POBRE SÃO PAULO, POBRE PAÍS!
Cicatrizes da cidade
Carlos Alberto
Di Franco
Jornalista
São Paulo foi demitida por seus governantes.
E nós, jornalistas, temos de mostrar a realidade.
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THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO À noite e, mesmo durante o dia, cercado pela degradação, usuários de drogas e perigos de todos os tipos! |
As
pautas não estão dentro das redações. Elas gritam em cada esquina. É só pôr o
pé na rua e a reportagem salta na nossa frente. Essa percepção, infelizmente, é
a que mais falta aos jornais. Os diários perderam o cheiro do asfalto, o
fascínio da vida, o drama do cotidiano. Têm o gosto insosso de hambúrguer em
série. O crescimento dos jornais depende de uma providência muito simples: sair
às ruas, fazer reportagem. Só isso.
Estive
recentemente no centro antigo de São
Paulo. Um concerto em homenagem à Justiça, no encerramento do mandato do
desembargador José Renato Nalini na presidência do Tribunal de Justiça,
levou-me ao Theatro Municipal. Um
belo espetáculo. Mas na saída, às 22 horas, deparei com uma cidade assustadora:
edifícios pichados, prédios invadidos
(o do antigo cinema Marrocos é um
favelão), gente sofrida e abandonada,
prostituição a céu aberto, zumbis afundados no crack, uma cidade sem alma e
desfigurada pelas cicatrizes da ausência criminosa do poder público.
A
cidade de São Paulo foi demitida por seus governantes. E nós, jornalistas,
precisamos mostrar a realidade. Não podemos ficar reféns das assessorias de
comunicação e das maquiagens que falam de uma revitalização que só existe no papel. Temos o dever de pôr o dedo
na chaga. Fazer reportagem. Escancarar as contradições entre o discurso
empolado e a realidade cruel. Basta
percorrer três quarteirões. As pautas estão quicando na nossa frente.
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INTERIOR DO CINE "MARROCOS" DESATIVADO NO CENTRO DE SÃO PAULO: lugar para um "favelão" que se formou em seu interior, como ocorreu com muitos outros prédios abandonados e degradados do centro. |
Jornalismo
é isto: mostrar a vida, com suas luzes e suas sombras. São Paulo, a cidade mais rica do País e um dos maiores orçamentos
públicos, é um retrato de corpo inteiro da falência do Estado.
Também
o Brasil, um país continental, sem conflitos externos, com um povo bom e
trabalhador, está na banguela. Os
serviços públicos estão à deriva. Basta pensar na educação. A competitividade global reclama crescentemente gente bem
formada. Quando comparamos a revolução educacional sul-coreana com a
desqualificação da nossa educação, dá vontade de chorar. A assustadora falta de mão de obra com formação mínima é um gritante
atestado do descalabro da “pátria educadora” [lema do governo de Dilma
Rousseff]. Governos sempre exibem números chamativos. E daí? Educação não é prédio. Muito menos
galpão. É muito mais. É projeto
pedagógico. É exigência. É liberdade. É humanismo. É aposta na formação do
cidadão com sensibilidade e senso crítico.
O custo humano e social da incompetência e da
corrupção brasileira é assustador. O dinheiro que desaparece no ralo da
delinquência é uma tremenda injustiça, uma bofetada na cidadania, um câncer
que, aos poucos e insidiosamente, vai minando a República. As instituições
perdem credibilidade numa velocidade assustadora.
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MENDIGOS DORMINDO EM PLENA PRAÇA DA SÉ - CENTRO DE SÃO PAULO: abandono, miséria, ineficácia da ação social! |
Os protestos que tomam conta das cidades
precisam ser interpretados à luz da:
- corrupção epidêmica,
- da impunidade cínica e
- da incompetência absoluta da gestão pública.
Há
uma clara percepção de que o Estado está
na contramão da sociedade. O cidadão paga impostos extorsivos e o retorno
dos governos é quase zero. Tudo o que
depende do Estado funciona mal:
- Educação,
- saúde,
- segurança,
- transporte são incompatíveis com o tamanho e a importância do Brasil.
- Os gastos públicos aumentam assustadoramente.
- O número de ministérios [em Brasília] é uma piada.
São
padrões de política em que a corrupção rola solta. A percepção de impunidade é muito forte. Ela empurra a democracia
para uma zona de risco. Os governantes precisam acordar. As vozes das ruas, nas
suas manifestações legítimas, esperam uma resposta efetiva, e não um discurso
marqueteiro. A crise que está aí é brava. A gordura dos anos de bonança acabou.
A realidade está gritando no bolso e na
frustração das pessoas. E não há
marketing que supere a força inescapável dos fatos. Os governos podem
perder o controle da situação.
Campanhas
milionárias, promessas surrealistas e imagens produzidas fazem parte da
promoção de alguns políticos e governantes. Assiste-se, diariamente, a um show
de efeitos especiais capazes de seduzir o grande público, mas, no fundo, vazio
de conteúdo e carente de seriedade. O marketing, ferramenta importante para a
transmissão da verdade, pode ser transformado em instrumento de mistificação. Estamos assistindo à morte da política e ao
advento da era da inconsistência. Os programas eleitorais vendem uma bela
embalagem, mas, de fato, são paupérrimos na discussão das ideias.
Nós,
jornalistas, temos um papel importante. Devemos dar a notícia com toda a
clareza. Precisamos fugir do jornalismo declaratório. Nossa missão é confrontar a declaração do governante com a realidade
dos fatos. Não se pode permitir que as assessorias de comunicação dos
políticos definam o que deve ou não ser coberto. O jornalismo de registro,
pobre e simplificador, repercute o Brasil oficial, mas oculta a verdadeira
dimensão do País real. Precisamos fugir
do espetáculo e fazer a opção pela informação. Só assim, com equilíbrio e
didatismo, conseguiremos separar a notícia do lixo declaratório.
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USUÁRIOS DE CRACK EM PRÉDIO ABANDONADO: situação cada vez mais comum em todo o centro da cidade de São Paulo! |
Transparência nos negócios
públicos, ética, boa gestão e competência
são as principais demandas da sociedade. Memória e voto consciente compõem a
melhor receita para satisfazê-las. Devemos bater forte na pornopolítica. Ela está na raiz da espiral de violência que
sequestra a esperança dos jovens e ameaça a nossa democracia.
A sociedade está cansada da
inconsistência de alguns governantes, de tanto jogo de faz de conta, de tanto
cinismo.
Quer mudança. Quer um projeto verdadeiramente transformador.
As
cicatrizes que desfiguram o rosto de São Paulo e do Brasil podem ser superadas.
Dinheiro existe, e muito. Falta vergonha
na cara, competência e um mínimo de espírito público. Façamos reportagem.
Informação é arma da cidadania. E votemos bem. Seu voto, amigo leitor, pode
virar o jogo.
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