Papa convida a eliminar o uso de carbono, e diz que fracasso em Paris seria "catastrófico"
Joshua J.
McElwee
National
Catholic Reporter
26-11-2015
PAPA FRANCISCO Faz um importante discurso no Escritório da ONU em Nairóbi (Quênia) Quinta-feira, 27 de novembro de 2015 |
O Papa Francisco disse que um fracasso por parte da
comunidade internacional em alcançar um acordo quanto às medidas de combate às
mudanças climáticas na Conferência do Clima, em Paris na próxima semana, seria
“catastrófico”, apelando também para um novo sistema energético que dependa “o
mínimo possível” dos combustíveis fósseis.
Em
um discurso nesta quinta-feira (27 de novembro) no escritório da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nairóbi
durante a sua visita a três países africanos que irá até o dia 30 deste mês, o
pontífice proferiu algumas de suas observações mais duras em nome da proteção
do meio ambiente, mencionando os altos riscos que estão em jogo nas negociações
dos líderes mundiais e mesmo propondo uma nova forma de uso da energia baseada
em três objetivos.
Ao
mencionar as negociações de Paris, a se iniciar no domingo e formalmente
conhecido como a 21ª Conferência das
Partes (COP21), o papa disse sem rodeios: “Seria triste e – atrevo-me a dizer – até catastrófico se os interesses
privados prevalecessem sobre o bem comum”.
“Estamos
confrontados com uma escolha que não pode ser ignorada: queremos melhorar ou destruir o meio ambiente”, continuou.
O
pontífice declarou que o encontro em Paris “representa um passo importante” no desenvolvimento de um novo sistema
energético, o qual, segundo ele, deveria
se basear em três pilares:
- “no uso mínimo possível de combustíveis fósseis”,
- na eficiência energética e
- no “uso de fontes energéticas com baixo ou nulo conteúdo de carbono”.
“Estamos
diante do grande compromisso político e econômico de reconsiderar e corrigir as falhas e distorções no modelo atual de
desenvolvimento”, disse Francisco.
“Espero
que a COP21 leve à conclusão de um acordo global e ‘transformador’ baseado nos
princípios de solidariedade, justiça, equidade e participação”, continuou o
papa. Um acordo que vise três objetivos
complexos e interdependentes:
- “promover a redução do impacto das alterações climáticas,
- combater pobreza e
- assegurar o respeito pela dignidade humana”.
Este
foi o segundo discurso de Francisco em instalações da ONU num raio de poucos
meses, visto que em sua viagem aos Estados Unidos ele discursou diante da
Assembleia Geral da organização em Nova York, no dia 25 de setembro.
Ainda
que o pontífice tenha citado escritos e discursos anteriores feitos por ele
sobre o meio ambiente e questões globais – em particular, a sua recente carta
encíclica Laudato Si’ –, ele também manifestou uma urgência na ocasião,
afirmando que “nós ainda temos tempo”
para salvar a Terra.
Ele igualmente apelou por
uma nova reeducação global e por programas de formação para ajudar as pessoas a
entenderem o impacto de suas escolhas energéticas.
Combustível fóssil deve ser substituído por outros mais limpos |
“Nada
vai acontecer ao menos que as soluções políticas e técnicas estejam
acompanhadas de um processo de educação
que proponha novos modos de vida”, disse. “Uma nova cultura”.
“Isto
convida a um processo educativo que fomente os meninos e meninas, homens e
mulheres, jovens e adultos a adotarem
uma cultura do cuidado – o cuidado de si, o cuidado dos outros, o cuidado
do meio ambiente – em lugar de uma
cultura do desperdício, uma ‘cultura do descartável’, em que as pessoas
usam e descartam elas mesmas, os outros e o meio ambiente”, disse ele.
Identificando
os efeitos de uma tal cultura com o seu impacto nas pessoas individuais, o papa
falou que a sociedade elevou aspectos do
sistema de mercado global ao status de ÍDOLOS.
“Muitos
são os rostos, as histórias, as consequências evidentes em milhares de pessoas
que a cultura da degradação e do descarte levou a sacrificar aos ídolos do lucro e do consumo”, disse ele.
“Precisamos
estar alertas quanto a um triste sinal da ‘globalização
da indiferença’, que nos acostuma
lentamente a ver o sofrimento dos outros como algo normal”, continuou.
“Muitas
vidas, muitas histórias, muitos sonhos naufragaram nos nossos dias”, completou,
acrescentando que “não podemos ficar indiferentes diante disso. Não temos o
direito”.
Francisco também criticou o
funcionamento da Organização Mundial do Comércio – OMC em seu discurso, dizendo
que, embora este órgão regulatório mundial tenha trabalhado para criar um
desenvolvimento econômico, “ainda
precisamos alcançar um sistema internacional de comércio que seja equitativo e
totalmente a serviço da luta contra a pobreza e exclusão”.
O
papa mencionou a OMC em referência a sua 10ª conferência ministerial, a
acontecer em Nairóbi entre os dias 15 e 18 de dezembro. Ele especialmente pediu
por um acesso à assistência à saúde para todos e novos debates sobre os
direitos de propriedade intelectual para garantir
“um mínimo de atenção sanitária e de acesso aos tratamentos essenciais para
todos”.
“Alguns
temas médicos, como a eliminação da malária e da tuberculose, a cura das
doenças ’órfãs’ e os setores da medicina tropical pedem uma atenção
prioritária, acima de qualquer interesse comercial ou político”, disse o
pontífice.
Francisco também falou
contra o tráfico humano e o comércio ilegal de diamantes e outras pedras
preciosas,
dizendo: “Também esta situação é um grito dos homens e da terra que deve ser
escutado pela comunidade internacional”.
O
escritório da ONU em Nairóbi é a sede da organização na África e abriga o
Programa para o Meio Ambiente e o Programa para os Assentamentos Humanos.
O
papa foi recebido no escritório nesta quinta-feira pelos diretores executivos
dos dois programas e pelo diretor geral da sede, Sahle-Work Zewde. Antes da sua alocução, Francisco e Zewde
simbolicamente plantaram uma árvore do lado de fora do edifício.
Francisco
falou sobre esta plantação no começe de sua fala, dizendo que plantar árvores é
“em primeiro lugar, um convite a perseverar na luta contra fenômenos como o
desflorestamento e a desertificação”.
“Isso
nos lembra da importância de proteger e administrar, com responsabilidade,
aqueles ‘pulmões do planeta repletos de biodiversidade’, que incluem, neste
continente, ‘as bacias do Congo’, um lugar essencial para ‘o conjunto do
planeta e para o futuro da humanidade”, disse o papa citando Laudato
Si’.
Plantar
uma árvore também é um “incentivo para continuar confiando, esperando e,
sobretudo, a nos empenhar concretamente para transformar a degradação e a
injustiça”, disse Francisco. [ . . . ]
Traduzido do inglês por Isaque Gomes Correa. Acesse a versão original deste artigo,
clicando aqui.
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