O momento político atual e a surdez do governo Dilma
Comissão
Pastoral da Terra - CPT
“Tão ou mais grave que o mar de lama da Samarco em Mariana,
Minas Gerais, é o mar de lama que escorre do mundo da política. Pois enquanto a
lama da Samarco afeta a bacia do Rio Doce, a que escorre do Congresso Nacional,
das assembleias legislativas e de gabinetes de Brasília afetam sonhos e
esperanças de toda nação brasileira, sobretudo dos mais pobres.”
Câmara dos Deputados Federais, Senado Federal e o próprio Governo Federal trabalham e defendem projetos que não interessam ao homem do campo, ao indígena e às populações mais vulneráveis do País. |
A
Diretoria e a Coordenação Executiva Nacional da Comissão Pastoral da Terra –
CPT vêm a público se manifestar sobre o grave momento da conjuntura nacional,
cujo foco na polarização da crise política, em muito enviesada e distorcida,
obscurece a percepção dos atuais conflitos violentos contra os povos do campo.
O
país viveu, neste ano de 2015, um período conturbado pela recessão econômica e
pela crise política que encurralaram a presidência da República. A incompetência
no enfrentamento da crise econômica, as denúncias diárias de corrupção que
atingem o PT e aliados de seu governo de coalizão têm sido utilizadas pela
oposição para uma busca ilegítima do poder que ameaça desestabilizar a ordem
democrática. A corrupção, endêmica
na vida política brasileira, é apresentada, sobretudo pelos meios de
comunicação, como a maior e mais grave da história deste país. Esquece-se que
somente agora estes casos estão sendo investigados e punidos.
A crise econômica tem sido potencializada
ao máximo por uma crise política
alimentada diariamente na mídia e por um Congresso Nacional venal e
obscurantista, que tenta um processo de impedimento da Presidenta da República
com mais que frágeis argumentos.
Este
Congresso tem demonstrado publicamente o quanto é refém e está a serviço do
poder econômico que custeou as caras campanhas eleitorais dos seus ocupantes. Os interesses do povo, sobretudo os dos
mais fracos, de forma alguma são prioridade da maioria dos congressistas.
Isto se torna evidente pelas proposições e defesas da poderosa bancada ruralista, e das bancadas da bala e evangélica, que se
tornaram conhecidas como a bancada do BBB - do boi, da bala e da bíblia.
Os
interesses por trás destas bancadas se revelam na:
- aprovação das leis da terceirização do trabalho e da redução da idade penal e nas tentativas, já em fase adiantada nos procedimentos regimentais,
- de desmonte dos direitos indígenas e de outras comunidades tradicionais com a PEC 215,
- com o projeto de lei que quer modificar o conceito de trabalho escravo, e
- com a pressa em aprovar um código de mineração que prioriza os interesses das mineradoras em detrimento das comunidades atingidas.
- A avalanche contra os pequenos se consubstancia ainda na CPI da FUNAI e do INCRA para barrar todo e qualquer avanço no reconhecimento dos direitos territoriais dos povos indígenas, das comunidades quilombolas e de outras comunidades tradicionais.
Aproveitando-se
deste cenário mais que sombrio, como já temos reiterado mais de uma vez, tem crescido de forma assustadora a
violência contra os trabalhadores e trabalhadoras do campo. Até o final de
novembro, o Centro de Documentação Dom Tomás Balduino, da CPT, tinha registrado
o mais alto número de assassinatos no campo, desde 2004, 46 pessoas -
camponeses, sobretudo posseiros, sem terra e assentados da reforma agrária. 44
destas mortes ocorreram na Amazônia. A maior parte dos conflitos nesta região
está relacionada a terras públicas griladas. A fraqueza do Estado em recuperar
estas áreas para destiná-las à Reforma Agrária, como manda a Constituição,
favorece que os ataques de grileiros e pistoleiros se multipliquem, bem como as
invasões de áreas e a expulsão de famílias.
Tão
ou mais grave que o mar de lama da Samarco em Mariana, Minas Gerais, é o mar de
lama que escorre do mundo da política. Pois enquanto a lama da Samarco afeta a
bacia do Rio Doce, a que escorre do Congresso Nacional, das assembleias
legislativas e de gabinetes de Brasília e dos estados afetam sonhos e
esperanças de toda nação brasileira, sobretudo dos mais pobres.
Neste cenário de sombras,
ainda bem, algumas luzes se acendem. Tem crescido o número de sem terra que fazem
ocupações em busca de um pedaço de chão para viver e plantar. Nas cidades,
jovens têm se destacado na luta em defesa da educação pública e de qualidade
diante de tentativas de fechamento e de uma reorganização questionável de
escolas, ou da entrega do ensino público a Organizações Sociais (OS), como
acontece em Goiás. As ocupações das escolas pelos estudantes, com apoio de suas
famílias, em São Paulo e em Goiás, são um grito de alerta para uma sociedade
sonolenta. A organização dos jovens, o cuidado com os espaços ocupados, o uso
das tecnologias de comunicação soam para os ouvidos atentos como fina música de
um concerto de harmonias que pareciam perdidas.
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Índios do Mato Grosso do Sul fazem protesto e denunciam o aumento de mortes em confrontos violentos no interior do estado. |
A Diretoria e a Coordenação Executiva
Nacional da CPT, ao mesmo tempo em que denunciam as tentativas da quebra da
normalidade democrática, lamentam a
falta de sensibilidade do governo Dilma no atendimento às reivindicações
populares. Nunca um governo, desde o
final dos anos de chumbo da ditadura militar, foi tão surdo às demandas populares,
no campo e nas cidades, quanto o governo Dilma. Foi o governo que menos
reconheceu terras indígenas e territórios quilombolas e o que menos fez
assentamentos de sem terra. As decantadas políticas sociais, decadentes sob os
cortes do ajuste econômico que mais uma vez favorece os que têm poder, já não
conseguem aludir a uma imagem “popular” do governo.
A surdez da Presidência se
tornou quase uma afronta aos homens e mulheres do campo com a nomeação para o
Ministério da Agricultura da senadora KÁTIA ABREU, que sempre se mostrou
inimiga dos movimentos do campo e do meio ambiente em plena crise climática. E diante de tantos apelos
dos mais diversos movimentos populares, mantém o ministro da Fazenda totalmente
alinhado aos interesses da classe dominante.
Esperamos
que a estrela que conduziu os Magos até Belém possa conduzir nosso país nos
caminhos da normalidade democrática, duramente conquistada, e na superação dos
entraves que impedem o reconhecimento efetivo dos direitos dos pequenos e
pobres.
Goiânia, 17 de dezembro de 2015.
Diretoria Nacional e Coordenação Executiva Nacional
da CPT
[Opinião pessoal: mas um crime não justifica ou encobre o outro! Esperava-se do PT no poder uma obra melhor que aquela dos demais partidos e governos que ele sempre criticou! Por isso, a perplexidade e revolta de muitos contra este atual governo de Dilma Rousseff e o anterior, de Lula! E quantas vezes os investigados, petistas e não petistas, criticaram a ação da Polícia Federal e do Ministério Público?! Sem falar que nenhuma grande REFORMA foi realizada durante o longo período do PT no poder. Seja uma reforma política, uma das mais necessárias, seja tributária, a fim de corrigir a imensa injustiça que grava sobre um sistema de impostos que penaliza e retira mais dos pobres! No auge de sua grandíssima popularidade, Lula, se o desejasse, poderia ter proposto e trabalhado para que estas e outras reformas se fizessem. Mas o sistema do presidencialismo de coalizão foi assumido e usado pelo próprio PT!].
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