A indústria brasileira ainda terá uma chance?
José Roberto
Mendonça de Barros
Os dados da produção industrial referentes ao
mês de outubro são calamitosos
Duas
importantes decisões ocorreram recentemente no cenário internacional:
[1ª] em
30 de novembro o Fundo Monetário
Internacional decidiu incluir o yuan
[moeda chinesa] na cesta de moedas que compõe os Direitos Especiais de Saque, na qual já estavam o dólar, o euro, a
libra inglesa e o iene japonês. Esta decisão confirma pelo menos três coisas:
quando em agosto o Banco Central da China permitiu uma abrupta desvalorização
de quase 2% do yuan frente ao dólar,
muita gente pensou que o gigante asiático poderia estar voltando àquela fase de
baixa da moeda, buscando melhorar o desempenho das exportações, como
compensação pelo enfraquecimento da economia.
Aqui
na MB, nós sempre achamos, em linha com nossos colegas da Gavekal, que o que se
buscava era mesmo a maturidade da moeda e não a desvalorização competitiva.
Isto é da maior importância para o Brasil, como discutiremos adiante. Da mesma
forma, a política cambial chinesa
confirma a decisão do governo de alterar o modelo de crescimento chinês na
direção da expansão do mercado interno e na menor dependência da evolução das
vendas ao exterior e dos investimentos em infraestrutura.
Finalmente,
tudo indica que o governo chinês está
evoluindo para a aceitação de mais alimentos importados na composição do
abastecimento do mercado doméstico. Esta é uma decisão difícil, dada a
história de fome no país até algum tempo atrás. Entretanto, a escassez de água
e terras de boa qualidade acaba produzindo um custo de alimentação
relativamente elevado. Entre junho de
2003 e novembro de 2015, o custo de alimentação subiu 110%, muito mais do que o
índice do custo de vida, que se elevou 45%. O barateamento da oferta de
alimentos, via importações, permitiria elevar o poder de compra das famílias em
termos de bens industriais e dar suporte à expansão do mercado doméstico (algo
muito parecido com o que aconteceu no Brasil nas últimas três décadas).
[2ª] Poucos
dias depois, na reunião da Opep [organização
que reúne os países produtores de petróleo], realizada em 4 de dezembro, decidiu-se não restringir a produção de
petróleo dos seus membros. Ora, como se sabe que o Irã irá, assim que as
restrições comerciais forem eliminadas, exportar tudo o que possa produzir, é
absolutamente seguro que a atual
situação de sobra de óleo no mercado internacional irá se agravar. Não é
por outra razão que os preços do produto
estão apontando para um número inferior a US$ 40 o barril.
Estes
acontecimentos afetam nosso País, como tentamos mostrar no gráfico 1 [acima]. Ali, vê-se claramente a tendência de enfraquecimento do preço do
petróleo, que afeta negativamente a Petrobrás, pois boa parte de seu valor
depende de suas reservas. Devemos lembrar que a cesta de petróleo brasileira
vale menos que o Brent, que tem qualidade superior. Neste ano, por exemplo, o
barril custou US$ 55, entre janeiro e outubro, enquanto que a média do preço
FOB exportado pelo Brasil, no mesmo período, foi de US$ 43. Esta perda de valor
soma-se aos grandes dilemas que enfrenta a Petrobrás.
Ainda
na área de commodities, o valor do minério de ferro (e do aço),
mostrado no gráfico
2 [acima], despencou, afetando as
empresas produtoras. Note-se que este
movimento é estrutural.
O único grupo que se mantém
numa boa posição é o de commodities
agrícolas, ainda que os preços internacionais também tenham caído, especialmente, como
decorrência da valorização do dólar. Ocorre que este grupo de produtos tem
forte suporte na demanda internacional e, especialmente, chinesa, bem como tem
a desvalorização do real repassada diretamente ao preço dos produtos, dada sua
característica exportadora. Como resultado, os preços em reais se mantêm bastante elevados, como se vê no gráfico 3 [acima]representado pelos preços da soja. Não é de se surpreender que a cadeia de
produção viva bons momentos, mesmo quando se considera que parte dos seus
custos sobe com o dólar.
Indústria
A indústria brasileira
continua no seu inferno astral. Os dados da produção referentes ao mês de outubro
são calamitosos. Por exemplo, o setor de
bens de capital contraiu-se mais de 32% em relação à produção de outubro de
2014. No período de janeiro a outubro, em relação ao ano anterior, a produção
global caiu 7,8%, os bens de consumo
duráveis caíram 17,2%, os não
duráveis 7,2%, os intermediários
4,5% e os bens de capital espantosos
24,5%.
Entretanto,
no meio deste tumulto, três mudanças
começam a ocorrer e, no seu devido tempo, irão implicar em melhoras no cenário
industrial:
[1ª] O
primeiro, e o mais importante elemento, é a substancial melhora da competitividade da produção brasileira frente à
importação da China. A razão básica está exposta no gráfico 4 [acima].
Ali,
se vê que nos dois últimos anos, o real
se desvalorizou frente ao dólar em torno de 60%, enquanto que o yuan
enfraqueceu apenas 6%. Ou seja, os produtos chineses chegam muito mais
caros no Brasil, o que reabre espaço
para a produção nacional. Este movimento não se aplica apenas a bens
finais, mas, também, a componentes e partes.
Em
alguns casos, como confecções, o longo tempo de viagem da China para cá também
permite que a produção nacional gire coleções muito mais rapidamente que os
produtos importados. Esta mudança tem sido tão drástica que já existem casos,
nos quais os chineses passam a construir
fábricas aqui para manter os mercados conquistados, o que implica, inclusive,
fazer do Brasil sua base de distribuição para América do Sul.
[2ª] A
segunda melhora em gestação é a elevação
das exportações. Por ora, apenas os produtos mais leves, nos quais nossas
vantagens são evidentes, é que têm apresentado uma expansão grande das
quantidades embarcadas, como, por exemplo, metalurgia, têxtil, produtos de
madeira, celulose etc. Entretanto, quem acompanha o desempenho das companhias
já vê decisões de ampliação das vendas ao exterior em andamento, que deverão
aparecer nas estatísticas já em 2016, especialmente entre as multinacionais.
[3ª] Finalmente,
a distensão protecionista na Argentina
pode permitir alguma recuperação das exportações para aquele país. Apenas
nos últimos anos deixamos de vender mais de US$ 10 bilhões ao vizinho do sul.
Em
nosso próximo encontro buscarei detalhar estas possibilidades.
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