3º Domingo do Advento - Ano C - Homilia
Evangelho:
Lucas 3,10-18
Naquele tempo:
10
As multidões perguntavam a João: «Que devemos fazer?»
11
João respondia: «Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver
comida, faça o mesmo!».
12
Foram também para o batismo cobradores de impostos, e perguntaram a João:
«Mestre, que devemos fazer?».
13
João respondeu: «Não cobreis mais do que foi estabelecido».
14 Havia
também soldados que perguntavam: «E nós, que devemos fazer?». João respondia:
«Não tomeis à força dinheiro de ninguém, nem
façais falsas acusações; ficai satisfeitos com o vosso salário!».
15
O povo estava na expectativa e todos se perguntavam no seu íntimo se João não
seria o Messias.
16
Por isso, João declarou a todos: «Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é
mais forte do que eu. Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias.
Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo.
17
Ele virá com a pá na mão: vai limpar sua eira e recolher o trigo no celeiro; mas
a palha ele a queimará no fogo que não se apaga».
18
E ainda de muitos outros modos, João anunciava ao povo a Boa-Nova.
JOSÉ ANTONIO
PAGOLA
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"A PREGAÇÃO DE SÃO JOÃO BATISTA" Pintura em tela de Giovanni Battista Gaulli (conhecido como "Baciccio"), viveu de 1639 a 1709 O quadro de 1690 e se encontra exposto no Museu do Louvre (Paris) |
REPARTIR COM O QUE NÃO TEM
A
Palavra do Batista, a partir do deserto, tocou o coração das pessoas. Seu chamado à conversão e ao início de uma vida
mais fiel a Deus despertou em muitos deles uma pergunta concreta: O que devemos fazer? É a pergunta que
brota sempre em nós quando escutamos um chamado radical e não sabemos como
concretizar nossa resposta.
O Batista não lhes propõe
ritos religiosos nem tampouco normas ou preceitos. Não se trata,
propriamente, de fazer coisas nem de assumir deveres, mas de ser de outra maneira, viver de forma mais humana, implementar algo que já está em nosso
coração: o desejo de uma vida mais justa, digna e fraterna.
O
mais decisivo e realista é abrir nosso coração a Deus, observando atentamente
as necessidades dos que sofrem. O Batista sabe resumir suas respostas com uma
fórmula genial devido sua simplicidade e verdade: «Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida,
faça o mesmo!». Tão simples e claro.
O
que podemos dizer diante destas palavras nós que vivemos em um mundo onde mais de um terço da humanidade vive na miséria,
lutando cada dia para sobreviver, enquanto nós
seguimos enchendo nossos armários com todo tipo de túnicas [vestimentas] e temos
nossas geladeiras repletas de comida?
E o
que podem dizer os cristãos diante deste apelo tão simples e tão humano? Não
devemos começar a abrir os olhos de nosso coração para tomar consciência mais
viva dessa insensibilidade e escravidão que nos mantêm submetidos a
um bem-estar que nos impede de ser mais humanos?
Enquanto
nós seguimos preocupados, e com razão, com muitos aspectos do momento atual do
cristianismo, não nos damos conta de que
vivemos «cativos de uma religião burguesa». O cristianismo, tal como nós o vivemos, não parece ter força para transformar a sociedade do bem-estar. Ao
contrário, é esta sociedade que está
desvirtuando o melhor da religião de Jesus, esvaziando o nosso seguimento a
Cristo de valores tão genuínos como a solidariedade,
a defesa dos pobres, a compaixão e a justiça.
Por
isso, temos de valorizar e agradecer muito mais o esforço de tantas pessoas que
se rebelam contra este «cativeiro»,
comprometendo-se com gestos concretos de solidariedade e cultivando um estilo
de vida mais simples, austero e humano.
TÃO CLARO!
O amor
não é uma ideologia ligada a alguns movimentos religiosos. O amor é a energia que dá verdadeira vida a uma sociedade. Em toda
civilização há forças que geram vida, verdade e justiça, e forças que
desencadeiam morte, mentira e indignidade. Nem sempre é fácil detectá-lo, porém
na raiz de todo impulso de vida está
sempre o amor.
Por
isso, quando em uma sociedade se afoga o
amor, se está afogando, ao mesmo tempo, a dinâmica que leva ao crescimento
humano e à expansão da vida. Disto resulta a importância de cuidar
socialmente do amor e de lutar contra tudo aquilo que possa destruí-lo.
Uma
forma de matar, pela raiz, o amor é a manipulação das pessoas. Na sociedade
atual proclama-se em voz alta os direitos da pessoa, mas depois os indivíduos
são sacrificados ao lucro, à utilidade ou ao desenvolvimento do bem-estar. Produz-se,
então, aquilo que Herbert Marcuse [1898-1979:
sociólogo e filósofo alemão naturalizado norte-americano] chamava de «a eutanásia da liberdade». Há cada vez
mais pessoas que vivem uma não-liberdade «confortável, cômoda,
razoável, democrática». Vive-se bem, mas sem conhecer a verdadeira liberdade
nem o verdadeiro amor.
Outro
risco para o amor é o funcionalismo. Na sociedade da
eficácia, o importante não são as
pessoas, mas a função que exercem. O indivíduo é facilmente reduzido a uma
peça da engrenagem:
- no trabalho a pessoa é um empregado,
- no consumo ela é um cliente,
- na política um voto,
- no hospital um número de leito...
Outro
modo frequente de afogar o amor é a indiferença. O funcionamento atual
da sociedade concentra os indivíduos em seus próprios interesses. Os outros são uma «abstração impessoal».
Publicam-se estudos e estatísticas atrás dos quais se ocultam pessoas
concretas. Assim ninguém se sente
responsável. Daquelas pessoas há de se ocupar o Estado, a administração, a
sociedade.
O
que cada um pode fazer? Diante de tantas formas de desamor, o Batista sugere
uma postura clara: «Quem tiver duas
túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo!». O que
podemos fazer? Simplesmente, compartilhar mais o que temos com aqueles que
vivem em necessidade. Tão simples. Tão claro.
Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.
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