E A CAMPANHA ELEITORAL, COMO VAI?
UM EM DOIS
Janio de Freitas*
Pelo
visto, Marina e Aécio disputam para ver quem dos dois,
se
eleito, fará o que o derrotado deseja.
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Marina Silva (PSB) e Aécio Neves (PSDB) Candidatos à Presidente da República - 2014 |
O
catatau dado como programa de governo de Marina
Silva e do PSB, mas que contraria tudo o que PSB defendeu até hoje, leva a
uma originalidade mais do que eleitoral: na
disputa pela Presidência, ou há duas Marinas Silvas ou há dois Aécios Neves.
As propostas definidoras dos respectivos governos não têm diferença, dando aos
dois uma só identidade. O que exigiu dos dois candidatos iguais movimentos:
contra as posições refletidas nas críticas anteriores de Marina e contra a
representação do avô Tancredo Neves invocada por Aécio.
Ao
justificar sua proposta para a Petrobras, assunto da moda, diz Marina:
"Temos que sair da Idade do Petróleo. Não é por faltar petróleo, é porque
já estamos encontrando outras fontes de energia". Por isso, o programa de
Marina informa que, se eleita, ela fará reduzir a exploração de petróleo do
pré-sal.
Reduzir
o pré-sal e atingir a Petrobras no coração são a mesma coisa. Sustar o retorno
do investimento astronômico feito no pré-sal já seria destrutivo. Há mais,
porém. Concessões e contratos impedem a interferência na produção das empresas
estrangeiras no pré-sal. Logo, a tal redução recairia toda na Petrobras, com
efeito devastador sobre ela e em benefício para as estrangeiras.
Marina
Silva demonstra ignorar o que é a Idade do Petróleo, que lhe parece
restringir-se à energia. Hoje o petróleo está, e estará cada vez mais, por
muito tempo, na liderança das matérias-primas mais usadas no mundo. Os seus
derivados estão na indústria dos plásticos que nos inundam a vida, na produção
química que vai das tintas aos alimentos (pelos fertilizantes), na indústria
farmacêutica e na de cosméticos, na pavimentação, nos tecidos, enfim, parte do
homem atual é de petróleo. Apesar de Marina da Silva. Cuja proposta para o
petróleo significaria, em última instância, a carência e importação do que o
Brasil possui.
A
Petrobras é o tema predileto de Aécio Neves nos últimos meses. Não em ataque a
possíveis atos e autores de corrupção na empresa, mas à empresa, sem
diferenciação. Que seja por distraída simplificação, vá lá. Mas, além do que
está implícito na candidatura pelo PSDB, Aécio Neves tem como ideólogo, já
anunciado para principal figura do eventual ministerial, Armínio Fraga -
consagrado como especialista em aplicações financeiras, privatista absoluto e
presidente do Banco Central no governo Fernando Henrique, ou seja, quando da
pretensão de privatizar a Petrobras.
A
propósito, no debate pela TV Bandeirantes, Dilma Rousseff citou a tentativa de
mudança do nome Petrobras para Petrobrax, no governo Fernando Henrique, e
atribuiu-a à conveniência de pronúncia no exterior. Assim foi, de fato, a
ridícula explicação dada por Philipe Reichstuhl, então presidente da empresa.
Mas quem pronuncia o S até no nome do país, com States, não teme o S de
Petrobras. A mudança era uma providência preparatória. Destinava-se a retirar
antes de tudo, por seu potencial gerador de reações à desnacionalização, a
carga sentimental ou cívica assinalada no sufixo "bras".
Ainda a
propósito de Petrobras, e oportuno também pelo agosto de Getúlio, no vol.
"Agosto - 1954" da trilogia "A Era Vargas", em edição agora
enriquecida pelo jornalista José Augusto Ribeiro, está um episódio tão singelo
quanto sugestivo. Incomodado com o uso feroz da TV Tupi por Carlos Lacerda, o
general Mozart Dornelles, da Casa Civil da Presidência, foi conversar a respeito
com Assis Chateaubriand, dono da emissora. Resposta ouvida pelo general (pai do
hoje senador e candidato a vice no Rio, Francisco Dornelles): se Getúlio
desistisse da Petrobras, em criação na época, o uso das tevês passaria de
Lacerda para quem o presidente indicasse. De lá para cá, os diálogos em torno
da Petrobras mudaram; sua finalidade, nem tanto.
De
volta aos projetos de governo, Marina e Aécio desejam uma posição brasileira
que, por si só, expressa toda uma política exterior. Pretendem o esvaziamento
do empenho na consolidação do Mercosul, passando à prática de acordos
bilaterais. Como os Estados Unidos há anos pressionam para que seja a política
geral da América do Sul e, em especial, a do Brasil.
Em
política interna, tudo se define, igualmente para ambos, em dois segmentos que
condicionam toda a administração federal e seus efeitos na sociedade. Um, é o
Banco Central dito independente; outro, é a prioridade absoluta à inflação
mínima (com essa intenção, mas sem o êxito desejado, Armínio Fraga chegou a
elevar os juros a 45% em 1999) e contenção de gastos para obter o chamado
superávit primário elevado. É prioridade já conhecida no Brasil.
Pelo
visto, Marina e Aécio disputam para ver quem dos dois, se eleito, fará o que o
derrotado deseja.
* Janio de Freitas,
colunista e membro do Conselho Editorial do jornal Folha de S. Paulo, é um dos mais importantes jornalistas
brasileiros. Analisa com perspicácia e ousadia as questões políticas e
econômicas.
Fonte: Folha de S. Paulo - Colunistas – 31/08/2014 às 02h00 – Internet: clique aqui.
Campanhas contra
Janio de Freitas
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Propaganda Eleitoral 2014 |
As
quedas de Dilma Rousseff e Aécio Neves têm várias causas, não só o alto ponto
de partida de Marina Silva. Ainda que com pesos diferentes, um dos principais
fatores daquelas quedas é o mesmo em uma em outra: as duas campanhas parecem um
desperdício de possibilidades que se volta contra cada um dos candidatos.
O caso
de Dilma, nesse sentido, tem maiores
consequências negativas para a candidatura. Por maior que seja o esforço de
negá-lo, o governo tem muito o que mostrar em resultados importantes do seu
trabalho. Grande parte pouco conhecida e mal conhecida, ou desconhecida mesmo.
Apesar dos gastos em publicidade. Comunicar-se com a opinião pública,
necessidade essencial de qualquer governo em nosso tempo, revelou-se a mais
ampla incapacidade do governo Dilma. E aparentemente nem ao menos percebida
pelos interessados ao longo dos seus três anos e tanto.
Em
termos pessoais, é notório que o problema começa na própria Dilma. Mas para
isso, que não é incomum, existem os ministros bem-falantes, os assessores, os
marqueteiros, o treinamento. Se, no economismo obsessivo dos meios de
comunicação brasileiros, ao menos Guido Mantega fosse melhor do que Dilma,
mesmo que não chegasse à conversa de camelô de Antonio Palocci, o governo
conseguiria neutralizar a fabricação do pessimismo. Feita contra Dilma e o
governo, mas, como bala perdida, com prejuízos sobretudo para o país.
O
horário eleitoral seria a segunda oportunidade da neutralização. Mas a grande
vantagem de Dilma, em tempo disponível, desperdiça-se em uma confusão de cenas
e intervenções inócuas, longa e cansativa falta de objetividade entremeada, não
mais do que isso, de inserções da candidata. A anticomunicação. Ao custo de milhões. Se, mesmo sem grandes bossas,
os programas de rádio e TV se limitassem a expor, com alguma inteligência e
clareza, o que Dilma acha que tem a mostrar do seu governo, e que valeria a
pena prosseguir, o objetivo didaticamente eleitoral seria muito mais
alcançável. Mas a campanha parece contra a candidata: não atrai, desinteressa.
Aécio Neves
dedicou sua campanha ao desnecessário: "desconstruir" Dilma. Isto a
imprensa, a TV e o rádio já faziam por ele, desde muito antes de iniciar-se a
campanha, e com muito mais eficácia. Aécio só falava contra Dilma, contra a
Petrobras, contra o governo. Foi mandado para o subsolo com tanta facilidade
porque não houve um motivo seu para preservar fidelidades. O grosso dos apoios que tinha, é o que se vê, eram recusas aos outros
concorrentes.
Não há
mais dúvida de que o programa governamental de Aécio, de fato, não é coisa que
se diga ao eleitorado. É para conversa de salão, reuniões na Fiesp [Federação
das Indústrias do Estado de São Paulo] e na federação dos bancos. Nada pensado
de interessante para dizer ao eleitorado, Aécio tornou-se o vazio eleitoral,
feito pela própria campanha.
Com Marina Silva foi mais fácil: para estar
em cima, não precisou fazer campanha, não precisou dizer o que pensa. Mas como,
para seguir no alto, precisa fazer campanha, começou a dizer o que não pensa.
BYE-BYE
De
Arminio Fraga, guru econômico de Aécio Neves, na Folha: "Não vamos
arrochar salário nem assassinar velhinhas".
Reparei
que, na salvaguarda, ele não incluiu os velhinhos.
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