SER BOM POR QUÊ ? ? ?
A ambiguidade do “Eu” e das virtudes
Entrevista
com Leandro Karnal
Gustavo
Ranieri
«Nós temos uma dificuldade enorme de lidar com a
diferença.
E uma facilidade enorme de excluir, estabelecer
preconceito,
estabelecer muros e guetos.»
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LEANDRO KARNAL Professor de História na UNICAMP Doutor em História Social pela USP |
Hamlet de Shakespeare e o mundo como palco é o título de uma das palestras
mais assistidas do historiador Leandro
Karnal. Quando a proferiu em abril deste ano, poucas dezenas de pessoas
tiveram a oportunidade de a acompanhar presencialmente. Bastou, no entanto, ser
postada no Youtube – além da exibição na TV –, para que diferentes edições da
palestra somassem mais de 500.000 visualizações. Número que aumenta
exponencialmente se incluirmos os views de outros tantos vídeos disponíveis na
plataforma do Google com este doutor em
História Social pela USP, professor da Unicamp
na área de História da América, especialista
em história das religiões e autor do livro Pecar e Perdoar – Deus e o homem na história [Editora Harper
Collins Brasil, 2015 – 2ª edição, atualmente esgotada, mas o livro está
disponível em e-book, pela editora
Nova Fronteira].
Irônico
certamente é pensar que, na palestra mencionada na abertura deste texto, Karnal
salienta que vivemos em uma época na qual, como não temos amigos de fato,
congregamos com 3.000 deles no Facebook; e como não temos nada muito
interessante a mostrar, preferimos fotografar tudo. Para ele, é sinal do nosso tempo a triste ideia de
que “o registro visual seja mais importante do que a ideia”.
Também
por isso, respirava com alívio o anonimato durante as semanas que passou em
novembro último entre Myanmar e Tailândia, no sul asiático, fazendo estudo do
meio sobre Budismo Theravada e Animismo e ministrando palestra sobre religiões
comparadas. Foi ao fim de um dia dessa viagem a trabalho que, por Skype, Karnal
concedeu esta entrevista. “O bom daqui,
de estar na Tailândia do Norte, na província de Chiang Mai, é que ninguém me
conhece. Absolutamente ninguém. Sou julgado apenas pelas ideias, não sou
julgado pelo pré-conceito positivo ou negativo. Para mim, é quase uma
experiência de virgindade, e é uma experiência que recupera esse viço, esse
frescor que talvez a exposição tenha feito perder.”
Uma
exposição midiática tamanha, aliás, que ascendeu o historiador a um fenômeno
que ele chama de “guru midiático”. “É um momento em que as pessoas querem me
dar vozes que eu não tenho. Querem que eu incorpore a agenda delas, no sentido
de agenda política, ideológica, sexual ou religiosa. Querem me dar pautas, no
sentido de que tenho que me pronunciar sobre o acontecimento X ou Y”, salienta
o pensador, que dá conta de uma agenda lotada com total foco nos compromissos,
ajudado pelas poucas horas de sono diárias – apenas quatro. “Na maior parte das
vezes, aprendo muito com as pessoas que encontro em palestras, mas é um pouco estranho que elas me assistam
por uma hora e passem quase duas batendo foto.”
Na
entrevista a seguir, parte dela focada no tema que rege esta edição, a generosidade,
Leandro Karnal fala sobre essa virtude, mas também sobre utopia, a dificuldade
de elaborar identidade sem exclusão, extremismo religioso e necessidade de
compreensão de que a diferença jamais enfraquece, mas fortalece.
O
que é, de fato, GENEROSIDADE, essa virtude tão desejada e tão confundida em seu
conceito?
Leandro Karnal: Para os valores atuais, uma
questão de solidariedade social, pensamento sustentável e combate ao
preconceito. São valores deste momento que nem sempre existiram. São nossos
desejos de um mundo melhor dentro da visão deste mundo melhor. Miro em um mundo
sem preconceito, mas todas as sociedades humanas, sem exceção, das indígenas às
urbanas do século 21, foram preconceituosas. Todas foram, de alguma forma,
etnocêntricas e centradas. Desejo uma sociedade sem preconceitos e luto por
isto, mas estamos muito distantes deste ideal.
Mas
quais são as maiores dificuldades de fazer dessa virtude algo concreto?
Leandro Karnal: Preconceito confere
identidade. Como diz Sartre, quem inventou o judeu foi o antissemita. Quem
inventou o Terceiro Mundo foram os intelectuais do Primeiro. A primeira dificuldade é elaborar
identidade sem exclusão. A segunda é uma educação virtuosa, contrária ao preconceito. A terceira é a punição do preconceito nas formas da lei.
Coerção e consenso de mãos dadas para superar racismo, misoginia, homofobia,
demofobia etc. Mas é uma estrada e estamos só no começo.
Sua
resposta me remeteu ao fim da Primeira Guerra Mundial, quando o Império Otomano
derrotado foi partilhado, sem critérios muito estabelecidos, entre França e
Inglaterra. Não houve por parte de ambos os países uma atenção com quem
habitava esse imenso território, assim como em compreender e resguardar suas
identidades e diferenças. Mas, se olhamos o hoje, vemos um mundo ainda muito
fragmentado, com Estados querendo independência, como a Catalunha, por exemplo.
Assim, de que maneira você enxerga a elaboração dessa identidade, como
elaborá-la sem excluir alguém?
Leandro Karnal: Os exemplos que você citou
dizem respeito a um forte elemento da
identidade, que é o nacionalismo.
O nacionalismo é uma invenção, mas tem seu momento mais chave no século 19. E,
no século 20, através da Primeira Guerra e da Segunda, o nacionalismo volta à
tona também. Como você lembrou, a divisão do legado do Império Otomano, um dos
quatro impérios eliminados pela Grande Guerra de 1914 a 1918, a guerra que mais
eliminou impérios na história, são elementos que foram artificialmente
tratados, porque os interesses ingleses e franceses não levavam em conta
identidades locais, interesses que, no Oriente Médio – não só tanto quanto ao
nacionalismo, mas quanto à identidade religiosa ou tradição histórica, por meio
de um xeique ou de um califa e assim por diante. Aquelas fronteiras que [o
então primeiro-ministro do Reino Unido Winston] Churchill dizia como a
Transjordânia, parte da Jordânia, que foram traçadas numa tarde de sol em
Londres, essas fronteiras como os belgas fizeram entre Ruanda e Burundi,
montando etnias problemáticas como tútsis e hutus; essas fronteiras, elas são artificiais, mas na verdade as
fronteiras e as identidades de países europeus – como você citou, a Catalunha –
também são artificiais.
De
que forma isso?
Leandro Karnal: A França é uma junção de
povos que não se amavam muito, nem tinham a mesma língua, até há pouco tempo. A
Suíça tem quatro línguas. A Espanha tem, pelo menos, cinco focos de identidade
muito forte, como bascos, como catalãs, como andaluzes etc. e que não têm uma
proximidade nem cultural nem uma identidade linguística. Na verdade, pode ser
um país muito pequeno e artificial como a Bélgica, que pensa em se separar. E
pode ser um país gigantesco e também recente como o Canadá, que pensa em se
separar. Em todos esses casos, nacionalismos e regionalismos desagregam uniões,
porque essas identidades locais europeias, ou de outros lugares, artificiais ou
não, são elementos com que as comunidades se identificam e a estes elementos de
nacionalismo se somam elementos mais graves ainda de religião ou de acusações
de que uma parte está explorando a outra. Ou seja, estamos sempre transferindo para os outros os nossos problemas. Estamos sempre constituindo identidades
excludentes. E aí tem um desafio a que nós nunca conseguimos responder:
como é que eu posso ser islâmico se eu não tiver ao meu redor católicos e
judeus, como é que posso ser heterossexual sem homossexuais, como posso ser
brasileiro sem argentinos? Ou seja, como
posso estabelecer um elemento unificador em um universo em que toda ação de
dizer quem sou significa dizer quem eu não sou, aquilo que eu gosto implica
aquilo que não gosto. Não somos uma espécie acostumada a viver em grandes
grupos. Estabelecemos identidades muito locais, muito provinciais, muito de
aldeia. E, às vezes, elas são projetadas para a nação.
E
se nunca conseguimos responder corretamente a este desafio, você acredita em
alguma proposta, em algo que nos tire desse lugar?
Leandro Karnal: Acredito na educação, uma
educação cosmopolita. Acredito na proposta de Gandhi de abrir as janelas para o
mundo, mas que a sua casa continue indiana, que é a ideia do Gandhi: “Minha casa é indiana, mas eu abro as
janelas para o mundo inteiro”. Acredito na valorização da minha identidade
local, mas sem sufocar e sem xenofobia com a identidade dos outros. Mas isso é
um exercício muito complexo. A maior parte das pessoas se sente atacada se ela
for religiosa e encontrar um ateu, e a maior parte dos ateus se sente
catequista, porque decide que, sendo ateu, tem que passar adiante essa ideia e
abrir os olhos dos religiosos. Este é um ouroboros, é uma serpente que come a
própria cauda. Nós temos uma dificuldade
enorme de lidar com a diferença. E uma facilidade enorme de excluir,
estabelecer preconceito, estabelecer muros e guetos. Essa é uma tradição
histórica muito forte entre nós.
Por
conseguinte, imagino que seja demais utópico pensar e almejar generosidade
frente ao atual momento que o mundo atravessa.
Leandro Karnal: Generosidade é um conceito
histórico. Quer dizer que, em cada momento e em cada lugar, foi interpretada de
um jeito. Era generoso para a elite inglesa aprisionar trabalhadores em workhouses no século 19, uma espécie de
fábricas-prisão. Os ingleses vitorianos achavam que assim ensinariam um ofício
aos trabalhadores. Os nazistas consideravam útil e racional eliminar os
portadores de deficiências mentais, as primeiras vítimas do extermínio nazista.
A Inquisição tinha por lema “Misericórdia e Justiça”. Hoje, temos valores que
falam de ação social, valorização da natureza, combate ao preconceito etc.
Esses valores até podem ser utópicos, mas a
utopia, desde que foi inventada por Thomas
Morus (1478-1535), serve para
melhorar o presente. Utopia permite avançar rumo ao horizonte; não,
exatamente, construir um mundo utópico. Utopia
é uma estrada, não um destino. A utopia estabelece uma espécie de meta a partir da qual eu reformo a realidade. Quando
Thomas Morus inventou essa palavra, no século 16, o neologismo grego do “não
lugar” [utopus], ele queria criticar
a Inglaterra em que vivia. Quando [Michel de] Montaigne, nos seus escritos,
fala sobre os canibais brasileiros – no capítulo 31, do Livro I de Os ensaios –, ele usa os canibais
utópicos para criticar a sociedade francesa do seu momento. Então, “utopia” é sempre uma maneira de eu
estabelecer um futuro perfeito contra o presente imperfeito. Como a
realidade dá menos do que desejo e como o horizonte se alarga à medida que a
gente deseja mais, utopia tem essa função didático-pedagógico-política, por
isso a importância dela.
Historicamente,
é errado pensar que quando o ser humano era nômade, caçador-coletor, ele era
mais generoso do que se comparado ao período posterior como sedentário,
praticando a agricultura e formando então as primeiras aldeias, vilas e
cidades?
Leandro Karnal: Como disse, generosidade é
um valor histórico. De algumas formas, vivemos um mundo menos violento do que
há 60 anos ou há 5 mil. Há mortes, mas elas causam mais impacto e protestos.
Todos os crimes de rua no Brasil não chegam a ser um dia normal na Batalha de
Stalingrado, entre 1942 e 1943. As cidades
domesticaram parte dos instintos, e isto pode produzir cultura formal e formas
mais elaboradas de violência.
Mas,
em sua opinião histórica, já fomos predominantemente generosos ou sempre
estivemos longe disso?
Leandro Karnal: Se usarmos o exemplo da
generosidade como a entendemos hoje, estamos num período melhor do que no
século 15, por exemplo. Sofisticamos nossos meios materiais para sermos
genocidas. Mas veja, os nazistas tornaram a morte uma indústria sistemática.
Porém, quando os soviéticos avançaram, os alemães destruíram parte dos campos
de morte. Eles sabiam que aquilo era um crime de guerra e queriam destruir
provas. Os assírios mataram muito e sem nenhuma tentativa de esconder. A
violência era exemplar, pública e tinha função no império assírio. Matamos mais
hoje por recursos materiais mais elaborados, mas temos uma consciência maior de
alguns valores. Turcos, hoje, negam a morte de armênios na Primeira Guerra. No
século 15, turcos e cristãos empalavam-se mutuamente nos Bálcãs, publicamente,
e nenhum dos dois lados, islâmico ou cristão, tinha escrúpulo de exibir sua
violência. Pelo contrário, orgulhavam-se dela. Hoje, somos obrigados a uma virtude pública, estados, instituições e
pessoas. A bomba atômica mata muito rapidamente muita gente. Imagine a
bomba atômica nas mãos de Nero ou Calígula, de Átila ou de Carlos Magno.
Como
você observa o marketing pessoal e empresarial tentando se camuflar com
exemplos dessa virtude?
Leandro Karnal: Hoje, a virtude traz lucro.
Ser ecologicamente responsável e socialmente engajado aumenta o valor das
ações. Assim, virtude e interesse estão presentes. Hoje, virtude agrega valor à marca.
Mas
é possível a formação de um ser generoso em meio a uma sociedade tão
massificada pelo consumo?
Leandro Karnal: Para muita gente, o consumo
é um valor virtuoso, pois gera emprego e faz circular riquezas. A virtude
relacionada ou não ao consumo é um conceito interessante. O principal benefício que pessoas mais pobres querem não é igualdade
social ou combate ao racismo, mas o poder de também consumir. O desejo de
consumir é uma meta forte para quase todas as pessoas. Sociedades que consumiam pouco, como as socialistas, não foram
mais virtuosas. Sociedades que consomem
muito, como a norte-americana, não são mais virtuosas. Porém, passamos a separar consumo e virtude por
uma influência provável de certo platonismo e de certo moralismo ou cristão ou
socialista.
Podemos
dizer que maior igualdade sociocultural facilitaria a existência de atitudes
generosas?
Leandro Karnal: Sem dúvida, o cidadão
inserido em uma sociedade com pouca diferenciação econômica, inserido em uma
sociedade onde haja muito pouco a invejar do outro e a diferença seja pouco
relevante, ele tem menos capacidade de destruição de um grande centro onde
desconhecidos têm diferenças enormes. Pessoas que estão inseridas em um meio
onde você possa conhecer as pessoas, deveriam, a rigor, estabelecer um ponto
mais próximo ou um ponto de maior diálogo e assim por diante. Isto é verdade e,
ao mesmo tempo, nós temos exceções notáveis de sociedades equilibradas, com
pouca desigualdade, dentro das quais, de repente, aparece um louco, um ser
violento. É importante lembrar que a
violência era maior no passado do que é hoje.
Mas
o que mudou?
Leandro Karnal: Foi muito mais o meio de
exercer essa violência. A chance do assassinato era maior há 50 anos ou 70 anos
do que ela é hoje. A morte de crianças, a convivência com os horrores; tudo
isso, de alguma forma – em alguns setores, não todos – melhorou. Nós estamos em uma sociedade que tende a
cobrar mais tolerância, menos preconceito e ser mais dura com as expressões da
violência. É que eu acho que como toda a espécie humana, e ao longo da sua
história, nós somos violentos. Violências de comunidades indígenas contra
comunidades indígenas, violência de homens brancos contra comunidades
indígenas, violência de religiões entre si, violências dentro da própria
religião, violências entre grupos antagônicos sociais, violências ligadas à
desigualdade aprofundada pelo capitalismo, violências dentro de sociedades
socialistas e assim por diante. Quer dizer, a igualdade do socialismo, por exemplo, ou a desigualdade do
capitalismo não gerou sociedades mais harmônicas ou mais felizes. Agora, a concepção da BONDADE tem a ver com a
construção de uma ideia tanto religiosa quanto moral, como o pacto social,
que é muito complicado. É muito complicado eu transformar as pessoas em
mutuamente capazes de conviver. E tem dado errado na maior parte das vezes.
Você
disse que a bondade tem a ver com a construção de uma ideia religiosa e moral.
Assim sendo, estendo essa pergunta à generosidade e demais virtudes. São elas
também um “produto” da religião?
Leandro Karnal: A virtude foi estabelecida
junto com as religiões, mas não apenas por elas. Aristóteles definiu ética sem
apelo aos deuses. Considerando as práticas religiosas na história, a pergunta
correta seria se é possível ser
religioso e virtuoso ao mesmo tempo. Mas, sem dúvida, a ideia de um código
moral e um Deus que pune ou premia é uma ideia forte e tem funcionado como base
de um mundo no qual sempre foi difícil regular as especificidades do indivíduo
em relação a si e ao todo social.
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É POSSÍVEL SER GENEROSO SIM ! ! ! |
Então,
faço aqui a pergunta que você acha a mais correta: é possível ser religioso e
virtuoso ao mesmo tempo?
Leandro Karnal: É possível, porque a
religião é um signo aberto. Sempre dou o exemplo em sala de aula, na Unicamp,
que o movimento pela reforma agrária, o Movimento
dos Sem Terra [MST], nasceu em sacristias de igreja e na obra de Dom Tomás
Balduíno, da Pastoral da Terra. O movimento da TFP [Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade], inimigo mortal da reforma
agrária, nasceu também na sacristia de igrejas. É possível que a religião faça pessoas lutarem pela justiça social e é
possível que a religião seja um poderoso elemento de justificação das
injustiças sociais. Religião é um signo aberto. Algumas pessoas são
equilibradas porque são religiosas, e outras são desequilibradas porque são
religiosas. A religião não é nada em si.
E não tem nada a ver com caráter. A associação entre caráter e religião é
um esforço dos religiosos. Há pessoas religiosas de excelente caráter e há
pessoas religiosas que são completos filhos da puta em qualquer aspecto da
expressão. Isto não produz algo. Agora, acho que a moral mais fácil de ensinar é a moral religiosa. Do ponto de
vista behaviorista da psicologia comportamental, a religião é o elemento mais
fácil de ser ensinado como moral, especialmente em um primeiro estágio. Agora, o mundo religioso é um mundo violento, e o
mundo ateu é um mundo violento.
É
impossível destacarmos esse princípio violento do ser humano sem falarmos aqui
dos recentes ataques em Paris perpetrados por extremistas ligados ao Estado
Islâmico. Você enxerga qualquer possibilidade de alterarmos para melhor a
configuração mundial de direitos e respeitos universais humanos sem um diálogo
com tais extremistas?
Leandro Karnal: Acho que há um grau de
preconceito de radicalismo, que talvez seja comum a alguns fundamentalistas do
Estado Islâmico, comum a alguns nazistas, comum a algumas personagens deste
naipe, que não são possíveis para estabelecer um diálogo, porque todo o ser deles obtém toda a energia vital
e toda a sua identidade do ódio. Não
creio que sejam pessoas capacitadas para um diálogo. Não creio que um
fundamentalista, líder do Estado Islâmico, ou um clássico nazista, ou qualquer
outra personagem assim seja capacitada para um diálogo. Há um grupo, que talvez
até pertença ao Estado islâmico, que é mais aberto, talvez, ao diálogo. Mas o líder fundamentalista, este não existe
sem o ódio, sem a morte, sem a violência. Ele não tem outra maneira de
existir. Então, acredito na combinação de duas coisas: coerção contra os
agressores, contra bárbaros que não aceitam a existência de outros, sejam esses
quais forem, e consenso, que é dado pela educação, pelo estímulo ao debate, ao
senso crítico, pela igualdade social maior, pelo fim da miséria e da fome e
assim por diante. Mas acho, de novo, que deve ser a minoria que faz um barulho
enorme; mas é a minoria. O indivíduo
violento nas suas convicções é uma minoria. Existe uma grande massa que não é
violenta nas suas convicções e esta, sim, pode ser trabalhada pela educação,
pode ser trabalhada pelo debate, pode ser trabalhada por estímulos ao
contraditório para poder conviver com a diferença de uma tolerância ativa, o
que significa que eu rejeito a intolerância, mas rejeito também a tolerância
passiva, aquela que diz: “não tenho nada contra X e Y, desde que não sentem ao
meu lado”. Isso é tolerância passiva. A tolerância ativa, que é o meu desejo e
que é a minha utopia, é o dia que eu entender que a diferença não me
enfraquece, mas me fortalece. E eu não ser o padrão do mundo, além de ser
uma alegria para o mundo e uma felicidade, faz com que eu possa ver as questões
sob pontos de vista distintos.
Para
encerrar, Leandro, seja pela visão do historiador seja de um indivíduo comum
apenas, você acredita que teremos um mundo mais generoso?
Leandro Karnal: Um dos axiomas, um dos
princípios mais fundamentais da história,
é que ela é feita por homens; ela
não é feita por forças extra-humanas. Isso significa que tudo o que nós temos hoje pode ser transformado para melhor ou para
pior. Mas, se nós lembrarmos que há 20 anos ninguém usava cinto de
segurança, e que a junção de dois elementos, coerção e consenso, transformou
por completo a relação do brasileiro com o cinto de segurança – multas mais
educação no trânsito –; se nós lembrarmos que há 50 anos nenhum de nós pensava
na questão da água e que hoje quase todas as crianças, nas escolas, têm uma
consciência hídrica muito maior do que havia na minha infância, significa que as pessoas podem ser transformadas para
melhor ou para pior. Então, estabeleço como princípio possível, afirmativa
categórica, que sim: é possível
transformar o mundo para um mundo melhor, menos injusto, menos preconceituoso,
que se livre de todas as suas mazelas, como o racismo, a misoginia, a
homofobia, a demofobia ou quaisquer outros problemas. Nós podemos lutar por
um mundo melhor. Isso é possível e é exequível. Porém, se isso vai acontecer,
vai depender de uma resposta muito relevante dada por mim, por você, por quem
está lendo esta entrevista ou por quaisquer outras pessoas que possam agir a
esse respeito. Mas não há forças externas aos homens. A sociedade do futuro será o que nós fizermos, e isto é possível
melhorar.
Fonte: Revista da Cultura (Livraria Cultura) – Edição
101 – Dezembro de 2015 –Pgs. 14 a 21 – Internet: clique aqui.
Ser bom por quê?
Jairo Bouer
Psiquiatra
«Porque, se cada um de nós não mudar e não conseguir
fazer sua parte,
o tecido social que vai se constituindo fica cada vez
mais frágil,
mais fácil de ser rompido.»
![]() |
DR. JAIRO BOUER Psiquiatra |
Generosidade talvez seja um dos
princípios norteadores que nos fizeram chegar até aqui, vivendo em sociedades e
grupos cada vez maiores e mais complexos. Mas, além de ela não ser uma
prerrogativa exclusivamente nossa, humana, parece que anda rareando cada vez
mais entre nossos pares nos dias que encerram o ano de 2015.
Como
explicar um ataque bárbaro de fundamentalistas a uma das principais cidades do
mundo, Paris? Como entender o mar de lama que arrasou rios, vilarejos e
provocou uma das piores catástrofes ambientais da história do Brasil? Como
tolerar a persistente violência contra mulheres, que atravessa os séculos em
nossa terra? Como justificar o desejo de se manter a todo custo no poder, que
faz com que muitos dos nossos partidos e políticos envergonhem diariamente a
população?
Ser generoso é ter um olhar
mais amplo, que enxerga mais longe e supera eventuais diferenças e dificuldades. É conseguir ter EMPATIA, se colocar no lugar do outro, entendendo seu sofrimento e suas
necessidades. É poder, sem abrir mão de crenças e princípios, ajudar quem
precisa. É conseguir romper as amarras
egoístas e narcisistas que nos fazem focar apenas em nossas próprias questões.
É estar aberto para mudar o tempo todo, se reinventar, à medida que o mundo
assim exigir. É poder ajudar e permitir
que sejamos ajudados.
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ATÉ ENTRE ANIMAIS PODE HAVER GENEROSIDADE, MAS NOS HUMANOS ELA ATINGE UM NÍVEL MAIS SOFISTICADO |
Durante
muito tempo, se imaginou que altruísmo, bondade e generosidade eram atributos
quase exclusivamente humanos. O tempo, as pesquisas e as imagens nos mostram
que muitos animais também agem para
ajudar outros da mesma espécie e, muitas vezes, até de espécies distintas.
Mas, sem dúvida alguma, somos os que mais se valeram dessa possibilidade para
construir arranjos comunitários cada vez mais intricados e sofisticados.
Infelizmente, apesar do
amplo uso que fazemos da generosidade em nossa evolução, estamos devendo muito
nesse quesito, tanto para o mundo como para nós mesmos! Sendo a espécie que
controla e impacta com mais força a Terra, precisamos ter mais cuidado com o
habitat que nos cerca, nem que isso signifique abrir mão, em alguma extensão,
de prerrogativas e de confortos. Sem isso, podemos estar inviabilizando a vida
das próximas gerações, humanas ou não.
Sem
reavaliar a relação que temos com o
poder e o mau hábito de tentar
limitar o que os outros são e podem fazer, impondo um sistema de crenças
que imobilize os demais, vamos tornando a coexistência cada vez mais difícil
por aqui. Criamos hostilidades, disputas, ódio e guerras! Abrimos mão da capacidade de cuidar do outro, de abrir espaços, de
criar redes de colaboração e de solidariedade. Vamos perdendo nossa
humanidade e nos tornando mais monstruosos!
Ser
bom por quê? Ser generoso para quê? Porque,
se cada um de nós não mudar e não conseguir fazer sua parte, o tecido social
que vai se constituindo fica cada vez mais frágil, mais fácil de ser rompido.
E, quando isso acontece, talvez tudo o que foi feito pelos nossos antepassados
para que a gente chegasse até aqui vai perdendo a razão e o sentido. A
humanidade, o mundo e as pessoas vão deixando de ser. É uma perda para todos!
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