Pra que tanta celeuma sobre a participação social?
Fabio Konder Comparato e Calixto Salomão Filho
Quem
é contrário à participação social não sabe, ou não quer saber,
que ela favorece a democracia e deu certo em outros países altamente civilizados
que ela favorece a democracia e deu certo em outros países altamente civilizados
A
recente discussão sobre a política de participação social traz consigo uma
grande indagação. Por que uma proposta
de participação direta, em diferentes instâncias, de formulação de políticas
públicas poderia gerar tanta controvérsia?
Controvérsia
incompreensível, por razões óbvias. Participação popular nunca se opôs à
democracia. É, ao contrário, o seu
corolário [consequência natural, óbvia]. Participação popular também nunca
se opôs à tomada consequente e bem informada de decisões. É, ao contrário, seu
requisito. Não é preciso ir longe nem se valer de exemplos históricos, para
demonstrar as duas afirmações.
Quanto
à primeira, basta ler o artigo 1º, parágrafo único de nossa Constituição
Federal: “Todo poder emana do povo, que
o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta
Constituição”. Mas como, aparentemente, essa solene declaração
constitucional serve de mera fachada para encobrir a permanente realidade
oligárquica, é preciso ir mais longe.
Para
demonstrar a ligação entre participação popular e democracia, o mais
convincente é identificar sua presença nos sistemas que – para o bem e para o
mal – sempre foram o exemplo a ser seguido, no discurso majoritário entre nós. O sistema político norte-americano, sob
certos aspectos mais sofrível que o nosso (como a eleição minoritária do
presidente Bush, em 2000, demonstrou), usa
largamente dos instrumentos de participação popular direta. A maioria dos
estados norte-americanos e muitos municípios aplicam políticas de iniciativa
popular, ou votadas diretamente pelos cidadãos, em conselhos municipais de caráter não só consultivo, mas também
deliberativo.
Quanto à ligação entre participação popular e
qualidade das decisões públicas, sua demonstração é ainda mais fácil. Só a proximidade com os interesses
administrados produz decisões informadas. Mais do que isso, só essa
proximidade ajuda a criar uma população apta a discutir de maneira informada os
seus interesses nas esferas próprias. Ainda aqui dois exemplos são relevantes.
O
primeiro, acadêmico e prático, chama atenção para o valor puro da participação.
A primeira mulher a receber o Prêmio
Nobel de Economia (2009), Elinor
Ostrom, foi agraciada exatamente por suas pesquisas que demonstraram, entre
outras coisas, que bens de grande
relevância e valor para a coletividade (o que ela chama de common goods – bens comuns) só podem ser convenientemente geridos, quando
submetidos à administração dos próprios grupos afetados pela sua gestão. Os
exemplos concretos por ela citados, que vão desde a gestão da pesca no Mar do
Norte à autogestão de bairros carentes no Peru, são muito reveladores.
O
segundo exemplo da importância da participação social na qualidade das decisões
a serem tomadas ocorreu na Alemanha.
Lá, desde os anos 60 do século XX,
criou-se por lei a obrigatoriedade de participação paritária dos representantes
de trabalhadores de grandes empresas no seu órgão decisório (Aufsichtsrat). Os resultados, naquele
momento, surpreendentes, marcam a economia alemã até hoje. A participação decisória dos trabalhadores incrementou a qualidade da
gestão das empresas, levando à sua profissionalização e ao abandono da
tradicional gestão familiar. No nível macroeconômico, estimulou a concentração
da maior parte dos investimentos das grandes empresas alemãs no longo prazo
(que em muitos casos até hoje geram frutos) e não no curto prazo, voltados a produzir
os malfadados lucros exorbitantes e imediatos (fontes da crise econômica global
de 2008).
Se a participação popular só faz reforçar a
democracia e a qualidade das decisões, pergunta-se: por que tanta celeuma? Há
duas explicações possíveis.
[1ª] A primeira, mais
simples, mas não necessariamente única, é a do momento político. A infeliz
coincidência com o calendário eleitoral teria feito que surgissem críticas de
pessoas, órgãos e instituições, que em outro momento jamais se manifestariam
contra a participação popular.
[2ª] A segunda é mais
complexa, mas não necessariamente menos verdadeira. O oposto de participação popular não é e nunca foi, como visto, a
democracia. É, sim, o domínio das
decisões tomadas oligarquicamente pelos grupos minoritários mais influentes,
política e economicamente. Assim, podadas as iniciativas de participação
popular, as políticas públicas, as leis e os regulamentos continuariam nas mãos
dos que sempre detiveram, na sombra, o poder soberano.
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