Quem ganhou no ano em que o País perdeu
Fernando Scheller, Marina Gazzoni,
Mônica
Scaramuzzo e Naiana Oscar
Exportadoras, fabricantes de medicamentos e
distribuidoras de
energia estão entre as companhias que mais se
valorizaram
na bolsa em 2015 – ano em que as empresas brasileiras
com ações na BM&F Bovespa perderam R$ 151 bilhões
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BOLSA DE MERCADORIAS & FUTUROS BOVESPA Um seleto e pequeno grupo de empresas tiveram ganhos com suas ações neste ano. A maioria das empresas, porém, amargaram perdas. |
Ao
longo de 2015, as empresas brasileiras de capital aberto comprovaram a máxima
popular de que “nada está tão ruim que não possa piorar”. Mês a mês, elas viram
seu valor de mercado despencar a patamares que não eram registrados desde 2009,
depois da crise financeira global. Desde
janeiro, o Ibovespa, principal indicador da Bolsa, caiu 12,2% e as companhias
de capital aberto perderam R$ 151 bilhões em valor de mercado. Mas nem todo
mundo chegou até aqui se lamentando. Há um grupo de empresas que vai se lembrar
com certa satisfação do ano que a maioria quer esquecer.
Entre
elas, no topo do ranking das que mais se
valorizaram em 2015, estão exportadoras, empresas que atuam em mercados
resilientes à crise, como o de medicamentos, e outras que, na visão de
investidores, fizeram uma boa gestão, apesar da crise econômica e política. A
lista de companhias foi elaborada pela Economática,
empresa de informações financeiras.
Para
Michael Viriato, coordenador do laboratório de finanças do Insper, essas empresas têm uma característica em
comum: conseguiram combinar geração de caixa com menor endividamento.
“Embora não seja uma regra a ser aplicada a todas as empresas de commodity, podemos dizer também que o dólar valorizado beneficiou as
exportadoras.”
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PAPEL E CELULOSE Foram mercadorias que continuaram em alta no mercado internacional o que ajudou a puxar para cima as ações de companhias produtoras |
As gigantes de papel e
celulose, Klabin, Suzano e Fibria, lideram o ranking: na média, seus papéis
subiram mais de 60%. Para Carlos Farinha, vice-presidente da Pöyry, consultoria
especializada neste setor, a celulose
sofre menos do que outras commodities porque atende a uma emergente classe
média global que busca novos produtos, como papel higiênico e fraldas
descartáveis.
Com
isso no radar, a Klabin, cujos
papéis subiram 81% neste ano, está mudando sua estrutura de receita para que,
já em 2016, metade das vendas venha do mercado externo. Hoje, 67% do
faturamento ainda se concentra no Brasil. Com essa divisão “meio a meio”, o
presidente da Klabin, Fabio Schwartzman,
diz que a empresa fica protegida das oscilações de demanda aqui e lá fora.
A
concorrente Suzano usou o momento
positivo – com preço de celulose estável e dólar alto – para reequilibrar suas
finanças e acelerar investimentos. A meta estipulada para 2016, de uma
alavancagem de 2,5 vezes o Ebitda (potencial de geração de caixa), deverá ser
antecipada para o primeiro trimestre, segundo Marcelo Bacci, diretor de
relações com investidores da empresa.
Além
das fabricantes de celulose, o dólar alto colocou na lista das ações que mais
ganharam em 2015 os papéis da
petroquímica Braskem. Apesar de ter seus dois maiores acionistas, a
Petrobrás e o grupo Odebrecht, no centro das investigações da operação Lava
Jato, a companhia foi a quarta que mais ganhou valor este ano. A empresa atribuiu o bom desempenho ao
“sucesso das operações internacionais” e do “bom momento do mercado
petroquímico global”.
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INDÚSTRIA FARMACÊUTICA teve, em geral, um bom desempenho em 2015. Em épocas de crise e aperto das famílias, a tendência é priorizar o essencial. |
A
companhia atingiu no terceiro trimestre um lucro líquido de R$ 1,5 bilhão, o
maior de sua história, e tem um cenário positivo pela frente. Em relatório, os
analistas do Itaú BBA projetam aumentos de receita e geração de caixa e redução
de endividamento para a empresa até 2019.
Empresas
ligadas a setores resistentes à crise, como Raia Drogasil e Hypermarcas,
fabricantes de medicamentos, também
conseguiram ganhar valor este ano. “Em épocas difíceis, o consumidor corta
gastos com bens duráveis e direciona sua renda para produtos essenciais”, diz
Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating.
A Hypermarcas chegou a ser olhada com
desconfiança pelos investidores neste ano, mas fez as pazes com o mercado
depois de vender, no início de novembro, sua divisão de cosméticos para a
multinacional Coty, para se concentrar em medicamentos.
Até
o combalido setor elétrico conseguiu
manter representantes na lista das empresas que se destacaram. Num ano em que o
consumo de energia caiu e as despesas financeiras aumentaram, duas companhias
viram seus papéis subirem mais de 25%: a EDP
Energias do Brasil, que controla as distribuidoras Escelsa (ES) e
Bandeirante (SP), e a Equatorial,
com Cemar (MA) e Celpa (PA).
A
primeira, na opinião de analistas, registrou alta fora da curva, já que seus
papéis estavam muito desvalorizados no início do ano. “Mas esse ajuste não
acontece se a empresa não entrega o que promete”, disse Maytê Souza Dantas de
Albuquerque, diretora financeira da EDP. Ela destaca a venda de ativos não
estratégicos e a compra dos 50% na usina de Pecém I como fatores que afetaram
positivamente o valor de mercado. Já a Equatorial há tempos vem sendo tratada
por investidores como porto seguro, sobretudo pelos resultados da
reestruturação das distribuidoras do Maranhão e do Pará, que deixaram de ser
deficitárias e saíram do ranking de pior atendimento.
Único
do mercado financeiro na lista das maiores valorizações, o Santander atribui o bom desempenho a melhorias operacionais, como redução da inadimplência e retirada do
banco do topo da lista de reclamações do Banco Central.
GOL LINHAS AÉREAS foi a primeira empresa na lista das que mais perderam valor na Bolsa neste ano! Isso porque 60% do custo da empresa é atrelado ao dólar e este aumentou em quase 50% neste ano! |
Futuro
Ter
se destacado neste ano não garante tranquilidade em 2016. Apesar de, nos
últimos meses, a regra no mercado de capitais ter sido de ações descendo a
ladeira, muita gente defende que a bolsa brasileira ainda não está barata. “Não
dá para atrair investidores com base no valor atual das companhias.”, diz Ilan
Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco. O grande fiel da balança, diz ele,
será a redução da despesa financeira.
Viriato, do Insper, não vê um horizonte favorável. “O cenário ainda é incerto.”
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