AQUECIMENTO GLOBAL: Acordo de Paris limita aquecimento a 1,5º C
Países assinam acordo inédito para conter
aquecimento global
Marcelo Leite
& Leandro Colon
Texto inédito aprovado por 195 países traz marco
obrigatório para enfrentar mudanças climáticas, revisão de propostas a cada 5
anos e financiamento de US$ 100 bilhões anuais, mas não fixa objetivos globais
numéricos de redução de emissões
A COP21, conferência do clima da ONU em Paris, aprovou às 19h26 deste sábado
(12/dezembro), 16h26 no Brasil, um acordo que obriga pela primeira vez todos os
países signatários da convenção do clima (1992) a adotar medidas de combate à
mudança climática. Antes, só os ricos estavam obrigados a fazê-lo.
O
chamado Acordo de Paris (leia a íntegra em inglês, clicando aqui)
estabelece como teto para o aquecimento
global "bem menos" de 2°C, na direção de 1,5°C. Também indica que
US$ 100 bilhões (R$ 378 bilhões) por ano é o piso da ajuda dos países
ricos aos mais pobres até 2025 e determina balanço global das metas nacionais a
cada cinco anos.
Por
outro lado, não transforma em
obrigatório e verificável o cumprimento das promessas de cada país de cortar
emissões de carbono.
O
documento foi adotado por aclamação dos delegados de 195 países, que negociavam
o seu teor desde 30 de novembro. A delegação da Nicarágua levantou objeções
após a adoção, mas a aprovação já era irreversível.
É o
primeiro pacto sobre clima desde o Protocolo
de Kyoto (1997) e o primeiro a ter um compromisso geral com a redução de
emissões de gases do efeito estufa. O
acordo valerá a partir de 2020.
Cientistas e ONGs celebraram o resultado em
termos de ambições, mas apontam
fraquezas que dificultam a descarbonização da economia mundial, ou seja, o fim da
era dos combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural).
"Temos
um acordo equilibrado, ambicioso, durável, juridicamente obrigatório e justo,
respeitando as diferenças de capacidade e responsabilidade", declarou o
chanceler da França, Laurent Fabius,
que presidiu a COP21.
Em
Washington, o presidente americano, Barack
Obama, reconheceu que o acordo "não é perfeito", mas afirmou ser
"a melhor chance de salvar o único planeta que temos".
Ban Ki Moon, secretário-geral da ONU,
disse ser um "documento
histórico", que "estabelece
um novo caminho".
Cerca
de 150 chefes de governo e Estado, entre eles a presidente Dilma Rousseff,
estiveram na abertura da COP21, em 30 de novembro.
"O acordo é legítimo e
reflete todas as posições que o governo brasileiro defendeu", disse a ministra do Meio
Ambiente, Izabella Teixeira, que
chefia a delegação brasileira e atuou como facilitadora convocada por Fabius.
Em
nota, Dilma classificou o texto como "justo e ambicioso". "O
acordo alcançado com a decisiva participação do Brasil guia-se pelos princípios
da Convenção de Mudança do Clima e
respeita a diferenciação entre países desenvolvidos e em desenvolvimento."
O Acordo de Paris será
legalmente vinculante, ou seja, terá força de lei internacional como
regulamentação da Convenção do Clima da ONU, adotada em 1992 no Rio, que já foi
ratificada pelos países.
METAS VOLUNTÁRIAS
Para
chegar a esse consenso, não há menção a
obrigatoriedade de cumprimento das metas de cada país, as chamadas INDCs, que
continuam voluntárias - essa era a condição imposta pelos Estados Unidos da
América [EUA], por exemplo, cujo Congresso se recusa a ratificar qualquer
tratado que crie obrigações legais sobre clima.
Fazer o balanço desses
compromissos a cada cinco anos foi a saída encontrada. Não há regra prevista,
porém, que force os países a melhorar suas promessas, mesmo se ficar evidente
no balanço que a meta de 1,5ºC-2ºC não será alcançada. Foi uma exigência de
países como China e Índia,
refratários a aceitar verificação externa e comprometer sua soberania.
Para
os líderes da COP21, o acordo será
bem-sucedido porque, além de buscar o ambicioso objetivo de 1,5ºC, ainda que
apenas de forma indicativa, obriga os países a seguirem um calendário de
procedimentos, incluindo revisão do cenário cada cinco anos.
Argumentam
que isso daria ao mundo transparência sobre o desempenho de cada país no
cumprimento das próprias metas.
Cientistas
e ONGs dizem que, para não ultrapassar
1,5ºC, as emissões mundiais de gases do efeito estufa têm de alcançar um pico
em 2020 e depois cair a zero até 2050.
É algo que a soma das atuais
INDCs de cada país não permite atingir (o aquecimento ficaria entre 2,7ºC e 3,5ºC).
O acordo prevê que os
sumidouros naturais de carbono (como florestas e oceanos) e formas tecnológicas de capturá-lo compensem
as emissões humanas por queima de combustíveis fósseis.
Pesquisadores
consideram arriscado depender dessa captura, porque ela pode não ser
economicamente viável.
Para especialistas, o texto
é bem ambicioso em termos de alvos para o aumento tolerável de temperatura, mas
não delineia caminhos claros para atingir esse patamar. Eles defendem, por
exemplo, que as revisões das INDCs sejam feitas em intervalos menores que cinco
anos.
"A
referência a 1,5ºC como uma meta de limitação de temperatura a ser perseguida é
um avanço significativo na direção de um mundo com segurança climática e
proteção dos mais pobres", disse Carlos
Rittl, do Observatório do Clima
brasileiro.
ACORDO
DE PARIS SOBRE CLIMA
Primeira legislação internacional com obrigações
para todos os países
Objetivo
a longo prazo
Manter
aquecimento global bem abaixo de 2ºC, com vistas a 1,5ºC
Críticos
dizem que meta é incompatível com deixar para depois de 2050 a descontinuação
de combustíveis fósseis. Referência a energias renováveis foi tomada como sinal
forte para empresários reorientarem investimentos
Descarbonização
Palavra
sumiu do texto, assim como a menção explícita a combustíveis fósseis. Fala-se
em alcançar um pico de emissões “tão logo quanto possível”, com países ricos na
dianteira
Governos
contarão com “emissões negativas” (continuar com a poluição climática e retirar
da atmosfera depois)
INDCs
(metas nacionais)
Prazo
para balanço global e revisão das metas fica para 2023, o que cientistas
consideram ser muito tarde. Em 2018 haverá só um “diálogo facilitador” para avaliação
das INDCs. Processo não será punitivo nem intrusivo (questão de soberania
nacional). Não há mecanismo que permita cobrar cumprimento das INDCs
Países
ricos seguem com a obrigação de agir primeiro
Finanças
US$
100 bilhões virou piso, a partir de 2020, para a contribuição de todos os
países (principalmente dos ricos, mas não só deles)
Países
desenvolvidos terão de reportar os investimento feitos de dois em dois anos.
Valor passará por nova discussão até 2025
Cifra
está longe dos trilhões dados anualmente para subsídios para fósseis. Não há
menção clara a precificação de emissões (impostos ou mercados de carbono)
Perdas
e danos
Recursos
para ajudar vítimas de desastres são mencionados e ganharam capítulo separado,
como exigiam os países mais ameaçados. No entanto, como queriam os países
ricos, capítulo não poderá ser usado como base para exigir deles, legalmente,
indenização ou compensação
Florestas
Fonte: Folha de S. Paulo –
Mundo / Conferência do Clima em Paris – Sábado, 12 de dezembro de 2015 – 09h42 –
Atualizado às 23h08 – Internet: clique aqui.
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