A ECONOMIA BRASILEIRA NO PRÓXIMO ANO
A herança
CELSO MING
Este
governo deixará uma herança maldita para o próximo, que pode ser ele mesmo.
Disso discorda apenas o atual governo.
É um
legado de encrencas econômicas, grandes e pequenas, algumas de solução
complicada que tendem a se complicar ainda mais.
Para
enfrentá-lo são necessárias duas posturas preliminares. A primeira é reconhecer
a existência das distorções. A seguinte é assumir responsabilidades. São
exigências que se sobrepõem: quando não há esse reconhecimento também não se
reconhece a responsabilidade sobre elas.
O
sintoma de que a economia passa por problemas de saúde é do conhecimento geral.
Se fosse uma ficha médica, lá estaria anotado o crescimento mísero do PIB que
não passará da média de 1,63% nos últimos quatro anos (inclusive este),
acompanhado por uma inflação excessiva, investimento em queda livre, desarranjo
crescente nas contas públicas, rombo nas contas externas e uma indústria
enfraquecida.
Diante
desse quadro, a atitude básica do governo Dilma é a de que não há o que fazer,
porque o centro da crise está fora do alcance das políticas públicas, na medida
em que foi gerado pelos problemas globais. No entanto, esse balanço não é o
resultado da crise externa, como tanto se ouve do ministro da Fazenda. É
consequência das escolhas de política econômica que não levaram em conta a
conjuntura de crise, uma vez que havia o entendimento de que a economia
brasileira vinha relativamente imunizada contra os efeitos da retração global:
“Chega aqui como uma marolinha”– havia se gabado o presidente Lula.
[Erros da política econômica do governo Dilma:]
- Os estímulos ao consumo foram excessivos,
- os investimentos pararam e
- a competitividade do setor produtivo caiu.
- Além disso, o governo deixou que as despesas públicas disparassem,
- que a inflação passasse do ponto e depois fosse combatida com instrumentos inadequados como o represamento de tarifas e do câmbio.
Na semana
passada, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, pareceu apontar para uma virada
ao avisar que uma derrubada dos juros, essencial para a redução dos custos das
empresas, passará por um aperto da política fiscal (administração das contas
públicas). Mas ele não estará mais à frente do Ministério no próximo governo.
E, até agora, da presidente Dilma só se ouviram críticas aos que pedem mais
austeridade.
De todo
modo, o novo governo não enfrentará só a herança de uma economia desarrumada,
num momento de crise global ainda não superada. Terá pela frente uma conjuntura
com duas novas adversidades impostas pela economia internacional e outras três
impostas pela dinâmica interna.
Da
economia global virá:
- uma temporada de baixa prolongada dos preços das commodities [produtos agrícolas, pecuários e minerais], que pesam cerca de 50% nas exportações; e
- relativa escassez de moeda estrangeira, na medida em que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) passará a retirar dólares da economia.
- incertezas no suprimento de energia elétrica e
- escassez relativa de mão de obra, especialmente a qualificada.
Aí está [gráfico ao lado] a evolução, nos últimos 12 meses, do índice de desocupação medido pelo IBGE em
seis regiões metropolitanas do Brasil. Em agosto, o índice ficou em 5,0%.
Depois da greve
Após
quatro meses sem divulgar os resultados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) por
causa da greve dos servidores, saíram nesta quinta-feira, além do resultado de
agosto, também os de maio, junho e julho. Nesta ordem, os índices de
desocupação foram de 4,9%, 4,8% e 4,9%. A situação continua sendo de pleno-emprego,
como está no texto ao lado.
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