Enquando isso, em Brasília...
Férias brasilienses
José Roberto
de Toledo
O jogo está suspenso, e os jogadores se lixando para
quem
empobrece ao largo do campo
![]() |
O CONGRESSO NACIONAL ESTÁ EM RECESSO: enquanto os políticos dão uma pausa no jogo do impeachment de Dilma Rousseff, a população continua pagando e perdendo com a crise econômica! |
O
governo perdia e o cronômetro corria. Aos 45 minutos do primeiro tempo, pênalti
para o time presidencial. O juiz apitou, cobrou e marcou. Um bandeirinha se
retirou, em protesto. Tarde demais, a partida está empatada. Governistas descem
para o intervalo comemorando o gol no último minuto. Vira-casacas e oposição
amargam um isotônico vencido enquanto ansiavam por Dom Pérignon. Na política e no futebol, não se ganha o
jogo na véspera.
No
vestiário, a técnica troca um zagueiro econômico por um atacante famoso pelas
pedaladas. Foi menos por convicção do que falta de opção. O banco está tão
vazio quanto sua popularidade.
Nas arquibancadas, o público
é decepcionante. Só as torcidas organizadas estão animadas. Gritam e tuítam com
crédito pré-pago. O resto majoritário lamenta a cera, a catimba, mas assiste
aos jogadores comerem bola, grama e uns aos outros, passivo.
Segundo tempo, só depois do
carnaval, Semana Santa ou Corpus Christi. Após suarem togas e ternos, ministros, deputados e
senadores vão pegar uma praia, aproveitar o câmbio favorável na Argentina
pós-Kirchner ou lavar a sorte em Las Vegas. Suíça? Nem de jatinho. Lugar
indiscreto, deu de prender e dedurar quem lá sempre depositou fé e francos.
Ingratidão impagável.
Enquanto isso, no Brasil,
crescem recessão e desemprego. Quanto pior, melhor? Quem responde sim costuma ter
mandato, renda fixa ou estabilidade funcional. Está preocupado com a opinião do público, não com o público
em si. Desde que o adversário leve a culpa merecida, o problema não é dele. No
desfile do poder, essa é, desde sempre, a fantasia de toda oposição. Troca
esperança por raiva e, quando perde, culpa o eleitor ou a urna eletrônica.
O
jogo está suspenso, e os jogadores estão se lixando para quem empobrece ao
largo do campo. É difícil prever hoje o
vencedor, mas o perdedor a maioria reconhece quando se olha no espelho.
![]() |
RENAN CALHEIROS O presidente do Senado (PMDB-AL) é o protagonista da vez. Dilma livrou-se de Eduardo Cunha, mas caiu nos "braços" de Renan! "Ótima" mudança! |
Placar
móvel
Até
a semana passada, Dilma Rousseff necessitava de seis votos no Supremo Tribunal
Federal e que a oposição não chegasse a 342 votos na Câmara. Ao conseguir oito
no STF, ela passou a precisar também de 41 votos no Senado. O governo comemorou porque acha mais fácil
conseguir maioria de senadores do que um terço de deputados. A
contabilidade, porém, é uma só.
Se
os deputados volúveis acharem que o governo vai ganhar no Senado, a oposição
nem deverá chegar a 342 votos na Câmara. Seria muito arriscado virar casaca e
passar três anos afastado dos cofres governamentais. Como a votação deve ser
nominal, um deputado a cada vez, tende a se repetir o que ocorreu com Collor: à
medida que a maioria se consolida, os volúveis vão em manada para o lado
vitorioso. A margem fica esmagadora.
Do mesmo
modo, se o governo se fragilizar no Senado e ficar claro que não atingirá 41
senadores, será muito mais fácil para a oposição chegar e ultrapassar os 342
votos na Câmara. Hoje, exatamente 41
senadores votam com Dilma 75% das vezes ou mais.
Em
qualquer cenário, porém, o presidente do
Senado, Renan Calheiros, tomou o protagonismo do deputado Eduardo Cunha. A
ponto de mandar dizer a Dilma qual política econômica deve seguir. Não foi
demonstração de força, só. Renan sabe
que não dá para sustentar o governo por muito tempo sem reação da economia.
Segundo
o Ibope, o medo do desemprego, a piora da situação financeira individual
e a frustração do consumo explicam mais de 90% da perda de
popularidade de Dilma. A reforçar isso, o instituto descobriu que metade é
a favor que um político, mesmo que honesto, perca o mandato apenas por ser mau
gestor.
Como
dois terços são favoráveis ao impeachment da presidente, uma parte não confia
na sua honestidade. Mas a maioria quer vê-la pelas costas por ela não conseguir
acender uma luz no fim do túnel. Por isso Renan está dizendo: “É a economia, presidente”.
Comentários
Postar um comentário