ECONOMIA BRASILEIRA: JÁ ESTAMOS QUASE PARADOS...
“Já começou a terapia recessiva nos desequilíbrios”
Entrevista
com Luiz Carlos Mendonça de Barros,
Ex-presidente
do BNDES (Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social)
FERNANDO DANTAS
Ex-ministro
diz que recessão ajudará a corrigir inflação e contas externas e economia só
voltará a crescer em 2016
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Luiz Carlos Mendonça de Barros - economista |
Para o
economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, diretor-estrategista da Quest Investimentos,
ex-presidente do BNDES e ex-ministro das Comunicações, o resultado do PIB do segundo trimestre mostra que já teve início a
"terapia recessiva" para corrigir os desequilíbrios da inflação e do
déficit das contas externas.
Ele
acha que a economia brasileira só volta a crescer a um ritmo satisfatório em
2016, mas, a partir daí é otimista, desde que a política econômica seja
corrigida e a confiança dos empresários restabelecida. Para Mendonça de Barros,
apesar do mau momento, a economia brasileira é sólida e tem ativos valiosos,
como o grande crescimento dos trabalhadores na formalidade.
O que o sr. achou do PIB do segundo
trimestre?
Mendonça de Barros: Veio
um pouco mais fraco do que pensava, mas na direção prevista. A queda do
investimento foi forte, o quarto recuo trimestral. Como os índices de confiança
dos empresários estão no chão, era simplesmente uma questão de esperar a queda.
O recuo do investimento em relação ao mesmo período do ano passado foi de mais
de 11%. O consumo ainda está no positivo, mas já não é tão brilhante quanto em
anos anteriores.
O sr. viu algum sinal positivo?
Mendonça de Barros: Sim,
temos que fazer um ajuste de demanda [no consumo], e há sinais de que isto começou
a ocorrer. As exportações cresceram e as importações caíram, um sinal correto.
O deflator do PIB veio em 5,4%, bem abaixo da inflação corrente, outro ponto
positivo. E há finalmente sinais de que a Petrobrás começou finalmente a elevar
a produção de petróleo, nos números da indústria extrativa. Na verdade, é
ótimo, por um lado, que os dados do PIB
do segundo trimestre tenham sancionado que entramos numa terapia recessiva
necessária para lidar com os desequilíbrios da conta corrente (contas externas)
e da inflação.
O governo deve ficar satisfeito,
então?
Mendonça de Barros: Não,
porque na verdade foi uma grande barbeiragem que tenhamos chegado ao trimestre
que antecede as eleições com a economia no chão. A presidente Dilma Rousseff
vai para a tentativa de reeleição com a economia de joelhos, imagina o
escândalo que a imprensa não vai fazer com esse resultado do PIB. Nós íamos caminhar para a terapia
recessiva, o governo tentou adiar. Aí, como acontece nas doenças, a
recidiva é pior que o primeiro ataque. Para quem gosta de tecnicidades, tivemos
dois trimestres negativos, é recessão no conceito mais elementar.
Por que a economia parou de crescer?
Mendonça de Barros: Batemos
no teto em vários sentidos. Houve esse fantástico processo de formalização do
trabalho, que chegou a 70%. A formalização do trabalho abria o acesso ao
crédito, mas agora esse motor de crescimento se esgotou. Daqui para frente,
depende do salário real e do aumento do crédito para quem já está incluído.
Então não vai mais ocorrer um fenômeno como a multiplicação por três das vendas
de automóveis em quatro ou cinco anos. O desemprego bateu no mínimo, começou a
pressionar os salários. Já o empresário se vê numa situação clássica em que a
oferta passou na frente da demanda. Ele pensa "se não for nesse ano, no
próximo entra em recessão". Tem que lidar com estoques e excesso de
capacidade e não pensa em investir.
É só por isso que o empresário não
investe?
Mendonça de Barros: Não,
existe também a falta de confiança na política econômica. Há a postura
ideológica da presidenta que coloca o Estado como sendo o agente mais
importante da economia, o que faz com que interfira demais, prejudicando o
setor privado. De qualquer forma, quem acompanhou minimamente a economia nos
últimos dois ou três anos sabia que ela tinha que ir para a terapia recessiva.
O crédito bateu no teto, o déficit em conta corrente subiu até um nível
perigoso.
Como o sr. vê a situação
especificamente da indústria?
Mendonça de Barros: Aí tem
os dois componentes. Em termos conjunturais, como eu disse, a oferta
ultrapassou a demanda. E tem o problema da falta de competitividade: durante os
anos de boom, a importação abasteceu o crescimento do consumo de bens
industriais. Os setores que tem proteção, como o automobilístico, se deram bem
e cresceram. Os que não tinham proteção minguaram.
E a economia daqui para a frente?
Mendonça de Barros: Só Deus
sabe, ou melhor, depende de quem vai ganhar a eleição. Na oferta eleitoral, tem
dois candidatos, Aécio e Marina, que mostraram que optariam pela abordagem
clássica. Tratariam da conjuntura mantendo por mais algum tempo o ajuste que já
começou, e tentariam reverter o pessimismo do empresário via retomada da
confiança. Já a Dilma exercitou nos seus quatro anos o software ideológico do
PT e deu no que deu. Vai ter que encontrar outro software fora do arco
ideológico do partido. A tendência é recessiva também para o ano que vem, e o
jogo do crescimento vai ser jogado de 2016 em diante.
E como ganhá-lo?
Mendonça de Barros: Com
uma política econômica que traga de volta a confiança dos agentes econômicos.
Fazendo uma série de ajustes, o crescimento volta naturalmente. O Brasil não
está vivendo nenhum desastre. Temos que comemorar essa situação extraordinária
para uma economia emergente de ter 70% (dos trabalhadores) na formalidade, é
algo que precisamos explorar, coisa que a presidente não conseguiu em quatro
anos. Vivemos um fim de ciclo, mas não é algo negativo. Temos uma economia
sólida e preparada para receber os estímulos de uma política econômica correta.
O PIB afeta o cenário eleitoral?
Mendonça de Barros: Esses
números não chegam à maioria da população, mas a ameaça de desemprego e o lay-off (suspensão temporária dos
contratos de trabalho) na indústria automobilística, isso chega. O Lula é visto
como responsável pela mudança que incluiu essas pessoas, e a Dilma é vista como
alguém que ameaça a continuidade desse processo. Eu concordo. Tem que
reconhecer o que o Lula fez e que essa política atual está colocando isso em
risco.
Fonte: O Estado de S. Paulo – Economia –
Sábado, 30 de agosto de 2014 – Pg. B6 – Internet: clique aqui.
A recessão mais grave é a da qualidade
ROLF KUNTZ
O
Brasil desmorona, enquanto o mundo rico sai da crise e os demais emergentes
enfrentam o desafio de se ajustar para ganhar novo fôlego e voltar a crescer
com rapidez. Com a indústria enfraquecida
e o investimento produtivo em queda, é ridículo discutir se houve mesmo
recessão no País no primeiro semestre. O ministro da Fazenda, Guido
Mantega, recusa essa palavra, mas, por enquanto, prevalecem os novos dados
oficiais: depois de encolher 0,2% no primeiro trimestre, o produto interno
bruto (PIB) diminuiu mais 0,6% no período de abril a junho. Rótulos técnicos
são menos importantes que a substância dos fatos. A reação do ministro só seria mais que um esperneio inútil se ele
conseguisse contestar os dois dados mais agourentos das contas nacionais.
[1º] O primeiro deles é o recuo do investimento em máquinas,
equipamentos, construções e obras de infraestrutura. O valor investido no
segundo trimestre foi 11,2% menor que o de um ano antes e correspondeu a míseros
16,5% do PIB. Esse é um dos fatores determinantes da capacidade produtiva, do
potencial de crescimento e da capacidade competitiva.
[2º] O segundo indicador
agourento foi a diminuição do produto
industrial - 1,5% menor que o do primeiro trimestre e 3,4% inferior ao de
abril-maio de 2013. O enfraquecimento da
indústria afeta a qualidade do emprego, prejudica o dinamismo dos serviços e de
toda a economia urbana e compromete seriamente as contas externas.
O
governo continua prometendo para dentro de alguns anos - ninguém sabe quantos -
uma taxa de investimento de 24% do PIB. Taxas entre 24% e 30% são encontradas
em muitas economias emergentes. Não é indispensável, nem politicamente
exequível, investir o equivalente a 40% da produção ou até mais, como na China.
Mas uma taxa inferior a 20% do PIB é suicida.
A economia brasileira cresceu na última
década impulsionada basicamente pela incorporação de mão de obra. Essa
possibilidade está esgotada. A cada dia se torna mais urgente ampliar
e modernizar o estoque de capital e apostar na qualidade da mão de obra, muito
mais que na quantidade.
Nada
disso tem sido feito seriamente. O total investido em capital fixo [1] pelo setor público e pelas empresas
privadas ficou sempre abaixo de 20% nos últimos 15 anos. A maior taxa observada
num segundo trimestre foi de 19,2%, em 2010. Em 2000 ficou em 16,76%, pouco
acima da calculada para o período de abril a junho deste ano, 16,5%. Os efeitos do baixo investimento são
visíveis na queda de produção da indústria de máquinas, na redução de importações
de bens de capital [2] e no recuo da construção civil, com produção 8,7%
menor que a do segundo trimestre do ano passado.
As
concessões de infraestrutura têm ocorrido lentamente e o governo só tem
procurado apressá-las, nos últimos tempos, para recolher os bônus
proporcionados pelos leilões. Esse dinheiro foi muito importante para o
fechamento das contas públicas no ano passado. A infraestrutura continua muito deficiente e os custos de logística são
um dos grandes entraves à competitividade. As obras do Programa de
Aceleração do Crescimento (PAC) permanecem atrasadas e com baixo índice de
conclusão. O investimento privado também vai mal, porque os empresários têm
pouca ou nenhuma segurança para se arriscar comprando máquinas ou ampliando
instalações. A incerteza tem sido
motivada em boa parte pelo voluntarismo [3] desastroso do governo e pela
insistência em políticas ineficazes. Diante dos sinais de economia
empacada, o ministro da Fazenda tem reagido, regularmente, com a prorrogação de
benefícios fiscais seletivos e voltados basicamente para o consumo.
A
indústria é o tema da segunda informação mais agourenta. Os únicos segmentos
industriais com desempenho positivo, quando comparado com o de abril a junho de
2013, foram o da extração mineral (+ 8%) e o de produção e distribuição de
eletricidade, gás e água (+ 1%). A
indústria de transformação [4], por muito tempo um dos principais núcleos de
modernização tecnológica e gerencial, continuou muito ruim e produziu 5,5%
menos que um ano antes. Isso é desastroso para o conjunto da economia.
Um
gráfico publicado no Boletim Macro de agosto da Fundação Getúlio Vargas mostra
as curvas de crescimento da indústria de transformação, dos serviços e do PIB
entre junho de 2007 e junho de 2014. A curva de serviços espelha a da indústria,
"de forma amortecida", como observam os autores da análise. Além
disso, a evolução do produto industrial e a do PIB são muito parecidas. No Brasil, tem-se dado muita importância
aos serviços, por seu peso na composição geral do produto, e tem-se negligenciado,
no debate cotidiano, o papel dinâmico da indústria, especialmente do segmento
de transformação.
Quando
se fala em recessão, a presidente e seus auxiliares costumam retrucar citando a
criação de empregos nos últimos anos. Mas o
emprego industrial tem diminuído, como indicam os dados do Ministério do
Trabalho, e a maior parte dos postos tem sido aberta em segmentos de baixa
produtividade e de salários modestos. Mesmo a criação desses empregos tende a
diminuir e já tem diminuído, com a perda geral de dinamismo associada à
estagnação da indústria.
Em 2013, a indústria de transformação
empregou 8,29 milhões de pessoas, 144,41 mil a mais que em 2012. Foi um aumento
de apenas 1,77%. A administração
pública empregou 9,34 milhões, 402,97 mil a mais que no ano anterior, com
variação de 4,51%. Nos serviços [5] a variação foi de 3,46% e o total
de postos chegou a 16,73 milhões, com acréscimo de 558,63 mil. Mais que um enfraquecimento e uma crise
passageira, os números apontam uma perda qualitativa. Ao discutir se a
palavra recessão é adequada, o ministro da Fazenda concentra-se novamente no
alvo errado. Toda economia pode recuar ocasionalmente. Mas, além de recuar, a economia brasileira está
piorando. É esta a consequência mais grave da política inepta. A qualidade
é essencial para o crescimento econômico e para a manutenção dos ganhos
sociais.
N O T A S :
[1] O capital fixo consiste no capital
físico que não é consumido durante um ciclo de produção. São os edifícios,
máquinas e equipamentos. Corresponde ao ativo fixo de uma empresa.
[2] Bens de capital ou bens de
produção são os equipamentos e instalações, são bens ou serviços necessários
para a produção de outros bens ou serviços. Bens de capital incluem fábricas,
máquinas, ferramentas, equipamentos, e diversas construções que são utilizadas
para produzir outros produtos para consumo.
[3] Voluntarismo é a tendência
para impor decisões sem admitir que sejam discutidas ou sem as justificar.
[4] A indústria de transformação é o tipo de indústria que transforma
matéria-prima em um produto final ou intermediário para outra indústria de
transformação. Como exemplo de indústria de transformação temos as refinarias
de petróleo que usam o petróleo como matéria-prima tanto para produtos finais
como, por exemplo, óleo diesel e gasolina, quanto para produtos intermediários
como por exemplo nafta que é utilizada pela indústria petroquímica em diversos
produtos como, por exemplo, os plásticos.
[5] Setor terciário (também
conhecido como setor de serviços) é
aquele que engloba as atividades de serviços e comércio de produtos. É um dos
três setores da economia, os outros sendo o Setor Primário (agricultura, extração mineral etc.) e o Setor Secundário (industrialização). Como componentes do setor de serviços, podemos citar:
-
Turismo;
-
Serviços bancários;
-
Restaurantes;
-
Hospitais;
-
Serviços de consultoria;
-
Corretagem de imóveis;
-
Serviços públicos.
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