ANO JUBILAR: O tempo da misericórdia é agora!
Entrevista
com Papa Francisco
Antonio
Rizzuto
Revista
Credere
Nº 49,
06-12-2015
Francisco explica: «Convoquei o Jubileu porque senti
que era
desejo do Senhor mostrar aos homens o caminho da
reconciliação».
E revela que ele mesmo, em um momento de dor,
experimentou em si mesmo a misericórdia de Deus.
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PAPA FRANCISCO Convoca todos os cristãos para uma "revolução da ternura" neste Ano Jubilar da Misericórdia: 8 de dezembro de 2015 a 20 de novembro de 2016 |
É
inútil esconder: para um jornalista, entrevistar o papa é como uma medalha de
ouro nas Olimpíadas para um atleta; um daqueles objetivos impossíveis que
todos, na nossa profissão, mais cedo ou mais tarde, sonham em alcançar. Para
nós da revista Credere, porém, neste caso, não é assim: o nosso objetivo não
era o de trazer no peito a medalha ao mérito. Ao contrário, como revista oficial do Jubileu, pareceu-nos
necessário, quase inevitável, iniciar o percurso deste Ano Santo Extraordinário ouvindo, acima de tudo, as respostas de Jorge Mario Bergoglio, o bispo de Roma
que quis essa iniciativa posta sob o signo da misericórdia desde o primeiro
instante da sua eleição, na noite do dia 13 de março de 2013.
Como
já aconteceu em outras entrevistas que ele concedeu nesses dois anos e meio de
pontificado, o Papa Francisco não retrocedeu. E até mesmo sobre as perguntas
mais pessoais, como é o seu estilo, não gaguejou. Ao contrário, as suas reflexões espirituais são mais bem
entendidas e parecem ser verdadeiras de modo transparente, porque Bergoglio as
fundamenta sempre na própria experiência pessoal de fiel, um simples cristão
necessitado – como todos – da
misericórdia do Senhor.
Estamos
certos de que, como aconteceu conosco, também aos nossos leitores as palavras
de Francisco vão ser preciosas para nos pôr em caminho na estrada traçada por
esse Jubileu. No espírito dos antigos peregrinos, mendicantes da graça e da
verdade do Senhor Jesus, cuja vinda este tempo litúrgico nos lembra que já está
próxima.
Eis
a entrevista.
Santo
Padre, agora que estamos prestes a entrar em cheio no Jubileu, pode nos
explicar que movimento do coração o levou a destacar justamente o tema da
misericórdia? Que urgência o senhor percebe, a esse respeito, na atual situação
do mundo e da Igreja?
Papa Francisco: O tema da misericórdia vai
se acentuando com força na vida da Igreja a partir de Paulo VI. Foi João Paulo
II que o sublinhou fortemente com a Dives
in misericordia, a canonização de Santa Faustina e a instituição da festa
da Divina Misericórdia na Oitava de Páscoa. Nessa linha, eu senti que há um desejo do Senhor de mostrar aos homens a Sua
misericórdia. Portanto, não me veio à mente, mas eu retomo uma tradição
relativamente recente, que, porém, sempre existiu. E me dei conta de que era
necessário fazer alguma coisa e continuar essa tradição.
O meu primeiro Ângelus como papa foi sobre a
misericórdia de Deus e, naquela ocasião, eu falei também de um livro sobre
a misericórdia que me foi dado pelo cardeal
Walter Kasper durante o conclave. Na
minha primeira homilia como papa, no domingo, 17 de março, na paróquia de
Sant'Anna, eu falei da misericórdia. Não foi uma estratégia, me veio de
dentro: o Espírito Santo quer alguma coisa. É óbvio que o mundo de hoje precisa de misericórdia, precisa de
compaixão, ou seja, sofrer com.
Estamos
acostumados com as más notícias, com as notícias cruéis e com as maiores
atrocidades que ofendem o nome e a vida de Deus. O mundo precisa descobrir que Deus é Pai, que há misericórdia, que a
crueldade não é o caminho, que a condenação não é o caminho, porque a própria
Igreja, às vezes, segue uma linha dura, cai na tentação de seguir uma linha
dura, na tentação de enfatizar apenas as normas morais, mas quantas pessoas
ficam de fora.
Veio
à minha mente aquela imagem da Igreja como um hospital de campanha depois da
batalha; é a verdade, quantas pessoas feridas e destruídas! Os feridos devem
ser tratados, ajudados a se curar, não submetidos a análises para o colesterol.
Acho que este é o momento da
misericórdia. Todos nós somos pecadores, todos trazemos pesos interiores.
Eu
senti que Jesus quer abrir a porta do Seu coração, que o Pai quer mostrar as Suas entranhas de misericórdia e, por isso,
nos manda o Espírito: para nos mover e para nos demover. É o ano do perdão,
o ano da reconciliação. Por um lado,
vemos
- o tráfico de armas,
- a produção de armas que matam,
- o assassinato de inocentes dos modos mais cruéis possíveis,
- a exploração de pessoas, menores, crianças: está se cometendo – permita-me o termo – um sacrilégio contra a humanidade, porque o homem é sagrado, é a imagem do Deus vivo.
O
senhor disse que, como todos os fiéis, se sente pecador, necessitado da
misericórdia de Deus. Que importância teve no seu caminho de sacerdote e de
bispo a misericórdia divina? Recorda em particular um momento em que sentiu de
maneira transparente o olhar misericordioso do Senhor sobre a sua vida?
Papa Francisco: Eu sou pecador, me sinto
pecador, tenho certeza de que o sou; sou um pecador a quem o Senhor olhou com
misericórdia. Eu sou, como disse aos
presos na Bolívia, um homem perdoado. Sou um homem perdoado, Deus me olhou
com misericórdia e me perdoou. Ainda
agora eu cometo erros e pecados, e me confesso a cada 15 ou 20 dias. E, se
eu me confesso, é porque preciso sentir que a misericórdia de Deus ainda está
sobre mim.
Lembro-me
– eu já disse isto muitas vezes – de quando o Senhor me olhou com misericórdia.
Eu sempre tive a sensação de que ele me cuidava de um modo especial, mas o momento mais significativo ocorreu no dia
21 de setembro de 1953, quando eu tinha 17 anos. Era o dia da festa da
primavera e do estudante na Argentina, e eu o passaria com os outros
estudantes; eu era católico praticante, ia à missa aos domingos, mas nada
mais... Eu estava na Ação Católica, mas não fazia nada, era apenas um católico
praticante.
Ao longo do caminho para a
estação ferroviária de Flores, passei perto da paróquia que eu frequentava e me
senti impulsionado a entrar: entrei e vi um sacerdote que eu não conhecia vir de
um lado. Naquele momento, não sei o que
me aconteceu, mas senti a necessidade de me confessar, no primeiro
confessionário à esquerda – muita gente ia rezar ali. E não sei o que aconteceu, mas saí diferente, mudado. Voltei para
casa com a certeza de ter que me consagrar ao Senhor, e esse sacerdote me
acompanhou por quase um ano. Era um sacerdote de Corrientes, Pe. Carlos Benito Duarte Ibarra, que
vivia na Casa do Clero de Flores. Ele tinha leucemia e estava se tratando no
hospital. Ele morreu no ano seguinte.
Depois
do funeral, eu chorei amargamente, me senti totalmente perdido, com o temor de
que Deus tinha me abandonado. Esse foi o momento em que me debati na
misericórdia de Deus e está muito ligado ao meu lema episcopal: o dia 21 de
setembro é o dia de São Mateus, e Beda,
o Venerável, falando da conversão de Mateus, diz que Jesus olhou para Mateus
"miserando atque eligendo".
Trata-se de uma expressão que não pode ser traduzida, porque, em italiano, um
dos dois verbos não tem gerúndio, nem em espanhol. A tradução literal seria
"misericordiando e escolhendo",
quase como um trabalho artesanal. "Misericordiou-o":
essa é a tradução literal do texto. Anos depois, ao rezar o breviário latino,
quando eu descobri essa leitura, percebi
que o Senhor tinha me modelado artesanalmente com a Sua misericórdia. Todas
as vezes que eu ia para Roma, como eu me hospedava na Via della Scrofa, eu ia à
igreja de San Luigi dei Francesi para
rezar diante do quadro de Caravaggio,
justamente a Vocação de São Mateus.
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"VOCAÇÃO DE SÃO MATEUS" Pintura realizada pelo o pintor barroco italiano Caravaggio concluída em 1599-1600 para a Capela Contarelli da igreja San Luigi dei Francesi, onde ainda se conserva em Roma. |
De
acordo com a Bíblia, o lugar onde mora a misericórdia de Deus é o ventre, as
entranhas maternas, de Deus, que se comovem a ponto de perdoar o pecado. O
Jubileu da Misericórdia pode ser uma oportunidade para redescobrir a
"maternidade" de Deus? Há também um aspecto mais "feminino"
da Igreja que deve ser valorizado?
Papa Francisco: Sim, Ele mesmo afirma isso,
quando diz em Isaías que uma mãe talvez se esqueça do seu filho, até uma mãe pode esquecer... "Eu,
porém, nunca vou te esquecer". Aqui se vê a dimensão materna de Deus. Nem todos compreendem quando se fala da
"maternidade de Deus", não é uma linguagem popular – no bom sentido
da palavra –, parece uma linguagem um pouco escolhida; por isso, prefiro usar a
ternura, própria de uma mãe, a ternura
de Deus, a ternura que nasce das entranhas paternas. Deus é pai e mãe.
A
misericórdia, sempre quando nos referimos à Bíblia, nos faz conhecer um Deus
mais "emotivo" do que aquele que às vezes imaginamos. Descobrir um
Deus que se comove e se enternece pelo homem pode mudar também a nossa atitude
para com os irmãos?
Papa Francisco: Descobri-Lo nos levará a
ter uma atitude mais tolerante, mais paciente, mais terna. Em 1994, durante o
Sínodo, em uma reunião dos grupos, eu disse que devia se instaurar a revolução da ternura, e um Padre sinodal – um
bom homem, que eu respeito e ao qual quero bem –, já muito idoso, me disse que
não convinha usar essa linguagem e me deu explicações razoáveis, como homem
inteligente, mas eu continuo dizendo que, hoje,
a revolução é a da ternura, porque daí deriva a justiça e todo o resto.
Se
um empresário contrata um empregado de setembro a julho, eu lhe disse, ele não
faz a coisa certa, porque o despede para as férias de julho para, depois,
retomá-lo com um novo contrato de setembro a julho, e, desse modo, o
trabalhador não tem o direito à indenização, nem à pensão, nem à previdência
social. Não tem direito a nada. O empresário não mostra ternura, mas trata o
empregado como um objeto – apenas para dar um exemplo de onde não há ternura.
Se
nos colocamos na pele dessa pessoa, em vez de pensar nos próprios bolsos por
causa de um pouco mais de dinheiro, então as coisas mudam. A revolução da ternura é o que hoje devemos cultivar como fruto desse
ano da misericórdia: a ternura de Deus para com cada um de nós. Cada um de
nós deve dizer: "Sou um infeliz, mas Deus me ama assim; então, eu também
devo amar os outros do mesmo modo".
Praça de São Pedro tendo a Basílica ao fundo na noite do famoso "DISCURSO DA LUA" do Papa João XXIII - no dia 11 de outubro de 1962 |
É
famoso o "discurso da lua" do Papa João XXIII, quando, uma noite, ele
cumprimentou os fiéis dizendo: "Façam uma carícia nas suas crianças".
Essa imagem se tornou um ícone da Igreja da ternura. De que modo o tema da
misericórdia poderá ajudar as nossas comunidades cristãs a se converterem e a
se renovarem?
Papa Francisco: Quando eu vejo os doentes,
os idosos, a carícia me vem espontaneamente... A carícia é um gesto que pode
ser interpretado ambiguamente, mas é o primeiro gesto que a mãe e o pai fazem
com o bebê recém-nascido, o gesto do
"eu te quero bem", "eu te amo", "eu quero que tu vás
em frente".
Pode
nos antecipar um gesto que pretende fazer durante o Jubileu para testemunhar a
misericórdia de Deus?
Papa Francisco: Haverá muitos gestos que
serão feitos, mas em uma sexta-feira de
cada mês eu vou fazer um gesto diferente.
Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão
original desta entrevista, clicando aqui.
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