UM NOVO HOMEM E UMA NOVA MULHER
Eles por elas
Entrevista com Sérgio
Flávio Barbosa*
Ivan Marsiglia
Na
ONU, Emma Watson emociona o mundo ao pedir aos homens que se engajem na luta
feminista.
Para
filósofo, eles só têm a ganhar
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Emma Watson - atriz inglesa, discursando na Assembleia-Geral da ONU (Nova York) |
Quando
a intérprete de Hermione na série
cinematográfica Harry Potter subiu
ao púlpito da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas, no último dia
20, pouca gente esperava mais que as falas inócuas com que celebridades alçadas
à posição de Embaixadores da Boa Vontade costumam “agregar valor” às causas da
entidade. Foi, então, que a mágica se deu.
Aos 24
anos e recém-graduada em literatura inglesa, a atriz britânica Emma Watson proferiu um discurso claro, sensível
e arrebatador, que viralizou imediatamente nas redes sociais. Ela abriu a
campanha HeForShe [Ele por Ela], da ONU Mulheres, pela igualdade de direitos para ambos os gêneros, relatando a própria
experiência com a cultura machista que se mantém arraigada mundo afora - até
mesmo em sua liberal Inglaterra. E pôs de lado a “agressividade” com que certos
críticos gostam de tachar as feministas para exortar os homens a que se aliem
às mulheres na luta contra esse mal (ainda) moderno. Delicadeza que não impediu
reações furiosas contra as suas ideias, inclusive por parte de criminosos
cibernéticos que ameaçaram divulgar fotos da estrela nua para desmoralizá-la.
“Nós homens ainda estamos bem perdidos, num
deserto muito grande, passando por uma crise enorme por não entender por que
essa nova mulher nos ameaça”, afirma o filósofo feminista Sérgio Flávio Barbosa. Coordenador do Programa de Responsabilização para Homens
Autores de Violência contra Mulheres, iniciativa pioneira na recuperação de
indivíduos que chegaram ao limite do crime na expressão da cultura retrógrada
do machismo, Barbosa é um observador privilegiado do comportamento do homem
atual. E teve suas pesquisas publicadas em livros como Homens e Masculinidades: Outras
Palavras (Editora 34, 1998, atualmente fora de catálogo).
Na
entrevista a seguir, o filósofo conta por que, 60 anos após a revolução de
costumes que trouxe as mulheres para o mercado de trabalho e a participação
política, a ficha ainda não caiu para os homens. E explica por que a bandeira
da igualdade de gênero significa, mais que o fim da opressão da mulher, a
libertação de ambos os sexos.
Emma Watson exagera ao afirmar que “nenhum
país no mundo pode dizer que alcançou a igualdade de gênero”?
Sérgio Barbosa: Não
exagera. A desigualdade de gênero é uma questão mais sentida em países como o
Brasil por causa de uma herança cultural muito forte do patriarcado. Estamos
ainda distantes da igualdade na remuneração das mulheres no mercado de
trabalho, em suas possibilidades de ascensão profissional e na restrita
presença feminina na política. Mesmo com Dilma Rousseff e Marina Silva
polarizando neste momento a disputa majoritária pela Presidência, nas demais
esferas a representação feminina no Brasil é desastrosa. Homens brasileiros
ainda não debatem temas como a licença-paternidade, reivindicam creches para
seus filhos ou se sentem à vontade para pedir dispensa ao chefe para levar a
criança ao médico. O atraso é maior. Mas em todo o mundo a igualdade entre
homens e mulheres é ainda um sonho a ser conquistado. Mesmo nas sociedades mais
avançadas contemporâneas permanece a discriminação sobre o comportamento de
homens e mulheres. Filmes de Hollywood continuam cheios de homens que não
choram, se comportam como dominadores e se colocam na vida por meio da
agressividade. Apesar das bandeiras do feminismo terem transformado fortemente
a sociedade já na década de 1950, considero que nós, homens, começamos a nos
mexer só agora. O novo tipo de homem que esse mundo requer apenas começou a
surgir.
Nos dias seguintes ao discurso, Emma
sofreu ameaças por parte de criminosos virtuais que pretendiam divulgar suas
fotos íntimas na internet. É sintomático que a exposição do corpo da atriz seja
usada como uma represália por suas palavras?
Sérgio Barbosa: Quanto
mais as mulheres falam de seus direitos, maior é a reação conservadora por
parte de alguns homens. Há dois sentimentos aí: primeiro, de raiva, de não entender a perda desse
poder dominante na sociedade. Já que as feministas, desde Simone de Beauvoir,
passando por Joan Scott e chegando a Judith Butler, vão conquistando espaços,
estão mais preparadas, estudaram mais, os homens se ressentem de perder seu
lugar privilegiado. É uma reação de covardia e desespero. Outro sentimento é o
de insegurança. Porque a construção
da masculinidade é feita em cima de identidades não reais, de projeções de
força e de poder. E a história vem mostrando que essa construção na verdade só
prejudica o homem.
No discurso, Emma questiona por que “feminismo”
se tornou uma palavra impopular, associada a mulheres “agressivas, anti-homens,
não atraentes”. Por quê?
Sérgio Barbosa: O
feminismo é uma categoria analítica que critica essa dominação masculina e uma
palavra muito forte porque, uma vez tocado pelo feminismo, não é possível
recuar, não é possível abrir mão. Com todos os direitos que se colocam por trás
disso: direito à igualdade, à saúde, à reprodução. E a questão do corpo é tão
importante na expressão do feminismo justamente porque a sociedade tenta
dominar a mulher pelo uso do corpo, tentando vendê-lo e expô-lo ou criando a
partir dele uma situação vexatória para a mulher. É pelo corpo que posso
atingir ou reprimir. Dessa forma, o corpo, na perspectiva do feminismo, passa a
ser, além do “cárcere” da mulher, seu lugar de libertação, o que aparece em
slogans como “nosso corpo nos pertence” ou na declaração do corpo da mulher
como não mais um objeto de uso ou de venda de produtos.
Emma contou que, aos 8 anos, era
chamada de “mandona” por querer dirigir as peças de teatro na escola - o que
não ocorria com os meninos. Afirmação feita também pela cantora Beyoncé na
campanha I'm not Bossy; I'm the Boss
(Eu não sou mandona; sou a chefe). O machismo se constrói em casa?
Sérgio Barbosa: A
construção da cultura machista se dá antes mesmo do nascimento da criança, na
forma como os pais projetam quem serão seus filhos no futuro. A primeira
regulação dos papéis de gênero se dá no ambiente familiar, se enraíza durante a
infância e se cristaliza na adolescência. Fora de casa, todo um aparato na
educação, na saúde e na política vem para reforçar tais valores. A ideia
central é de que quem manda tem uma “postura masculina”. E que, então, não cabe
à mulher mandar, pois ela tem uma “postura suave”. É por isso que se uma mulher
quiser mandar ela tem que se “travestir” em homem, ou seja, se colocar como
figura masculina forte para ocupar o lugar do poder. Mas não é só isso. No terreno
sexual, ainda hoje é justificado e legitimado aos homens que tenham um
comportamento de garanhão, a ideia de um vigor sexual incontrolável que seria
quase “instintivo”. Enquanto isso, às meninas é ensinado que se reprimam, se
controlem, evitem certas palavras e poses - que “não se mostrem” socialmente,
em resumo. A menina que demonstra mais autonomia ou uma atitude de comando é
imediatamente tachada de mandona, machona, caprichosa, difícil. Basta abrir os
olhos e ver: isso ainda acontece por toda a parte, não só no Brasil. É um
hábito tão arraigado que os pais, mesmo liberais, nem se dão conta do que estão
reproduzindo.
A proposta do HeForShe - atrair os homens para a causa feminista com o argumento
de que eles também seriam beneficiados pela igualdade - faz sentido?
Sérgio Barbosa: Nós,
homens, sofremos de uma solidão muito grande. Em nenhum lugar há espaço para
conversarmos sobre nossas fraquezas. Somos os primeiros que sofrem com a
obrigatoriedade de ser durão, um John Wayne, ou alguém sem sentimentos, um
Homer Simpson. O que temos a ganhar com o feminismo? Em primeiro lugar, a
possibilidade de aceitar melhor as diferenças, ter uma visão mais ampla da
realidade, ser mais flexível. Mas também exigir menos de nós próprios, sermos
capazes de aprender com os erros e ganhar possibilidade da escuta, da
sensibilidade, da participação maior na vida dos filhos. Além disso, a
desigualdade de gênero afeta a qualidade de nossas relações amorosas, que se
transformam em verdadeiras competições entre parceiros, em que um não pode ser
também amigo do outro. Estou certo de que muitos casamentos hoje em dia só se
mantêm porque a mulher acaba por ceder, se torna silenciosa, invisível, omissa.
Que tipo de relacionamento pode surgir daí?
Certas vertentes do movimento
feminista sustentam que o debate sobre a causa deve ser protagonizado pelas
mulheres, e apenas por elas. É um contraste em relação ao HeForShe, que apela à participação masculina?
Sérgio Barbosa: Essas
vertentes defendem que as mulheres tomem a iniciativa na defesa de sua luta.
Mas isso não exclui a participação do homem. Pelo contrário. Claro que
historicamente os papéis de gênero foram definidos por uma lógica machista, e
quem precisa se libertar dessa lógica são elas. Mas os homens também vivem
submetidos pela lógica da dominação. É preciso entender que a conquista dos
direitos das mulheres não implica perda de direitos dos homens, mas na equidade
entre os sexos.
Há uma dificuldade no entendimento das
bandeiras feministas contemporâneas por parte dos homens? Na campanha Chega de Fiu Fiu, da jornalista brasileira
Juliana de Faria, outra iniciativa elogiada pela ONU, o assédio de mulheres em
espaços públicos era considerado por muitos mero “elogio”.
Sérgio Barbosa: Só na
cabeça de um homem educado no machismo um assobio, um grito ou uma buzinada na
rua podem ser considerados elogios. A mulher não é um objeto de conquista: esse
é o problema. Se você quer conhecê-la, pode fazer isso com uma conversa,
mostrando sua inteligência, seus argumentos. No fiu-fiu e na buzinada apenas se
rebaixa e constrange a mulher, colocando-a na posição de objeto para alimentar
seu ego, nada mais.
Na quarta-feira, a Anistia
Internacional divulgou nota sobre recentes casos de mortes de mulheres em
abortos clandestinos no Brasil e defendeu “a urgência do debate sobre o tema no
país”. De que maneira a questão, tão sensível no atual período eleitoral, se
articula com o tema da igualdade?
Sérgio Barbosa: A
dificuldade que se tem ao abordar o aborto no Brasil decorre evidentemente da
questão religiosa, que impõe uma determinada moral. Mas o fato é que a
proibição priva a mulher de ter autonomia sobre o próprio corpo. A questão
central é tornar a mulher livre de uma moral imposta de fora, pela sociedade.
E, neste período de eleições, exatamente como ocorre com a questão da
maioridade penal, o aborto reaparece sem uma argumentação séria por trás - com
o único objetivo de mexer com as emoções dos eleitores.
Como quebrar a resistência que ainda
existe à igualdade entre homens e mulheres?
Sérgio Barbosa: Políticas
públicas de conscientização, debates nos meios de comunicação ou nas novelas são
importantes. Mas, como disse, tudo
começa em casa: a postura dos pais em relação aos filhos é fundamental. Se
a criança vê desde cedo o pai e a mãe compartilharem tarefas domésticas,
cuidarem ambos de sua educação e de sua saúde, terem voz igual nas decisões na
família, o avanço é maior. Nós homens ainda estamos bem perdidos, num deserto
muito grande, passando por uma crise enorme por não entender por que essa nova
mulher nos ameaça. Mas a ameaça somos nós mesmos quando não entendemos a força
e a libertação que elas estão propondo à sociedade. Libertação, também, de nós
mesmos.
* Sérgio Flávio Barbosa é
filósofo e coautor do livro: Homens e
Masculinidades: outras palavras (Editora 34).
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