Domingo – Exaltação da Santa Cruz – HOMILIA
Evangelho: João
3,13-17
Naquele
tempo, disse Jesus a Nicodemos:
13 "Ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem.
14 Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado,
15 para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna.
16 Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna.
17 De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele".
13 "Ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem.
14 Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado,
15 para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna.
16 Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna.
17 De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele".
JOSÉ ANTONIO PAGOLA
OLHAR COM FÉ O
CRUCIFICADO
A festa
que hoje os cristãos celebram é incompreensível e, até, absurda para quem
desconhece o significado da fé cristã no Crucificado. Que sentido pode ter celebrar uma festa que se chama “Exaltação da Cruz”
em uma sociedade que busca, apaixonadamente, o conforto, a comodidade e o
máximo bem-estar?
Mais de
uma pessoa se perguntará como é possível seguir, ainda hoje, exaltando a cruz.
Não ficou superada, para sempre, essa forma mórbida de viver exaltando a dor e
buscando o sofrimento? Temos de seguir alimentando um cristianismo centrado na
agonia do Calvário e as chagas do Crucificado?
Essas
são, sem dúvida, perguntas muito razoáveis que necessitam uma resposta
clarificadora. Quando os cristãos olham
o Crucificado não exaltam a dor, a tortura e a morte, mas o amor, a proximidade
e a solidariedade de Deus que quis compartilhar nossa vida e nossa morte até o
extremo.
Não é o
sofrimento que salva, mas o amor de Deus que se solidariza com a história
dolorosa do ser humano. Não é o sangue
que, na realidade, limpa o nosso pecado, mas o amor insondável de Deus que nos
acolhe como filhos. A crucificação é o acontecimento no qual melhor se
revela seu amor por nós.
Descobrir
a grandeza da Cruz não é atribuir, seja lá qual for, um misterioso poder ou
virtude à dor, mas confessar a força salvadora do amor de Deus quando,
encarnado em Jesus, vem reconciliar o mundo consigo.
Nesses braços estendidos que já não podem mais
abraçar as crianças e nessas mãos
que já não podem acariciar os leprosos nem bendizer os enfermos, os cristãos “contemplam”
Deus com seus braços abertos para acolher, abraçar e sustentar nossas pobres
vidas, quebrantadas por tantos sofrimentos.
Nesse rosto apagado pela morte, nesses olhos que já não podem olhar com
ternura as prostitutas, nessa boca
que já não pode gritar sua indignação pelas vítimas de tantos abusos e injustiças,
nesses lábios que não podem
pronunciar seu perdão aos pecadores, Deus nos está revelando, como em nenhum
outro gesto, seu amor insondável à Humanidade.
Por
isso, ser fiel ao Crucificado não é
buscar cruzes e sofrimentos, mas viver como ele numa atitude de entrega e
solidariedade, aceitando, se necessário, a crucificação e os males que nos
podem chegar como consequência. Esta fidelidade ao Crucificado não é dolorosa,
mas esperançosa. A uma vida “crucificada”,
vivida com o mesmo espírito de amor com que viveu Jesus, somente lhe cabe
esperar a ressurreição.
DEUS É DE TODOS
Poucas
frases terão sido tão citadas como esta que o evangelho de João põe nos lábios
de Jesus. Os estudiosos veem nela um resumo
do essencial da fé, tal como se vivia entre não poucos cristãos no início
do século II: “Tanto amou Deus o mundo,
que enviou o seu Filho único”.
Deus
ama o mundo inteiro, não somente aquelas comunidades cristãs às quais chegou a mensagem
de Jesus. Ama todo o gênero humano, não somente a Igreja. Deus não é propriedade
dos cristãos. Não pode ser monopolizado por nenhuma religião. Não cabe em
nenhuma catedral, mesquita ou sinagoga.
Deus
habita em todo ser humano, acompanhando cada pessoa em suas alegrias e
desgraças. A ninguém deixa abandonado, pois tem seus caminhos para se encontrar
com cada um, sem que tenha de seguir, necessariamente, aos que lhe assinalamos.
Jesus via Deus, cada manhã, “fazendo nascer
o sol sobre bons e maus”.
Deus não sabe, não quer nem pode fazer
outra coisa senão amar, pois, no mais íntimo de seu ser, ele é amor. Por
isso, diz o evangelho, que enviou seu Filho, não para “condenar o mundo”, mas
para que “o mundo se salve por meio dele”. Ama o corpo tanto quanto a alma, e o
sexo tanto como a inteligência. A única coisa que deseja é ver, desde agora e
para sempre, a humanidade inteira desfrutando de sua criação.
Este
Deus sofre na carne dos famintos e humilhados da terra; está nos oprimidos
defendendo sua dignidade, e nos que lutam contra a opressão animando seu
esforço. Está sempre em nós para “buscar e salvar” o que nós arruinamos e
deixamos perder.
Deus é
assim. Nosso maior erro seria esquecê-lo. Mais ainda. Fechar-nos em nossos
preconceitos, condenações e mediocridade religiosa, impedindo as pessoas de
cultivarem esta fé primeira e essencial. Para que servem os discursos dos
teólogos, moralistas, pregadores e catequistas se não despertam o louvor ao
Criador, se não fazem crescer no mundo a amizade e o amor, se não tornam a vida
mais bela e luminosa, recordando que o mundo está envolvido, pelos quatro
cantos, pelo amor de Deus?
Traduzido
do espanhol por Telmo José Amaral de
Figueiredo.
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