PASSANDO DE 2015 PARA 2016: E DAÍ ? ? ?
A palavra do ano
Sérgio
Rodrigues*
Só há uma capaz de dar conta de uma dúzia de meses tão
horrorosos,
ter força de tsunami e riqueza semântica
para unir prosa e poesia: LAMA
No
dia 16 de novembro o dicionário Oxford,
o mais importante da língua inglesa, elegeu um emoji como Palavra do
Ano. Convém explicar: não a palavra “emoji”, cunhada no Japão pela junção de e
(imagem) + moji (letra) e dicionarizada pelo próprio Oxford desde 2013. O escolhido foi um emoji mesmo, figurinha
cartunesca que conjura o estado de espírito do remetente na comunicação online
– no caso, coroou-se a carinha de maior circulação em 2015, aquela que chora de
tanto rir. O detalhe esperto de consagrar a coisa em vez da palavra que a
nomeia tornou especial a eleição do Oxford,
é claro. No fundo, ajuda a explicar a própria escolha.
Reféns
da lógica marqueteira, afinal, somos todos a esta altura do terceiro milênio. Quem
não sentiu um arrepio novidadeiro ao saber que a bíblia do idioma inglês tinha
inovado em sua eleição e consagrado algo que nem sequer é uma palavra, que pula
fora do verbo para significar de outra forma, prenunciando a nova gramática da
comunicação digital, blá-blá-blá? (Pode ser isso mesmo, não duvido. Só me
intriga nunca terem concedido o mesmo prestígio aos coraçõezinhos que
adolescentes suspirosas passaram séculos bordando nas margens de suas cartas.)
Seja
como for, seguir o Oxford e
transformar qualquer emoji em Palavra
do Ano no Brasil seria só um atestado de servilismo cultural. Não porque
carinhas risonhas, tristes ou raivosas sejam acessórios escassos nas mensagens
e comentários que produzimos online. Ocorre que a eleição de um único signo ou vocábulo
para sumarizar um ano inteiro, ideia de ousadia quase leviana, só se justifica
se tiver como objetivo captar um certo espírito do tempo. E o espírito que nos assombrou este ano não podia estar mais distante
de um fantasminha camarada.
Presidente
zumbi, oposição banana, bandidão dando as cartas no cassino republicano, teatro
político dividido entre incompetentes e facínoras à espera da visita da Polícia
Federal, crise econômica a perder de vista, PM ultraviolenta como último
recurso da ordem contra as tensões sociais que se avolumam – a vida no Brasil em 2015 não esteve para
frescuras de emoji ou prenúncio de novas gramáticas digitais. Nem mesmo
para o pasmo sensato com os desafios que nossa contemporaneidade disruptiva
(boa candidata a Palavra do Ano, qualquer hora dessas) oferece a cada esquina
do labirinto digital que vai sendo construído mundo afora, sem fio de Ariadne e
com Minotauros clonados ao infinito.
Espero
não ser mal compreendido: seria ótimo ter tempo para matutar sobre coisas
assim, exercitar a inteligência com os novos enigmas que confrontam a espécie,
acessar o Zeitgeist [espírito do
tempo, época] do mundo. Seria, mas é natural que questões mais comezinhas de
sobrevivência – material, política, institucional – abafem tudo: 2015 foi o ano em que bateu a ressaca dos
recentes anos de euforia econômica maluquete. As palavras que vieram zumbir feito moscas ao redor do florão da
América não carregavam novidade nem apontavam para o futuro, pelo contrário –
trouxeram codificada a própria negação de um porvir decente. Eram oriundas do buraco em que a sociedade
brasileira guarda o que tem de mais arcaico:
- corrupção,
- recessão,
- inflação,
- crise,
- golpe,
- pedalada,
- desemprego,
- depressão,
- violência,
- obscurantismo,
- racismo,
- machismo,
- preconceito,
- desalento.
Os
poucos de nós que conseguiram exercitar alguma abstração tentaram situar a
avalanche de estrume num quadro histórico: falaram em patrimonialismo,
fisiologismo, falência do cenário educacional, do modelo de governabilidade, do
quadro partidário. Tudo verdade, mas verdade parcial. Uma boa Palavra do Ano precisa, para dar conta de uma dúzia de meses
tão horrorosos, ter força de tsunami e riqueza semântica capaz de unir prosa e
poesia, isto é, o pé da letra e o sentido figurado. Uma missão que seria
quase impossível se não fosse a incúria
emporcalhadora de uma empresa chamada Samarco, pertencente à Vale,
acrescentar à galeria de desgraças de 2015 o maior desastre ambiental da
história do Brasil.
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A LAMA OCUPOU NÃO SOMENTE A REGIÃO DE MARIANA (MG), como se vê na foto, mas o Brasil todo no sentido figurado: degradação, baixeza, ação vil!!! |
Indiscutível:
a Palavra do Ano no País é o
substantivo feminino lama, que o português foi buscar no
latim lama em sua primeira infância,
lá no século 10. Força de tsunami? Confere: os 60 bilhões de litros que vazaram de uma barragem em Mariana (MG) no
dia 5 de novembro deixaram um rastro de devastação até o Espírito Santo e foram
bater no mar. Pé da letra? Confere: a primeira acepção da palavra no Houaiss é “mistura viscosa, pegajosa, de
argila, matéria orgânica e água”. Sentido figurado? Confere também: a segunda
acepção é “caráter daquilo que degrada, envergonha; ação vil; baixeza”.
É
como se o proverbial mar de lama da
corrupção institucionalizada – expressão que Carlos Lacerda, atacando o
presidente Getúlio Vargas, transformou nos anos 1950 num dos bordões de maior
sucesso da política brasileira – tivesse deixado de caber nas represas da metáfora,
jorrando país adentro num golpe de realismo mágico que Gabriel García Márquez
apreciaria. Reconhecer que é difícil
imaginar cenário mais desolador não deixa de ser uma forma de esperança.
*
SÉRGIO RODRIGUES é jornalista, crítico literário e
escritor, bem como, autor do romance O Drible
(Companhia das Letras), vencedor do prêmio Portugal Telecom de 2014.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Suplemento ALIÁS – Domingo, 27 de dezembro de 2015 – Pg. E2 – Internet: clique aqui.
Tempo de perguntar
Jurandir
Freire Costa*
A truculência e o tom fanático marcam e degradam o
debate público no Brasil hoje. Por que sucumbimos à fúria paranoica que nos
impede de aceitar críticas, aprender com a experiência e refletir sobre novas
formas de viver?
Paul
Johnson, em sua História do Cristianismo,
cita exemplos da polêmica provocada pelas Teses de Wittenberg (1517), manifesto
de Lutero que inaugurou a Reforma Protestante. Em um texto, amigos de Erasmo de
Rotterdam descompunham um bispo católico inglês que ligara o nome do humanista
ao de Lutero: “seu nojento, se não implorar perdão a Erasmo, atirarei seu nome,
como excremento, para além das fronteiras da posteridade, de modo que as
pessoas possam lembrar-se do seu fedor para sempre”.
Lutero,
por seu turno, “convidou a cristandade a lavar suas mãos no sangue desses
cardeais, papas e o restante da ralé da Sodoma romana”, enquanto os teólogos
católicos de Louvain [Bélgica] chamavam-no de “pestilento flato de Satanás,
cujo mau cheiro chega aos céus”. Em outro momento, Lutero disse, ao atacar os
seguidores do rebelde protestante Thomas Münzer: “quanto aos perversos, punam,
apunhalem e assassinem todos os que conseguirem (...). Esses tempos são tão
extraordinários que um príncipe pode conquistar os céus mais facilmente pelo
derramamento de sangue que pela oração (...). Não se pode encontrar um rebelde
com razão: a melhor resposta a lhe dar é socar seu rosto até fazer seu nariz
sangrar”.
Os
panfletos espantam pela truculência. Mostram, além do mais, que controvérsias públicas, ao ultrapassarem a
barreira do decoro, beiram a fúria paranoica. No Brasil, creio, vivemos,
infelizmente, num clima político que evoca esse tipo de beligerância. Mas, será
que tem de ser assim? Ter pontos de
vista divergentes sobre justiça e liberdade autoriza o tom fanático das
discussões? Não falo de opinião apaixonada; falo de atitudes e palavras que buscam “socar o ponto de
vista do outro até fazê-lo sangrar”. Muitos, porém, não se contentam com as
respostas prontas e acham que ainda é tempo de perguntar: qual a razão desta
degradação do debate público? É com esses que penso em partilhar duas ou três
dúvidas sobre o status quo político.
Em
primeiro lugar, a questão do primarismo
político atual. Nesse caso, pergunto: o que significa viver num país de
desigualdades atrozes e no qual os governantes, anos a fio, prometeram aos
sujeitos uma abundância material perdulária, predatória e além de tudo
fictícia? A meu ver, é isso que veio à tona de forma explosiva. A violência da expectativa frustrada foi
proporcional à intensidade e à inverossimilhança da sedução imaginária.
Intelectuais, políticos e militantes de todo espectro ideológico acordaram, de
repente, sacudidos por protestos inesperados. Grande parte dos cidadãos, enfim, se deu conta, do que, talvez, sempre
tenha evitado ver: a mentira sistemática na política.
O tema da corrupção, penso, é o
sintoma mais visível dessa insatisfação.
De
fato, as oligarquias político-econômicas se revezam no poder, sem se sentir
obrigadas a justificar eticamente seu modo de governar. A desfaçatez é tal que resolveram seguir o cínico conselho de Voltaire:
mentez, mentez, il en restera toujours
quelque chose (minta, minta sempre, alguma coisa ficará). Ora, diante
dessas duplas mensagens político-psicológicas, é de estranhar que os mais
descontrolados se entreguem a orgias de insultos e fantasias desabridas de
revanche? O que esperávamos?
Neutralidade emocional? Ingenuidade além da conta é prova de tolice. Se quisermos, de fato, civilidade na
política temos que ter políticos civilizados!
Em
segundo lugar, passemos ao tópico realmente importante da querela: socialismo ou capitalismo; estado
coadjuvante ou estado protagonista? Aqui, caberia perguntar: no Brasil,
estamos dispostos a rever as ideias dominantes sobre o papel da economia
privada e do Estado em sociedades democráticas? Penso que o esforço nesse
sentido é incipiente. O que predomina é
a crença na infalibilidade das próprias visões de
mundo, chamada por Tony Judt de “pecado
intelectual do século 20”. O “pecado”, diga-se de passagem, havia sido
denunciado por Popper, há quase 60 anos. Popper, na época, desmistificou a falácia das “profecias históricas”
totalitárias que se apresentavam como “predições científicas”. Judt foi
adiante e mostrou que as “profecias”
sequer precisam de “autoconfirmação” para se perpetuar. Basta encontrar um
“culpado” pelo malogro e tudo está explicado. Por exemplo, muitos liberais
acreditam piamente que as sociedades capitalistas são o apogeu do progresso
humano e muitos militantes do “socialismo estatizado” acham que seus objetivos,
como notou Bernard Williams, “são abençoados pelo universo”. Por isso, quando
raramente admitem falhas em suas previsões, culpam os rivais pelo insucesso da
“profecia”: os culpados são a
“esquerda”, os socialistas, os comunistas, os neomarxistas etc, ou, então, a
“direita”, o capitalismo, o imperialismo etc.
Obviamente,
conservadorismo reacionário existe, imperialismo existe, e o capitalismo
desenfreado pode devorar tudo, do ambiente natural às entranhas cerebrais. Por
outro lado, os regimes comunistas, caso tivessem sobrevivido à absurda
ineficiência econômica e à atmosfera de terror que criaram na sociedade, seriam
tão nocivos quanto a predação humana e ambiental produzida pela ganância do
lucro. O problema do pensamento
unidimensional não é ocultar o que salta à vista; é ter conhecimento do que se
passa e, mesmo assim, ser incorrigível pela crítica e pela experiência. A
crença profética é sempre autoevidente, apodítica, e nunca circunstancial. Não
é de admirar, portanto, que o grande argumento em favor de sua “validade
universal” sejam os mais sombrios episódios históricos do passado e as mais
sombrias imagens hipotéticas do futuro.
O
que não se considera é que o inferno de ficções morais como 1984,
de Orwell, Admirável Mundo Novo, de Huxley, ou, do lado socialista, a
“sociedade totalmente administrada”, de Marcuse, são táticas retóricas que
visam reforçar o clichê “ou será como eu
penso, ou será a barbárie”. Entretanto, a alternativa entre o ruim e o pior
não é compulsória. Se trocarmos as lentes de leitura, em vez de impasses
poderemos ver a confusa assimilação de objetivos políticos a objetivos
culturais. É dessa maneira que leio as esclarecedoras afirmações de Tony Judt e
Pepe Mujica. Para os dois, o projeto político e o projeto cultural, embora se
entrelacem, não coincidem. A política
deve coordenar a economia e os dispositivos de Estado para permitir que os
indivíduos, de maneira tão livre quanto possível, possam fazer experimentos
pessoais e comunais de aperfeiçoamento no viver democrático. Equipamentos
de Estado e economia privada não são instituições sociais antagônicas, exceto
se impedirem os respectivos funcionamentos.
Para
mostrar como a coordenação pode operar, mesmo sem a plena consciência dos
atores envolvidos, Judt dá como exemplo o uso do Estado pelos liberais. Os
liberais, prossegue ele, sabem que “quando os bancos vão à falência e o
desemprego aumenta brutalmente (...) não existe ‘Estado do mercado
corporativo’. Só o Estado que conhecemos desde o século 17. É tudo o que
temos”. Ou seja, malgrado os protestos aparentes, os liberais não hesitam em
usar o Estado, mesmo em casos tão criticáveis quanto o socorro a bancos e
corretoras desonestos ou incompetentes. Mujica, por sua vez, dialogando com o
campo socialista, mostra qual a função das empresas privadas e do Estado
eficiente. No que toca as empresas, diz que é “preciso levar o capitalismo a
sério”; que se uma empresa capitalista
“sucumbe todos perdemos” e que, “embora se escandalize com a exploração do
homem pelo homem” sabe que se não “houver muito o que repartir, não há
condições para o socialismo”. Quanto ao Estado, as opiniões são ainda mais
contundentes. Insiste em dizer que a solução socialista para a sociedade não se
encontra no “monopólio burocrático da miséria”; que o Estado como instrumento de governo “nem é de direita nem de
esquerda”, e que, frequentemente “a burocracia se mostrou pior ainda que a
burguesia, porque pelo menos a burguesia tem um impulso criador – mesmo que
seja para comer seu fígado. A burocracia
vive só do que outros já criaram”.
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JURANDIR FREIRE COSTA Autor deste artigo |
A
vantagem desse ponto de vista é, a meu ver, tripla. Numero um, o cidadão ao ver
a articulação às claras entre o capitalismo e o Estado voltado para o bem-estar
social pode inibir mais facilmente a corrupção e os desmandos de políticos,
administradores e empresários igualmente inescrupulosos. Número dois, os ideais
culturais, satisfeita a etapa da mínima moral política, perdem a aura profética
e reduzem, desse modo, o espaço das manifestações de sectarismo político. Numa sociedade razoavelmente justa, pensar
sobre valores e modos de vida, deixa de ser privilégio de iniciados para ser
uma prerrogativa da maioria. Consequentemente, o bem comum não é mais assunto de especialistas em profecias, e sim
algo sujeito à opinião de todos. Por último, o mais fundamental. Livres de carências urgentes, podemos vir a
refletir sobre mudanças significativas em nossas formas de viver, sem recurso à
violência de Estado ou do poder econômico. Tenho em mente, por exemplo, as
sugestões de Eduardo Viveiros de Castro acerca da incompatibilidade entre
capitalismo e sustentabilidade. Esse e outros debates, verdadeiramente cruciais
por implicarem o futuro das novas gerações, só podem ser justamente avaliados
num clima de discussão democrática. Como diz Judt, “uma coisa é eu dizer que estou disposto a sofrer agora por um futuro
desconhecido, mas possivelmente melhor. Outra coisa é eu autorizar o sofrimento
de outros em nome dessa mesma hipótese inverificável”. No mesmo diapasão,
diz Mujica: “não temos o direito de
sacrificar a vida de uma geração em nome de utopias”, sejam quais forem.
Mas, para cumprir esse programa exigente e delicado, o requisito maior é o
pacto de honradez entre governantes e governados, pois, continua Mujica, “as pessoas vão lhe perdoar se você não
conseguir fazer tudo por causa das dificuldades ou porque errou, mas não têm
mais paciência para tolerar sacanagens (...). Estou propondo a honradez ao
máximo”.
Alguns
chamarão o pacto de “reacionarismo moralista”; outros, de “criptomarxismo”.
Così è, se vi pare (assim é, se você quiser).
*
JURANDIR FREIRE COSTA é psicanalista e escritor, professor
do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro
(Uerj) e autor de O ponto de vista do
outro (Garamond).
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Suplemento ALIÁS – Domingo, 27 de dezembro de 2015 – Pg. E3 – Internet: clique aqui.
E la nave va
Luiz Felipe de
Alencastro*
Caso as projeções demográficas da ONU se confirmem, o
fluxo de imigrantes desempenhará papel cada vez mais relevante na geopolítica
do planeta
O
ano que passou foi marcado por acontecimentos que aceleraram o presente e
trouxeram de novo o passado. Durante a Conferência
do Clima organizada em Paris nesse mês, a situação dos oceanos foi pela primeira vez debatida num evento
internacional desse escopo. Além de cobrir 71% da superfície do planeta,
absorvendo 25% do gás carbônico e quase todo o excesso de calor causado pelas
atividades humanas, os oceanos têm,
desde os descobrimentos, um peso geopolítico essencial. Cerca de 250 cabos submarinos conectam os cinco
continentes, transportando 99% da rede mundial de comunicação (telefone,
rádio) e de internet. Da mesma
forma, 95% do comércio mundial utiliza o
transporte marítimo.
Globalmente,
os oceanos proporcionam serviços
equivalentes a US$ 2,5 trilhões anuais [isso mesmo, de dólares!]. Tais
montantes aumentarão nos próximos anos em razão dos melhoramentos introduzidos
nas rotas marítimas. Assim, no último mês de agosto, foram inauguradas
modernizações que ampliam o fluxo de navios transitando pelo Canal de Suez. Ao mesmo tempo,
aceleram-se as obras que irão triplicar a capacidade do transporte de contêineres
no Canal da Panamá. Aberto em 1914,
o Canal do Panamá colocou o Rio de Janeiro um pouco no escanteio, tirando do
porto carioca a preeminência que ele adquirira com o acréscimo da navegação
para o Pacífico, pelo Cabo Horn.
Mais
ao Norte, na Nicarágua, um consórcio de Hong Kong começou a construir
em 2015 outro canal ligando o Caribe ao Pacífico. Embora o consórcio
honconguês afirme sua autonomia, muitos analistas veem a mão do governo de
Pequim nessa empreitada. Bem mais ao Norte, no Ártico, o degelo causado pelo aquecimento global abre novas rotas
estratégicas, reduzindo em um quarto a viagem entre os portos chineses e
norte-europeus. Problemas relativos à delimitação de fronteiras, ao
controle das vias marítimas e à exploração de petróleo, gás e minerais estão
sendo discutidos pelo Conselho do Ártico, foro intergovernamental que reúne os
países da região.
País
que possui a maior costa marítima de todo o Oceano Atlântico, o Brasil não contempla em suas universidades
o ensino organizado de história marítima ou de direito marítimo. Frente à
revolução dos contêineres, que transformou o transporte e o comércio mundial
nas últimas décadas, os portos
brasileiros continuam subequipados. Santos,
o maior porto do País, ocupa o 38° lugar na lista dos 50 maiores portos de
contêineres do mundo.
* * * * * * *
Outro
fato marcante de 2015 foi o aumento
dramático do fluxo de refugiados na Europa. Do dia 1° de janeiro ao dia 21
de dezembro de 2015, 1 milhão de migrantes e refugiados atravessaram as
fronteiras europeias.
Além
dos migrantes, saídos de seus países por razões econômicas, a massa de
deslocados por perseguições étnicas ou religiosas é composta essencialmente por
sírios e, numa menor medida, afegãos e iraquianos. Comparado aos 280 mil
indivíduos que entraram em 2015, o
número registrado neste ano configura o maior afluxo de pessoas deslocadas na
Europa desde a Segunda Guerra. Note-se que, em 2014, 20 milhões de pessoas
foram vítimas de deslocamentos forçados pelo mundo afora, segundo o Alto
Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, sediado em Genebra. A Turquia é o país que mais recebeu
refugiados em números absolutos (2 milhões), o Líbano em número relativos (209 refugiados para cada mil
habitantes). A Etiópia aparece como
país onde o número de refugiados mais pesa sobre a renda nacional (469
refugiados por dólar de PIB por habitante). Conforme estudos do Banco Mundial, a grande maioria dos refugiados é acolhida
pelos países pobres (como a Etiópia) ou
emergentes (como a Turquia). Numa declaração ao jornal parisiense Libération, que publica os dados citados
acima, o dinamarquês Michael Møller, diretor da ONU em Genebra, insiste na dimensão mundial e não apenas europeia do
problema dos refugiados.
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CRIANÇA SÍRIA EMIGRANDO PARA A EUROPA EM BUSCA DE SOBREVIVÊNCIA! Somente neste ano, a Europa já recebeu mais de 1 milhão de refugiados! Nos Estados Unidos vivem 11 milhões de imigrantes clandentinos! |
Nos
Estados Unidos, o tema dos
refugiados é menos premente. Mas a presença de 11 milhões de imigrantes clandestinos, entre os quais
dezenas de milhares de brasileiros, tem sido bastante discutida na pré-campanha
presidencial. Mesmo os pré-candidatos republicanos à presidência estão
divididos sobre o assunto. Donald Trump e o senador Ted Cruz exprimem o ponto
de vista mais radical, propondo a deportação pura e simples de todos os
clandestinos, enquanto os outros pré-candidatos julgam a medida impraticável.
Ao
contrário do que acontece na Europa, onde predomina o direito de sangue, no
qual a nacionalidade é outorgada pela filiação do indivíduo, ou seja, em
conformidade com a nacionalidade de seus pais, o direito de solo facilita a
integração dos imigrantes nos Estados Unidos. Típico dos países americanos, o direito de solo garante automaticamente
a nacionalidade aos filhos de estrangeiros nascidos no território do país.
A norma foi instaurada no Brasil pelo artigo 6° da Constituição de 1824. Mas só
passou a vigorar nos Estados Unidos depois da Guerra da Secessão, com a edição
da 14ª Emenda à Constituição, votada pelo Congresso em 1868.
Entre
outros líderes conservadores, Trump é o mais notório crítico dessa legislação.
Considerando o direito de solo um ímã de atração para a imigração clandestina,
Trump é favorável à revogação da 14ª Emenda Constitucional. Uma pesquisa do
instituto Pew mostrou que 8% dos bebês
nascidos no solo americano em 2013 tinham ao menos um de seus pais vivendo
ilegalmente nos Estados Unidos. Para resolver a situação dessas famílias, o
presidente Barack Obama editou em novembro do ano passado decretos
presidenciais legalizando a residência de imigrantes clandestinos que sejam
pais de crianças americanas ou de crianças com estada legal nos Estados Unidos.
Contudo, 26 Estados questionaram a constitucionalidade de tais medidas, gerando
um impasse jurídico que só será resolvido pela Suprema Corte, provavelmente
depois do final do mandato de Obama, em 2017.
Apesar
desses embaraços, o direito de solo e a permeabilidade da sociedade americana à
assimilação das vagas sucessivas de imigrantes assegurarão um lugar de destaque
aos Estados Unidos ao longo do século 21. De fato, publicado em 2010 e revisto em 2015, o estudo da ONU sobre as projeções
demográficas mundiais sublinha as profundas mudanças que alterarão a hierarquia
das nações.
Entre 2015 e 2050, os
maiores recebedores de imigrantes serão, nesta ordem:
- os Estados Unidos,
- o Canadá,
- o Reino Unido,
- a Austrália,
- a Alemanha,
- a Rússia e
- a Itália.
Nessa
última data, a Índia já será o país mais
populoso do planeta, seguido pela China, Nigéria, Estados Unidos e a Indonésia.
As projeções para 2050 mostram também que nenhuma das nações europeias ou
asiáticas (Japão) predominantes na economia mundial nas últimas décadas estará
entre os 15 países mais povoados,
com exceção dos Estados Unidos, da China e da Rússia. Em 2100, a Rússia também
cairá fora dessa lista, na qual constarão sete países africanos (Nigéria,
República Democrática do Congo, Tanzânia, Etiópia, Níger, Uganda e Egito), seis
asiáticos (Índia, China, Paquistão, Indonésia, Filipinas e Bangladesh) e dois
americanos (Estados Unidos e Brasil). Tanto
os Estados Unidos como o Brasil são, e serão mais ainda, sociedades
multiculturais com uma importante população de descendência africana e asiática.
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LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO Autor deste artigo |
Ao
fim e ao cabo, os Estados Unidos serão a
única potência ocidental do século 20 que se manterá entre os cinco maiores
países do mundo, passando de 322 milhões de habitantes em 2015 para 450 milhões
de habitantes. Graças, em boa medida, ao crescimento demográfico reforçado
pelo afluxo contínuo de imigrantes.
Caso
as projeções dos especialistas da ONU se confirmem, o Brasil conhecerá uma evolução demográfica paradoxal. Após atingir
um pico de 238 milhões de habitantes em 2050, a população do país declinará para atingir em 2100 uma cifra parecida
com a do ano 2000: 200 milhões de habitantes. Os exemplos internacionais
demonstram que uma queda populacional dessa natureza só pode ser freada de duas
maneiras. Com uma política imigratória ativa, eliminando-se a burocracia que
desencoraja a vinda e a instalação de imigrantes, e com uma política natalista
mais ampla, de apoio aos jovens casais e às famílias numerosas. De todo modo, é
bom lembrar que, em matéria de evolução demográfica, o futuro começa no ano que
vem.
*
LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO é professor da Escola de Economia de
São Paulo/FGV e professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Suplemento ALIÁS – Domingo, 27 de dezembro de 2015 – Pg. E5 – Internet: clique aqui.
O maior de nossos abismos
Renato Janine
Ribeiro*
Se faltam recursos ao setor público, isso não é verdade
para o privado. Precisamos pensar como o dinheiro que existe pode ser destinado
a um uso sério e responsável para melhorar a educação brasileira. Mas não vamos
avançar se não enfrentarmos o flagelo da FALTA DE CURIOSIDADE
Minha
experiência como ministro da Educação num período de crise, em que os recursos
em vez de aumentar baixavam, permite afirmar que devemos ter três prioridades absolutas na área. Elas não esgotam
tudo o que é preciso fazer, porém esses três eixos de atuação devem ser
priorizados.
[1ª Prioridade – A educação
básica]
Desde
Murilo Hingel, ministro no governo Itamar, a pasta da Educação tem tido uma
continuidade. Os nove ministros que se sucederam a partir de 1992 insistiram,
todos, na prioridade da educação básica.
Mas nela há um ponto decisivo, um foco terrível, que tem de ser enfrentado com
prioridade: a alfabetização.
Tive
a sofrida honra de ser o ministro da Educação que divulgou os resultados da
ANA, ou Avaliação Nacional da Alfabetização, num nível de detalhe inédito,
proporcionado pelo Inep (Instituto
Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) e pelo empenho de
seu presidente, Chico Soares. Mostrou-se o
tamanho do analfabetismo, mas também se quantificou cada um de seus tipos. Há crianças que conseguem ler a
palavra “cavalo”, mas não a frase em que ela está. Há quem saiba somar e
subtrair, mas não dividir ou multiplicar. Para cada nível de insuficiência, o
remédio é diferente. Divulgamos tudo isso. Demos assim um diagnóstico que
permite receitas mais adequadas a cada grupo insuficiente.
Mas
o tamanho global da insuficiência é chocante. Em 2014, dos alunos de terceiro ano do fundamental na escola
pública do Brasil inteiro, isto é, meninos
e meninas em torno dos 8 anos de idade, 22% não sabiam ler, 34% escrever e 57%
não dominavam as quatro operações matemáticas. O problema é que, a partir
do quarto ano, a escola vai tratá-los como se soubessem ler, escrever e fazer
contas.
Pensem
nisso: três quintos das crianças não
sabem calcular direito. Essa multidão terá um futuro profissional e pessoal
limitado. O Brasil se dá assim ao luxo
de descartar quase 60% dos seres humanos que poderiam ser bons profissionais e
cidadãos informados. Tenderão a ficar numa segunda classe da sociedade. Alguns
podem ser “salvos” depois. Mas, se não deu certo na hora certa, corrigir os
danos mais tarde será caro e improvável.
A prioridade zero tem de
ser: alfabetizar todos na idade certa. O Ceará criou um programa com esse nome, conduzido
pelo governador Cid Gomes. A União estendeu o programa para o Brasil, e este
ano, depois de conhecidos os resultados da ANA, tomou medidas para corrigir as
insuficiências do plano nacional. O segredo do Ceará foi monitorar de perto o aprendizado, daí seu sucesso (assim como no
Enem, em que duas cidades cearenses, Mauriti e Sobral, deram lições ao País).
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EDUCAÇÃO BÁSICA É PRIORIDADE NUMERO 0 NO BRASIL!!! Ao menos 60% dos alunos possuem sérias deficiências após os primeiros anos de escola. Para eles o futuro é mais sombrio e penoso! |
Um dos erros estruturais que
o País cometeu foi descuidar da formação dos alfabetizadores. As antigas escolas
normais, que eram estabelecimentos de ensino médio, formavam professoras
alfabetizadoras. Na década de 1990, decidiu-se que professores da educação
básica precisavam de graduação universitária, mas isso deixou a formação dos
alfabetizadores em segundo plano. Hoje,
precisamos fazer as correções estruturais na formação dos professores.
Se
e quando conseguirmos acabar com essa taxa de 57% de não alfabetização,
dobraremos nosso potencial de pessoas formadas em condições de melhorar a
economia, a sociedade e suas próprias vidas pessoais. Podemos jogar fora essa
oportunidade?
[2ª Prioridade – Formação de
pessoas produtivas]
Uma
segunda prioridade é mais associada à economia: a formação de pessoas aptas a serem mais produtivas e, assim, a
ganhar individualmente mais dinheiro ao mesmo tempo que, socialmente, aumentam
a prosperidade do País. Esse é o sentido do ensino técnico e, dentre as
iniciativas do governo, do Pronatec.
Resumindo,
o governo Lula adotou políticas de inclusão social em larga escala, integradas
no Bolsa Família. Elas derrubaram a miséria no País. A pior faixa era em torno dos 10 anos de idade, com 12% de crianças
vivendo na miséria. Essa proporção caiu à metade no governo Lula. No
primeiro mandato de Dilma, o programa Brasil sem Miséria fez os miseráveis baixarem a 1% em todas as
faixas etárias, apenas superando um pouco esse valor perto dos 70 anos de
idade. Foi isso o que retirou o Brasil
do Mapa da Fome, o que é um grande motivo de orgulho para todos nós.
Contudo,
uma vez eliminada a miséria, a vitória
sobre a pobreza deve depender de mais do que programas de transferência de
renda. Entra aí a educação técnica.
Trata-se de capacitar as pessoas para serem bons profissionais. O Senai tem grande expertise na área. Ele
organizou este ano a olimpíada bienal do ensino técnico em São Paulo. Com isso
o Brasil conseguiu um inédito primeiro lugar na competição mundial, ficando à
frente da campeã histórica que é a Coreia do Sul. Isso, quando só 10% dos nossos jovens do ensino médio
cursam o técnico, contra mais de metade na Alemanha ou na mesma Coreia. O
Brasil tem portanto expertise na área, graças sobretudo ao Senai, e o Pronatec
pode e deve generalizar o que já se faz.
Um
parêntese: não vamos avançar na educação
se não enfrentarmos um flagelo que é a falta de curiosidade. Fico muito
chocado com a pouca curiosidade dos brasileiros. Num shopping em Brasília,
precisava saber em que andar estava, mas os funcionários das lojas não o
sabiam... Muitas pessoas vivem
conhecendo apenas o que fazem, sem olhar o número do andar, sem ter curiosidade
alguma – só que assim jamais vão fazer coisas mais complexas, responsáveis,
jamais vão ascender na vida. A falta de curiosidade, de diligência, de zelo
limita seriamente o futuro de muitos jovens. E aqui entro um pouco na ética. O
ensino técnico passa aos alunos uma preocupação com a qualidade do trabalho, o
que é um elemento ético, mas que precisa ser expandido. Necessitamos de uma formação ética melhor. Precisamos de pessoas que sejam responsáveis no que fazem,
como o bom profissional, mas que também
sintam responsabilidade pela sociedade em que vivem, que não vejam no
diploma apenas uma vantagem que privatizam, sem perceber o quanto devem à
sociedade inteira, que lhes permitiu chegar lá. Mas a ética merece um capítulo
à parte e ficará para outra ocasião.
[3ª Prioridade – Creches e
Educação infantil]
Terceira
prioridade são as creches e a educação
infantil. É sabido que a idade de 0
a 3 anos é decisiva para formar as sinapses, as conexões mentais que decidirão
muito do futuro das pessoas. A desigualdade social está causando seu
massacre já nessa faixa etária! Ora, uma sociedade democrática ou uma economia
avançada precisam, ambas, de uma educação
infantil de qualidade e ao alcance de todos. Nesses anos, o principal é brincar. Mas os
professores precisam saber quais brincadeiras são mais educativas, quais formam
melhor as crianças para cooperar, para ajudar – quais folguedos formam eticamente,
quais deformam, ensinando a brigar e a destruir. A formação de professores não é simples ou fácil, como já observei
a respeito da alfabetização. Mas é a brincadeira de teor educativo que será o
grande fator de valorização de todas as crianças e de sua preparação para que
nenhuma fique para trás, para que ninguém seja desperdiçado. E isso não se
conseguirá em poucos dias.
Com a crise econômica,
infelizmente, a própria meta legal de ter metade das crianças em creches até
2024 fica de difícil implantação. E, notem, para
isso é preciso tomar três grandes medidas:
- primeira, construir boas escolas;
- segunda, criar ou ampliar faculdades que formem bem os professores de educação infantil;
- terceira, garantir que as prefeituras tenham verba para manter as creches e escolas para os pequenos.
Tudo
isso tem de ser planejado com antecedência.
Esses
três pontos que salientei são estruturais. Deles, só o ensino técnico trará
resultados em curto prazo. Mas alfabetizar as crianças de 6 anos e educar bem
as de 1 e 2 anos fará mudanças radicais no País.
Serei enfático: nada, em área alguma das
políticas públicas, é mais importante e mais promissor do que, num primeiro
momento, alfabetizar na idade certa
e, na sequência, educar bem as crianças
desde o nascimento.
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RENATO JANINE RIBEIRO Autor deste artigo |
Por
isso, essas medidas devem ser
implantadas com qualidade, com todas as avaliações que forem necessárias.
E, claro, precisamos de recursos para tanto. Os recursos podem demorar, dada a
crise, mas enquanto isso podemos afiar os projetos – para que, superada a
crise, o País tenha bem claras quais devem ser suas prioridades e não vá, só
então, como já aconteceu no passado, perguntar o que fazer. O que fazer depois da crise, temos que
decidir durante a crise. Foi assim que procurei orientar a equipe do
Ministério durante a minha gestão.
A
notícia boa é que, se o País está rachado politicamente, com direita e esquerda
às turras, “um dos poucos itens que tem
quase a unanimidade da opinião pública brasileira é a defesa da EDUCAÇÃO como a
única forma de o Brasil melhorar”, como disse Renato Meirelles, do Data Popular, em setembro. Precisamos
apostar nessa via de encontro. E, se
faltam recursos ao setor público, isso não é verdade para o setor privado.
Precisamos pensar como – por doações, iniciativas com fim lucrativo ou sem ou
ainda por tributação – o dinheiro que existe pode ser destinado a um uso sério
e responsável para melhorar a educação brasileira. O ensino técnico para
alavancar a economia, a alfabetização e as creches para formar pessoas mais
completas são o melhor investimento que podemos hoje ter.
*
RENATO JANINE RIBEIRO é professor de Ética e Filosofia na
Universidade de São Paulo (USP). Foi ministro da Educação do governo Dilma
Rousseff entre abril e setembro de 2015.
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