O ESTADO ESTÁ EM CRISE NO BRASIL!
PSDB não soube atuar na oposição, afirma Giannotti
PEDRO VENCESLAU
Entrevista com José
Arthur Giannotti (Filósofo)
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José Arthur Giannotti - Filósofo |
Referência
teórica entre integrantes do PSDB - é muito próximo do ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso -, o filósofo José Arthur Giannotti diz que o partido não conseguiu se articular como
oposição durante os governos petistas, razão pela qual está virtualmente
fora do 2.º turno da eleição presidencial.
Para o
futuro, o filósofo prevê uma divisão
ideológica entre os tucanos. De um lado, mais à esquerda, José Serra, líder nas pesquisas para a
vaga paulista no Senado. De outro, mais à direita, o governador Geraldo Alckmin, favorito na disputa
pelo Palácio dos Bandeirantes. Aécio
Neves, diz Gianotti, deixará o topo da pirâmide partidária.
Como explica o fato de Marina Silva
ter roubado do PSDB os eleitores antipetistas, como mostram as pesquisas de
intenção de voto da disputa presidencial?
Giannotti: Em
primeiro lugar é preciso esclarecer que sou um "tucanoide", e não um
tucano. Já fui petista e agora meu voto é útil. Estávamos com um cenário
polarizado entre PT e PSDB. Mas o PT veio para o centro, se corrompeu e criou
uma situação em que o adversário não existia como força política. Quando você não tem uma oposição
organizada, em geral quem ocupa esse espaço é uma dissidência da própria base
aliada (como ocorreu com Eduardo
Campos e Marina Silva, ex-ministros do governo Lula). O PSDB não conseguiu
se articular como oposição.
Por quê?
Giannotti: Porque
não teve discurso. Na medida em que o PT foi para o centro, ele roubou o
discurso do PSDB. O PT virou o grande interlocutor com as forças capitalistas e
populares, o que era o projeto da social democracia.
Mas embora tenha sempre poupado o
ex-presidente Lula, Aécio se posicionou claramente como candidato de oposição a
Dilma durante a campanha...
Giannotti: Ficou
com uma imagem meio ambígua. Tanto é assim que ele precisa agora sair correndo
para Minas Gerais para salvar a candidatura que ele apoia. Aécio não afirmou uma liderança realmente decisiva. E no Senado
demorou. A oposição ficou apenas verbal e não teve força para fazer a luta
política entre amigos e inimigos. Quando isso acontece, ou há dissidência na
base aliada ou surge a demanda por um salvador da pátria. Já assisti ao
Fernando Collor e ao Jânio Quadros.
Dá para compará-los com Marina, como
fez Dilma?
Giannotti: Não,
mas dá para lembrar deles na medida em que vem alguém religiosamente para
salvar a pátria e depois tem uma enorme complicação na montagem do governo. A Marina não é um Collor, mas no sistema
ela estava isolada. Não soube organizar o partido dela, a Rede, e foi obrigada a se aliar ao
Eduardo Campos. Quando o avião cai, ela se acha predestinada a salvar a pátria
e começa com esse discurso. A partir do desastre, ela lembra Jânio e Collor ao
dizer que veio para salvar a pátria. O resultado é que o Aécio começou a
murchar. Ao meu ver, essa tendência é irreversível. Agora temos um problema muito sério: uma crise de Estado.
Há uma crise de Estado?
Giannotti: Nossos
analistas, que estão fortemente marcados pelo sociologismo, não veem essa
crise. Quem viu e disse isso foi uma jurista, a Carmem Lúcia. Uma crise de Estado acontece quando você
decide em cima e a decisão não chega embaixo. E o Estado, dessa forma, não
funciona. Já temos uma crise de decisão. Ela continua se Dilma ou Marina
vencerem.
E se o Aécio vencer?
Giannotti: O
Aécio não vai ganhar.
Como seria um segundo mandato de
Dilma?
Giannotti: O PT e
particularmente o Lula vão interferir muito mais no governo. Ele vai interferir
na política econômica. Já obrigou a Dilma a dizer que o novo governo terá uma
nova equipe.
E o governo Marina?
Giannotti: Ela
teria que organizar sua base e sua equipe de governo. Obviamente não vai
precisar desta base aliada enorme que destruiu o Estado para ser construída e
criou 39 ministérios. Nem a Dilma lembra quais são os ministros. Marina precisa
encontrar uma nova funcionalidade.
O que será do PSDB depois da eleição?
Giannotti: Teremos
um PSDB estilhaçado, mas tenho a impressão que o partido sairá com governadores
e senadores fortes.
Aécio deixará de ser a grande
liderança tucana nacional?
Giannotti: Ele
voltará ser o que sempre foi: uma liderança do PSDB, mas não mais a ponta da
pirâmide. Ideologicamente, o partido aparece com duas pontas: o Alckmin bem
mais à direita e o Serra bem mais à esquerda.
Aécio disse que, em caso de derrota,
vai para a oposição. Acha que isso vai acontecer?
Giannotti: Tenho
a impressão que não. Nem ele nem o PSDB. Ele vai compreender que para fazer o
antipetismo é preciso que ele apoie a Marina. Há um fenômeno interessante. O antipetismo está bem instalado na
política brasileira hoje. É uma tremenda força. E não venham dizer que é
esquerda contra direita.
A pauta evangélica tem grande peso na
campanha presidencial. Como avalia isso?
Giannotti: Estamos
assistindo à montagem de uma enorme bancada evangélica. Quando há uma crise de Estado, os conflitos religiosos aparecem.
Quando não há uma estrutura do poder central organizando a sociedade, Deus
aparece como o centralizador. Isso está evidente no Oriente Médio. O avanço evangélico é um sintoma da crise
de Estado.
O fato de a Marina ser evangélica pesa
nesse sentido?
Giannotti: Isso
colabora para que ela venha na onda da salvação da pátria e do Estado.
Por que as manifestações de junho não
formaram líderes ou candidatos?
Giannotti: Movimento
popular desse tipo é como fogo-fátuo. Ele surge e desaparece. Essas redes
sociais são extremamente importantes, mas não criam líderes. As lideranças
políticas são, na verdade, formadas pelo processo partidário.
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