Teólogos espanhois pedem reformas radicais para Francisco
Juan G. Bedoya
El País (Espanha)
08-09-2014
“Se a
reforma da Igreja é feita de costas para os marginalizados, estará sendo infiel
às suas origens e aos pobres, e se não for paritária e inclusiva, estará
desligada do movimento de Jesus”.
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Plenário do 34º Congresso da Associação de Teólogos e Teólogas "João XXIII" 4 a 7 de setembro de 2014 - Espanha |
É com essa contundência que se expressa o
manifesto aprovado pelo 34° congresso da Associação de Teólogos e Teólogas João
XXIII. Consideram que a reforma é necessária, mas pedem para que seja
“radical”, para ser coerente com o fundador cristão e com “os desafios desse tempo”.
Com a esperança posta no papa Francisco, os teólogos proclamam, além disso, que
a reforma “requer:
- a prática da democracia,
- o reconhecimento e exercício dos direitos humanos, entre eles os direitos sexuais e reprodutivos, assim como
- o governo sinodal com a participação do laicato, que é a base da igreja,
A
mensagem do congresso da principal organização de teólogos espanhóis se inicia
com uma pergunta: Jesus fundou a Igreja? O manifesto responde: “O que Jesus
colocou em marcha foi uma comunidade de iguais, um movimento de homens e
mulheres, que o acompanharam e se comprometeram na construção do Reino de Deus.
O movimento continuou nas comunidades cristãs com responsabilidades
compartilhadas e protagonismo especial das mulheres. Elas tomavam as decisões
com a deliberação de todos os seus membros e tinham como ideal a comunhão de
bens. Com o passar do tempo, esse ideal foi se apagando até desembocar em uma
Igreja aliada ao poder, clerical, piramidal e patriarcal, se bem que sempre
existiram coletivos que trabalharam pela reforma e o retorno ao ideal
evangélico de vida”.
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Federico Pastor Ramos Teólogo espanhol |
Mais
contundente que o manifesto, o teólogo que desenvolveu esse tema em uma longa
apresentação, Federico Pastor, disse: “Jesus colocou em marcha uma comunidade
igualitária de seguidores e seguidoras, não fundou a Igreja tal como se
organizou posteriormente, ou seja, hierárquica, patriarcal, clerical, aliada ao
poder, confessora da sociedade e imperial”.
Como
consequência dessa posição, os teólogos da João XXIII acreditam que a reforma
de sua Igreja deve ser traduzida no respeito à laicidade, a crítica do poder e
o compromisso com os setores mais vulneráveis. Usando as palavras de [papa] Francisco,
acrescentam que também deve se produzir uma denúncia permanente do
neoliberalismo, que o Papa atual qualificou, textualmente, “injusto em sua raiz
pois fomenta uma economia de exclusão, uma globalização da indiferença, uma
nova idolatria do dinheiro, um meio ambiente indefeso diante dos interesses do
mercado divinizado, e uma incapacidade de nos compadecer diante dos clamores
dos outros”.
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José María Castillo - teólogo espanhol |
O
sacerdote e ex-defensor do Povo na Andaluzia, José Chamizo, expressou antes
algumas decepções do atual eclesiástico romano. “A Igreja é divina em sua
dimensão religiosa, mas pecadora na administração humana. Os padres jovens são
mais velhos do que nós e têm uma concepção funcionalista do sacerdócio”, disse.
Sobre a
figura do pontificado, tão discutida entre as igrejas populares, José María
Castillo, ex-jesuíta e o primeiro teólogo espanhol a receber um título de doutor
Honoris Causa por uma Universidade civil, a de Granada, se mostrou otimista
porque, apesar de “Francisco ser considerado alguém diferente por parte da
Cúria e do clero vaticano, esse Papa se interessa mais pelo Evangelho do que
pela religião”. Acrescentou que convém manter o papado como última instância a
se recorrer, como ponto de encontro e âmbito de coordenação, mas é necessário
“recuperar o governo sinodal, que esteve vigente durante os dez primeiros
séculos da Igreja com a participação do laicato”.
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