ESPERANÇA, AINDA TEMOS?
Vitor Hugo Brandalise
Em
30 anos, Domenico
De Masi rastreou o Brasil, leu tratados da nossa antropologia,
conversou com artistas e empresários locais. A última foi recrutar 11 intelectuais num livro que projeta o País para 2025.
Para
o italiano, sobrou otimismo. “Sei da violência inaudita e do racismo
disfarçado, da falta de autoestima e do consumismo sem freio”, diz. “Mas, neste
momento de crise dos modelos europeu e americano de sociedade,
o Brasil pode se perder ou criar um mundo novo.”
o Brasil pode se perder ou criar um mundo novo.”
De Masi aposta na
segunda opção.
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DOMENICO DE MASI Sociólogo italiano, professor na Universidade "La Sapienza" - Roma |
A
primeira reflexão ao terminar de ler o novo livro de Domenico De Masi, que apresenta previsões para o Brasil de 2025, é
“vira essa boca pra lá”. A segunda: “Deus me livre!”, e sai-se em busca de algo
de madeira, bate-se três vezes, isola-se bem. Em 2025 – Caminhos da Cultura no
Brasil (Sextante Editora), nas livrarias esta semana, o sociólogo
italiano mostra um país que, em 10 anos, mal terá se movido da lama que o
soterra hoje:
- seguiremos fechando os olhos para os direitos humanos,
- veremos os talentos fugirem e a educação falhar.
- Haverá um aumento avassalador no uso de drogas e
- a violência continuará o “grande traço constitutivo” do país.
Otimista
confesso e fã do Brasil, o sociólogo de
77 anos diz que não é o caso. O exercício de futurologia representa um
convite a pensar a sociedade brasileira – e, pelo que se nota nesta entrevista,
ele discorda de boa parte do panorama
ruim apresentado no livro. “Muitas opiniões são dos especialistas
brasileiros que participaram da obra (como Cristovam Buarque, Jaime Lerner,
Leonel Kaz, entre outros). Como dizia Nelson Rodrigues, o Brasil é muito
impopular no Brasil. Minha visão é mais otimista e continuo acreditando que
o futuro do mundo globalizado passa pelo modo de vida brasileiro.”
De
Masi, professor da Universidade La Sapienza, em Roma, e autor de conceitos
como o do ócio criativo (aliar
lazer, trabalho e estudos), encara o painel que montou como “provocação e
desafio”, em um momento mundial importante. “Estamos todos desorientados. O drama é que a sociedade pós-industrial
foi a primeira a nascer sem um modelo socioeconômico anterior. É preciso
construir algo novo, e os pensadores brasileiros podem dar uma grande
contribuição.”
Mesmo
em tempos de “profunda depressão” no país, De
Masi se permite crer no Brasil como guia. Só não arrisca oferecer saídas
aos problemas nem aprofundar interpretações. Para ele, esse papel é nosso. “Depois de seguir durante séculos os
modelos europeus e americanos, o Brasil está só diante do seu futuro. Pode se
dissolver na desorientação ou gerar um mundo novo”, disse ao Aliás. “Meu palpite é a segunda opção.”
PASSA
PELA ELITE
“A
lentidão da evolução cultural no Brasil depende da própria natureza dessa
evolução e, também, da elite cultural e política do país. Como acontece em
outros lugares, por sinal. Um alerta feito pelos especialistas (que aparecem no livro) é que a elite brasileira ficará mais arrogante,
menos nobre, mais mesquinha do que hoje na próxima década. Não me
surpreende que os ricos se preocupem em acumular mais riqueza, faz parte da sua
natureza. Isso é forte no Brasil, onde
10% da população branca detém 75% da riqueza nacional. Para reverter esse
panorama, a elite política deve ser consciente dos problemas, assegurar boa educação
e uma democracia cada vez mais completa. E a elite cultural deve proporcionar à
sociedade um bom modelo de vida, uma boa produção de ideias, uma correta
informação.
MUNDO
NOVO E SENSUAL
“O
Brasil está sozinho consigo mesmo diante do seu futuro. A posição intelectual
do país pode se dissolver na desorientação ou pode gerar um mundo novo. Meu
palpite é pela segunda opção. Porque hoje
o país já possui características de grande vanguarda cultural, como:
- a propensão à paz com os países limítrofes,
- a mescla de etnias e culturas,
- a doçura,
- o empreendedorismo,
- a convivialidade.
- Há também a sensualidade sem complexos,
- uma grande força vital que está na base do entusiasmo, do diálogo entre os gêneros, da alegria de viver.
TUDO
MISTURADO
“O
Brasil é a mais significativa metáfora do mundo na sua atual fase evolutiva.
Estamos assistindo a uma imponente migração de massas dos países pobres para os
países ricos, o que quer dizer que
muitos países, predominantemente monorraciais e monoculturais, são obrigados a
se tornar – pela primeira vez em sua história – multirraciais e multiculturais.
O Brasil experimentou essa mescla profundamente, desde o início de sua
história, e o fez de maneira menos violenta do que outros países, como os
Estados Unidos. Vejo o Brasil como uma
metáfora, mas principalmente, como um guia.
DA
PAZ
“Já
hoje, o Brasil está oferecendo ao mundo o seu modelo de paz e de estética. O acolhimento das diversidades é um grande
trunfo. No decorrer dos séculos, a Europa foi dilacerada por guerras
sangrentas: Guerra dos Trinta Anos, dos Cem Anos, guerras napoleônicas, na
Primeira Guerra Mundial. Neste momento, ela é invadida pelo grande medo do
terrorismo e pelo grande medo da invasão de refugiados. Os Estados Unidos já
tiveram sua guerra de independência entre Norte e Sul, e guerras constantes, da
Segunda Guerra Mundial em diante. Nada disso aconteceu no Brasil, que, com
exceção da guerra contra o Paraguai, sempre viveu de pleno acordo com os países
com os quais faz fronteira. Hoje também, diferentemente da Europa, dos Estados
Unidos, do Oriente Médio, da Índia, o Brasil vive uma paz interna e externa. É
um exemplo que oferece ao mundo.
COBERTO DE SANGUE
“Tenho pleno conhecimento da
violência inaudita que cobre de sangue o Brasil. É resultado acima de tudo da
distância entre ricos e pobres, da classe média ainda pouco numerosa, além da
excessiva contiguidade urbanística entre bairros de luxo e favelas. Em cidades de outros
países, os bairros ricos estão distantes dos bairros pobres, em termos
topográficos. Um habitante do Bronx não vê de sua janela os ricos arranha-céus
de Manhattan. No Rio, em São Paulo, em Salvador, ao contrário, favelas distam
poucos metros de bairros ricos. Isso
torna mais visível, mais imediata, mais escandalosa a desigualdade, e cresce o
ressentimento, o conflito dos pobres em relação aos ricos.
DEPRÊ
AUTODESTRUTIVA
“O pessimismo do brasileiro nesses dias é
reflexo da profunda depressão da qual padece o país. Em parte, ela se deve
à difusão de um consumismo já de estilo americano numa economia ainda em vias
de desenvolvimento, motivo pelo qual todos se sentem mais pobres do que são. Em parte, se deve à ideologia protestante,
que se difunde substituindo a ideologia católica mais tolerante e substituindo
o sincretismo permissivo por uma ideologia triste e repressiva, de estilo
calvinista. Deve-se ainda a ameaças à democracia, e não com uma oposição
séria e construtiva, mas com pedidos estéreis de impeachment e com a depressão
autodestrutiva da economia.

VIRA-LATAS
“Os brasileiros que aceitam de maneira
acrítica o modelo americano o fazem por falta de autoestima, uma outra
característica ruim da brasilidade. Para melhorar nesse sentido, é preciso,
acima de tudo, que os intelectuais
retomem o caminho palmilhado pelos chamados “inventores do Brasil” – Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Joaquim
Nabuco, Darcy Ribeiro etc – e recomecem a elaborar um modelo brasileiro
ditado pela visão socioantropológica, pela genialidade criativa, pela segurança
em si, recuperada ou recém-adquirida.
DESORIENTAÇÃO
GLOBAL
“O mundo todo está desorientado, com exceção
de papa Francisco e do Estado Islâmico. Como tentei demonstrar no livro O Futuro Chegou (Casa da Palavra), o
drama da nossa época consiste no fato de que nossa sociedade pós-industrial foi a primeira, na história da
Humanidade, a nascer sem um modelo socioeconômico anterior. Como afirma o
filósofo Sêneca: “Nenhum vento sopra a
favor para quem não sabe aonde ir”. É preciso que os melhores intelectuais
do mundo tratem de construir esse modelo que permita orientar nosso caminho. Os
intelectuais brasileiros, com base na experiência do próprio país, poderiam
oferecer uma grande contribuição nesse sentido. Mas é necessário, depois de recuperada a autoestima, que os
intelectuais se dediquem dialeticamente à elaboração desse novo modelo,
levando em conta que deve servir a toda a humanidade.
EDUCAÇÃO
PARA O LUCRO
“As escolas do mundo todo, incluindo as
brasileiras, têm uma carência em comum: não possuem o modelo de sociedade com
base no qual possam educar os próprios estudantes. Que mundo, que
sociedade, que valores aprendem os jovens em Harvard, no MIT, em Oxford, em
Cambridge, Stanford, que são as melhores universidades do mundo? Eles aprendem
a ser bons capitalistas num mundo capitalista que sabe produzir a riqueza, mas
não sabe distribuí-la, num mundo capitalista em que 85 ricos detêm a riqueza de
3 bilhões e meio de pobres. Por isso tanta
insistência nesse livro para os problemas do Brasil em relação à educação, cuja
ênfase continuará em modelos de negócio profissionalizantes em vez de
humanísticos.
HUMANOS
CRIATIVOS
“Apesar
de os especialistas afirmarem no livro que no futuro os intelectuais perderão
importância no Brasil, eu tenho uma opinião diferente. Em todos os países do mundo, à medida que a tecnologia incorporar o
trabalho humano, aos seres humanos restará o monopólio da criatividade, e as
atividades intelectuais serão mais apreciadas. O Brasil não será a exceção.
SEM
ÓDIO RACIAL
“A possibilidade de convivência sem ódio
racial representará uma contribuição da sociedade brasileira à civilização
mundial. Ainda não será em 2025, muito cedo para que a intolerância e o
preconceito sejam eliminados, mas o Brasil permanece no mundo como um dos
países com melhor convivência, com menor ódio racial, com menos intolerância. O racismo disfarçado que há no Brasil tem
de ser superado, mas é menos grave do que o que existe nos Estados Unidos, por
exemplo. Se o racista fala de forma velada significa que tem medo de falar
explicitamente porque teme o negro interlocutor. Melhor ser um negro temido do
que um negro impotente.
INGÊNUO,
NÃO: OTIMISTA
“Após
meu último livro, fui tachado de ingênuo por alguns intelectuais brasileiros.
Em 30 anos, visitei todo o Brasil, li os principais textos da historiografia,
da sociologia, da antropologia, da economia brasileira. Falei com grandes
intelectuais, artistas, empresários brasileiros. Fiz duas pesquisas
sociológicas sobre a “cara brasileira”. Acaso
serei ingênuo porque, depois disso tudo, amo o Brasil e o julgo um dos melhores
modelos socioculturais do mundo? Certamente o modelo brasileiro é
imperfeito, mas os outros 14 modelos (o modelo romano, o renascentista, o
americano, entre outros, com os quais ele compara o modelo brasileiro em O Futuro Chegou) são ainda mais
imperfeitos. O Brasil não é o melhor dos
mundos possíveis, mas talvez seja o melhor dos mundos que existem hoje.”
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