UM RETRATO REAL DO BRASIL - PNAD
O erro sem maquiagem do IBGE
JOSÉ
ROBERTO DE TOLEDO
Não há
hora certa para fazer bobagem, mas não poderia ter sido pior o momento para o
IBGE errar como errou na divulgação da PNAD 2013. Imediatamente o instituto
virou matéria prima para teorias da conspiração eleitorais. “Maquiagem” foi a
palavra da hora nas redes sociais. Mas foi
só incompetência mesmo.
O ônus
de admitir um erro dessa magnitude na reta final da sucessão presidencial é tão
grande que só uma “maquiagem” completa para embelezar os indicadores poderia
justificá-lo. Não foi o que aconteceu. Vários
indicadores ficaram mais feios:
- A renda, por exemplo, cresceu só 3,4% de 2012 para 2013 – muito menos do que os 5,1% divulgados na véspera.
- O analfabetismo caiu menos ainda (0,2 ponto, e não 0,4),
- a média de anos de estudo da população foi de 7,5 para 7,6 e não para 7,7 como se pensava.
O que
não ficou mais bonito tampouco ficou menos feio:
- a taxa de desemprego nacional cresceu mesmo, de 6,1% em 2012 para 6,5% em 2013.
- Se fosse para fazer uma cirurgia plástica nos dados, esse teria sido um número a sofrer lipoaspiração.
Um dos
poucos indicadores que melhorou foi o da desigualdade medida pelo índice de
Gini. Quanto menor, melhor. E o Gini de todas as fontes de renda caiu de 0,505
para 0,501 (antes de o erro ser detectado, tinha ficado igual). E o Gini da renda
de todos os trabalhos foi de 0,496 para 0,495 – em vez de 0,498. Ou seja, não
virou nenhuma Gisele Bundchen estatística.
Qual
foi o erro, então? A PNAD não é uma simples amostra da população brasileira.
Ela é uma série de amostras estaduais e regionais que depois são combinadas à
amostra nacional. O IBGE faz isso para poder extrapolar os resultados por
região metropolitana, por exemplo. É uma prática comum em pesquisas.
Em
eleição os institutos fazem isso quando querem pesquisar a intenção de voto
nacional para presidente e, ao mesmo tempo, saber como os paulistas vão votar
para governador, por exemplo. Amplia-se o tamanho da amostra em São Paulo
apenas, para aumentar a confiabilidade dos dados. Mas na hora de calcular a
taxa de intenção de voto para presidente em todo o Brasil, faz-se uma regra de
três para dar o peso correto à amostra paulista.
Segundo
o IBGE, alguém esqueceu de fazer isso com as amostras das regiões
metropolitanas de vários Estados. Assim, elas ficaram com um peso
desproporcionalmente grande na amostra do Brasil – por isso os dados
educacionais pareciam melhores do que eram de fato, já que a escolarização é
maior nas metrópoles.
Apesar
de tudo, foi importante o IBGE ter admitido o erro e publicado os resultados
certos com clareza – comparando-os aos errados, para todo mundo saber onde
estavam os problemas. A PNAD é o melhor termômetro do que acontece com o
Brasil. Sem saber se há febre ou não, é difícil acertar o diagnóstico e o
remédio.
O erro
amassou a reputação do IBGE, mas reconhecê-lo de pronto era a coisa certa a
fazer. Maquiagem seria tentar escondê-lo.
Veja
resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE feita
em 2013 com 362.555 pessoas em 1.100 municípios
PERFIL DA POPULAÇÃO BRASILEIRA
A Pnad de 2013 mostra uma tendência de envelhecimento da população brasileira. Dos 201,5 milhões de habitantes no país, 13% são idosos, ou seja, têm mais de 60 anos.
Outro destaque foi o aumento da proporção de solteiros no país: de 48,2% do total da população em 2012 para 49,2% em 2013. A definição de solteiro inclui pessoas com união estável ou que se casaram só no religioso.
Outro destaque foi o aumento da proporção de solteiros no país: de 48,2% do total da população em 2012 para 49,2% em 2013. A definição de solteiro inclui pessoas com união estável ou que se casaram só no religioso.
ANALFABETISMO NO BRASIL
A taxa de analfabetos no país teve queda após um ano de estagnação. O índice de brasileiros com 15 anos ou mais que não sabem nem ler e escrever era de 8,6% em 2011. Teve ligeira alta para 8,7% em 2012. E caiu para 8,5% em 2013.
Mas o número de pessoas com 10 anos ou mais que não têm instrução, ou estudaram menos de um ano, subiu de 15,3 milhões para 16 milhões.
Mas o número de pessoas com 10 anos ou mais que não têm instrução, ou estudaram menos de um ano, subiu de 15,3 milhões para 16 milhões.
Apesar da queda no índice de analfabetismo, a Pnad revela um aumento no número absoluto de pessoas com dez anos ou mais sem instrução ou com menos de um ano de estudos. Segundo os dados consolidados, esse número avançou 4,3%, de 15,34 milhões para 16,03 milhões, e em 2013 representou 9,3% do total da população com essa idade.
A porcentagem de brasileiros com quatro anos ou mais matriculados na escola aumentou em todas as faixas etárias, principalmente na idade pré-escolar. Em 2012, 3,80 milhões de pessoas entre 4 e 17 anos estavam fora da escola (ou 5,29% do total). No ano seguinte, esse número foi de 3,50 milhões, ou 4,94% do total da população nessa faixa etária. A quantidade de crianças de quatro e cinco anos na escola subiu de 78,1% para 81,2% entre 2012 e 2013. Porém, a taxa de escolarização varia de acordo com o estado, e em cinco deles o índice piorou no período analisado.
Escolas públicas perdem alunos para a rede privada
A Escola pública encolheu. A Pnad 2013 mostra que 76,5% dos estudantes estavam matriculados em alguma instituição pública. Em 2012, era 77,4% dos estudantes. Em um ano, foram 445 mil alunos a menos. Nesse período, os estudantes da rede particular passaram de 12,1 milhões para 12,6 milhões. A redução de matrículas na Escola pública tem se mostrado uma tendência – nos anos de 2004 e 2005,80,9% dos estudantes brasileiros estudavam em instituições municipais, federais ou estaduais. A partir de 2006, essa proporção começa a cair.
POSSE DE BENS
Em 2013, os domicílios brasileiros apresentaram aumento de carros (alta de 4,8%) e motos (1,4%) nas garagens. Outro destaque foi o crescimento de máquinas de lavar – são 7,8% mais residências com o eletrodoméstico.
Na contramão estão aparelhos de rádio (queda de 4,4%) e DVD (-2,8%). Os índices de fogão e TV dentro dos domicílios brasileiros ficaram estáveis.
Na contramão estão aparelhos de rádio (queda de 4,4%) e DVD (-2,8%). Os índices de fogão e TV dentro dos domicílios brasileiros ficaram estáveis.
ACESSO A INTERNET E POSSE DE CELULAR
Pela primeira vez, segundo a Pnad, mais da metade da população brasileira tem acesso a internet. A alta no número de pessoas conectadas foi menor do que em outros anos: menos de 1 ponto percentual entre 2012 e 2013.
O número de pessoas com celular no país manteve o crescimento, mas com alta menor na comparação com outros anos. Em 2012, 72,8% da população tinha o aparelho. Em 2013, o número subiu para 75,5%.
DESIGUALDADE DE RENDA
O Índice de Gini, que mede a distribuição da renda, passou de 0,496 em 2012 para 0,495 em 2013. A leve queda manteve a tendência decrescente do índice dos últimos anos. Esse índice é uma medida do grau de concentração de uma distribuição, cujo valor varia de zero (a perfeita igualdade) até um (a desigualdade máxima).
A Região Nordeste apresentou o maior nível de desigualdade na distribuição do rendimento do trabalho (0,523). No Piauí, foi registrado o pior resultado do país: 0,566.
Para que o índice mude, explica a presidente do IBGE, é preciso que os mais pobres, os que estão na base da pirâmide, tenham aumentos de renda numa velocidade maior do que quem está no topo.
MULHERES E HOMENS
O Índice de Gini também indicou que a distribuição de renda foi mais desigual entre os homens (0,503) do que entre as mulheres (0,477).
O maior nível de concentração da renda entre homens ocupados foi observado no Piauí (0,572), e o menor nível, no Amapá (0,432).
Entre as mulheres ocupadas, o maior nível de desigualdade no rendimento foi encontrado no Maranhão (0,564), e o menor nível, em Santa Catarina (0,381).
OCUPAÇÃO
A taxa de pessoas economicamente ativas (15 anos ou mais) era de 65,5%, em 2013. Isso indica estabilidade em relação a 2012 – o número era de 65,9%.
O total de pessoas desocupadas foi de 6,7 milhões em 2013, soma 7,2% maior do que em 2012. Com exceção do Sul, que teve redução de 2,2%, em todas as regiões houve aumento da desocupação, principalmente nas regiões Norte (alta de 17,2%) e Centro-Oeste (11%).
Pessoas ocupadas
A taxa de pessoas economicamente ativas (15 anos ou mais), em relação ao total da população da mesma faixa etária, era de 65,5% em 2013, o que indica estabilidade em relação a 2012, quando havia sido de 65,9%. Em comparação com 2008, a queda do indicador foi de 3,1 pontos percentuais. No grupo de economicamente ativas entram tanto as pessoas ocupadas quanto as desocupadas.
A taxa de pessoas economicamente ativas (15 anos ou mais), em relação ao total da população da mesma faixa etária, era de 65,5% em 2013, o que indica estabilidade em relação a 2012, quando havia sido de 65,9%. Em comparação com 2008, a queda do indicador foi de 3,1 pontos percentuais. No grupo de economicamente ativas entram tanto as pessoas ocupadas quanto as desocupadas.
A Pnad mostrou uma tendência de menor participação na força de trabalho de jovens entre 15 e 29 anos. Em 2012, Entre as pessoas acima de 30 anos de idade, houve elevação.
A população ocupada totalizou 95,9 milhões de pessoas em 2013, o que representou um crescimento de 0,6% na comparação com 2012.
Renda média
O rendimento médio real de todos os trabalhadores em 2013 foi estimado em R$ 1.681 por mês, valor 5,7% superior à média verificada em 2012 (R$ 1.590) e 29,3% superior à média de 2001 (R$ 1.300).
O rendimento médio real de todos os trabalhadores em 2013 foi estimado em R$ 1.681 por mês, valor 5,7% superior à média verificada em 2012 (R$ 1.590) e 29,3% superior à média de 2001 (R$ 1.300).
Em 12 anos, os trabalhadores viveram dois momentos distintos: de 2001 a 2004 houve perdas anuais na renda e, de 2005 a 2013, ganhos reais.
No ano passado, as maiores médias foram registradas no Distrito Federal (R$ 3.114) e em São Paulo (R$ 2.083), enquanto no Ceará (R$ 1.019), no Piauí (R$ 1.037) e em Alagoas (R$ 1.052) observaram-se as médias mais baixas.
Homens e mulheres
Em 2013, as mulheres receberam, em média, 73,7% do salário dos homens. Em 2012, essa proporção era de 72,8%. O rendimento médio dos homens no ano passado foi de R$ 1.890 por mês e o das mulheres, R$ 1.392.
Em 2013, as mulheres receberam, em média, 73,7% do salário dos homens. Em 2012, essa proporção era de 72,8%. O rendimento médio dos homens no ano passado foi de R$ 1.890 por mês e o das mulheres, R$ 1.392.
A menor diferença da renda média por sexo foi vista no Amapá, onde as mulheres receberam 98,2% do salário dos homens. A maior foi observada em Santa Catarina, onde as trabalhadoras tiveram 64,1% do ganho deles.
Carteira assinada
Formado por 36,8 milhões de pessoas em 2013, o total de empregados com carteira de trabalho assinada no setor privado teve acréscimo de 1,3 milhão de trabalhadores em relação ao ano anterior. Isso significa um aumento de 3,6% de um ano para o outro e expansão de 9,9 pontos percentuais frente a 2001.
Formado por 36,8 milhões de pessoas em 2013, o total de empregados com carteira de trabalho assinada no setor privado teve acréscimo de 1,3 milhão de trabalhadores em relação ao ano anterior. Isso significa um aumento de 3,6% de um ano para o outro e expansão de 9,9 pontos percentuais frente a 2001.
O número de trabalhadores domésticos com carteira assinada subiu 11,38%, passando de 1,92 milhão, em 2012, para 2,14 milhões, no ano seguinte.
Trabalho infantil
No ano passado, 486 mil crianças de 5 a 13 anos estavam em situação de trabalho infantil, sendo 333 mil meninos e 153 mil meninas. Em comparação com o ano passado, a queda foi de 13,36%. A maior parte dessas crianças (63,8%) estava na agricultura.
No ano passado, 486 mil crianças de 5 a 13 anos estavam em situação de trabalho infantil, sendo 333 mil meninos e 153 mil meninas. Em comparação com o ano passado, a queda foi de 13,36%. A maior parte dessas crianças (63,8%) estava na agricultura.
A legislação brasileira proíbe o trabalho de crianças e adolescentes menores de 16 anos. Entre 14 e 16 anos é possível exercer atividades remuneradas apenas na condição de aprendiz.
O país tinha 3,1 milhões de trabalhadores de 5 a 17 anos de idade no ano passado, número 12,3% menor do que no ano anterior. Isso significa menos 438 mil crianças e jovens nessa condição.
Segundo o IBGE, em termos percentuais, a queda mais relevante se deu entre crianças de 5 a 9 anos, de 29,2%, ou seja, menos 24 mil trabalhadoras de 2012 para 2013.
Em números absolutos, a maior queda foi entre adolescentes de 14 a 17 anos: menos 362 mil trabalhadores.
O ganho médio das pessoas entre 5 e 17 anos foi estimado em R$ 557 por mês em 2013. Elas trabalharam, em média, 27 horas por semana.
Fonte: Portal G1 - Economia - PNAD Resultados 2013 - Internet: clique aqui.
Sinais alarmantes na área social
Naercio Menezes Filho*
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Naercio Menezes Filho - economista |
Os
dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) sempre trazem
informações bastante interessantes. A vantagem da Pnad com relação à PME
(Pesquisa Mensal de Emprego), por exemplo, é que as informações são
representativas a nível nacional, ao passo que as da PME abrangem somente as
principais regiões metropolitanas do Brasil. Além disso, a Pnad abrange também
o setor informal da economia, enquanto os dados da Rais/Caged (Ministério do
Trabalho e Emprego) cobrem somente o setor formal. A desvantagem da Pnad é que
precisamos aguardar mais tempo para obtermos um retrato fidedigno da situação
do País.
O que mostram os novos resultados? Em
primeiro lugar, notamos que houve um pequeno aumento da taxa de desemprego no
País como um todo. Isso indica que o desaquecimento da economia brasileira pode
estar chegando ao mercado de trabalho. Vale notar, porém, que o aumento do
número de pessoas com emprego com relação a 2012 indica que esse aumento do
desemprego ocorreu principalmente em razão do aumento do número de pessoas que
ingressaram no mercado de trabalho e estão à procura de emprego. Os dados da
pesquisa mostram avanço do desemprego na Região Norte do País e também em São
Paulo.
O
desemprego em São Paulo parece estar refletindo a grave crise da indústria no
País. É notória a dificuldade que os empresários industriais estão encontrando
para aumentar sua produtividade e conseguir conquistar novos mercados.
Interessante notar também que o salário real médio continua aumentando, apesar
do aumento do desemprego. Mas o aumento de rendimento foi um pouco maior entre
os que recebem salários maiores do que entre os que ganham menos, o que
contribuiu para um pequeno aumento da desigualdade.
Quebra de tendência
Vários
fatores podem estar explicando essa quebra na tendência de redução da
desigualdade que vínhamos observando nos últimos anos na economia brasileira.
Em primeiro lugar, o aumento real do salário mínimo foi bem menor entre o
período de 2012 e 2013 do que nos anos anteriores. Nos últimos dez anos, o
aumento do salário mínimo provocou um forte aumento da renda dos trabalhadores
que ganham menos.
Como o
salário dos trabalhadores mais qualificados ficou basicamente estagnado, a
desigualdade de renda declinou. No entanto, entre 2012 e 2013 a renda dos
trabalhadores que ganham menos aumentou 3,5%, ao passo que a dos trabalhadores
com maiores salários aumentou 6,4%.
Outro
fator que pode estar influenciando a desigualdade de renda é o próprio
desaquecimento do mercado de trabalho. Nos últimos anos, o intenso crescimento
da renda dos trabalhadores com menos qualificação ocorreu também em razão do
crescimento que foi puxado pelo setor de serviços. Havia um círculo virtuoso
nesse setor.
Os
trabalhadores que obtiveram aumentos na renda familiar (em razão do salário
mínimo e das transferências feitas pelo governo) passaram a consumir mais
serviços (por exemplo, cabeleireiros, mecânicos, restaurantes) e a construir
mais casas.
Esses
setores empregam justamente os trabalhadores não qualificados. Como a oferta de
jovens menos escolarizados está caindo (em razão do avanço educacional na
última década), seu salário aumentava mais do que o dos trabalhadores mais escolarizados. Entretanto, a redução do aumento real do salário mínimo e o
desaquecimento do mercado de trabalho podem estar sugerindo que esse processo
está chegando ao fim.
O que
podemos fazer para que a desigualdade continue a declinar?
[1º] É necessário, em
primeiro lugar, melhorar o gerenciamento macroeconômico da economia para que o
Produto Interno Bruto (PIB) volte a crescer e, com isso, o salário mínimo volte
a aumentar.
[2º] Além
disso, é preciso aumentar a produtividade do trabalho na indústria e no setor
de serviços, para que o aumento de salários não provoque uma inflação.
[3º] Por
último, é necessário melhorar mais rapidamente a qualidade da Educação no
Brasil, para aumentar a produtividade de nossos trabalhadores.
No
entanto, os últimos resultados do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) mostram que essa melhoria na qualidade da educação não está
acontecendo. Assim, as perspectivas futuras não são nada boas.
* É professor titular - Cátedra IFB e coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper e professor associado da FEA-USP.
Fonte: O Estado de S. Paulo – Especial –
Sexta-feira, 19 de setembro de 2014 – Pg. H6 – Internet: clique
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