O clima bate às portas e pede muita urgência
Washington
Novaes
Jornalista
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Este é o triste cenário da poluição em várias cidades da China e outras da Ásia, parece névoa, mas é fumaça! |
Não
está sendo nem será fácil ou tranquila a vida dos chefes de Estado e outros
participantes da Cúpula do Clima em andamento em Paris, que pretende definir
novas metas para a redução de poluentes - gerais e em cada país -, além de
outras regras para o setor. Já antes de ela começar o secretário de Estado dos
EUA, John Kerry, contrapôs-se ao
presidente Barack Obama ao dizer que
seu país não aceitaria regras
obrigatórias, vinculantes - a mesma atitude do enviado especial
norte-americano, Todd Stern. Este
chegou a propor um "modelo híbrido", em que obrigatórias seriam
apenas as regras para verificar as emissões de cada país, não os limites para
elas. Um dos argumentos é que os Estados Unidos da América (EUA) já definiram
que pretendem reduzir as suas entre 26% e 28% até 2025 (confrontadas com as de
2005).
Não
há surpresa até aí. Quando se encerrou a reunião preparatória em Bonn, há
algumas semanas, o documento final com as posições dos países tinha 55 páginas,
com cada um deles defendendo seus interesses específicos - o que poderia levar
à paralisia. Um especialista da Cepal, Luis Miguel Galindo, advertia que já estamos emitindo no mundo 7 toneladas
anuais de poluentes por habitante, ou entre 47 e 48 gigatoneladas (bilhões
de toneladas) totais - há quem fale
em 50 gigatoneladas -, quando seria
indispensável baixarmos para 20 gigatoneladas até 2050 (2 toneladas per
capita).
Estudos da própria ONU dizem
que, nos padrões de hoje, não alcançaremos o objetivo de limitar a 2 graus
Celsius o aumento da temperatura na Terra - chegaremos a pelo menos 2,7 graus
no fim do século. Para intensificar as medidas de adequação será preciso um fundo anual de US$ 100 bilhões, sobre o qual não há acordo entre possíveis
financiadores.
Não
é o único complicador. Relatório da Corporate Accountability International
(24/11) entra no pantanoso terreno das finanças das corporações patrocinadoras
das negociações sobre o clima. São empresas petrolíferas e de outros
combustíveis fósseis, bancos, geradoras de energia, etc. Segundo o
relatório, contar com elas é como "contratar uma raposa para guardar um
galinheiro".
Como fazer, então, se a Agência Internacional de Energia diz
(10/11) que as fontes "limpas"
não garantem que fiquemos nos limites adequados? E até 2040, na marcha
atual, as renováveis devem representar apenas 15% do total do investimento no
mundo - US$ 7,4 trilhões. Os
combustíveis fósseis receberam subsídios de US$ 490 bilhões em 2014. Pouco
menos que isso seria necessário investir em tecnologias de renováveis até 2030.
Além disso, será preciso eliminar as usinas que queimam carvão, as mais
poluidoras - mas que fornecem principalmente aos setores mais pobres (e há 1,2
bilhão de pessoas sem energia no mundo).
Poucos
dias antes da abertura da conferência de Paris, morreu, aos 86 anos, Maurice Strong, a cuja persistência devemos a criação da Convenção do Clima, depois de ser o chefe do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).
Quando o jornal The Guardian lhe perguntou, há poucos anos, o que pensava do
panorama na área, ele respondeu que "operacionalmente" era otimista,
pois "ainda é possível fazer o que sonhamos" - apesar de uma realidade preocupante a ponto de os
participantes da conferência de Paris se dizerem alarmados com a situação da China e da Índia, com suas
capitais cobertas por "nevoeiros sufocantes" (Francepress, 1/12). E
com o panorama geral das emissões.
De
fato, o total das emissões, que em 1990 era de 38 gigatoneladas anuais (com os
EUA como maior emissor), em 2010 já está perto de 50 gigatoneladas (agora a
China é o maior emissor com 23%, seguida dos EUA, com 15,5%). Se nada mudar, diz o Pnuma, poderemos ter
aumento da temperatura entre 3 e 3,5 graus no fim do século. O estudioso Bill McKibben calcula em 556
gigatoneladas o máximo de dióxido de carbono que poderemos colocar na atmosfera
sem ultrapassar 2 graus no aumento da temperatura. No Brasil, seria um
despautério global se queimássemos todas as reservas de combustíveis, inclusive
no pré-sal.
Há
avanços importantes
Nos EUA, o presidente Obama
rejeitou a proposta de construir o oleoduto Keystone XL, ligando o Canadá ao
Golfo do México e depois se espalhando pelo centro do território norte-americano, com
passagem inclusive pelo Aquífero de Ogalalla - o que seria inadmissível. A Grã-Bretanha fechará todas as suas usinas
a carvão em poucos anos (elas geram 30% do total da energia no país) e passará para o gás e a energia nuclear
(também discutível).
Mas
também seguem as advertências
A ONU tem alertado o Brasil (Estado, 7/11) sobre o aumento preocupante das emissões de
poluentes nas cidades e pelo complexo industrial, segundo as palavras de
Achim Steiner, do Pnuma. O jornal Le
Monde (25/11) tem assinalado a dificuldade crescente de a floresta
brasileira regular o clima (em 40 anos,
diz, 63 mil quilômetros quadrados de florestas foram abatidos; em 2004 foram
27.772 km2 e em 2013, pouco mais de 5 mil; o Brasil já perdeu na
região mais de 200 mil km2 de florestas, mais que o território do
Reino Unido). No Cerrado, perto de 40% já foram desmatados.
Do
lado mais otimista, o respeitado cientista Carlos
Nobre, do Inpe, lembra que estamos
com emissões de 7,5 toneladas por pessoa/ano, mas poderemos chegar a 4
toneladas anuais em 2030 e 2 toneladas em 2050 (Eco 21, setembro). A
própria presidente da República tem afirmado que temos condição de recuperar 15
milhões de hectares de pastagens degradadas e replantar florestas em 5 milhões
de hectares.
É importante que tudo isso
se concretize, que se detenha a progressão de temperaturas em cidades como São
Paulo e Rio de Janeiro, que se implante de fato um Plano Nacional de Adaptação
à Mudança do Clima em 11 setores. Muito tem de ser feito. Não é por acaso que se
reúnem em Paris os chefes de governo. Não será para trocar amabilidades.
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