Papai, mamãe, gênero e amor
Michela
Marzano*
Jornal “Trentino”
12-12-2015
Os estudos sobre o gênero têm como objetivo, sobretudo,
o de combater as discriminações e as violências sofridas por quem, mulher,
homossexual ou trans, é considerado inferior apenas por causa do seu sexo, da
sua orientação sexual ou da sua identidade de gênero.
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MICHELA MARZANO E a capa de seu mais novo livro sobre a polêmica noção de "gender" ou "gênero". O livro já está dando o que falar na Itália, onde foi primeiramente publicado. |
Publicamos
aqui um trecho da introdução do livro Papà, mamma e gender, da filósofa
italiana Michela Marzano [Utet, 2015], professora da Universidade de Paris V - René Descartes. [Por enquanto, só edição
desta obra em italiano, não há previsão de tradução no Brasil].
"Tirem
as mãos dos nossos filhos", "nascemos homem e mulher",
"pare o gênero nas escolas", "o gênero é esterco do diabo".
Oito anos depois do primeiro Family Day,
que tinha visto sair à Praça São João, em Roma, mais de um milhão de pessoas ao
som de "o bem da família é o bem do
país", no dia 20 de junho de
2015, realizou-se, também na Praça São João, um segundo Family Day.
Novamente,
um milhão de pessoas na praça. Desta vez, porém, não só para defender a família
no momento em que o Parlamento tinha recomeçado a discutir as uniões civis, mas
também para se opor ao "projeto
louco" de introduzir nas escolas o gender.
"Eu me pergunto se a teoria de gênero não é também expressão de uma frustração e de uma
resignação que visa a apagar a diferença, porque não sabe mais se defrontar com
ela", dissera alguns meses antes o Papa Francisco, legitimando assim, mesmo que indiretamente, a
hostilidade em relação ao gender.
Mas
o que é realmente essa teoria? Ela existe? É verdade que se quer ensinar aos
menores que o sexo é escolhido com base naquilo que, pouco a pouco, se percebe,
como diz um vídeo realizado pela Associação ProVita? É verdade que, de agora em
diante, não se falará mais de "pai" e de "mãe", mas de
"progenitor 1" e "progenitor 2"? É verdade que a pedofilia
também é um gênero e que logo será legalizada? É verdade que se ensina a
masturbação precoce já nos jardins de infância, como alegam outros vídeos?
"Mas você viu que coisa
esse gender?", me perguntaram preocupados muitos pais nos últimos meses, enquanto
esses vídeos começavam a se espalhar de forma cada vez mais maciça. Levei algum
tempo para entender o que estava acontecendo. Eu subestimei a amplitude do
fenômeno. Talvez estive desatenta.
O
fato é que, por meses, eu me limitei a
pensar que todos estavam exagerando um pouco. Não só aqueles que estavam
demonizando o gender, mas também
aqueles que, comprometidos com a luta contra as discriminações e o bullying, me sinalizavam a hostilidade
crescente contra toda iniciativa e atividade voltada a desconstruir os
estereótipos sexistas e homofóbicos.
Durante
meses, eu não percebi que estava sendo
criada pouco a pouco uma fenda muito profunda na Itália. De um lado,
aqueles que estão convencidos de que está sendo levado adiante um projeto de
doutrinação dos menores voltado a minar os valores da família e a banalizar
qualquer comportamento sexual.
De
outro, aqueles que estão igualmente convencidos de que é necessário promover
nas escolas não só a cultura do respeito e do diálogo, mas também uma real
educação à aceitação das diferenças e à rejeição das discriminações.
De
um lado, aqueles que são mais e mais frequentemente designados como adeptos do relativismo ético – embora muitas vezes
se trate de pais, mães, irmãs e irmãos de pessoas homossexuais ou transexuais,
homens e mulheres que se defrontaram diretamente com o drama de uma pessoa
marginalizada apenas por ser gay, lésbica ou trans.
De
outro, os essencialistas e todos aqueles que acreditam que existe uma
definição única e absoluta do Bem, mas também a Ação Católica e muitos
intelectuais de esquerda, que talvez ainda não se defrontaram com o drama que
pode ser vivido por um filho ou um amigo gay, ou uma filha e uma amiga lésbica,
no momento em que se sentem rejeitados e marginalizados.
Não
estamos arriscando nos atolar em inútil guerra ideológica em que, já hoje,
ninguém mais escuta ninguém? Não se trata, na realidade, de um problema apenas
italiano. Na França, por exemplo, circulam livros e panfletos inutilmente
polêmicos contra o gender.
"Nomear as coisas
corretamente", dizia Albert Camus, "é um
modo para tentar diminuir o sofrimento e a desordem que existem no mundo."
O propósito deste livro é justamente este. Desmontando as interpretações
mais fantasiosas que cercam hoje a chamada "ideologia de gênero",
através da leitura e do comentário daqueles vídeos e daqueles escritos já
virais.
Vídeos e documentos, muitas
vezes, cheios de erros grosseiros (desejados? inconscientes? ditado pela ignorância?)
e muita confusão (desejada?
inconsciente? ditada pela ignorância?), em que se afirma, por exemplo, como se
fosse uma evidência, que o gender
falaria de um "direito natural de mudar as escolhas dentro dos cinco
sexos, como o gay, lésbico, bissexual, transexual e heterossexual", misturando, assim, mais uma vez, sexo,
gênero e orientação sexual.
Na
verdade, os estudos sobre o gênero têm
como objetivo, sobretudo, o de combater as discriminações e as violências
sofridas por quem, mulher, homossexual ou trans, é considerado inferior apenas
por causa do seu sexo, da sua orientação sexual ou da sua identidade de gênero.
Esse
é o motivo pelo qual, há muito tempo, eu me ocupo com o gender e não entendo por que hoje há tanta hostilidade e tanto medo
contra ele, embora eu mesma acredite que certas posições, às vezes, são
radicais, às vezes até mesmo excessivamente provocadoras.
Mas
não devemos jogar fora o bebê com a água do banho. Neste meu livro, eu gostaria
de me aproximar do tema do gender
para contar a gênese do conceito e as suas mil facetas. Mas também para mostrar
como os estudos de gênero têm muito pouco a ver com as representações que são
feitas deles e com os fantasmas que apenas a palavra "gender"
desperta hoje.
*
MICHELA MARZANO, nasceu em Roma, 1970, estudou na Scuola Normale Superiore de Pisa
(Itália), onde obteve um doutorado de pesquisa em Filosofia e na Universidade La Sapienza de Roma. É autora de
numerosos ensaios e artigos de Filosofia Moral e Política. Na Itália ela publicou,
entre outros títulos, Estensione del dominio
della manipolazione [Extensão do domínio da manipulação, 2009], Sii bella e stai zitta [Seja bela e
fique quieta, 2010], Volevo essere uma farfalla
[Desejava ser uma borboleta, 2011], Avere
fiducia [Ter confiança, 2012], Il
diritto di essere io [O direito de ser eu, 2014], Papà, mamma e gender [Papai, mamãe e gênero, 2015]. Ela é
professora ordinária da Universidade de
Paris René Descartes, dirige uma coleção de ensaios filosóficos para as
Edições PUF (Presses universitaires de France) e colabora com o jornal italiano
“La Repubblica” e a revista “Vanity Fair”. Atualmente é deputada do parlamento
italiano pelo Partido Democrático (Pd).
Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão original
deste artigo, clicando aqui.
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