PARA ALÉM DO IMPEACHMENT
Alberto Aggio
Historiador
e Professor Titular da UNESP
Com ou sem a saída da presidente, o País terá de ser
reconstruído politicamente
O
ano vai terminando com a confirmação do que se previa: turbulência e crises. Desde a posse de Dilma Rousseff no segundo
mandato não era outra coisa que se anunciava e foi o que se viu. Foi até pior,
porque o ajuste fiscal, proposto por
um governo cuja legitimidade se assenta num assumido “estelionato eleitoral”, careceu de apoio até do partido da
presidente. Com isso a crise
econômica se alastrou e com ela a
recessão atingiu, em poucos meses, o mercado de trabalho e trouxe de volta a
inflação.
Por
incompetência, temor ou ausência de convicção, Dilma mais prometeu do que agiu
para conter a crise. O governo não
conseguiu enfrentar nenhum dos problemas que ele mesmo criou e o País seguiu
ladeira abaixo até se consumar a depressão econômica.
A
crise política, que era latente, instalou-se e o governo perdeu sustentação no
Congresso Nacional, forçando-se a promover diversos arranjos na base do “toma
lá, dá cá”, o que acabou acentuando mais ainda o desprestígio dos políticos
perante a população. O ano termina com o
governo em frangalhos, travado pela degradação política. Termina com Estados e municípios à míngua, sem
condições financeiras de responder a seus compromissos mais básicos e com as
instituições públicas do nosso “Estado ampliado” destruídas, depois de anos de
aparelhamento e descaso. Signos de um país extenuado, no qual a grande exceção
continuam sendo as intransigentes ações republicanas da Operação Lava Jato, secundadas pelo Ministério Público e pela
Política Federal.
Em
algum ponto da conjuntura, o governo deu sinais de rearticulação para garantir
sobrevida, mesmo sem ter conseguido reconquistar a credibilidade perdida na
sociedade. A prisão do senador Delcídio
Amaral (PT-MS), líder do governo no Senado, e de empresários implicados em
desvios de recursos públicos para os cofres das campanhas eleitorais do PT,
feriu de morte a tênue tentativa de rearticulação. Em seguida veio a
admissibilidade do pedido de impeachment
na Câmara dos Deputados, fato que deve demarcar dramaticamente a vida política
do País.
O
pedido de impeachment chega ao
Parlamento quando o movimento de rua, que havia mobilizado multidões no correr
do ano, se encontra desmobilizado e a oposição, dividida. Mas a demanda do impeachment é inquestionavelmente
constitucional, legítima e está legalmente amparada. O pedido não é da lavra do presidente da Câmara e não pode ser reduzido
a uma vingança deste em relação à presidente da República. Por todas essas
razões, é falsa, sob qualquer argumento,
a acusação de “golpe” esgrimida pelos governistas.
Mas
trata-se de engano imaginar que tudo estará resolvido com o impeachment. Com o afastamento da
presidente ou sem ele, o País precisará ser politicamente reconstruído.
- Os governos do PT puseram a democracia em xeque ao sustentarem seu projeto de poder na corrupção.
- Destruíram a legitimidade de uma “esquerda de governo” e a autonomia dos movimentos sociais, “comprando-os”, assim como fizeram com parte do Parlamento, numa visão tosca e autoritária do que deveria ser um “governo de coalizão”.
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PRINCIPAIS RÉUS NO "MENSALÃO" DO PT Consenso e base aliada no Congresso Nacional à base de compra! |
O
PT legou ao País um cenário de ruínas e a sensação de esgotamento de mais um
ciclo na política brasileira, embora não haja consenso quanto à natureza do
ciclo que se encerra e menos ainda em relação ao que está por vir. Fala-se do fim do ciclo petista ou do
“pacto lulista”, com seu personalismo, populismo ou transformismo.
Ampliando o quadro, sugere-se ainda o esgotamento de um ciclo
social-democrático, pós-Constituição de 1988, que abarcaria os governos do PSDB
e do PT.
Seja
como for, é certo que a superação da
“razão agonística”, imposta pelo PT, seria um grande benefício para a vida
democrática brasileira. Isso porque ela se traduz na:
- cristalização de um discurso desqualificador dos outros atores,
- cujo objetivo foi sempre o de transformar intencionalmente seus adversários políticos em inimigos,
- visando a assegurar sua legitimidade e garantir para si a imagem de “polo exclusivo”, portador da “verdade”.
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O CONSENSO E UNIDADE POLÍTICAS QUE HOUVE PARA POR FIM AO REGIME MILITAR terminou por se romper completamente com os governos do PSDB e do PT É urgente uma "nova política"! |
Em
meio à crise, a perspectiva de renovação
democrática ainda respira e pede uma “nova política”. Sua força poderá ser
maior se contar a seu favor com o apoio de uma população que hoje se expressa
claramente tanto contra um clima político de beligerância e de divisão do País,
acionado originalmente pelo PT, quanto se opõe a uma política de cúpulas acima
das pessoas e sem elas.
Ainda que rarefeita, há uma
esperança no ar: da crise podem nascer novas alianças políticas que deem
sustentação a uma política de reformas, tanto de caráter imediato como
estruturais,
visando a recolocar o País no curso do crescimento. Em novo contexto, teremos
de refazer caminhos e reconectar nexos perdidos para reconstruirmos a Nação
pela via da democracia e da República.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Espaço aberto
– Quinta-feira, 17 de dezembro de 2015 – Pg. A2 – Internet: clique aqui.
Ele por ela, tanto faz
José Roberto
de Toledo
40% dos brasileiros acreditam que vice-presidente
Michel Temer faria
um governo ruim ou péssimo
MICHEL TEMER (vice-presidente da República e presidente do PMDB) e EDUARDO CUNHA (presidente da Câmara dos Deputados - PMDB/RJ): para o povo, tudo "farinha do mesmo saco"! |
Se
alcançarem o objetivo de tomar o lugar de Dilma Rousseff, Michel Temer e seu PMDB não terão vida fácil com a opinião pública.
Pesquisa inédita do Ibope – e divulgada aqui com exclusividade – mostra que:
- 40% dos brasileiros acreditam que o vice faria um governo ruim ou péssimo (17% + 23%).
- Pior para ambos, só 13% acham que seria ótimo ou bom (3% + 10%).
- Outros 31% apostam em um governo regular, e
- 16% não souberam dizer.
- 43% disseram que seriam governos iguais;
- 24%, que Temer seria pior do que Dilma; e
- 23%, que o vice melhoraria em comparação à titular.
- Os outros 10% não souberam responder.
Os
poucos milhares que foram às ruas domingo defender a saída de Dilma são menos
pessimistas sobre o que aconteceria se Temer chegasse ao poder, mas nem tanto.
Segundo pesquisa Datafolha entre quem foi protestar na Avenida Paulista, em
São Paulo, só 19% acham que Temer faria um governo bom ou ótimo, contra 28%
que apostam em algo ruim ou péssimo. Comparando-se Ibope e Datafolha,
verifica-se que o descrédito do vice é 12 pontos maior entre os que ficaram em
casa no domingo passado.
Não faltam motivos para a
população estar tão descrente de um governo do PMDB. O partido divide a gestão
federal com o PT desde 2004. E suas principais lideranças – como a Operação Catilinárias
da Polícia Federal evidenciou – estão no mesmo barco de investigados que os
demais condôminos do poder.
Como
cereja do bolo, há Eduardo Cunha, com quem Temer tem se reunido regularmente.
Suas atitudes como presidente da Câmara dos Deputados, se transpostas para um
seriado de TV, resultariam em algo tão inverossímil que o transformaria de
série dramática em programa de terror pastelão.
Resta ver quantos ministros
do Supremo Tribunal Federal acompanham House of Cards Brazil
e irão acolher o pedido da
Procuradoria-Geral da República para afastar Cunha do cargo. Na hipótese de
o castelo de cartas de Cunha cair, Temer perderia um aliado importante, mas lhe
restaria um consolo. Caso o impeachment
de Dilma prospere mesmo sem a mãozinha dada por Cunha, sua legitimidade teria
menos motivos para ser contestada.
MINISTRO EDSON FACHIN do Supremo Tribunal Federal, para o azar de Dilma, confirmou o "rito do impeachment" que está sendo seguido pela Câmara dos Deputados |
Depois
do voto do relator Edson Fachin obrigando o Senado a seguir eventual decisão da
Câmara pelo impeachment e afastar
Dilma antes de julgá-la, diminui a
chance de o resto do STF deixar o destino da presidente nas mãos de Renan
Calheiros e dos 80 senadores. O foco voltaria aos 342 votos de deputados federais que a oposição precisa para afastar
Dilma.
Isso
seria um problema para a presidente, especialmente se essa votação ficar para
depois do carnaval. Nem a impopularidade e falta de credibilidade do PMDB e de
Temer fazem refrear o desejo da maioria da população pelo impeachment de Dilma. Dois
em cada três brasileiros continuam apoiando a perda do mandato: 67% a favor,
28% contra. O resto não respondeu ao Ibope.
Logo,
quanto mais tempo os deputados passarem longe de Brasília, em contato com seus
eleitores durante o recesso parlamentar, maior pressão sofrerão. O tempo voltou a contar contra Dilma.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Política –
Quinta-feira, 17 de dezembro de 2015 – Pg. A6 – Internet: clique aqui.
Direito autoral
Dora Kramer
As pesquisas de opinião indicam que nunca antes na
história do Brasil
um presidente se manteve por tanto tempo
com tal grau de impopularidade
O
descrédito assola o governo por todos os lados e solapa os alicerces de sustentação
da presidente da República. Obra cujos direitos autorais ficam reservados a
Dilma Rousseff. A perda do selo de bom
pagador pela segunda agência de classificação do grau de risco que o País
representa para investidores é mais um passo em direção ao fundo do poço que se
mostra cada vez mais profundo.
Os técnicos do ministério da Fazenda alertaram
para os efeitos nefastos (e previsíveis) da “nova matriz econômica”, o atual chefe da pasta, Joaquim Levy,
avisou do risco iminente do rebaixamento e de suas consequências. Ele foi
solenemente ignorado e, várias vezes, desautorizado. Decisões da presidente.
Na
política, o impeachment bate à porta
e, mesmo que não venha a se concretizar, o governo sairá dessa em frangalhos.
Sem uma base parlamentar minimamente confiável, com seu partido em frangalhos e
o PMDB explodindo as pontes da parceria. Uma
situação caótica, em boa medida decorrente das atitudes equivocadas da
presidente no tocante às relações entre os poderes Executivo e Legislativo por
absoluta falta de intimidade com o ofício da política e total aptidão para o
exercício do autoritarismo. Na companhia da soberba, da antipatia e da
rispidez.
Na
sociedade, as pesquisas de opinião
indicam que nunca antes na história do Brasil um presidente se manteve por
tanto tempo com tal grau de impopularidade. Menos de 10% dos brasileiros
estão satisfeitos com o desempenho da governante reeleita pela maioria há pouco
mais de um ano. Mudança de humor provocada pela evidência de que a presidente, quando candidata, mentiu
e, com isso, buscou manipular a escolha
do eleitorado. Ato cometido na posse de plena consciência por parte de
Dilma Vana Rousseff.
Na
Justiça, a presidente não vem tendo sucesso. Não conseguiu, mediante recursos,
barrar no Tribunal Superior Eleitoral as investigações sobre possível contaminação das contas de
campanha de Dilma com dinheiro oriundo do esquema de corrupção e nesta
quarta-feira, 16 de dezembro, o ministro
Edson Fachin rejeitou a maior parte dos pedidos que interessariam ao governo na
ação sobre o rito do impeachment no
Congresso. Contrariando temores residentes dentro e fora da Corte, Fachin
não invadiu prerrogativa do Legislativo, limitando-se a interpretar leis em
vigor. O Planalto frustrou-se. Tinha a esperança de que o ministro favorecesse
o governo por ter sido declaradamente eleitor de Dilma.
Como
se vê, os fatos não produzem boas
notícias para a presidente. Não em decorrência do acaso, mas como resultado
de uma obra erguida pela própria presidente. Da maneira que ela gosta, do jeito
dela. Ninguém mandou.
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