23º Domingo do Tempo Comum – Ano B – Homilia
Evangelho:
Marcos 7,31-37
Naquele tempo:
31
Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por Sidonia e continuou até o mar
da Galileia,
atravessando a região da Decápolis.
32
Trouxeram então um homem surdo, que falava com dificuldade, e pediram que Jesus
lhe impusesse a mão.
33
Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão; em seguida colocou os
dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele.
34
Olhando para o céu, suspirou e disse: “Efatá!”, que quer dizer: “Abre-te!”.
35
Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a
falar sem dificuldade.
36
Jesus recomendou com insistência que não contassem a ninguém. Mas, quanto mais
ele recomendava, mais eles divulgavam.
37
Muito impressionados, diziam: “Ele tem feito bem todas as coisas: Aos surdos
faz ouvir e aos mudos falar”.
JOSÉ ANTONIO
PAGOLA
CURAR NOSSA SURDEZ
Os
profetas usavam com frequência a «surdez»
como uma metáfora provocativa para falar do fechamento e da resistência do povo
a seu Deus. Israel «tem ouvidos, porém não ouve» aquilo que Deus está lhe
dizendo. Por isso, um profeta chama a todos à conversão com estas palavras:
«Surdos, escutai e ouvi».
Neste
contexto, as curas de surdos narradas
pelos evangelistas podem ser lidas como «relatos de conversão» que nos
convidam a deixar-nos curar por Jesus da surdez e resistências que nos impedem
de escutar seu chamado ao seguimento. Concretamente, Marcos oferece em seu
relato aspectos muito sugestivos para trabalhar esta conversão nas comunidades
cristãs. Vejamos:
- O surdo vive alheio a todos. Não parece ser consciente de seu estado. Não faz nada para aproximar-se a quem pode curá-lo. Para sorte dele, alguns amigos se interessam por ele e o levam até Jesus. Assim há de ser a comunidade cristã: um grupo de irmãos e irmãs que se ajudam mutuamente para viver entorno a Jesus, deixando-se curar por ele.
- A cura da surdez não é fácil. Jesus toma consigo o enfermo, retira-se para um lado e concentra-se nele. É necessário o recolhimento e a relação pessoal. Necessitamos em nossos grupos e comunidades cristãs promover um clima que permita um contato mais íntimo e vital daqueles que creem com Jesus. A fé em Jesus Cristo nasce e cresce nessa relação com ele.
- Jesus trabalha intensamente os ouvidos e a língua do enfermo, porém não basta. É necessário que o surdo colabore. Por isso, Jesus, após erguer os olhos ao céu, buscando que o Pai se associe ao seu trabalho de cura, grita ao enfermo a primeira palavra que deve escutar quem vive surdo a Jesus e ao seu Evangelho: «Abre-te!».
É
urgente que os cristãos escutem também hoje este apelo de Jesus. Não são
momentos fáceis para a Igreja. Pede-se que se atue com lucidez e
responsabilidade. Seria trágico vivermos hoje surdos ao seu chamado, não
escutar suas palavras de vida, não ouvir sua Boa Notícia, não captar os sinais
dos tempos, viver fechados em nossa surdez.
O
poder de cura de Jesus pode nos curar!
INCOMUNICÁVEIS
A
solidão converteu-se em uma das pragas mais graves de nossa sociedade. Os
homens constroem pontes e autopistas para comunicar-se com mais rapidez.
Estendem cabos para assegurar a comunicação telefônica. Lançam satélites para
transmitir todo tipo de ondas entre os continentes. Porém, os homens estão cada vez mais «sozinhos em sua própria cabana».
O contato humano se esfriou em muitos âmbitos
de nossa sociedade. As pessoas não se
sentem muito responsáveis pelos demais. Cada um vive seu mundo. Não é fácil o dom da verdadeira amizade.
Alguns
perderam a capacidade de alcançar um encontro quente, cordial, sincero. Sentem-se
demasiadamente estranhos aos outros. Não são mais capazes de entender e amar
sinceramente a ninguém, e não se sentem compreendidos nem amados por ninguém.
Talvez
se relacionem, todos os dias, com muitas pessoas. Porém, na realidade, não se
encontram com ninguém. Vivem isolados. Com o coração bloqueado. Fechados para
Deus e fechados para os demais.
Quantos
homens e mulheres não necessitam, hoje, escutar as palavras que Jesus disse ao surdo-mudo:
«Abre-te!». Não é casualidade que se narrem nos evangelhos tantas curas de
cegos e surdos. São um convite a que abramos nossos olhos e nossos ouvidos para
acolher a Boa Notícia [Evangelho] de Jesus e a salvação que ele nos oferece a partir
de Deus.
Um
convite para abrir-nos é feito também a nós. Sem dúvida, as causas da incomunicação, do isolamento e da solidão
crescente entre nós são muito diversas. Porém, quase sempre têm sua raiz em
nosso pecado.
Quando
agimos egoisticamente nos distanciamos dos outros, nos separamos da vida e nos
fechamos em nós mesmos. Querendo
defender nossa própria liberdade e independência com zelo exagerado, caímos em
um isolamento e solidão cada vez maiores!
Temos
de aprender, sem dúvida, novas técnicas de comunicação na sociedade moderna.
Porém, devemos aprender antes de tudo a abrir-nos à amizade e ao amor
verdadeiros.
O
egoísmo, a desconfiança e a falta de solidariedade são, também hoje, aquilo que
mais nos separa e isola uns dos outros. Por isso, a conversão ao amor é o
caminha indispensável para escapar da solidão. Quem se abre ao amor, ao Pai e
aos irmãos, não está sozinho.
Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.
Fonte: MUSICALITURGICA.COM –
Homilías de José A. Pagola – Segunda-feira, 31 de agosto de 2015 – 11h26 – Internet: clique aqui.
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