente extremamente grave na gestão de empresas
públicas. Nenhum dirigente sério e competente vai querer assumir em um ambiente
desse tipo e vão para lá os despachantes de aluguel, os que alugam crachá para
fazer qualquer coisa, como aquele que está na cadeia hoje.
É um desafio diferenciar a sua conduta
à do ex-diretor Paulo Roberto Costa?
Ildo Sauer: Não há
nenhuma dificuldade. Quem junta os diferentes em um lugar só é esse relatório
do TCU, que não examinou individualmente a responsabilidade de cada um. Eu e o Estrella (Guilherme Estrella, ex-diretor de Exploração e Produção) estamos
muito mais distantes do assunto do que o Conselho de Administração (eximido de responsabilidade pelo Tribunal).
Como o senhor avalia Pasadena?
Ildo
Sauer: Ela teria custado cerca de US$ 320 milhões sem litígios, mais UR$ 500
milhões de Revamp (adaptação para
processar o petróleo brasileiro). O projeto que aprovei em 2006 era esse.
Se tivesse sido feito, o negócio seria lucrativo nos últimos quatro anos.
O TCU errou no relatório?
Ildo Sauer: Quem
comete o equívoco de dizer que um diretor demitido em 2007 ainda estava
decidindo em 2009, evidentemente está sujeito a cometer outros equívocos (inicialmente, Sauer foi apontado por
prejuízos causados também no processo de litígio com a belga Astra Oil; depois
o TCU o excluiu desse trecho do processo). Isso não quer dizer que eu
conteste a importância de ter um TCU independente. Mas tem que afinar os
métodos.
O TCU bloqueou seus bens...
Ildo Sauer:
Respeito o TCU, mas tem que focalizar e não expor à execração pública pessoas
que têm uma trajetória.
Como o senhor avalia sua passagem pela
empresa?
Ildo Sauer: No fim
de 2007, quando fui demitido, a
Petrobrás valia US$ 226 bilhões, o dobro de hoje. Tínhamos notórias
divergências com o governo, especialmente sobre investimento e os preços dos combustíveis.
Havia pressão, mas a diretoria conseguia manter os preços competitivos.
O que causou a mudança?
Ildo Sauer: A crise
internacional. Mas ela nunca se recuperou por intervenção da Dilma, que impôs
sua vontade arbitrária em decisões como, por exemplo, a de congelar os preços
dos derivados.
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