O QUE A POPULAÇÃO, DE FATO, ESTÁ QUERENDO?
Cobrança
acima das classes
ROLDÃO
ARRUDA
Ricos ou pobres tem o mesmo discurso
para saúde, transporte ou segurança
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Estação de metrô, em São Paulo, na hora de pico |
Existe uma
diferença enorme entre as expectativas políticas e administrativas de um
eleitor de baixa renda e outro mais rico em relação ao próximo governo. Quando
se pergunta a um e outro, por exemplo, se os gastos sociais devem ser ampliados,
o número de respostas positivas entre os pobres é quase cinco vezes maior do
que o registrado entre os entrevistados de renda mais alta, segundo a mais
recente pesquisa Ibope/CNI. Essa
disparidade se estende a várias outros temas, como geração de emprego, salário
mínimo, habitação popular. Em algumas áreas, porém, há uma expressiva
convergência de interesses. A mais nítida é a da saúde. Das regiões mais pobres do País às mais ricas, as pesquisas
apontam uma crescente preocupação da população com o tema.
Outro assunto que causa preocupação em todos os níveis, embora com índices menos significativos, é o da segurança pública. Em São Paulo, os eleitores dão hoje mais atenção à questão da segurança do que à educação, segundo outra pesquisa do Ibope, contratada pela Rede Nossa São Paulo.
No conjunto
das expectativas e preocupações dos cidadãos, o trânsito e o transporte coletivo não aparecem com
tanto destaque e de forma tão nivelada nas diferentes camadas de renda. Quando
se aborda o tema de maneira mais específica, porém, com perguntas aos
pesquisados sobre formas de solucionar os problemas, observa-se novamente a
convergência de opiniões.
A mesma
pesquisa Ibope/Rede Nossa São Paulo mostrou, por exemplo, que 70% dos paulistanos consideram o trânsito
ruim. E quando se pergunta a eles o que pode ser feito para melhorar a
circulação, 64% pedem mais investimento
em transporte público - e 90% apoiam
a criação de faixas exclusivas para ônibus.
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Marcos Bicalho - ANTP |
Mudança de
percepção
Na avaliação de Marcos Bicalho, consultor em planejamento de transporte e assessor da Associação Nacional de Transportes Públicos, a preocupação das pessoas em relação ao transporte está relacionada a dois fatores:
- De um lado existe uma enorme insatisfação com o sistema em vigor.
- De outro, já se começa a perceber que as soluções encontradas até agora não funcionam mais. É um momento de mudança e de insegurança.
Bicalho
acredita que o número de pessoas dispostas a deixar o carro em casa e usar coletivos
ou bicicletas é menor do que os que declaram apoiar faixas exclusivas, mas ele
vê no resultado das pesquisas um emblemático início de mudança de foco.
Até recentemente, segundo o especialista, os moradores das metrópoles viam o metrô como uma espécie de solução mágica para o problema: melhoraria a circulação, sem entrar em conflito com os carros e os ônibus. “Aos poucos estão percebendo, porém, que isso não acontecerá, porque o custo do metrô é altíssimo. Diante disso vamos ter que discutir cada vez mais como compartilhar o espaço público disponível.”
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Guaracy Mingardi - cientista político |
Distorção
Na área da segurança, os eleitores têm uma visão mais distorcida dos problemas e das soluções, na avaliação do cientista político Guaracy Mingardi, especialista em segurança pública. “O debate eleitoral nem sempre ajuda. A maioria das pessoas tem uma noção mais ou menos imprecisa do que fazem a União, o Estado e a Prefeitura. E sempre acham que a União, por ser a instituição que tem mais poder, é quem deve resolver tudo. O cidadão quer a Polícia Federal e o Exército na rua da sua casa, para se sentir seguro”, observa.
Embora ache
que a União precisa participar de
maneira mais ativa das questões de segurança, vigiando melhor as fronteiras,
por exemplo, Mingardi afirma que a solução pode estar mais próxima do que o
eleitor imagina. “Está sendo debatida no
Congresso uma legislação que, se vingar, pode valorizar o papel da Guarda Municipal,
o que é muito bom. Para o policiamento comunitário, o controle do trânsito
e outras atividades urbanas, a Guarda Municipal é melhor que a Polícia Militar.
As pessoas vão perceber com o tempo que não precisam de uma marreta para matar
uma formiga.”
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Gonzalo Vecina Neto - USP/Hospital Sírio-Libanês |
Modelo atrasado
Na questão
da saúde, que paira ano após ano no
topo das preocupações do eleitorado, um aspecto que chama a atenção dos
especialistas é o fato de ter dimensões semelhantes tanto para quem utiliza o
sistema público, o chamado Sistema Único de Saúde (SUS), quanto para os
cidadãos que recorrem a convênios médicos. Na avaliação do médico Gonzalo Vecina Neto, professor da Faculdade
de Saúde Pública da USP e superintendente do Hospital Sírio-Libanês, isso
ocorre porque os dois sistemas utilizam
modelos de atendimento ultrapassados.
“Há um estado geral de perplexidade”,
diz Vecina. “Isso se deve, em grande parte, a mudanças que ocorreram no País e que não foram acompanhadas pelo setor público
e a iniciativa privada. Nos últimos 30 anos, o número de doenças infectocontagiosas
diminuiu em todo o País. As campanhas de vacinação deram certo, o acesso à água
tratada aumentou, a taxa de natalidade caiu, a população envelheceu. Nesse meio
tempo, doenças que não apareciam como
causa importante de mortalidade começaram a se destacar.”
Segundo
Vecina, hoje no Brasil 60% da
mortalidade é representada por dois grupos de doenças:
- 35% de cardiovasculares,
- 25% de câncer.
Nesse novo
cenário, o País precisa aumentar o
número de médicos, alterar a formação nas escolas e mudar todo o sistema de
atendimento, segundo Vecina.
Fonte: O Estado de S. Paulo – Desafios Eleição
2014 / Serviços – Segunda-feira, 29 de setembro de 2014 – Pg. H3 –
Internet: clique aqui.
A
insatisfação é geral
Membros de diversas classes sociais
reclamam dos mesmos serviços públicos fornecidos pelo Estado
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Filas longas para atendimento hospitalar pelo SUS |
Um
empresário defender bom transporte público - uma causa em comum com seus
funcionários - é um comportamento mais frequente em novos tempos nos quais,
dada a extensão dos problemas, uma reivindicação por melhores serviços torna-se
geral. Na saúde, essa convergência aproxima a classe média - que sempre buscou
bons planos de saúde -, da classe C, que passou a sonhar com esses planos, a
conhecê-los e desejar menor dependência do serviço público. No caso do
empresário Bastos, ele discorda também
dos estímulos que o governo dá à indústria automobilística. “Não ajuda o
governo ficar dando incentivo, redução de impostos”.
“Falta tudo”
Aos 80 anos,
o office-boy Luiz Soares da Silva,
também de Brasília, sofre na
pele o que Bastos analisa. Ele tem passe livre, mas sobram razões para queixas.
“É muito ruim. A qualidade dos ônibus até melhorou, mas não se respeita horário,
faltam linhas e ônibus. No entorno falta tudo, tem ônibus que dá vergonha de
ver”. Se ele tivesse de pagar, gastaria R$ 10 por dia.
Em situação
parecida, mas pagando, a brasiliense Gabriela
Nascimento, 18 anos, chega quase sempre atrasada na escola, sem almoçar, e
aguarda longo tempo em pontos onde só passa um ônibus por hora. “E quando vem,
está lotado”, queixa-se ela. Tanto a
estudante quanto o office-boy assistem sem esperanças à campanha eleitoral sem
acreditar que um próximo governador traga soluções. “Eles falam muito, mas
nunca se resolve”, diz Gabriela. “Cada
um quer fazer tudo novo, não continua o que o outro estava fazendo.”
No Recife
A doméstica
da Julia Damiana da Conceição e o
inspetor de polícia Augusto Santana, moradores de Olinda,
Pernambuco, também são exemplos de que a precariedade dos serviços leva pessoas
de diferentes níveis de renda a discursos parecidos. Julia, de 47 anos, foi
três vezes deixada na mão pelo sistema de saúde. Na primeira, passou por quatro
emergências em busca de atendimento para a filha de 14 anos, picada três vezes
por um escorpião. Há dois anos, Julia teve trombose e não conseguiu
atendimento. Hoje, recorre ao SUS para resolver um problema de visão do filho
de 9 anos. “Posso dizer que tenho sorte,
pois conheço uma funcionária que coloca meu nome na lista”, diz.
Em 1988, o inspetor Augusto, já com 78 anos, teve
uma experiência inviável a alguém de renda mais modesta: reuniu-se a um grupo
de 40 profissionais em um plano de saúde privado. Foi uma promoção. Por bom
tempo as famílias receberam um bom serviço - mas, quatro anos atrás, a empresa
foi comprada. Sofrendo hoje de Alzheimer, ele é ajudado pela mulher, Maria
Nicácia Lopes. “Já disseram que o nosso
custo é muito alto, dá prejuízo, e querem aumentar em 70% o preço do plano”,
diz Maria Nicácia. A saúde, por outros caminhos, é também um problema sem saída
para os dois.
Fonte: O Estado de S. Paulo – Desafios Eleição
2014 / Serviços – Segunda-feira, 29 de setembro de 2014 – Pg. H3 –
Internet: clique aqui.
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