ÚLTIMOS LANCES DA POLÍTICA...
Temer avalia que relação com Dilma “azedou”
Marcelo de
Moraes
Vice-presidente envia carta na qual lista episódios de “desconfiança
e menosprezo” do governo em relação a ele e ao partido
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Michel Temer e Dilma Rousseff, respectivamente vice-presidente e presidente do Brasil |
Independentemente
do desfecho do processo de pedido de abertura do impeachment da presidente Dilma Rousseff, será muito difícil reatar os laços políticos dela com o vice-presidente
Michel Temer (PMDB). Os encontros entre os dois têm sido meramente
protocolares. Para aliados, Temer tem repetido nos últimos dias que “a relação azedou” justamente quando ele
estava tentando “ajudá-la na coordenação política”. No caso, Temer tinha
assumido a articulação política do governo para ajudar a destravar a pauta de
votações, emperrada no Congresso, e que ameaçava a aprovação do ajuste fiscal
proposto pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy.
Nessas
operações políticas para atrair o voto de integrantes da base que estavam
insatisfeitos, Temer se comprometeu
pessoalmente com os parlamentares para reconstruir as pontes entre eles e o
Palácio do Planalto. No meio dessas negociações, foi surpreendido com o não cumprimento de vários acordos que haviam
sido acertados com os parlamentares. Para interlocutores, Temer disse que a
repetição do problema impedia que a articulação política fosse bem-sucedida.
Em
conversas com aliados, Temer não disfarça sua surpresa com o problema. Já que
esse era um trabalho que estava sendo feito justamente para ajudar a
presidente, que teria aprovados os projetos do seu interesse. Cansado desse
desgaste, Temer avaliou que estava começando a “queimar seu patrimônio
político”, uma vez que aquilo que negociava com os parlamentares não se
concretizava. Por conta disso, preferiu comunicar a presidente que estava
deixando a função de articulador político.
Com a possibilidade de Temer
suceder a Dilma no cargo, na hipótese de o impeachment
ser aprovado, se reduziram ainda mais as chances de ocorrer uma reaproximação
entre os dois no futuro.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Política –
Terça-feira, 8 de dezembro de 2015 – Pg. A4 – Internet: clique aqui.
O naufrágio
Mario Sergio
Conti
Brasil regride à era José Sarney, com o povo condenado
às galés
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A lama que tomou conta do Brasil! |
O zika e o surto de microcefalia. A lama tóxica
que desaguou no Atlântico. O estouro dos
cafofos [latrinas = podridão] da Petrobras e da CBF. Cabeças coroadas da burguesia e do PT vendo
o sol nascer quadrado em Curitiba. Está tudo junto e misturado.
É
da natureza das crises amalgamar o acessório e o vital. Com isso, se firma a
imagem que a barafunda [bagunça] atual
é autóctone [tipicamente brasileira].
Ocorre que a crise é planetária. O
capital não tem pátria e o florão da América não é ilha.
A vitória de oposições na
Venezuela e na Argentina, para ficar nos fatos recentes, é sintoma do
esgotamento do POPULISMO LATINO-AMERICANO das últimas décadas. E o petismo integrou o projeto que ora soçobra [vai a pique, naufraga],
apesar das diferenças entre Chávez-Maduro, os Kirchner e Lula-Dilma.
Os
poderosos têm agido com prudência. Barack Obama recebeu Dilma Rousseff com
lhaneza em julho, não disse uma palavra além do protocolar. Na sua última
edição, contudo, "The Economist" foi explícita:
considerou temerária a deflagração do impeachment.
Para
ela, a bandeira da moralidade, que justificaria junto à opinião pública a
destituição da presidente, ficou maculada. Porque foi o corsário Eduardo Cunha
que acendeu o pavio. A luz amarela emitida pela revista, que serve de farol
para a grande finança local, fez com que os bancos ancorados na Avenida Faria
Lima negassem fogo na hora H.
A cautela imperial leva em
conta a chalupa [embarcação de pequeno porte] Lula, alvejada, mas barulhenta. Caso
"o cara" consiga escapar da Lava Jato, chegará às eleições de 2018 em
condições de atirar a torto e a granel.
O ideal teria sido continuar
esburacando o casco do Planalto com pautas-bomba e seguir no cerco ao
ex-presidente. Ver o governo e Lula irem a pique sem deixar saudade.
A
derrubada de Dilma não é indiferente. Sobretudo para quem teve ganhos reais no
salário nos últimos treze anos. Para quem conseguiu casa própria ou teve acesso
ao Bolsa Família. Para as mulheres que compraram micro-ondas a crédito,
atenuando a dupla exploração do trabalho formal e do doméstico.
A vida material é o que
conta mais, sempre. Mas os ganhos concretos acabaram. Nem governo nem oposição
cogitam reavivá-los. A rota que traçaram é a que foi adotada em outros oceanos, aliás sem resultado:
- austeridade.
- Querem afrouxar leis trabalhistas,
- tesourar aposentadorias,
- podar amparos estatais,
- aumentar tarifas,
- demitir às baciadas.
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Mario Sergio Conti Jornalista autor deste artigo |
A
crise então cabe no lema punk "no
future". O futuro é o passado perpétuo: a conciliação conservadora dos
bacanas, a casta parlamentar incrustada como craca nas ruínas do Estado, a
política vista como gerência de negócios.
O povo foi condenado às
galés e o Brasil, coletividade imaginária, regrediu à Nova República de José Sarney.
Por isso, a vibração cívica desses dias
é postiça. Ela não atenua a depressão
que se espalhou como lama tóxica.
Só
se deleita a gente surda e endurecida. Porque a pátria, como diria outro náufrago, Camões, está metida no gosto da cobiça e da rudeza, de uma austera, apagada e
vil tristeza.
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