O FUTURO DE NOSSA SOCIEDADE EM DEBATE...
“O capitalismo se transformará
totalmente no século XXI”
Entrevista com Jeremy
Rifkin
Manuel González Pascual
Cinco Días
22-09-2014
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Jeremy Rifkin |
Advertiu
na década de 1990 que a crescente produtividade proporcionada pelas novas
tecnologias geraria um desemprego estrutural insolúvel, a menos que se
reduzisse a jornada de trabalho (O fim dos empregos. Makron Books,
1995). Começou esta década falando de A Terceira Revolução Industrial (Makron
Books, 2011), estágio para o qual nos precipitamos com a convergência de novas
formas de comunicação e novas fontes de energia (o telefone, possível graças à
eletricidade, e o petróleo, que, por sua vez, condicionou o modelo de
transporte, serão ultrapassados pela combinação internet-energias renováveis).
Jeremy Rifkin (Denver,
1943) completa este ano a teoria que esboçou com seu novo livro, A
sociedade de custo marginal zero (edição espanhola: Paidós), obra que
acaba de apresentar em Madri, convidado pela Fundação Rafael del Pino.
O
influente pensador destacou nessa ocasião que, pela primeira vez na história, os três eixos sobre os quais se apoiam os
modelos de desenvolvimento (comunicação, energia e transportes) estarão
entrelaçados entre si graças à internet. Esta nova situação abre as portas
para o que o assessor da chanceler Angela Merkel e do primeiro ministro chinês
Li Kequiang, entre outros, chama de economia
colaborativa.
Eis a entrevista.
O livro começa com uma afirmação contundente.
Na primeira página você diz: “...o capitalismo continuará a fazer parte do
panorama social, mas duvido que seja o paradigma econômico dominante durante a
segunda metade do século XXI”.
Jeremy Rifkin: Perfeitamente.
Nunca pensei que veria isto em vida. Estamos presenciando os primeiros traços
da economia colaborativa. Milhões de jovens de todo o mundo são prossumidores [simultaneamente
produtores e consumidores] que compartilham sua própria música, vídeos, blogs,
livros e outros serviços a um custo próximo a zero. O fenômeno das
universidades a distância permite assistir a aulas dos melhores professores do
mundo a um custo ridículo. Os domicílios podem ser energeticamente
autossuficientes e, em alguns países, vender sua energia não consumida. Em
poucos anos, as crianças aprenderão a usar as impressoras 3D nas escolas.
Nestes dias vimos em funcionamento o primeiro carro impresso com uma destas
máquinas. Observe que em todos estes casos intervêm apenas empresas.
Acredita, então, que o capitalismo
morrerá de êxito?
Rifkin: A própria essência do
sistema, a famosa mão invisível, baseia-se no emprego da tecnologia para
reduzir os custos marginais para aumentar a produtividade e a competitividade.
Acontece que nunca ninguém imaginou que chegaríamos a uma situação em que os
custos marginais fossem zero ou praticamente zero. É o grande paradoxo do
capitalismo: sempre quisemos que a mão invisível fizesse seu trabalho, mas o
fez tão bem que vai levar o sistema ao colapso. Trata-se da primeira mudança de
paradigma desde o surgimento do capitalismo e do socialismo no século XIX. As
fronteiras entre o atual sistema e a economia colaborativa são difusas; no
momento, uma se beneficia da outra, mas creio que para meados do século o
capitalismo terá se transformado completamente.
Você menciona no livro que empresas
como a Siemens, Cisco ou a IBM se
interessaram por suas teorias. O que lhe perguntaram?
Rifkin: Deram-se conta de que a
Segunda Revolução Industrial está definitivamente em seus últimos ajustes. Um
dos sinais foi quando, em julho de 2008, o barril do Brent atingiu os 147
dólares. O crescimento do PIB diminuiu muito e o desemprego aumentou. Estas
companhias se interessaram pelo que chamo de internet das coisas [a união em uma mesma rede dos sistemas de
comunicação, energia e transporte]. Os modelos comerciais verticalmente
integrados e intensivos em capital, necessários para poder desenvolver infraestruturas
tão caras como as que necessitava um sistema baseado no petróleo, darão lugar a
sistemas distributivos que sejam acessíveis a todos. Tenha em conta que
qualquer indivíduo terá acesso, graças ao Big Data, à mesma informação que até
agora era entesourada pelas companhias. Trata-se de um tremendo avanço: todas
as pessoas poderão participar do sistema econômico. Será a democratização da vida
econômica.
O cenário que propõe soa como muito
positivo.
Rifkin: Não acredite, também
haverá muitos desafios. Tudo isto também representa uma ameaça à segurança, de
variadas formas. O terrorismo, por exemplo, gozará de mais oportunidades que
agora. E pode ser que surjam monopólios, como aconteceu, por exemplo, com a
AT&T no começo do século passado, na época da implantação das linhas de
telefone nos Estados Unidos. Talvez devêssemos nos perguntar se a internet pode
ser considerada um bem público e, portanto, deveria ser regulada de outro modo.
Participo ativamente de reuniões com a União Europeia para ver como se pode
manter a neutralidade das redes. O Google,
o Facebook e o Twitter são serviços sociais globais que parecem monopólios. Geram
muitíssimo dinheiro e ao mesmo tempo ajudam outras indústrias a entrar em
colapso, como a editorial ou a jornalística, na que você e eu trabalhamos.
Que poder de manobra teriam as
companhias para não se marginalizarem?
Rifkin: Creio que têm que
aprender a desenvolver-se nos dois modelos. O capitalismo não vai desaparecer.
As casas podem ser impressas; na China já há máquinas capazes de levantar 10
casas em 24 horas, mas as grandes infraestruturas ainda precisam ser feitas ao
modo antigo. E o mesmo acontece com muitos outros produtos. A economia digital
vai se mover do mundo virtual ao físico, e muito rapidamente. Um exemplo
claríssimo é a energia. Nas energias renováveis, a rentabilidade das
instalações é exponencial. Têm custos fixos elevados, mas os marginais tendem a
zero. Produzir um watt de energia solar custava 66 dólares em 1997. Hoje custa
66 centavos. Mas o mais significativo é que há milhões de pequenos produtores
(cooperativas, domicílios, escolas...) que podem colocar em comum a própria
energia e fugir do jugo das grandes companhias. Simplesmente porque é mais
barato e existe a tecnologia para isso.
“O
caso da Espanha é o mais trágico do mundo”.
Rifkin
não oculta sua decepção com a mudança de rumo adotada por Moncloa sobre as
energias renováveis quando Mariano Rajoy assumiu o poder.
Rifkin: “O caso da Espanha é,
talvez, o mais trágico do mundo. Durante algum tempo esteve junto com a
Alemanha liderando a promoção das energias renováveis, mas veio a grande
recessão e voltou a apostar no petróleo e no gás”, lamenta aquele que foi o assessor
de José Luiz Rodríguez Zapatero. “Perderam cinco preciosos anos, e se passarem
outros cinco, hipotecarão uma geração inteira”, sustenta.
“Rajoy
refere-se às energias renováveis como se fossem uma fantasia. Então, por que a Alemanha está apostando tão forte
nelas? Ali, 27% da energia já é solar e eólica. Houve um dia de maio em que
representou 75% da energia. O custo marginal foi tão baixo que se alcançaram
preços negativos! A China investirá
82 bilhões de dólares em quatro anos para desenvolver uma rede de internet
energética, para que os cidadãos possam produzir e compartilhar sua própria
energia. Tudo isto está acontecendo”, destaca.
Traduzido
do espanhol por André Langer.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos –
Notícias – Sexta-feira, 26 de setembro de 2014 – Internet: clique
A História está longe de ter
chegado ao fim
ALINA ROCHA MENOCAL*
FOREIGN POLICY
Eventos
recentes mostram que as democracias, para se sustentarem, precisam mais do que
direito ao voto
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Francis Fukuyama - cientista político |
Vinte e
cinco anos atrás, poucos meses antes da queda do Muro de Berlim em novembro de
1989, Francis Fukuyama publicou o
que se tornou um dos artigos mais debatidos e citados do fim do século 20.
Em O Fim
da História? (o título perdeu o ponto de interrogação quando foi
publicado como livro em 1992), Fukuyama
celebrou o triunfo global da democracia e do capitalismo, uma tese que ele
reiterou recentemente em um editorial publicado no Wall Street Journal. "A democracia liberal continua sem uma
concorrência real", proclamou.
A
reafirmação do otimismo original de Fukuyama é particularmente notável se
pensarmos no quanto a democracia se vê combalida atualmente.
É
verdade que houve uma transformação fundamental na natureza dos regimes políticos
em todo o mundo. Hoje, a maioria dos países é governada por democracias eleitorais formais,
correspondendo a dois terços da população mundial. E praticamente todos os
países realizam eleições - e o número de mulheres nos parlamentos é o maior já
visto.
Mas, longe de chegar ao fim, a História
parece estar voltando com sede de vingança. Apesar dessas guinadas
importantes nas estruturas políticas formais, apenas um pequeno número das democracias que emergiram nas três décadas
passadas conseguiu estabelecer raízes profundas. Em vez disso, muitas delas
ficaram presas na transição, ocupando
uma zona cinzenta entre o autoritarismo aberto e a democracia plena (a
Rússia de Putin é apenas um exemplo notório do tipo). De acordo com a Freedom House, a liberdade global teve
queda em todos os anos desde 2005, enquanto as instituições democráticas
continuam ocas, rasas e fracas.
Os
eventos recentes no Egito e na Líbia mostram que é mais fácil derrubar
um ditador do que estabelecer uma democracia efetiva. A construção de instituições
liberais se mostrou um desafio complicado e prolongado que traz a probabilidade
de atrair turbulência e contestação consideráveis. O resultado nunca é
garantido.
Destacando
os tumultos recentes da Ucrânia à Faixa de Gaza, uma recente publicação do Fundo Carnegie para a Paz Mundial
questionou se o mundo estaria ruindo. Esse pessimismo lembra mais as sombrias
conclusões do historiador da economia e sociólogo Karl Polanyi em A Grande Transformação, sua clássica
análise do deslocamento social, político e econômico que resultou do colapso da
civilização do século 19, parecendo distante do mundo pós-ideológico cuja chegada foi anunciada por Fukuyama.
Desilusão
O que deu errado no sonho do potencial
transformador da democracia? Chama a atenção a desilusão
generalizada com a capacidade da democracia de oferecer bens e serviços
públicos, benefícios que o povo espera de seus governos.
Enquanto
a capacidade dos Estados permanece persistentemente fraca, especialmente nas
democracias novas e emergentes, um
número cada vez maior de cidadãos espera serviços melhores e mais capacidade de
resposta às suas necessidades e exigências. Como mostram nossas pesquisas recentes
no Overseas Development Institute
(ODI), o público tende a valorizar a democracia e as liberdades políticas
principalmente em termos instrumentais:
como é o desempenho das democracias? Elas proporcionam os níveis esperados
de crescimento econômico, atendimento de saúde e ensino? A incapacidade de
"fazer sua parte" de muitas democracias as submeteu a um desgaste
considerável.
Quando
Fukuyama escreveu seu ensaio pela primeira vez, em 1989, não havia no horizonte
nenhuma alternativa crível para a democracia liberal. Mas isso mudou. A extraordinária ascensão da China
transformou-a num modelo de desenvolvimento concorrente. África do Sul,
Etiópia e Ruanda também emergiram como exemplos das superioridades dos sistemas
de partido hegemônico e governo autoritário na produção de crescimento
econômico.
Mas os
defensores da autocracia tendem a
ocultar alguns pontos fundamentais. Não
é necessariamente evidente que um sistema autoritário terá sempre o interesse
de desempenhar um papel positivo no processo de desenvolvimento. A História
está repleta de exemplos de Estados autoritários predadores ou
antidesenvolvimentistas na África, Ásia, Leste da Europa, América Latina e
ex-União Soviética. Apostar na sua suposta superioridade é um grande perigo:
nunca podemos saber a priori se os fins justificarão os meios.
Na
verdade, esperamos que as democracias incipientes sejam demasiadamente
eficientes sem dar a elas tempo o bastante. A simples realização de eleições
não pode trazer a cura para os problemas políticos e sociais mais profundos
enfrentados pelos governos de muitos países em desenvolvimento. As eleições
trazem o potencial de aprofundar a qualidade da governança democrática, mas são
também um instrumento relativamente grosseiro para a representação e podem ter
limites importantes. Como destacou a revista The Economist, freios e
contrapesos robustos são tão importantes para o estabelecimento de uma
democracia saudável quanto o direito ao voto.
O
fortalecimento de uma cultura na qual a
democracia seja valorizada enquanto processo, e não apenas nos termos do seu
sucesso em proporcionar benefícios materiais, exige tempo. Vale lembrar
que, quando a Europa passou pela "Primavera dos Povos", em 1848,
foram necessárias várias gerações para que a democracia se instalasse de vez. O
modelo democrático liberal enfrentou problemas novamente nos anos 20 e 30,
quando fascismo e comunismo se tornaram modelos atraentes para muitos dos que
tinham se desiludido com o funcionamento dos sistemas políticos (democráticos)
- e as consequências foram horríveis.
Hoje, a democracia perdeu o brilho não
apenas no mundo em desenvolvimento, mas também entre os países ricos do
Ocidente. O choque da crise
financeira de 2007 a 2008 e a crescente preocupação com o aprofundamento da desigualdade estão
contribuindo para aumentar a insatisfação com a qualidade da representação
democrática - sentimentos que encontraram expressão em todo o espectro
político, desde o Tea Party americano
e os movimentos Occupy em vários
países até os populistas anti-Bruxelas
na União Europeia.
Um novo
estudo que analisa quase 2 mil iniciativas de políticas do governo americano
entre 1981 e 2012 revela que os Estados Unidos se tornaram algo mais parecido
com uma oligarquia do que com uma democracia. E um levantamento feito em 2012
em sete países europeus descobriu que mais
da metade dos eleitores dizia "não confiar no governo". Esta
alienação generalizada em relação ao establishment político, especialmente
entre a classe média e a juventude, mostra que as pessoas exigem mais do que apenas eleições a intervalos de poucos
anos. Elas querem ter voz para decidir o que seus governos fazem e,
principalmente, como o fazem.
Isso só
mostra que o caminho para forjar uma democracia é inevitavelmente difícil - uma
luta contínua que envolve avanços e retrocessos. E a democracia não pode ter
sucesso sem compromisso e liderança vindos de cima e de baixo.
Mas não
devemos concluir que o modelo democrático perdeu seu apelo. Os processos
democráticos abriram novas oportunidades para a participação e a alternância no
poder, ao mesmo tempo mostrando que são capazes de produzir resultados em
países tão diferentes quanto Brasil, Gana e, mais recentemente, Tunísia. Mesmo
nos locais em que a democracia não conseguiu se enraizar, como no Egito, o
panorama político foi alterado de maneira irrevogável e jamais voltará ao ponto
de partida.
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Alina Rocha Menocal |
Anseios
Os
cidadãos têm hoje expectativas significativamente maiores e, mesmo no Oriente
Médio, isso deve levar a sistemas mais capazes de responder aos anseios
populares no longo prazo. O poder de atração da China pode ser forte, mas o
modelo do país também oculta os problemas mais profundos, dos quais a
desigualdade é apenas um entre muitos.
Mas o
triunfo da democracia está longe de ser garantido. Expectativas mais altas são
também mais difíceis de atender. Os sistemas
de clientela continuam existindo e podem até ser fortalecidos nos novos
sistemas democráticos na ausência de freios, contrapesos e mecanismos de
responsabilidade suficientemente fortes.
Assim
sendo, é certo que não chegamos ao fim da História. Mas a maioria dos países do
mundo atual reconhece a primazia das formas democráticas, algo que não estava
muito claro algumas décadas atrás.
Por mais imperfeitas que sejam, essas
democracias emergentes vieram para ficar. Descobrir como dar a elas
mais substância pode se tornar o principal desafio do século 21.
* Alina Rocha Menocal é
pesquisadora do Overseas Development Institute.
Traduzido
do inglês por Augusto Calil.
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