OS JOVENS E A POLÍTICA NO BRASIL [LEIA]
Alan Rodrigues
Pesquisa
Data Popular revela que a juventude brasileira é mais informada que seus pais
e
tem peso decisivo na eleição
Nas
eleições de 5 de outubro [2014], mais de 140 milhões de brasileiros estarão
aptos a votar. Nesse universo, um terço
dos eleitores – pouco mais de 45 milhões de pessoas – é formado por jovens
entre 16 e 33 anos. Para entender melhor a cabeça política da juventude
brasileira, quais suas demandas e de que maneira ela pode influenciar na
corrida eleitoral, [a revista] ISTOÉ
destrinchou uma pesquisa realizada pelo Instituto
Data Popular com 3.500 jovens do País.
O
levantamento revela, entre outros dados interessantes, que essa turma, por ser mais informada do que seus pais e levar
dinheiro para dentro de casa, contribuindo para o aumento da renda, forma opinião, influencia no voto da
família e pode até decidir a eleição. A pesquisa não questiona em quem eles
votariam. Mas mais de 50% deles se
encontram entre os eleitores indecisos ou que pretendem anular o voto.
O
discurso, porém, carrega um viés de
oposição. Como na maioria da população brasileira, o desejo de mudança está impregnado em 63% deles, que acreditam que o
Brasil não está no rumo certo. Apesar disso, 72% desses brasileiros que têm entre 16 e 33 anos consideram ter
melhorado de vida. Mas a juventude indica querer mais. “Eles querem
serviços públicos de mais qualidade, maior conectividade, acessos livres a
banda larga e a tecnologia de ponta. E não abrem mão da manutenção do poder de
compra”, afirma o autor do estudo, o publicitário Renato Meirelles, presidente do Data Popular.
O
levantamento embute outros recados importantes à classe política:
- Ao mesmo tempo em que 92% acreditam na própria capacidade de mudar o mundo,
- 70% botam fé de que o voto possa transformar o País e
- 80% reconhecem o papel determinante da política no cotidiano brasileiro,
- fatia expressiva dos jovens do Brasil (59%) acredita que o País estaria melhor se não houvesse partido político.
Nascidos:
- totalmente integrados à tecnologia digital,
- sob os ventos favoráveis da estabilidade econômica, da democracia e
- com menos privações que a geração anterior,
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Sâmia Vilela, 27 anos - empreendedora, estuda Marketing |
De lá
para cá, a onda de indignação, revolta e
envolvimento dos jovens na vida política só cresceu. Chamados a dialogar,
eles foram instados a ter opiniões. Não existe aí uma novidade. Os jovens
sempre tiveram opiniões. Muitas opiniões, diga-se. A diferença crucial agora é que o que eles dizem tem muito mais peso.
Eles são ouvidos e exercem influência sobre a família. “Hoje, as decisões familiares são totalmente compartilhadas.
Inclusive as decisões políticas”, afirma a estudante Sâmia Vilela, 27 anos.
A história de vida de Sâmia iguala-se à de milhões de jovens brasileiros que na
última década deixaram para trás a pobreza, conseguiram estudar e abriram seu
próprio negócio.
Filha
de uma cobradora de ônibus, que nas horas vagas ainda arrumava tempo para fazer
salgados para vender nas ruas de São Paulo, ela foi criada na favela, ficou
anos longe do banco escolar, mas hoje estuda marketing e tornou-se uma pequena
empreendedora. Criou um blog sobre como organizar festas de casamento com pouco
dinheiro, o Casando Sem Grana. “Hoje, minha página soma 3,5 milhões de
pageviews e 40 mil usuários únicos no dia”, comemora.
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Júlio Espósito Fernandes, 25 anos - faz pós-graduação |
O caso
bem-sucedido de Sâmia dá vida a números da pesquisa do Data Popular segundo os quais 85%
dos jovens acreditam que só é possível progredir na vida com muito trabalho.
“A internet ampliou o repertório, as redes de relacionamento e as possibilidades
de ascensão social dessa geração”, afirma Meirelles. Não apenas isso. A internet e as redes sociais viraram palco
dos novos debates políticos – a maior parte deles travada por jovens. O que
rola na rede é disseminado em casa por meio da juventude conectada. Se surge
uma informação nova sobre determinado candidato, o assunto logo vira tema de
discussão no seio familiar durante cafés da manhã, almoços e jantares, momentos
em que normalmente todos estão reunidos em torno da mesa.
“Hoje, sou muito mais escutado em casa,
ainda mais quando o assunto é política”, diz Júlio Espósito Fernandes, 25 anos. Estudante de pós-graduação, ele
trabalha nas empresas da família. “Cresci
ouvindo meu pai dizendo: vote nesse candidato. Ele rouba, mas faz. Hoje, não
aceito essa história”, conclui. “Não há como discutir o processo eleitoral
sem falar dos jovens – que estão olhando para frente, não para trás”, diz o
autor da pesquisa.
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Mary Miloch, 23 anos - estudante de rádio e TV |
Numa
direção oposta a 59% dos jovens que afirmaram que o Brasil estaria melhor se
não tivesse nenhum partido político, a produtora de audiovisual Mary Miloch, 23 anos, acredita que o aperfeiçoamento da
democracia passa pelo fortalecimento das organizações partidárias. “Não
consigo imaginar a política sem partidos”, diz Mary. O problema, segundo ela, é que “algumas legendas têm dificuldade em
dialogar com os jovens”. Primeira da família a fazer um curso de nível
superior, Mary é estudante de rádio e televisão e cursa universidade com o
auxílio de uma bolsa integral do Prouni.
Apaixonada pela política, ela esteve nas ruas durante as jornadas de junho do
ano passado e integra o grupo de jovens que acreditam na importância do voto
para a mudança dos rumos do País. “Eu
não só sei, como tenho certeza da nossa capacidade transformadora”, afirma.
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Vivian Silva, 29 anos - operadora de telemardeting |
Ao
menos em casa, a juventude já ajuda a transformar a vida de seus pais,
contribuindo no orçamento doméstico. Hoje, de
cada R$ 100 que um pai da classe alta injeta na economia do lar, o filho jovem
coloca R$ 57. Na classe C, também a
cada R$ 100, o filho investe R$ 96. O fato de os jovens participarem
ativamente no orçamento familiar deu a eles a condição de ser um dos
interlocutores da família. Aos 29 anos, a operadora de telemarketing Vivian Silva mora na cidade de
Guarulhos, região metropolitana de São Paulo, com a mãe, os dois filhos e o
marido. Migrante nordestina, Vivian desembarcou na capital paulista em busca de
trabalho há três anos. Chegou praticamente só com a roupa no corpo. Dependente
dos programas sociais do governo como o Bolsa Família, ela conseguiu trabalho,
comprou seu imóvel através do programa Minha
Casa Minha Vida e hoje cursa universidade. Ela faz parte dos 92% dos jovens
brasileiros que acreditam na capacidade da juventude de mudar o mundo. “Como nos consultam para adquirir ou
pesquisar sobre um determinado produto, a família também nos procura para saber
de política, economia e outras notícias”, garante Vivian.
Esse
apoderamento dos jovens é explicado, segundo Meirelles, por diversos fatores:
- Além de ter mais acesso à informação (93% dos jovens são conectados),
- a juventude digital é muito mais escolarizada que os pais.
- Quando o recorte da pesquisa trata da educação nos lares brasileiros, salta aos olhos a evolução educacional dos filhos da classe C (54% dos brasileiros).
- Nesse estrato da sociedade, sete em cada dez jovens estudaram mais que seus pais.
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Verônica Gonçalves, 30 anos - garçonete |
É o
caso da garçonete Verônica Gonçalves,
30 anos. A mãe era analfabeta até os 30 anos, quando ficou viúva, e foi
obrigada a estudar. Diante das necessidades alimentares dos filhos, ela
aprendeu a ler. Agora, trabalha e divide com os três filhos as despesas da
casa. “Hoje, lá em casa, somos todos
internautas e dividimos tudo. Principalmente, as decisões de compra”, diz
ela. Indecisa eleitoralmente, apesar das mudanças na vida na última década,
Verônica está atenta aos programas eleitorais para definir seu voto. “Precisamos melhorar um pouco mais”,
diz ela, que pretende estudar gastronomia no próximo ano.
Neste
mundo de interatividade, a enorme capacidade da juventude de assimilar as
transformações tecnológicas interfere em como esses jovens agem, pensam e levam
o seu ritmo de vida. Ao contrário do que muita gente possa pensar, o estudo do
Data Popular mostra que os jovens querem
um Estado forte, com a eficiência do setor privado e que ofereça serviço
público gratuito de qualidade. “Essa juventude quebra a lógica política
tradicional, ideológica”, explica Meirelles. “Principalmente porque os jovens dessa geração utilizam-se de uma régua
muito mais rigorosa para medir a qualidade do serviço público do que os pais”,
explica Meirelles.
Do
ponto de vista comportamental, os jovens
da geração D são ambiciosos, impulsivos e ousados. Contestadores, eles não
querem saber de censura. Impactados pelo sucesso dos programas de distribuição
de renda, redução da pobreza e pleno emprego, eles, agora, querem muito mais dos políticos.
Na
pesquisa do Data Popular:
- a segurança aparece em primeiro lugar entre os problemas que mais preocupam os jovens,
- seguido por políticas públicas para a juventude e
- a inflação do cotidiano.
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Vinícius Andrade Félix, 18 anos - líder dos "rolezinhos" |
O jovem
Vinícius Andrade Félix, 18 anos, é
um dos jovens da periferia que cobram das autoridades uma maior presença do
Estado no cotidiano das comunidades, principalmente na questão da segurança. Um dos líderes dos chamados “rolezinhos”,
Vinícius diz que a quantidade de brigas nas baladas e em eventos frequentados
pelos jovens da periferia está afastando o público jovem do lazer. “A falta
de segurança é o nosso principal problema. Rolam muitas brigas nas baladas”,
queixa-se.
“O pessoal fica falando da ausência de
médico na periferia, mas faltam professores, bolsas de estudo e publicidade
para informar a gente sobre os projetos”, critica Vinícius. Para ele,
os governos utilizam-se de ferramentas comunicacionais atrasadas, como o rádio,
para anunciar projetos. “Será que alguém nas zonas urbanas ainda ouve rádio?”,
questiona. O governo, segundo o líder
dos rolezinhos, pensa o País com a cabeça voltada para o passado. E eles só
querem saber do futuro. Os rebeldes de outrora, hoje conectados e formadores de
opinião em casa, não deixam de ter muita razão.
“Os políticos não falam a língua dos jovens”
Entrevista com
Renato Meirelles
Publicitário e Presidente do “Data Popular”
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Renato Meirelles - comunicólogo e publicitário |
ISTOÉ – Muitos analistas apostam que
essas serão as eleições da mudança. O sr. concorda com isso?
Renato Meirelles – As
pesquisas mostram que as pessoas querem um Brasil diferente do que está hoje,
mas com uma garantia efetiva de que as conquistas dos últimos anos não sejam
perdidas. O eleitor está insatisfeito com a situação do País da porta de casa
para fora, já que do lado de dentro as pessoas sabem que as coisas melhoraram
muito. Essa será uma eleição de futuro e não de passado.
ISTOÉ – Isso explica, por exemplo, o
fato de os candidatos defenderem os programas sociais do governo e concentrarem
as críticas em economia e gestão pública?
Meirelles –
Economistas não entendem de gente de carne e osso. De nada vale discutir o
passado. Só um terço dos eleitores tem condições maduras de comparar os
governos FHC e Lula. O eleitor não quer mais discutir cesta básica, ele quer
banda larga. Ele não quer dentadura, mas o Bolsa Família 2.0.
ISTOÉ –O que é Bolsa Família 2.0?
Meirelles – Essa
juventude quer maior conectividade, acessos livres a banda larga e a tecnologia
de ponta. Eles representam 33% do eleitorado e 85% deles são internautas.
ISTOÉ – Mas problemas econômicos, como
a alta da inflação e a falta de crescimento do PIB, não pautam o voto?
Meirelles – A
maior parte dos eleitores é da classe C e eles não entram e nem querem saber
sobre essa conversa de pibinho, taxa Selic e tripé macroeconômico. Eles querem
saber sobre o preço do tomate, do emprego e da diminuição dos juros no
crediário e nos juros do cheque especial.
ISTOÉ – Quais são os desejos e
necessidades desses eleitores?
Meirelles – Eles
querem saber quem vai garantir a creche para as mulheres que foram para o
mercado de trabalho. Querem serviços públicos de mais qualidade e não abrem mão
da manutenção do poder de compra.
ISTOÉ – Quem são os jovens dessa
geração digital?
Meirelles – São
jovens de 18 a 33 anos, uma mistura das gerações Y e X (nascidos entre 1980 e
hoje) e predominantemente de classe C. Gastam R$ 200 bilhões por ano. De cada
R$ 100 que um pai da classe alta injeta na economia do lar, o filho jovem
coloca R$ 57. Na classe C, o filho coloca R$ 96. É por isso que os filhos
influenciam mais a economia doméstica. Além disso, eles são mais escolarizados
que os pais e mais conectados.
ISTOÉ – Qual será a importância deles
nas eleições de outubro?
Meirelles – Como
os jovens decidem mais sobre as coisas dentro de casa, eles são os novos
formadores de opinião. Isso vale tanto para a compra de um produto quanto para
a decisão do voto familiar. Não há como discutir o processo eleitoral sem falar
da juventude. Os jovens olham para frente; são eles que vão ajudar a decidir as
eleições este ano.
ISTOÉ – As pesquisas mostram em qual
candidatura eles estão apostando as fichas?
Meirelles – É
muito cedo para falar em definições, mas certamente a entrada da candidata
Marina Silva modificou o quadro eleitoral. A ex-senadora, ao que tudo indica,
consegue angariar o voto jovem, que soma boa parte dos descontentes com a
política que saíram às ruas em junho do ano passado.
ISTOÉ – O que as manifestações de
junho de 2013 deixaram de legado?
Meirelles – Que os
jovens não aceitam mais uma classe política que não os representa. Eles querem
ser protagonistas da própria história. Essa geração não aceita hierarquias,
censura e tampouco tentativas de silenciá-los.
ISTOÉ – Os jovens estão mais
insatisfeitos?
Meirelles – Por
serem mais escolarizados e conectados que os pais, eles são mais críticos com a
real situação do País. Eles não enxergam na classe política a solução para um
futuro melhor.
ISTOÉ – Isso explica por que a maioria
dos jovens está indecisa ou pretende anular o voto?
Meirelles – Os
políticos não sabem levar a pauta política para o cotidiano dos jovens. Eles
não falam a linguagem desse eleitorado. Os políticos são analógicos e os jovens
são digitais. Eles têm uma mentalidade velha que avalia políticas públicas pela
lógica da oferta e não pela demanda. Ou seja, é mais importante o que os
estudiosos afirmam que é bom para as pessoas, do que o que o povo sabe que é
importante para elas.
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