ANSEIOS DIFUSOS
Dom Luiz Demétrio Valentini
Bispo Diocesano de Jales (SP)
Paira
no ar um difuso descontentamento, uma insatisfação indefinida, um generalizado
desejo de mudança.
A
situação atual encontra um denominador comum, não em propostas objetivas no
cenário político e econômico, mas no clima subjetivo, que faz multidões
participarem de eventos onde os objetivos não são formulados nem expressos de
maneira clara e consistente.
A força
da emoção subjetiva parece dispensar a definição das necessárias transformações
a serem feitas.
Em
tempos de campanha eleitoral, este sentimento pode levar a opções que
satisfazem o desejo de mudanças, mas que levam consigo as contradições subjacentes,
que não tardariam em acumular impasses, que amargurariam decepções tardias.
O outro
lado desta moeda, que está sendo empenhada com ênfase nesta Semana da Pátria, é o pouco entusiasmo com que se encaram
propostas concretas e específicas, elaboradas com muita dificuldade de
consensos mínimos.
São
várias propostas em andamento, que mereceriam, certamente, mais atenção e
poderiam suscitar debates mais objetivos,
em vista de municiar planos concretos de governo.
Existe
em andamento uma “iniciativa popular de
lei” sobre a Reforma Política,
fruto de uma “coalizão” de entidades, ente as quais se destacam a CNBB [Conferência Nacional dos Bispos
do Brasil] e OAB [Ordem dos
Advogados do Brasil], com sua força emblemática. Seria o caso de aproveitar o clima da Semana da Pátria para uma ampla
difusão da proposta, e de adesão a ela por meio de assinaturas dos eleitores. Mas, tanto o debate, como o incentivo para a
coleta de assinaturas, não correspondem à importância da proposta.
Parece
que o amplo desejo de mudança não se satisfaz com a prosaica elaboração de uma
lei.
E assim
com as outras iniciativas, de resto muito generosas, que estão sendo realizadas
neste ano por ocasião da Semana da Pátria.
Entre
elas, destaca-se a realização de um
plebiscito popular, não oficial, propondo
a convocação de uma assembleia constituinte soberana e específica para realizar
a Reforma Política. Esta iniciativa,
se contasse com uma entusiasta adesão dos eleitores, poderia deixar o caminho
aberto para que finalmente, neste próximo mandato, fosse feita esta reforma que
vem patinando há décadas. Mas, cadê o entusiasmo? Parece mais cômodo deixar que os outros façam
o que faz parte de nossos desejos. Mas será que farão?
No
próprio Sete de Setembro, continuam duas iniciativas tradicionais, muito
vinculadas ao Santuário de Aparecida, que são a Romaria dos Trabalhadores e o Grito
dos Excluídos.
Os
lemas destas duas iniciativas, também eles, se coadunam mais com o generoso
anseio de mudanças, do que com a elaboração concreta de propostas específicas.
O lema do Grito parece narrativo, e tenta se vincular com manifestações já
ocorridas: “Ocupar ruas e praças por liberdade e direitos”. E o lema da Romaria dos Trabalhadores: “Mãe
Negra Aparecida padroeira deste chão, o povo trabalhador não aceita escravidão”.
Diante do difuso desejo de mudanças, fica o
desafio de discernir as opções que o tornam viável, adequado e efetivo.
Temos o
voto para expressar nossa vontade.
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