QUEREMOS, DE FATO, DEFENDER A VIDA???
Carta do CEBI-MT
aos padres e bispos, pastoras e pastores focados no
moralismo sexual
O
Centro de Estudos Bíblicos - CEBI, organizado em 25 estados brasileiros e
presente em mais de 600 municípios, tem por objetivo aprofundar e consolidar a
leitura da Bíblia que defende e promove a vida, através da inserção em comunidades
eclesiais, grupos populares e movimentos sociais (1). Nessa inserção,
constatamos que está aumentando assustadoramente a violência e a discriminação
contra gays, lésbicas e travestis, e a violência contra as mulheres, apesar do
freio da lei Maria da Penha. Além de denunciar toda forma de hipocrisia e
juntar-se às lutas sociais comprometidas de fato com a vida, o CEBI busca
iluminar esta realidade com uma leitura libertadora da Bíblia, que ajude a
minimizar a culpa que a sociedade joga sobre as mulheres e pessoas
homoafetivas.
Visitando
os canais de TV e rádio católicos e evangélicos, e prestando atenção nas mídias
sociais, ficamos espantados com tanto pregação focada unilateralmente no
moralismo sexual:
- Será que o projeto de lei de descriminalização e legalização do aborto e as reivindicações do movimento LGBT são a grande ameaça à humanidade e ao planeta?
- A lei brasileira que considera o aborto crime tem ajudado a salvar mulheres e fetos?
- Direitos sexuais e reprodutivos são caso de polícia ou uma questão de saúde púbica?
Não
duvidamos das boas intenções dos padres e dos bispos, das pastoras e dos
pastores que pregam contra a proposta de lei que descriminaliza o aborto e o
casamento gay. O fazem [sic] porque estão convencidos de que estão cumprindo a sua
missão profética de cuidar e defender a vida das pessoas mais indefesas,
fragilizadas e necessitadas de cuidado e acolhida, e os valores tradicionais da
família.
- Mas será que a forma como se posicionam politicamente para semear a defesa da vida não estão ceifando mortes sobre mortes?
- Será que não se pode aplicar aqui o que constatou o apóstolo Paulo, na sua carta aos romanos: quero fazer o bem e acabo promovendo o mal que não quero (Romanos 7, 21)?
Primeiro,
ser a favor de uma lei civil que descriminaliza o aborto não significa ser a
favor do aborto, muito menos a favor da banalização do mal. Pelo contrário. O
que se quer é deixar de combater a injustiça com outras injustiças. A lei
sempre tem uma intencionalidade, o que os filósofos gregos chamam de epiqueia,
que neste caso significa encarar o problema com responsabilidade evitando males
maiores: a morte de milhares de mulheres por tentativas de abortos clandestinos
mal sucedidos, e a injustiça que se comete contra crianças e adolescentes
abusadas sexualmente, que em vez de serem assistidas com dignidade, são
vitimadas mais uma vez. Este assunto foi palco de reflexão na recente Campanha
da Fraternidade da igreja católica contra o tráfico de pessoas que teve como
lema uma frase de Paulo aos gálatas: “É para a liberdade que Cristo vos
libertou”.
Segundo,
vivemos numa sociedade pluralista. Não se pode pretender que as convicções
pessoais, por mais que se fundamentem numa religião, na Bíblia ou no Alcorão,
ou até mesmo na mais profunda convicção de fé, seja a medida de tudo e de todas
as coisas na sociedade que vivemos. Chamamos isso de fundamentalismo. Em nosso
estudo sobre Fundamentalismos (3) (2011) mostramos que as atitudes de
intolerância e negação das diferenças e diversidades culturais presentes no
seio da humanidade podem ser ilustradas com o mito de Procusto. Procusto era
guardião de Atenas, e toda pessoa que entrasse teria de caber certinho numa
cama de ferro. Se a pessoa fosse maior do que a cama, ele cortava um pedaço. Se
fosse menor, esticava a pessoa até chegar ao tamanho certo. O mito é, pois, uma
metáfora da intolerância que impõe o sofrimento e a morte àqueles que não se
enquadram em certos pesos e medidas.
Terceiro, conforme Leonardo Boff,
precisamos amadurecer a “reflexão sobre a laicidade do Estado brasileiro (...). Laico é um Estado que não é confessional”, porém, respeita todas as religiões
de forma imparcial. Por causa dessa imparcialidade, continua Boff, “não é
permitido ao Estado laico impor, em matéria controversa de ética,
comportamentos derivados de ditames ou dogmas de uma religião (...) nem
traduzir em leis gerais seus próprios pontos de vista particulares. A laicidade
obriga a todos a exercer a razão comunicativa, a superar os dogmatismos em
favor de uma convivência pacífica e, diante dos conflitos, buscar pontos de
convergência comuns”. Nesse sentido, verifica-se que setores de diferentes
igrejas cristãs ferem a laicidade do Estado quando aconselham a seus membros a
não votarem em certos candidatos por apoiarem “a descriminalização do aborto
por razões de saúde pública ou aceitar as uniões civis de homossexuais. Essa
atitude é inaceitável dentro do regime laico e democrático que é o convívio
legítimo das diferenças”(4).
Em
defesa da vida?
“Não te
deixes vencer pelo mal, mas vence o mal pelo bem” (Romanos 12,21).
Causa
estranheza que líderes de igrejas que antes pregavam a total separação entre
religião e política, e que criticavam os padres, pastoras e pastores que
militam em movimentos sociais e políticos de infiéis ao evangelho e a serviço
de ideologias marxistas, e de repente, sob o escuto moralista contra o aborto,
entram em campanha política acirrada, usando o púlpito e símbolos sagrados,
pedindo ao povo para não votar em candidatos do PT, embora não seja somente
este partido que acolha o surgimento dos “novos direitos”. Como explicar esta
contradição?
Causa
estranheza, também, que se faça tanto barulho nestes casos e se silencie
totalmente em relação a atentados à vida de proporções muito mais graves, que
afetam todo ambiente e que, inclusive, compromete a situação de vida das
próximas gerações. Um estudo realizado pelo Formad (5), publicado em 2012, sobre
a avaliação dos impactos socioambientais da produção de soja e cana no Mato
Grosso, colheu relatos de agentes populares de saúde que afirmam que aumentou
em muito, nos últimos anos, casos de câncer, de refluxo e de abortos. Estes
dados são confirmados por cientistas do mundo inteiro (6) que pedem moratória
imediata dos cultivos transgênicos por causa dos perigos que representam para a
biodiversidade, a segurança alimentar, a saúde humana e animal, em conformidade
com o princípio da precaução. Entre as diversas enfermidades que os
transgênicos e seu uso intensivo de agrotóxicos causa na saúde humana são
cânceres, malformações, doenças endócrinas, neurológicas, imunológicas, mentais
e cognitivas; entre outros males como alergias, provocam abortos, causam
depressão e levam a cometer suicídio. Integrantes de movimentos sociais e cientistas
pediram o apoio do papa Francisco para convencer o governo brasileiro a
suspender todas as licenças ambientais que autorizam o cultivo e o uso de
transgênicos e derivados no Brasil, com um texto bem documentado, intitulado:
Porque os transgênicos são uma ameaça aos camponeses, à Soberania Alimentar, à
saúde e à biodiversidade no planeta (7).
O
prejuízo não é somente à saúde humana, mas sobre toda biodiversidade. A terra
está sendo violentada, de maneira intencional, contaminando todo o ambiente – o
solo, o ar e a chuva, os rios e os lagos, os lençóis freáticos e os aquíferos,
comprometendo a qualidade de vida das próximas gerações.
Por
que, nestes casos tão graves, em vez de um posicionamento profético sobre
decisões políticas tão impactantes, estes pastores preferem o silêncio, e nos
casos de moral sexual se faz um estardalhaço tão grande?
O
princípio da defesa da vida deve ser estendido para todas as dimensões:
- começando pelo direito à comida saudável,
- moradia digna,
- aos cuidados básicos como saúde e educação,
- em sinergia com o cuidado com a biodiversidade das plantas e animais, terra, a água, o ar, o planeta todo.
Aplicar
o critério da promoção e defesa da vida no debate da legalização ou não do
aborto, eis a questão. Estão em jogo vidas: a vida embrionária e a vida da mãe.
Entre o ideal e o real, a realidade se impõe. Nem sempre a jovem mulher tem
condições de escolher o melhor, porque suas escolhas por vezes não dependem
mais dela. Foi-lhe imposta uma situação e ela precisa encontrar uma saída.
Um dos
princípios aplicados à moral cristã tem sido este: dentre os males o menor.
Que condições de vida são criadas diante da escolha cruel? Que escolhas ela tem
numa sociedade que criminaliza, na prática, a mulher, imputando-lhe uma culpa
que carrega possivelmente pelo resto da vida? E que condições seriam criadas
para ela quando lhe serão oferecidas condições de escolha e de assistência na
saúde pública?
O
atendimento pastoral a pessoas que abortaram mostra que esta é sempre uma
realidade dramática. Se for legalizado e regulamentado, não quer dizer que seja
praticada sem critérios. Assim como a bebida é legalizada e não se é obrigado a
beber, a legalização do aborto não significa prática indiscriminada, nem como
prática de controle da natalidade. Os padres e os bispos, os pastores e as
pastoras poderão continuar a prestar a sua orientação pastoral e dar o suporte
necessário através de suas estruturas sociais para que a criança seja gestada
em condições dignas.
Quando
os fariseus e escribas apresentaram a Jesus uma mulher apanhada em adultério
não aplicou cegamente a lei de Moisés que obrigava o homem primeiro e depois a
mulher a serem apedrejados (Levítico 20,10). Ele se abaixou até a condição da
mulher e respondeu: “quem não tiver pecado que atire a primeira pedra” (João 8,
7) (9). E todos se retiraram a começar pelos mais velhos... Em outra
circunstância Jesus explicou sua liberdade em relação à lei (epiqueia): a lei
foi feita para as mulheres e os homens, e não os homens e mulheres para a lei
(Marcos 2, 27).
Medo,
culpa e ganância levam à hipocrisia. O mal cega e ensurdece corações e mentes.
A partir daí, não vemos mais a vida real e nos escondemos num mundo violento e
cruel, enfim, fundamentalista que leva ao terrorismo.
Por
fim, quem se beneficiou com a pregação moralista contra a legalização do abordo
e o casamento gay?
A
resposta está numa avaliação crítica da atuação dos deputados e senadores que
se elegeram sob a bandeira da criminalização do aborto. Os encontramos [sic] na
bancada evangélica e na bancada ruralista. Votaram por um código florestal que
beneficia e perdoa os crimes ambientais cometidos até 2008; votam em bloco
contra a demarcação das terras indígenas, quilombolas e a criação de unidades
de conservação, considerados, pelo agronegócio como elementos que limitam o
acesso, o controle e a exploração territorial; pressionam o governo para
aprovar a utilização de agrotóxicos altamente tóxicos, apesar de ser
comprovadamente cancerígenos e abortivos.
Segundo
o portal “Transparência Brasil”:
- todos os deputados que compõe a bancada evangélica respondem processos judiciais;
- 95% da referida bancada estão entre os mais faltosos;
- 87% da referida bancada estão entre os mais inexpressivos segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar – DIAP.
“Aquele,
pois, que pensa estar de pé veja que não caia” (1 Coríntios 10,12). Tem muita
gente gritando e acusando de pé. Cuidado, podem cair.
Portanto,
usar o púlpito para pregar contra os candidatos de alguns partidos em
detrimento de outros com um discurso moralizante, demonizando estes partidos, é
colocar-se a serviço das forças do mal, da morte e despolitizar a discussão de
projetos políticos a favor da vida e do bem comum.
Cuiabá (MT), 10 de setembro de 2014.
João Inácio Wenzel
Coordenador do Centro de Estudos Bíblicos do Mato Grosso – CEBI/MT
e secretário do Fórum Matogrossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento – Formad
Pr. Teobaldo Witter
Coordenador do Centro de Direitos Humanos Henrique Trindade e ouvidor das polícias
Roberto Rossi
Coordenador do Centro Burnier Fé e Justiça – CBFJ.
NOTAS:
1- No portal do CEBI [clique aqui] se
encontram mais informações, bem como seu vasto elenco de publicações.
2- Disponível em:
http://cebi.org.br/noticias.php?secaoId=¬iciaId=1590.
3- Wenzel, J.I. Rossi, R. Witter,
T. Fundamentalismos.
Relação entre Religião, Política e Direitos Humanos. (Palavra na Vida
287), CEBI 2011.
4- Leonardo Boff. Estado
laico e pluralista e as Igrejas. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/noticias-anteriores/38090-estado-laico-e-pluralista-e-as-igrejas
5- Schlesinger, S. Dois
casos sérios em Mato Grosso. A soja em Lucas do Rio Verde e a cana-de-açúcar em
Barra do Bugres. Formad 2012.
6- Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/532297-cientistas-pedem-a-suspensao-dos-transgenicos-em-todo-o-mundo
7- Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/534049-porque-os-transgenicos-sao-uma-ameaca-aos-camponeses-a-soberania-alimentar-a-saude-e-a-biodiversidade-no-planeta
8- Entrevista concedida ao IHU
online em 14/05/2007, disponível em: http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=920&secao=219
9- Outros textos em que Jesus
defende a mulher da discriminação dos homens líderes religiosos: Mc 5,21-43; Lc
7, 36-50.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos –
Notícias – Quarta-feira, 17 de setembro de 2014 – Internet: clique aqui.
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