ESTAMOS MAL REPRESENTADOS LÁ FORA !
Zero noção de Estado
Dora Kramer
Atitude
de Dilma na ONU mostra que o governo só tem olhos para o eleitoral
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Dilma Rousseff discursa na abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) Nova York, 24 de setembro de 2014 |
Realmente o governo brasileiro não dá a
mínima para o Brasil. Interessa-lhe única e exclusivamente a
plataforma de poder, a máquina para fazer política, assegurar empregos e outros
que tais cujos detalhes o fim da fase do segredo de Justiça poderá esclarecer.
Tivessem algum apreço pelo País, a
presidente Dilma Rousseff e os que a cercam teriam pensado duas vezes (ou
quantas fossem necessárias) antes de levar um discurso de cunho partidário à
abertura da Assembleia-Geral da ONU, evitando também no campo
internacional a proposição de "diálogo" com gente que não conversa,
degola.
À
presidente da República não parece ter ocorrido nem por um minuto que estaria
ali na representação de um País e seu posicionamento no mundo. Foi à Organização das Nações Unidas com o
mesmo espírito com que se dirige a um encontro do PT, à biblioteca do
Palácio da Alvorada, ao canteiro de obras do Rio São Francisco ou onde grave
sua participação no horário eleitoral da televisão ou recite a cantilena sobre
a história do partido que salvou o Brasil.
Ainda que fosse tudo verdade, que tudo
caminhasse àquelas maravilhas por ela contadas, que o
dito combate à corrupção não se expressasse em repetidas operações
"abafa", que o País tivesse sido inventado há 12 anos, não caberia à presidente aproveitar-se da
tribuna da ONU para produzir cenas às câmeras de João Santana [responsável
pelo marketing da campanha de Dilma].
Não é
bom nem imaginar qual terá sido a avaliação dos chefes de Estados ali presentes
diante de uma presidente exclusivamente concentrada em enaltecer a si de
maneira provinciana e, sobretudo, sectária na medida em que não falou como
porta-voz do Estado brasileiro, uma instituição permanente, preferindo se
colocar como porta-bandeira de uma corrente partidária em episódio transitório
que se encerra dentro de um mês.
A presidente já havia deixado de lado a
compostura quando chancelou o uso da mentira na campanha e aceitou vocalizar
indelicadezas contra uma adversária. Na ONU, não desencarnou da
candidata. No dia a dia, deixou em segundo plano suas funções. Ocupada com seus afazeres eleitorais, há
tempo não recebe embaixadores que esperam para apresentar suas credenciais a
fim de exercer a representação dos respectivos países. Já são 28, noticia O Globo.
Poderia
até ser um exemplo menor, mera falta de cortesia, se o constrangedor discurso
nas Nações Unidas não tivesse deixado patente que o governo brasileiro só tem olhos e põe realmente as mãos à obra quando
o assunto é eleitoral.
Falo, não faço
A displicência com que o ex-presidente Lula
trata o convite da Polícia Federal para que deponha como testemunha em um dos
inquéritos ainda restantes do mensalão não combina com a maneira incisiva com
que a presidente Dilma vem abordando a questão do combate à corrupção.
O
assunto entrou na campanha depois do acordo de delação premiada do ex-diretor
da Petrobrás Paulo Roberto Costa.
Desde então, a presidente tem acentuado que os governos do PT foram dos mais
combativos e mais ativos na criação de controles. Segundo ela, só há tantos
escândalos porque a corrupção passou a ser combatida.
Ocorre
que desde fevereiro a PF tenta sem
sucesso ouvir Lula sobre uma denúncia feita por Marcos Valério de Souza a
respeito de um repasse de R$ 7 milhões da Portugal Telecom para o PT. O
advogado Márcio Thomaz Bastos posterga o depoimento e Lula trata o tema com
ironia. "Só se você me convidar", respondeu à jornalista que o
indagou a respeito nesta semana.
Como não está intimado, não é obrigado a
comparecer. Paulo Okamoto, um de seus assessores, diz que depois das
eleições "talvez" o ex-presidente compareça. De onde se conclui que a disposição para colaborar com o combate à
corrupção não é ampla, geral e muito menos irrestrita. Tem seus limites.
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