MUDANÇAS CLIMÁTICAS NO MUNDO
“Para evitar conflitos,
é preciso enfrentar mudanças climáticas em tempo hábil”
Entrevista com Christiana Figueres
Irene Quaile
Deutsche Welle
23-09-2014
A
convite do secretário-geral da ONU, Ban
Ki-moon, cerca de 120 chefes de Estado e de governo participam da Cúpula do Clima das Nações Unidas nesta
terça-feira (23/09), em Nova York. O encontro acontece sob o impacto das
manifestações pela proteção climática que mobilizaram centenas de milhares de
pessoas em diversos países no último fim de semana.
Em
entrevista à Deutsche Welle, Christiana
Figueres, chefe da Convenção do
Clima da ONU, fala sobre a importância da reunião em Nova York. Ela afirma que é necessária ação política
em todos os níveis – internacional, nacional e local. As mudanças
climáticas já estão relacionadas a vários conflitos no mundo e se tornaram “o maior desafio da humanidade”,
diz.
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Christiana Figueres - chefe da Convenção do Clima da ONU |
Eis a entrevista.
Qual a finalidade de uma cúpula do
clima extraordinária e como ela se encaixa nas conferências climáticas anuais?
Christiana Figueres: As
conferências anuais se destinam a um acordo climático vinculativo, que deverá
ser fechado no próximo ano, em Paris. Na cúpula em Nova York, não haverá
negociações. Trata-se de uma tentativa de impulsionar o processo formal, de
fortalecer a vontade política e a consciência pública. É uma boa oportunidade
para chefes de Estado e líderes empresariais apresentarem seus planos.
O secretário-geral da ONU, Ban
Ki-moon, pediu aos participantes que preparassem para o encontro anúncios
corajosos e compromissos de ação. O que você espera disso?
Christiana Figueres: Muitos
governos vão relatar sobre projetos já iniciados, sobre suas pretensões para
reduzir as emissões de gases tóxicos, sobre como querem preparar sua
infraestrutura para os efeitos das mudanças climáticas.
Do
setor privado, esperamos o mesmo: queremos saber qual será a sua contribuição
para reduzir as emissões. Estamos particularmente interessados em como esse
setor pretende transferir o seu capital em prol de produtos e serviços de baixa
emissão de CO2, para que possamos acelerar a mudança global com vista
a uma economia de baixas emissões de gases tóxicos.
Esperam-se anúncios significativos do
país anfitrião EUA ou da China, país-chave para o clima?
Christiana Figueres: Sim.
Acreditamos que todos os países vão mostrar as suas propostas formais para as
negociações no próximo ano. No entanto, eles ainda têm até março de 2015 para
isso. Eles deverão dar apenas uma ideia de quais serão suas contribuições. Eles
já estão calculando em âmbito nacional o que é possível fazer em termos
financeiros, políticos, econômicos e técnicos.
O fato de a cúpula acontecer nos EUA
pode ter alguma influência sobre a posição dos americanos e sobre a política
climática?
Christiana Figueres: No
segundo mandato de [Barack] Obama, viu-se um maior engajamento com relação à
questão do clima. O pedido do presidente à agência ambiental americana EPA por
uma maior regulação das usinas elétricas é provavelmente o projeto mais
ambicioso que o governo americano já empreendeu em relação ao clima.
Esperamos
que Obama anuncie como pretende seguir adiante com esses esforços. É muito
interessante que uma grande marcha pelo clima tenha acontecido em solo
americano apenas dois dias antes da cúpula. Isso mostra que, mesmo nos EUA, há um grande apoio da
opinião pública à política climática global.
Esse tipo de movimento é o que precisamos
para avançar com a proteção climática?
Christiana Figueres: Ele é
um fator muito importante. Sou muito grata aos organizadores da manifestação. É
extremamente importante transmitir um forte sinal de que a responsabilidade não é somente de governos e empresas, mas também da
sociedade civil. Ela precisa manifestar a sua consciência ambiental e suas
preocupações, incentivando países e firmas a mudar o mais rápido possível para
uma economia de baixas emissões.
Diante da dificuldade nas negociações,
cidades e regiões devem exercer um papel mais importante nessa mudança?
Christiana Figueres: Cidades
em todo o mundo já avançaram de forma impressionante. Isso também se aplica a
grupos regionais. A proteção climática é mais eficiente quando os políticos em
todos os níveis –, internacional, nacional e local – trabalham em conjunto.
Em tempos de conflitos, como agora no
Oriente Médio e na Ucrânia, não é difícil despertar o interesse público para
uma cúpula climática extraordinária?
Christiana Figueres: Pelo
contrário. Acredito que esta semana em Nova York vá atrair a atenção da mídia.
Não só porque milhares de pessoas foram às ruas. Não só porque teremos centenas
de chefes de Estado e governo e empresários influentes. Mas porque eles estarão
ali por uma razão de extrema importância.
As mudanças climáticas se tornaram o maior
desafio da humanidade, ao menos neste século. E a consciência sobre isso está
aumentando. Já existem muitos conflitos no mundo que têm a ver com a
escassez de água, com a migração, com a segurança alimentar. As mudanças
climáticas acirram ainda mais tudo isso. Em outras palavras: se quisermos
evitar conflitos incontroláveis, precisamos enfrentar as mudanças climáticas em
tempo hábil.
Os números mais recentes mostram que
as emissões de CO2 continuam a aumentar. Cientistas veem a meta de
dois graus Celsius já quase fora de alcance. O que precisa acontecer para que
sejamos poupados de uma mudança climática catastrófica?
Christiana Figueres: A
ciência tem mostrado claramente que só há um caminho para limitar o aumento da
temperatura a dois graus Celsius. Esta cúpula, bem como as negociações formais
no Peru, no final deste ano, e em Paris, no ano que vem, emitem uma mensagem
clara aos governos mundiais e às principais empresas do setor econômico de que
estamos correndo contra o tempo. Ainda podemos conseguir. Mas, para evitar os piores impactos das
mudanças climáticas, precisamos chegar a um acordo climático global até o final
de 2015.
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