COMO REGULAR A ECONOMIA NO MUNDO DE HOJE?
“Reguladores
precisam estar prontos para intervir”
Entrevista com Jean Tirole
Ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2014
BINYAMIN APPELBAUM
The New York Times
Economista francês
ganhou o Nobel por sua pesquisa sobre o poder do mercado e a regulação
Jean Tirole - Professor de Economia na Universidade de Toulouse (França) |
Jean Tirole ganhou o Prêmio Nobel de Economia na
segunda-feira [13/10/2014]. Quando acordou na terça-feira, disse que ainda
estava "nas nuvens". Ficou tão contente que decidiu conceder um pouco
do seu tempo para conversar a respeito da neutralidade da rede, Amazon.com e
seus interesses de pesquisa atuais. A seguir, trechos da entrevista.
Pedi a vários economistas que
resumissem a abordagem de Tirole para o sistema regulatório e, basicamente,
todos concordam que a melhor resposta seria "é complicado".
Jean Tirole: Não
existe maneira fácil de resumir minha contribuição e a contribuição dos meus
colegas. Trata-se de algo específico para a indústria. A forma de regular os
cartões de pagamento não tem nada a ver com a forma de regular a propriedade
intelectual ou as estradas de ferro. Há muitos fatores idiossincráticos [peculiares]. É isso que torna tudo tão
interessante, tão rico. É necessário algum entendimento de como funciona uma
indústria. E o raciocínio tem muito a ver com a teoria dos jogos. Normalmente, não temos um mercado de concorrência
perfeita e, por isso, usamos a teoria dos jogos, que descreve situações com um
pequeno número de atores. E a economia informacional é outra de nossas
ferramentas. Mas então temos de analisar as indústrias e pensar nessas
possíveis regras. Não é algo que possa ser resumido numa frase curta.
O que o atraiu para essa área?
Quando começou a carreira, nos anos 1970, a organização industrial e a
regulamentação não estavam atraindo muitos pesquisadores de ponta.
Jean Tirole: Foi
basicamente o ponto de contato entre questões tópicas da tarefa de repensar a
política antitruste e a economia regulatória, e também o contato com algumas
pessoas fundamentais. Comecei quando estudava pós-graduação no MIT, com Drew Fudenberg, que está atualmente em
Harvard, e Eric Maskin, também em
Harvard, que trabalharam comigo nesses temas e, posteriormente, Jean-Jacques Laffont. Foram essas
pessoas e o desafio. Ninguém sabia como desregular as telecomunicações e as
empresas de energia.
Enquanto acadêmico, você mede o
sucesso em termos da capacidade de redefinir a política do governo? Quanto do
seu tempo é dedicado a moldar as políticas públicas?
Jean Tirole: Não
muito. Num certo sentido, sou principalmente um pesquisador. Se minhas
recomendações forem aplicadas, fico feliz e busco formular as ideias da maneira
mais simples. Mas devemos nos lembrar de Keynes dizendo que políticos e
governantes usam uma ciência econômica já morta. Há algo de verdadeiro nisso.
Desenvolvemos novas ideias, que são adotadas ou não. Mas minha escolha foi
permanecer dentro da torre de marfim.
Estou curioso para ouvir suas ideias
em relação ao debate da "neutralidade da rede". Os governos devem
evitar que os provedores de acesso de banda larga cobrem por privilégios?
Jean Tirole: Não
trabalhei com a neutralidade da rede. Isso pode ter muitos significados. Uma
delas é pagar por largura de banda e congestionamento, algo que funciona de
acordo com a economia natural, pois queremos que as empresas paguem pelo custo
social de suas escolhas. Mas o público tem medo - e os reguladores também - da
possibilidade de as empresas usarem esse poder de mercado para expropriar os
provedores de conteúdo, e é por isso que devemos permanecer cautelosos. Acompanho
o tema de longe.
Outro assunto nas manchetes é a
batalha da Amazon contra a editora Hachette. Seria este um exemplo de mercado
de dois lados?
Jean Tirole: É
melhor não falar em termos específicos. Temo que meu novo status signifique que
as pessoas levarão a sério tudo que eu disser… Num mercado de dois lados, às
vezes um lado vai pagar tudo. Não há nada de ineficiente e a situação não está
ligada ao poder de mercado. Em termos de formação de trustes, essas indústrias
avançam muito rapidamente. Há um monopólio num determinado ponto e é necessário
termos as condições de entrada corretas, e os reguladores precisam estar
atentos e prontos para intervir.
Qual é o seu projeto de trabalho
atual?
Jean Tirole: Um
exemplo de grande importância é a propriedade
intelectual. Talvez você tenha acompanhado os recentes debates envolvendo
patentes que não são muito importantes até serem incorporadas a um padrão,
tornando-se importantes simplesmente porque foram escolhidas para o padrão em
lugar de outras alternativas. Então seus proprietários começam a cobrar por
elas preços exorbitantes. Com Josh
Lerner, em Harvard, propusemos novas regras para proteger os padrões. Não
há problema em proteger a inovação. Trata-se de algo essencial. Mas queremos
recompensar as inovações importantes. Não queremos defender patentes que podem
valer muito simplesmente porque podem ser escolhidas para o padrão.
Acha que a regulação está avançando
no sentido correto? Será que esses regimes cada vez mais complexos - alguns
erguidos a partir do seu trabalho, e outros o contrariando - estão melhorando
nossa sociedade ou atrapalhando a inovação e o crescimento?
Jean Tirole: O
que tentamos fazer é criar uma estrutura reguladora leve o bastante para
permitir inovação e promover investimento. Uma estrutura reguladora ruim pode
reduzir bastante o crescimento, criando problemas.
QUEM
É
Jean Tirole é francês, tem 61 anos e é
professor da Universidade de Toulouse. É o terceiro francês a receber o Prêmio
Nobel de Economia e o primeiro não americano desde 1999.
TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Economia – Terça-feira, 21 de outubro de 2014 – Pg. B11 – Internet:
clique aqui.
Comentários
Postar um comentário