GUERRA AO TERROR NO ORIENTE MÉDIO
A guerra árabe ao terror
JAMES TRAUB
FOREIGN POLICY
Aliados
dos EUA se engajaram na luta contra o Estado Islâmico,
mas
não pelas razões que você acredita
Estados
árabes têm uma nova causa definidora: a guerra ao terror. Há quase quatro anos,
levantes populares por toda a região subverteram a velha ordem e criaram um
novo conjunto de aspirações e um novo significado coletivo. A Primavera Árabe,
exceto na Tunísia, onde o espírito sobrevive, durou no máximo dois anos antes
de dar lugar a caos e violência, retrocesso e lamento.
Qual o
novo significado e direção do mundo árabe? Na época, ninguém podia ter certeza.
Mas agora isso ficou claro. O imperativo de combater o terrorismo relegou as
demandas por dignidade pessoal e direitos políticos à preocupação dos jovens
insatisfeitos. Acabei de voltar da Alexandria e está claro que a única coisa em
que todos os partidos no Egito concordam, exceto os insatisfeitos, é a
necessidade de união contra a ameaça terrorista. Mas essa não é exatamente a
mesma ameaça que preocupa os americanos.
Quando
egípcios dizem "estamos numa fase terrorista", estão se referindo não
ao Estado Islâmico (EI), mas ao grupo militante Ansar Beit al-Maqdis, que vem
matando policiais e soldados no Sinai, e à guerra civil na vizinha Líbia. O
chanceler egípcio, Sameh Shoukry, negou que o Cairo tenha concordado em
participar de uma campanha militar contra o EI organizada pelos americanos.
Façamos
um tour pela região: o Líbano está apavorado com o EI, que decapitou dois
soldados libaneses, mas está igualmente preocupado com outros grupos islâmicos
que cruzaram a fronteira com a Síria, entre eles a Frente al-Nusra. Os Emirados
Árabes temem o EI e estão ansiosos para integrar a coalizão americana, mas
também estão preocupados com radicais islâmicos na Líbia que lutam sob o nome
Aurora Líbia.
Os
turcos temem o EI, mas não mais do que temem os separatistas curdos que
poderiam aproveitar a coalizão contra os jihadistas para promover sua campanha
pela independência. Os sauditas podem ter aceitado abrigar bases de treinamento
para rebeldes sírios moderados, mas temem mais o Irã do que qualquer outra
coisa.
Levantei
recentemente a mesma questão a um diplomata sênior de um país do Golfo, que
disse: "Nossos temores na região obviamente vão além do EI". Ele não
acredita que seus amigos americanos tenham esses temores. "Será um caso
único ou vamos ver uma verdadeira parceria para combater o terrorismo?",
questionou. A pergunta é justa: por que os Estados árabes deveriam dar seu
apoio para combater o bicho-papão dos Estados Unidos se estes não retribuirão?
O problema é a maneira como os Estados regionais definem o pântano que
gostariam que os EUA ajudassem a drenar. O principal morador do pântano é a
Irmandade Muçulmana.
Arábia
Saudita e Egito baniram a Irmandade e a qualificaram de organização terrorista.
Os Emirados condenaram 69 membros da Irmandade por conspiração para subverter o
Estado. No Egito, é um artigo de fé compartilhado por secularistas e salafistas
que a Irmandade é responsável, direta ou indiretamente, por violência terrorista
e sabotagem - apesar da falta de evidências ligando a organização à campanha
assassina do Ansar Beit. O grande princípio organizador do regime egípcio atual
é simplesmente esse: esmagar a Irmandade. O diplomata do Golfo com quem falei
foi muito explícito sobre essa questão.
"A
Irmandade e a Al-Qaeda são variantes da mesma coisa", disse. A Irmandade é
"uma passagem para outros extremismos". Quando ele pergunta se os EUA
veem a Líbia como "outro dominó", como veem outros na região, está
perguntando, em parte, se Washington compreende que a Irmandade está tentando
derrubar peças de dominó regionais, como os dirigentes americanos um dia
pensaram sobre o comunismo internacional.
A
resposta é não. Barack Obama ofereceu apoio americano a Mohamed Morsi quando o
povo egípcio o elegeu presidente. Na época, isso pareceu um importante endosso
ao direito dos egípcios de decidir quem deveria liderar o país. Funcionários do
governo rapidamente concluíram que Morsi era incompetente, mas não era
terrorista. Aliás, Morsi mostrou-se um interlocutor útil e eficaz com o Hamas.
Desde
então, nem ele nem os outros líderes da Irmandade que foram presos e podem
receber a pena de morte com base em acusações forjadas conclamaram seus
seguidores a pegar em armas contra o regime. Apesar de décadas de repressão, a
Irmandade nunca se desviou de uma política de mudança não violenta. A
organização foi escolhida, em parte, por seu sigilo, seu endosso à violência
quando praticada por aliados como o Hamas. Ela é objeto também de uma paranoia
que os americanos rapidamente reconhecerão como uma nova forma de ameaça
vermelha.
A
rotulação de terrorismo parece cada vez mais uma desculpa esfarrapada para o
controle autoritário. Depois que a União Europeia usou uma sessão do Conselho
de Direitos Humanos da ONU para pedir uma "investigação completa" da
matança de milhares de manifestantes por forças de segurança egípcias desde a
deposição do governo da Irmandade, em julho de 2013, autoridades egípcias
acusaram os europeus de adotar um "padrão duplo" que conclama o Cairo
a se unir à luta contra o terrorismo enquanto mina seus esforços para fazê-lo.
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James Traub - jornalista |
Os
americanos não estão em posição de criticar Estados árabes por reagir de
maneira exagerada a ameaças terroristas adotando leis domésticas duras. Se os
EUA usaram a Lei Patriota e se permitiram usar simulação de afogamento com
suspeitos de terrorismo depois do 11 de Setembro, por que nos surpreendermos
que nações sem nenhuma tradição democrática criminalizem dissidentes e proíbam
manifestações, como o Egito tem feito?
No
entanto, é profundamente desanimador ver a massa escura do Estado de segurança
nacional eclipsar tão completamente a bela celebração de liberdade que adornou
os espaços públicos do mundo árabe há poucos anos. Além disso, a reação brutal
à dissidência é autodestrutiva no longo prazo. Matar manifestantes islamistas
desarmados se mostrou surpreendentemente popular entre egípcios, mas isso é
muito mais favorável à promoção do terrorismo do que a sua dissuasão. E solapa
a nova guerra ao terror ao confundir rivais políticos domésticos com uma
genuína ameaça transnacional.
O mundo
árabe realmente enfrenta uma ameaça crescente de violência terrorista: ele
precisa forjar uma parceria com o Ocidente para enfrentar o EI e também forças
mais locais. O Ocidente, porém, não entrará em nenhuma campanha para esmagar
rivais políticos locais sob o pretexto de combater o terrorismo. O Egito e seus
novos amigos no Golfo terão de fazer isso sozinhos.
TRADUÇÃO DE CELSO
PACIORNIK.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Internacional/Visão Global – Quarta-feira, 24 de setembro de 2014 –
Pg. A14 – Internet: clique aqui.
Matar os “infiéis”
GILLES LAPOUGE
Jihadistas
do Estado Islâmico foram instruídos
a eliminar cidadãos da coalizão liderada
pelos EUA
Dias
após os EUA formarem uma coalizão contra o Estado Islâmico (EI), o grupo
fundamentalista sunita já retomou a iniciativa. O EI está bloqueado no norte do
Iraque pelos peshmergas curdos e, em razão dos ataques aéreos americanos,
dirige sua hostilidade e força contra a vizinha Síria.
A
façanha do EI foi o apelo de seu porta-voz, Abu Mohammed al-Adnani, pela
eliminação de cidadãos da coalizão liderada pelos EUA. A ordem é matar "os
infiéis americanos ou europeus, particularmente os malvados e sujos
franceses".
Adnani
até fornece instruções. "Se não puderem encontrar explosivos ou
munição", ele sugere que o americano ou aliado seja "apedrejado,
esfaqueado, atropelado, jogado num buraco, sufocado ou envenenado".
Percebe-se que Adnani é um liberal: não impõe uma forma especial de
assassinato, mas deixa total liberdade a seus comandados: vale tudo.
O que
torna as ameaças do EI verossímeis é o fato de o grupo dispor de imenso
exército de assassinos. Entre os 30 mil jihadistas que combatem na Síria e no
Iraque, há milhares de estrangeiros - 400 belgas, 950 franceses, ingleses,
alemães. Um dia, essas pessoas voltarão aos seus países. Desse modo, o EI
contará com "animais selvagens" para soltar quando quiser.
Globalização
Como
foi formado esse estranho califado, tão antigo, tão recente e tão rápido em
suas ações? Ele nasceu em junho como vários movimentos de resistência contra a
ocupação americana no Iraque (2003-2011). O nome "califado" foi
escolhido por inscrever a nova entidade na sequência histórica do Islã.
O EI se
dotou de uma teologia político-guerreira, que estabelece como primeiro objetivo
fixar-se na terra conquistada utilizando particularmente a rivalidade
"sunita-xiita" no Iraque. O EI pretende fundar um Estado de forte
consonância "escatológica", também chamado Estado
"transfronteiras", dirigido pelo "califa" Abu Bakr
al-Baghdadi.
É
também nesta tradição, que o "califado" apela a seus jihadistas, pois
eles têm um papel a desempenhar num conflito que Deus, que transcende as
fronteiras e as nações, quis, programou e dirigiu. Em suma, uma nova variedade
de globalização.
TRADUÇÃO DE ANNA
CAPOVILLA.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Internacional/Análise – Quarta-feira, 24 de setembro de 2014 – Pg.
A14 – Internet: clique aqui.
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