PAPA FRANCISCO EM NOVA YORK E FILADÉLFIA - FORTES ENCONTROS, PROFÉTICAS PALAVRAS!
Deus vive nas nossas cidades e nos dá um rosto, disse o
Papa
Rádio Vaticano
“Deus vive nas nossas cidades, a Igreja vive nas nossas
cidades e quer ser fermento na massa, quer misturar-se com todos, acompanhando
a todos, anunciando as maravilhas d’Aquele que é Conselheiro admirável, Deus
forte, Pai eterno, Príncipe da paz”.
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PAPA FRANCISCO Celebra Missa no Madison Square Garden - Nova York Sexta-feira, 25 de setembro de 2015 |
O
Papa Francisco concluiu o quarto dia de sua visita aos Estados Unidos
presidindo a celebração da Santa Missa
pela paz e a justiça no Madison Square Garden, “lugar
emblemático desta cidade, sede de importantes encontros desportivos,
artísticos, musicais, que congregam pessoas de diferentes partes, e não só
desta cidade, mas do mundo inteiro. Neste lugar, que representa as diferentes
faces da vida dos cidadãos que se reúnem por interesses comuns”.
A homilia proferida em espanhol,
inteiramente inspirada na passagem do Profeta
Isaías “O povo que caminhava nas
trevas viu uma grande luz”, foi ambientada em um contexto urbano atual,
onde “o povo que caminhava, o povo no meio das suas atividades, das suas
ocupações diárias; o povo que caminhava carregando seus sucessos e erros, seus
medos e oportunidades, viu uma grande luz. O povo que caminhava com as suas
alegrias e esperanças, com as suas decepções e amarguras, viu uma grande luz”.
“E o povo de Deus – afirmou Francisco - é chamado, em cada época, a contemplar
esta luz... que quer chegar a cada canto desta cidade, aos nossos concidadãos,
em cada espaço da nossa vida”.
O Papa reconhece a
complexidade da vida nas cidades, marcadas por “um contexto multicultural, com
grandes desafios não fáceis de resolver”. “As grandes cidades – continuou -
tornam-se polos que parecem apresentar a pluralidade das formas que nós, seres
humanos, encontramos para responder ao sentido da vida nas circunstâncias em que
nos achávamos”. Por outro lado – fez a ressalva - “as grandes cidades também escondem o rosto de muitos que parecem não
ter cidadania ou ser cidadãos de segunda categoria”:
“Nas
grandes cidades, sob o ruído do tráfego, sob o «ritmo das mudanças», permanecem
silenciadas as vozes de tantos rostos que não têm «direito» à cidadania, não
têm direito a fazer parte da cidade – os estrangeiros, os seus filhos (e não
só) que não conseguem a escolaridade, as pessoas privadas de assistência
médica, os sem-abrigo, os idosos sozinhos – postos à margem das nossas
estradas, nos nossos passeios num anonimato ensurdecedor. Entram a fazer parte
duma paisagem urbana que lentamente se torna natural aos nossos olhos e,
especialmente, no nosso coração”.
[ . . . ]
Homilia
Santa Missa no Madison
Square Garden
Nova Iorque
25 de setembro de 2015
Encontramo-nos no Madison Square Garden,
lugar emblemático desta cidade, sede de importantes encontros desportivos,
artísticos, musicais, que congregam pessoas de diferentes partes, e não só
desta cidade, mas do mundo inteiro. Neste lugar, que representa as diferentes
faces da vida dos cidadãos que se reúnem por interesses comuns, ouvimos: «O povo que caminhava nas trevas viu uma
grande luz» (Is 9,1). O povo que caminhava, o povo no meio das suas
atividades, das suas ocupações diárias; o povo que caminhava carregando seus
sucessos e erros, seus medos e oportunidades, viu uma grande luz. O povo que
caminhava com as suas alegrias e esperanças, com as suas decepções e amarguras,
viu uma grande luz.
O povo de Deus é chamado, em cada época, a
contemplar esta luz. Luz que quer iluminar as nações: assim o proclamava, cheio
de júbilo, o velho Simeão. Luz que quer chegar a cada canto desta cidade, aos
nossos concidadãos, em cada espaço da nossa vida.
“O
povo que caminhava nas trevas viu uma grande luz”. Uma das características
do povo crente passa pela sua capacidade de ver, de contemplar no meio das suas
obscuridades a luz que Cristo vem trazer.
O povo crente que sabe olhar, que sabe
discernir, que sabe contemplar a presença viva de Deus no meio da sua vida, no
meio da sua cidade. Hoje, com o profeta, podemos dizer: o povo que caminha,
respira, vive no meio do smog, viu uma grande luz, experimentou um ar de vida.
Viver numa grande cidade é algo de bastante
complexo: um contexto multicultural, com grandes desafios difíceis de resolver.
As grandes cidades recordam-nos a riqueza escondida no nosso mundo: a variedade
de culturas, tradições e histórias. A variedade de línguas, roupas, comida. As
grandes cidades tornam-se polos que parecem apresentar a pluralidade das formas
que nós, seres humanos, encontramos para responder ao sentido da vida nas
circunstâncias em que nos achávamos. Por
sua vez, as grandes cidades escondem o rosto de muitos que parecem não ter
cidadania ou ser cidadãos de segunda categoria. Nas grandes cidades, sob o
ruído do tráfego, sob o ritmo das mudanças, permanecem silenciadas as vozes de
tantos rostos que não têm direito à cidadania, não têm direito a fazer parte da
cidade – os estrangeiros, os seus filhos (e não só) que não conseguem a
escolaridade, as pessoas privadas de assistência médica, os sem-abrigo, os
idosos sozinhos – postos à margem das nossas estradas, nos nossos passeios num
anonimato ensurdecedor. Entram a fazer parte duma paisagem urbana que
lentamente se torna natural aos nossos olhos e, especialmente, no nosso
coração.
Saber
que Jesus continua a percorrer as nossas estradas, misturando-Se vitalmente com
o seu povo, envolvendo-Se e envolvendo as pessoas numa única história de
salvação, enche-nos de esperança, uma esperança
que nos liberta daquela força que nos impele a isolar-nos, a ignorar a vida dos
outros, a vida da nossa cidade. Uma esperança que nos liberta de ligações
vazias, das análises abstratas ou da necessidade de sensações fortes. Uma
esperança que não tem medo de inserir-se, agindo como fermento, nos lugares
onde nos toca viver e atuar. Uma esperança que nos chama a entrever, no meio da
poluição, a presença de Deus que continua a caminhar na nossa cidade.
Como é esta luz que passa pelas nossas
estradas? Como podemos encontrar Deus que vive conosco no meio da poluição das
nossas cidades? Como podemos encontrar-nos com Jesus vivo e operante no hoje
das nossas cidades multiculturais?
O
profeta Isaías servir-nos-á de guia neste aprender a ver. Ele apresenta-nos
Jesus como Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da Paz
(9,5). Assim, nos introduz na vida do Filho, para que seja a nossa vida também.
«Conselheiro
admirável». Narram os Evangelhos que como muitos Lhe iam perguntar: Mestre,
que devemos fazer? O primeiro movimento que Jesus gera com a sua resposta é
propor, incitar, motivar. Sempre propõe aos seus discípulos que partam, que
saiam. Impele-os a ir ao encontro dos outros, onde realmente estão e não onde
gostaríamos que estivessem. Ide uma, duas, três vezes, ide sem medo, sem
repugnância, ide e anunciai esta alegria que é para todo o povo.
«Deus
forte». Em Jesus, Deus fez-Se Emanuel, o Deus-conosco, o Deus que caminha
ao nosso lado, que Se misturou com as nossas coisas, nas nossas casas, com as
nossas panelas, como gostava de dizer Santa Teresa de Jesus.
«Pai
eterno». Nada e ninguém poderá separar-nos do seu Amor. Ide e anunciai, ide
e vivei mostrando que Deus está no meio de vós como um Pai misericordioso que
sai cada manhã e cada tarde para ver se o seu filho regressa a casa e, logo que
o avista, corre a abraçá-lo. Abraço que quer acolher, purificar e elevar a
dignidade dos seus filhos. Pai que, no seu abraço, é boa notícia para os pobres,
alívio para os aflitos, liberdade para os oprimidos, consolação para os tristes
(cf. Is 61,1).
«Príncipe
da paz». Ir ter com os outros para partilhar a boa notícia de que Deus é
nosso Pai. Ele caminha ao nosso lado, liberta-nos do anonimato, duma vida sem
rostos, vazia, e introduz-nos na escola do encontro. Liberta-nos da guerra da competição, da autorreferencialidade, para nos
abrirmos ao caminho da paz. Aquela paz que nasce do reconhecimento do outro,
aquela paz que surge no coração ao ver, de modo especial o mais necessitado,
como um irmão.
Deus vive nas nossas cidades, a Igreja vive
nas nossas cidades e quer ser fermento na massa, quer misturar-se com todos,
acompanhando a todos, anunciando as maravilhas d’Aquele que é Conselheiro
admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz.
«O
povo que caminhava nas trevas viu uma grande luz», e nós somos suas
testemunhas.
Fontes: NEWS.VA – Official
Vatican Network – 26/09/2015 – Internet: clique aqui;
e Canção Nova – Especiais – Papa
Francisco – Sexta-feira, 25 de setembro de 2015 – 20h28 – Internet: clique aqui.
Papa aos bispos:
Valorizar a contribuição das mulheres na vida da Igreja
André Cunha
Missa com os bispos, sacerdotes, religiosos e
religiosas da Pensilvânia, na Catedral de São Pedro e São Paulo, na Filadélfia.
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PAPA FRANCISCO Profere sua homilia durante Missa com os bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas da Pensilvânia Catedral de São Pedro e São Paulo - Filadélfia Sábado, 26 de setembro de 2015 |
Após
passar por Washington DC e Nova Iorque, o Papa
Francisco chegou finalmente à Filadélfia, para o principal objetivo da
viagem aos Estados Unidos, que é participar do Encontro Mundial das Famílias, a partir da noite deste sábado, 26
de setembro.
Ainda
na manhã de hoje, o Pontífice presidiu
uma Missa especialmente para os bispos, padres, religiosos e religiosas da
Igreja na Filadélfia.
Na Catedral de São Pedro e São Paulo,
Francisco recordou, no início de sua homilia, os esforços de sacerdotes,
religiosos e leigos que, ao longo de dois séculos, trabalharam pelas
necessidades espirituais dos pobres, dos imigrantes, dos doentes e dos
encarcerados, nessa cidade.
Exemplo
deste trabalho, foi Santa Catarina
Drexel, uma das grandes Santas saídas da Filadélfia, e que inspirou a
reflexão de Santo Padre. Ela nasceu em 26 de novembro de 1858 e fundou a Congregação das Irmãs do Santíssimo
Sacramento para os índios e afro-americanos.
Santa
Catarina foi ao encontro do Papa Leão XIII para falar-lhe da necessidade das
missões, e este perguntou-lhe de maneira incisiva: “E tu, que farás?”.
A
partir dessa pergunta, Francisco falou
sobre dois aspectos, no contexto da missão especial de transmitir a alegria
do Evangelho e edificar a Igreja, como sacerdotes, diáconos ou membros de
institutos de vida consagrada.
A Jovialidade de Santa Catarina Drexel embasou o primeiro aspecto. Ela ainda era
jovem quando foi interpelada por Leão XIII. Neste sentido, Francisco disse: “Quantos jovens, nas nossas paróquias e
escolas, têm os mesmos ideais elevados, generosidade de espírito e amor a
Cristo e à Igreja!”
Missão
da Igreja no mundo e o papel da mulher
Um
dos grandes desafios que a Igreja tem pela frente, nesta geração, é promover, em todos os fiéis, o sentido de
responsabilidade pessoal pela missão da Igreja. Além disso, torná-los
capazes de cumprirem tal responsabilidade como discípulos missionários, e serem
fermento do Evangelho no nosso mundo.
O
segundo aspecto que o Papa refletiu acerca da expressão “E tu, que farás?”, enfatizou a
importância da mulher leiga na Igreja.
“Sabemos que o futuro da Igreja, numa sociedade em rápida mudança, exigirá – e
já agora o exige – um compromisso cada vez mais ativo por parte dos leigos”,
disse o Papa.
“A
Igreja nos Estados Unidos sempre dedicou um enorme esforço ao trabalho da
catequese e da educação. O nosso desafio, hoje, é construir alicerces sólidos e
promover um sentido de colaboração e responsabilidade compartilhada, quando
programamos o futuro das nossas paróquias e instituições”, destacou.
De
acordo com o Papa, isto não significa esquecer a autoridade espiritual dada à
Igreja, mas, de forma particular, valorizar
a “contribuição imensa que as mulheres, leigas e consagradas, deram e continuam
a oferecer à vida das nossas comunidades”.
Encontro
com as famílias
O
principal objetivo da visita do Papa aos Estados Unidos é o Encontro Mundial das Famílias.
Francisco então pediu aos bispos,
sacerdotes e consagrados para refletirem de modo particular sobre a qualidade
do ministério da Igreja com as famílias, os casais que se preparam para o
matrimônio e os jovens.
“Tenho
conhecimento do que se faz nas vossas Igrejas locais para dar resposta às suas
necessidades e apoiá-los no seu caminho de fé. Peço-vos que rezeis fervorosamente pelas famílias, bem como pelas
decisões do próximo Sínodo sobre a família”.
Leia,
abaixo, a íntegra da homilia do papa:
HOMILIA
Santa Missa com bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas
26 de setembro de 2015
Filadélfia, Estados Unidos
Nesta manhã, aprendi algo mais da história
desta bela catedral: a história que está por detrás das suas paredes altas e
dos seus vitrais. Contudo prefiro olhar a história da Igreja, nesta cidade e
neste Estado, como uma história não de construção de muros, mas do seu derrube.
Ela fala-nos de gerações e gerações de católicos comprometidos, saindo para as
periferias a fim de construir comunidades de culto, de educação, de caridade e
de serviço à sociedade inteira.
Uma tal história é visível nos muitos
santuários espalhados por esta cidade, nas suas inúmeras paróquias, cujas
agulhas e campanários falam da presença de Deus no meio das nossas comunidades.
Vemo-la também nos esforços de todos aqueles sacerdotes, religiosos e leigos
que, com dedicação, ao longo de dois séculos, trabalharam pelas necessidades
espirituais dos pobres, dos imigrantes, dos doentes e dos encarcerados. Vemo-la
também nas inúmeras escolas onde consagrados e consagradas ensinaram as crianças
a ler e a escrever, a amar a Deus e ao próximo, e a contribuir como bons
cidadãos para a vida da sociedade americana. Tudo isto é a herança verdadeira
que recebestes e que sois chamados a enriquecer e transmitir.
Muitos de vós conhecem a história de Santa
Catarina Drexel, uma das grandes Santas saídas desta Igreja local. Quando ela
falou ao Papa Leão XIII da necessidade das missões, o Papa – era um Papa muito
sábio! – perguntou-lhe de maneira incisiva: «E tu, que farás?» Aquelas palavras
mudaram a vida de Santa Catarina, porque recordaram-lhe que afinal cada cristão
recebeu, em virtude do Batismo, uma missão. Cada um de nós deve responder, da
melhor forma possível, à chamada do Senhor para construir o seu Corpo, que é a
Igreja.
«E tu, que farás?» A partir destas
palavras, gostaria de me deter sobre dois aspectos, no contexto da nossa missão
especial de transmitir a alegria do Evangelho e edificar a Igreja como
sacerdotes, diáconos ou membros de institutos de vida consagrada.
Em primeiro lugar, aquelas palavras – «E
tu, que farás?» – foram dirigidas a uma pessoa jovem, uma jovem mulher com
ideais elevados, e mudaram a sua vida. Impeliram-na a pensar no trabalho imenso
que havia para realizar e a dar-se conta de que também ela era chamada a fazer
a sua parte. Quantos jovens, nas nossas paróquias e escolas, têm os mesmos
ideais elevados, generosidade de espírito e amor a Cristo e à Igreja! Somos nós
capazes de os pôr à prova? Somos capazes de os guiar e ajudar a fazer a sua
parte? A encontrar caminhos para poderem partilhar o seu entusiasmo e os seus
dons com as nossas comunidades, sobretudo nas obras de misericórdia e de
compromisso a favor dos outros? Partilhamos a própria alegria e entusiasmo que
temos em servir o Senhor?
Um dos grandes desafios que a Igreja tem
pela frente, nesta geração, é promover, em todos os fiéis, o sentido de
responsabilidade pessoal pela missão da Igreja e torná-los capazes de cumprirem
tal responsabilidade como discípulos missionários, serem fermento do Evangelho
no nosso mundo. Isto exige criatividade para se adaptar às situações em
mudança, para levar avante a herança do passado, não primariamente mantendo as
estruturas e as instituições, que também foram úteis, mas acima de tudo estando
disponíveis para as possibilidades que o Espírito abre diante de nós e
comunicando a alegria do Evangelho, todos os dias e em todas as estações da
vida.
«E tu, que farás?» É significativo que as
palavras do Papa já idoso tivessem sido dirigidas a uma mulher leiga. Sabemos
que o futuro da Igreja, numa sociedade em rápida mudança, exigirá – e já agora
o exige – um compromisso cada vez mais ativo por parte dos leigos. A Igreja nos
Estados Unidos sempre dedicou um enorme esforço ao trabalho da catequese e da
educação. O nosso desafio, hoje, é construir alicerces sólidos e promover um
sentido de colaboração e responsabilidade compartilhada, quando programamos o
futuro das nossas paróquias e instituições. Isto não significa transcurar a
autoridade espiritual que nos foi confiada, mas discernir e usar sabiamente os
múltiplos dons que o Espírito concede à Igreja. De forma particular, significa
valorizar a contribuição imensa que as mulheres, leigas e consagradas, deram e
continuam a oferecer à vida das nossas comunidades.
Queridos irmãos e irmãs, agradeço-vos o
modo como cada um de vós respondeu à pergunta de Jesus que inspirou a vossa
vocação: «E tu, que farás?» Encorajo a deixar-vos renovar na alegria daquele
primeiro encontro com Jesus e tirar daquela alegria uma renovada fidelidade e
vigor. Vou estar convosco nestes dias, pedindo-vos para transmitirdes a minha
saudação afetuosa a todos aqueles que não puderam estar aqui conosco,
especialmente a tantos sacerdotes idosos e pessoas consagradas aqui
espiritualmente presentes.
Durante estes dias do Encontro Mundial das
Famílias, gostaria de vos pedir para refletirdes de modo particular sobre a
qualidade do nosso ministério com as famílias, os casais que se preparam para o
matrimônio e os nossos jovens. Tenho conhecimentos do que se faz nas vossas
Igrejas locais para dar resposta às suas necessidades e apoiá-los no seu
caminho de fé. Peço-vos que rezeis fervorosamente pelas famílias, bem como
pelas decisões do próximo Sínodo sobre a família.
Agora, com gratidão por tudo o que
recebemos e com confiante certeza em todas as nossas necessidades, voltemo-nos
para Maria, nossa Mãe Santíssima. Que Ela, com o seu amor de mãe, interceda
pelo crescimento da Igreja, na América, no testemunho profético do poder da
cruz do seu Filho para levar alegria, esperança e força ao mundo. Rezo por cada
um de vós e peço-vos, por favor, que rezeis por mim.
Fonte: Canção Nova –
Especiais – Papa Francisco – Viagens / Estados Unidos e Cuba – Sábado, 26 de setembro de
2015 – 12h41 – Modificado: Domingo, 27 de setembro de 2015 – 08h56 – Internet:
clique aqui;
e Sábado, 26 de setembro de 2015 – 12h41 – Internet: clique aqui.
Papa afirma que diferentes formas de moderna tirania
procuram suprimir liberdade religiosa
Rogéria Nair
![]() |
PAPA FRANCISCO Encontra-se com família durante sua visita ao Independence Mall (Filadélfia) Sábado, 26 de setembro de 2015 |
Francisco
que está há alguns dias fora de Roma visitando o continente americano, tem
visitado pontos estratégicos. Na tarde deste sábado, 26 de setembro, esteve no Independence
Mall.
Localizado
na região centro-oeste da cidade da Filadélfia,
o Independence é lugar onde algumas
das mais importantes decisões da história dos Estados Unidos foram tomadas. Em 1776, neste local foi declarada a
independência do país e mais tarde foi discutida e aprovada a constituição
americana. Desta vez o local serviu como ponto de Encontro Pela Liberdade Religiosa.
Em
seu discurso Francisco disse que a Declaração de Independência afirmou
que todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador, de alguns
direitos inalienáveis os quais os governos existem para proteger e defender.
Recordando
as grandes lutas que, principalmente, levaram à abolição da escravatura, à
extensão do direito de voto, afirmou que um
país, quando está determinado a permanecer fiel a seus princípios fundadores
que se baseiam no respeito pela dignidade humana, torna-se mais forte e
renova-se.
“Um povo que recorda não
repete os erros do passado”, afirmou o Santo Padre que também assegurou que a memória salva a alma
dum povo de tudo aquilo ou de todos aqueles que poderiam tentar dominá-lo ou
utilizá-lo para os seus interesses.
Referindo-se
à liberdade religiosa, garantiu ser direito fundamental que transcende, por sua
natureza, os lugares de culto, bem como a esfera dos indivíduos e das famílias.
Francisco
convidou a olhar à história, especialmente a do século passado, para ver as atrocidades perpetradas pelos sistemas que
pretenderam construir “paraísos terrestres” dominando povos, subjugando-os com
princípios aparentemente indiscutíveis e negando-lhes qualquer tipo de direito.
Para
ele atua no mundo uma moderna tirania que procura suprimir a liberdade
religiosa, ou reduzi-la a uma subcultura, frente a isso o Papa, reiterou que:
“torna-se forçoso que os seguidores das diferentes religiões unam a sua voz
para invocar a paz, a tolerância, o respeito pela dignidade e os direitos dos
outros.”
O
Santo Padre, cumpriu o que ele mesmo disse a respeito de fazer memória à
história. Lembrou-se dos Quackers,
fundadores da Filadélfia, os quais impulsionados
pelo Evangelho fundaram uma colônia que haveria de ser um paraíso de liberdade
religiosa e tolerância. Mencionou ainda São João Paulo II, que por ocasião
de sua visita, ao mesmo lugar, fez um tributo aos fundadores da cidade, quando
o santo lembrou a todos os americanos que: “a
prova decisiva da vossa grandeza é o modo como tratais cada ser humano, mas de
maneira especial os mais fracos e os mais indefesos”.
Francisco agradeceu a todos
que, independente da religião, procuraram servir o Deus da paz construindo
cidades animadas pelo amor fraterno, cuidando do próximo em necessidade, defendendo a
dignidade do dom divino da vida em todas as sua fases, defendendo a causa dos
pobres e dos imigrantes. [ . . . ]
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PAPA FRANCISCO Faz seu pronunciamento durante encontro pela liberdade religiosa com a comunidade hispânica e outros imigrantes Independence Mall – Filadélfia |
“Não
vos envergonheis daquilo que faz parte de vós”
“Não
vos envergonheis das vossas tradições”, suplicou o Papa por duas vezes aos
imigrantes. Assegurando que tal com os antepassados trouxeram talentos à nação,
estes também trazem.
Segundo
o Pontífice os imigrantes, também, são chamados a ser cidadãos responsáveis, de
modo que ajude a sociedade a renovar-se a partir de dentro, na fé fervorosa e
no sentido profundo da vida familiar e em todos os outros valores que receberam
em herança.
Agradeceu
o acolhimento caloroso, desejou que fossem renovados na gratidão pelas muitas
liberdades de que possuem. “Possais defender estes direitos, especialmente a
vossa liberdade religiosa, porque esta foi-vos dada pelo próprio Deus”, disse
Francisco.
Por
último pediu que conservassem e cuidassem da liberdade que dá a cada povo a
seus direitos.
Abaixo,
a íntegra desse discurso de Papa Francisco.
Discurso durante encontro pela liberdade religiosa
com a comunidade hispânica e outros imigrantes
Independence Mall – Filadélfia
Sábado, 26 de setembro de 2015
Queridos amigos!
Um dos momentos salientes da minha visita
tem lugar aqui, diante do Independence
Mall, local do nascimento dos Estados Unidos da América. Neste lugar, foram
proclamadas pela primeira vez as liberdades que definem este País. A Declaração de Independência afirmou que todos os homens e todas as mulheres são
criados iguais, que são dotados pelo seu Criador de alguns direitos
inalienáveis e que os governos existem para proteger e defender tais direitos.
Estas vibrantes palavras continuam a inspirar-nos hoje, tal como inspiraram
outros povos em todo o mundo, no combate pela liberdade de viver de acordo com
a sua dignidade.
Mas a história mostra também que esta
verdade, como aliás qualquer verdade, deve ser constantemente reafirmada,
assumida e defendida. A história desta
nação é também a história dum esforço constante, até aos nossos dias, para
encarnar estes altos princípios na vida social e política. Recordamos as
grandes lutas que levaram à abolição da escravatura, à extensão do direito de
voto, ao crescimento do movimento operário, e ao esforço progressivo por
eliminar todas as formas de racismo e preconceito contra as sucessivas ondas de
novos americanos. Isto demonstra que um País, quando está determinado a
permanecer fiel aos seus princípios fundadores que se baseiam no respeito pela
dignidade humana, torna-se mais forte e renova-se.
Todos
nos beneficiamos quando se faz memória do nosso passado.
Um povo que recorda não repete os erros do passado; pelo contrário, olha
confiante para os desafios do presente e do futuro. A memória salva a alma dum povo de tudo aquilo ou de todos aqueles que
poderiam tentar dominá-lo ou utilizá-lo para os seus interesses. Quando o
exercício efetivo dos respectivos direitos é garantido aos indivíduos e às
comunidades, estes não apenas se sentem livres para realizar as suas
potencialidades mas contribuem para o bem-estar e enriquecimento da sociedade.
Neste lugar, que é um símbolo do espírito
americano, quereria refletir convosco sobre o direito à liberdade religiosa. É um direito fundamental que plasma
o modo como interagimos social e pessoalmente com nossos vizinhos, cujos pontos
de vista religiosos são diferentes dos nossos.
A liberdade religiosa implica certamente o
direito de adorar a Deus, individual e comunitariamente, como a nossa
consciência dita. Mas, por outro lado, a
liberdade religiosa transcende, por sua natureza, os lugares de culto, bem como
a esfera dos indivíduos e das famílias.
As nossas diferentes tradições religiosas
servem a sociedade, primariamente através da mensagem que proclamam. Convidam
os indivíduos e as comunidades a adorar a Deus, fonte de cada vida, da
liberdade e da bondade. Lembram-nos a dimensão transcendente da existência
humana e a nossa liberdade irredutível contra qualquer pretensão de poder absoluto.
Basta lançar um olhar à história, especialmente à do século passado, para ver
as atrocidades perpetradas pelos sistemas que pretenderam construir este ou
aquele «paraíso terrestre» dominando os povos, subjugando-os com princípios
aparentemente indiscutíveis e negando-lhes qualquer tipo de direito. As nossas
ricas tradições religiosas procuram oferecer significado e orientação, «possuem
uma força motivadora que abre sempre novos horizontes, estimula o pensamento,
engrandece a mente e a sensibilidade» (Exortação apostólica Evangelii gaudium, 256). Chamam à
conversão, à reconciliação, ao compromisso em prol do futuro da sociedade, ao
sacrifício de si mesmo no serviço do bem comum, e à compaixão por aqueles
passam necessidade. No coração da sua missão espiritual, encontra-se a
proclamação da verdade e da dignidade da pessoa humana, bem como dos direitos
humanos.
As nossas tradições religiosas lembram-nos
que, enquanto seres humanos, somos chamados a reconhecer o Outro que revela a
nossa identidade relacional contra qualquer tentativa de instaurar «uma
uniformidade que o egoísmo do forte, o conformismo do fraco, ou ainda a
ideologia do utopista poderia procurar impor-nos» (M. de Certeau).
Num mundo onde as diferentes formas de
moderna tirania procuram suprimir a liberdade religiosa, ou reduzi-la a uma
subcultura sem direito de expressão na esfera pública, ou ainda usar a religião
como pretexto para o ódio e a brutalidade, torna-se forçoso que os seguidores
das diferentes religiões unam a sua voz para invocar a paz, a tolerância, o
respeito pela dignidade e os direitos dos outros.
Vivemos num mundo sujeito «à globalização
do paradigma tecnocrático» (Encíclica Laudato
si’, 106), que visa conscientemente uma uniformidade unidimensional e
procura eliminar todas as diferenças e as tradições numa busca superficial de
unidade. As religiões têm, portanto, o
direito e o dever de fazer compreender que é possível construir uma sociedade
onde «um são pluralismo, que respeite verdadeiramente aqueles que pensam
diferente e os valores como tais» (Exortação apostólica Evangelii gaudium, 255), é um «precioso
aliado no compromisso pela defesa da dignidade humana, (…) um caminho de paz
para o nosso mundo ferido» (ibid., 257).
Os Quakers,
que fundaram Filadélfia, viviam inspirados por um profundo sentido evangélico
da dignidade de cada pessoa e pelo ideal duma comunidade unida pelo amor
fraterno. Tal convicção levou-os a fundar uma colônia que haveria de ser um
paraíso de liberdade religiosa e tolerância. Este significado de compromisso
fraterno em prol da dignidade de todos, especialmente dos mais fracos e
vulneráveis, tornou-se parte essencial do espírito americano. Durante a sua
visita aos Estados Unidos em 1987, São
João Paulo II prestou-vos um comovente tributo, lembrando a todos os
americanos que «a prova decisiva da vossa grandeza é o modo como tratais cada
ser humano, mas de maneira especial os mais fracos e os mais indefesos» (Discurso na cerimônia de despedida no
Aeroporto de Detroit, 19 de Setembro de 1987, 3).
Aproveito agora a ocasião para agradecer a
todos aqueles que procuraram, qualquer que seja a sua religião, servir o Deus
da paz construindo cidades animadas pelo amor fraterno, cuidando do próximo em
necessidade, defendendo a dignidade do dom divino da vida em todas as sua
fases, defendendo a causa dos pobres e dos imigrantes. Com muita frequência,
aqueles que precisam da nossa ajuda são incapazes de se fazer ouvir. Vós sois a
sua voz, e muitos dentre vós permitiram lealmente que o seu grito fosse ouvido.
Com este testemunho, que muitas vezes encontra forte resistência, recordais à
democracia americana os ideais para que foi fundada, e que a sociedade
debilita-se sempre e em toda a parte onde prevalece a injustiça.
No nosso meio, temos hoje membros da grande
população hispânica da América, bem como representantes de imigrantes recentes
nos Estados Unidos. A todos saúdo com particular afeto! Muitos de vós são imigrantes neste país, pagando pessoalmente um alto
preço, mas com a esperança de construir uma nova vida. Não desanimeis com
os desafios e as dificuldades que tendes de enfrentar, sejam eles quais forem. Peço para não vos esquecerdes que, tal como
aqueles que vieram antes de vós, trazeis muitos talentos à vossa nova nação.
Não vos envergonheis das vossas tradições.
Não esqueçais as lições que aprendestes dos vossos antepassados e que podem
enriquecer a vida deste país americano. Repito: não vos envergonheis
daquilo que faz parte de vós, o sangue da vossa vida.
Também vós sois chamados a ser cidadãos
responsáveis e a contribuir frutuosamente para a vida das comunidades onde
viveis. Penso de modo particular na fé fervorosa de muitos de vós, no sentido
profundo da vida familiar e em todos os outros valores que recebestes em
herança. Trazendo as vossas contribuições, não só encontrareis o vosso lugar
aqui, mas ajudareis a sociedade a renovar-se a partir de dentro.
Queridos amigos, agradeço o vosso caloroso
acolhimento e o fato de vos terdes reunido hoje comigo. Possam esta nação e
cada um de vós sentir-se renovados na gratidão pelas muitas bênçãos e
liberdades de que gozais. E possais defender estes direitos, especialmente a
vossa liberdade religiosa, porque esta foi-vos dada pelo próprio Deus. Ele vos
abençoe a todos. Peço-vos, por favor, que não vos esqueçais de rezar por mim.
Fonte: Canção Nova –
Especiais – Papa Francisco – Viagens / Estados Unidos e Cuba – Sábado, 26 de setembro de
2015 - 19h16 – Modificado: Domingo, 27
de setembro de 2015 – 08h56 – Internet: clique aqui;
Sábado, 26 de setembro de 2015 – 18h16 – Internet: clique aqui.
Papa participa de Festa das Famílias
na Filadélfia e destaca que:
“beleza, bondade e verdade nos levam a Deus”
Míriam
Bernardes
Primeiro dia do Papa Francisco na Filadélfia termina
com a participação do Pontífice em Festa das Famílias no Benjamin Franklin
Parkway
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PAPA FRANCISCO Abençoa fiéis durante a Festa da Família do Encontro Mundial da Famílias no Parque Benjamin Franklin - Filadélfia - Estados Unidos Sábado (à noite), 26 de setembro de 2015 |
O
festival, que é uma celebração internacional da família, comunidade de fé, onde
as pessoas são convidadas a se unirem nesta alegre celebração global de apoio e
amor, aconteceu neste sábado, 26, às 20h30 (horário de Brasília).
Papa
Francisco foi recebido ao som da Orquestra
da Filadélfia e na sequência assistiu às apresentações feitas por vários
artistas. Ouviu, atento, o testemunho de
seis famílias, sendo elas da Austrália, Ucrânia, Jordânia, Nigéria, Nova
Iorque, Argentina, que descreveram, de forma breve, as suas alegrias e
desafios. Foram, também, feitas leituras
de passagens bíblicas, uma delas a Parábola do Filho Pródigo.
Durante
o evento, os artistas, entre eles, Aretha
Franklin, Andrea Bocelli, Juanes e Matt Maher, interagiram com o
público de mais de um milhão de pessoas que estavam no local por meio de suas
apresentações musicais.
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PAPA FRANCISCO abraça o cantor italiano ANDREA BOCELLI que se fazia presente na Festa das Famílias e cantou para os presentes |
Bergoglio
recebeu a relíquia da Santa Gianna
Beretta Molla pelas mãos de Gianna
Emanuela Molla após ouvir a leitura da carta que a santa escreveu a seu
esposo. A santa, beatificada por João Paulo II em 1994, foi casada e mãe de
quatro filhos, entre eles Gianna Emanuela.
Após
as apresentações artísticas, o Sucessor de Pedro discursou livremente falando
sobre verdade, bondade e beleza. [ . . . ]
O
ato conclusivo da festa das famílias foi assinatura
do Papa em um mural que será montado no norte da Filadélfia e que exigiu
dias de pintura em asilos e por crianças, em hospital pediátricos, escolas [veja foto abaixo]. Ele
convidou as pessoas a rezarem a oração “Ave Maria” e a clamarem a intercessão
de São José pelas famílias.
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PAPA FRANCISCO Coloca a sua assinatura em um mural que que exigiu dias de pintura em asilos e por crianças, em hospital pediátricos, escolas Festa das Famílias - Parque Benjamin Franklin (Filadélfia) |
Não
deixe de ler, abaixo, o discurso de Papa Francisco neste evento:
DISCURSO
Papa Francisco na Festa das Famílias na Filadélfia
Benjamin Franklin Parkway, Filadélfia
Sábado, 26 de setembro de 2015
Um
testemunho verdadeiro nos leva a Deus, porque Deus é beleza e verdade. Um
testemunho dado para servir é muito bom, nos torna bons, porque Deus é bondade.
Tudo o que é bom, nos leva a Deus. Beleza, bondade e verdade nos levam a Deus.
Muito
obrigada a todos aqueles que nos deram a mensagem e a presença de todos vocês
também dão testemunho de que vale a pena a vida em família, de que uma
sociedade cresce forte, boa, formosa e verdadeira se é edificada sobre a base
da família. Uma vez, uma criança me perguntou (vocês sabem que as crianças
fazem perguntas difíceis): ‘O que fazia Deus antes de criar o mundo?’
Asseguro-lhes que foi muito difícil responder, mas eu disse: ‘Antes de criar o
mundo, Deus amava, porque Deus é amor.’
Era
tão grande o amor que tinha entre o Pai, Filho e Espírito Santo que
transbordava e não sei se é muito teológico, mas quero que saibam, era tão
grande que não podia ser egoísta, tinha que sair de Si mesmo para ter alguém
para amar fora Dele e aí Deus criou o mundo e fez essa maravilha que nós
vivemos. Estamos destruindo o que fez Deus, diz a bíblia, que é a família. Deus
criou o homem e a mulher, deu tudo a eles. Entregou o mundo, e disse que
crescessem, multiplicassem, cultivassem a terra. Fizessem crescer todo o amor
que colocou nessa criação maravilhosa, que entregou a uma família.
Vamos
voltar um pouquinho, toda a beleza, verdade que tem em Si, Deus entregou à
família e uma família é, verdadeiramente, família quando é capaz de abrir os
braços e receber todo esse amor. Por isso que o paraíso não está aqui, a vida
tem seus problemas. Os homens, pela astúcia do demônio, aprenderam a dividir-se
e todo esse amor que Deus derramou quase se perde. O primeiro crime, primeiro
fratricídio, um irmão matou o outro, afetando o amor, beleza e verdade de Deus.
Brigas, posições diferentes, estão nos caminhamos de hoje. Toca a nós decidir o
caminho a seguir.
Mas,
vamos voltar, quando o homem e sua esposa erraram, se distanciaram de Deus.
Deus não os deixou sozinhos, tamanho é o amor pela humanidade. Ele começou a
caminhar com seu povo até chegar o momento em que mandou Seu filho e foi
mandado não a um palácio, mas a uma família. Deus entrou no mundo através de
uma família. Essa família tinha o coração aberto, tinha as portas abertas.
Vamos
pensar em Maria, ela não podia acreditar: ‘Como pode isso acontecer?’ E quando
explicaram, ela aceitou. Pensem em José, ele também não entende, mas aceita,
obedece. E na obediência dessa mulher e desse homem há uma família através da
qual Deus sempre bate às portas do coração. Ele gosta de fazer isso, sair de
dentro. Mas, o que mais gosta é bater às portas da família e encontrá-la unida,
da família que faz seus filhos crescerem, e que criam uma sociedade cheia de
bondade, verdade e beleza.
Estamos
na festa da família, a família tem carta de cidadania divina. A carta que tem a
família foi Deus quem deu para que, no seu seio, crescesse cada vez mais a
verdade, a beleza e o amor. Alguns de vocês poderiam dizer: ‘Padre, o senhor
fala assim porque é solteiro e a família está em dificuldades. Na família nós
discutimos; nas famílias, às vezes, voam uns pratos; os filhos dão dor de
cabeça!’
Na
família sempre tem cruzes, mas o amor de Deus vem sempre à luz, o amor de Deus
nos abre o caminho. Depois da cruz tem a ressurreição, porque o filho de Deus
nos abriu esse caminho, por isso a família é uma fábrica de esperança, esperança
de viver a ressurreição. Foi Deus quem abriu esse caminho. Os filhos dão
trabalho, às vezes, em casa, os colaboradores vêm trabalhar com orelhas, porque
eles têm bebês de poucos meses e eu pergunto: ‘Você não dormiu?’.
Na
família há dificuldades, porém essas dificuldades se superam com amor e o ódio
não supera nenhuma dificuldade. A divisão dos corações não supera nenhuma
dificuldade, somente o amor é capaz de recuperar. O amor é festa, é alegria, é
seguir avante.
Eu
gostaria de destacar dois pontos da família e sobre os quais gostaria que
tivessem um especial cuidado, as crianças e os avós.
As
crianças são o futuro, a força para ir para frente, são neles que colocamos as
esperança e os avós são a memória da família, são os que nos recordam e que nos
transmitem a fé. Cuidar dos avós e cuidar das crianças é a demonstração de
amor, não sei se maior, mas poderia dizer, mais promissora da família, porque
promete o futuro. Um povo que não sabe cuidar das crianças e não sabe cuidar
dos seus avós é um povo sem futuro, porque não tem a força e a memória que nos
leva para frente.
A
família é maravilhosa, mas o problema é que a família, às vezes, tem
inimizades, brigas com a mulher, os filhos com o pai. Vou dar um conselho,
nunca terminem o dia sem fazer a paz, em uma família não se pode terminar o dia
em guerra!
Que
Deus os abençoe e dê força, os anime a seguir avante. Vamos viver a família,
defender a família, porque ali está nosso futuro e rezem por mim!
Fonte: Canção Nova –
Especiais – Papa Francisco – Viagens / Estados Unidos e Cuba – Domingo, 27 de setembro
de 2015 – 08h55 – Internet: clique aqui;
Sábado, 26 de setembro de 2015 – 23h24 – Modificado: Domingo, 27 de setembro de
2015 – 08h55 – Internet: clique aqui.
Fora do programa,
Papa recebe vítimas de abusos
Cristiane
Murray
RÁDIO
VATICANO
Diz o papa: “Deus chora profundamente”
O
Papa Francisco se reuniu na manhã deste domingo (27/09) com vítimas de abusos sexuais cometidos por
membros da Igreja. Ele mesmo o anunciou, antes de iniciar seu discursos aos
bispos hóspedes do Encontro Mundial da
Família, na capela do Seminário São
Carlos Borromeu, em Filadélfia.
“Ficaram gravadas em meu coração as histórias
de dor e sofrimento dos menores que foram abusados sexualmente por sacerdotes.
Continuo a cobrir-me de vergonha porque pessoas que tinham sob sua
responsabilidade o cuidado de menores os violaram e lhes causaram graves danos.
Deus chora profundamente. Os crimes
e pecados dos abusos sexuais em menores não podem ser mantidos em segredo por
mais tempo. Comprometo-me por uma
zelante vigilância da Igreja para proteger os menores e prometo que todos os
responsáveis prestarão contas”.
Depois
de pronunciar estas palavras, que não estavam previstas em seu discurso,
Francisco revelou:
“Acabo de me reunir com um
grupo de pessoas abusadas, crianças que são ajudadas e acompanhadas aqui em
Filadélfia com carinho pelo Arcebispo Chaput”.
Dom Charles Chaput foi nomeado em 2011 para
assumir a Igreja na Filadélfia, tendo de gerenciar uma das comunidades mais
feridas pelos escândalos de abusos sexuais nos EUA – naquele mesmo ano, por
exemplo, 21 padres foram suspensos em
decorrência do problema; a maioria dos episódios de abuso teria ocorrido entre
as décadas de 1960 e 1980.
No
Centro de Imprensa da cidade, diante de centenas de jornalistas, Padre Federico
Lombardi acrescentou alguns detalhes sobre a audiência de Francisco com as vítimas, 3 mulheres e 2 homens adultos
que sofreram abusos quando eram menores de idade.
O Papa ouviu o testemunho
destas pessoas, depois dirigiu-lhes algumas palavras e conversou com cada uma
separadamente.
Segundo Pe. Lombardi, Francisco rezou com o grupo e manifestou o seu
sofrimento, sua dor e sua vergonha pelas feridas que lhes foram provocadas por
membros do clero ou por colaboradores eclesiais.
“Peço
que acreditem que o Santo Padre ouve e acredita em vocês. Sinto profundamente
que alguns bispos tenham falhado em sua responsabilidade de proteger as
crianças. É muito preocupante saber que
em alguns casos, tenham sido os próprios bispos a cometer abusos.
Prometo-lhes que seguiremos o caminho da verdade, aonde quer que nos leve. O clero e os bispos serão chamados a
prestar contas se abusaram de crianças ou não foram capazes de protegê-las”.
Francisco
também agradeceu as vítimas pela contribuição essencial em restabelecer a
verdade e iniciar o caminho da recuperação.
O encontro durou cerca de 40 minutos e
terminou com a bênção do Papa.
Leia, abaixo, a íntegra das
palavras que o papa dirigiu às vítimas de abuso sexual e suas famílias (o texto
encontra-se em espanhol):
DISCURSO
Encontro com Vítimas de Abuso Sexual
Seminário São Carlos Borromeu – Filadélfia
Domingo, 27 de setembro de 2015
Mis queridos hermanos y hermanas en Cristo,
estoy muy agradecido por esta oportunidad de conocerles, estoy bendecido por su
presencia. Gracias por venir aquí hoy.
Las palabras no pueden expresar plenamente
mi dolor por el abuso que han sufrido. Ustedes son preciosos hijos de Dios, que
siempre deberían esperar nuestra protección, nuestra atención y nuestro amor.
Estoy profundamente dolido porque su inocencia fue violada por aquellos en
quien confiaban. En algunos casos, la confianza fue traicionada por miembros de
su propia familia, en otros casos por miembros de la Iglesia, sacerdotes que
tienen una responsabilidad sagrada para el cuidado de las almas. En todas las
circunstancias, la traición fue una terrible violación de la dignidad humana.
Para
aquellos que fueron abusados por un miembro del clero, lamento profundamente
las veces en que ustedes o sus familias denunciaron abusos pero no fueron
escuchados o creídos. Sepan que el Santo Padre les escucha y les cree. Lamento profundamente que
algunos obispos no cumplieran con su responsabilidad de proteger a los menores.
Es muy inquietante saber que en algunos
casos incluso los obispos eran ellos mismos los abusadores. Me comprometo a
seguir el camino de la verdad, dondequiera que nos pueda llevar. El clero y los
obispos tendrán que rendir cuentas de sus acciones cuando abusen o no protejan
a los menores.
Estamos reunidos aquí en Filadelfia para
celebrar el Don de Dios de la vida familiar. Dentro de nuestra familia de fe y
de nuestras familias humanas, los pecados y crímenes de abuso sexual de menores
ya no deben mantenerse en secreto y con vergüenza. Esperando la llegada del Año Jubilar de la Misericordia, su presencia
aquí hoy, tan generosamente ofrecida a pesar de la ira y del dolor que han
experimentado, revela el corazón misericordioso de Cristo. Sus historias de
supervivencia, cada una única y convincente, son señales potentes de la
esperanza que nos llega por la promesa de que el Señor estará con nosotros
siempre.
Es bueno saber que han traído con ustedes
familiares y amigos a este encuentro. Estoy muy agradecido por su apoyo
compasivo y rezo para que muchas personas de la Iglesia respondan a la llamada
de acompañar a los que han sufrido abusos. Que
la puerta de la misericordia se abra por completo en nuestras diócesis,
nuestras parroquias, nuestros hogares y nuestros corazones, para recibir a los
que fueron abusados y buscar el camino del perdón confiando en el Señor.
Les prometemos apoyarles en su proceso de sanación y en siempre estar
vigilantes para proteger a los menores de hoy y de mañana.
Cuando los discípulos que caminaron con
Jesús en el camino a Emaús reconocieron que Él era el mismo Señor Resucitado,
le pidieron a Jesús que se quedara con ellos. Al igual que esos discípulos, humildemente les pido a ustedes y a todos
los sobrevivientes de abusos que se queden con nosotros, con la Iglesia, y que
juntos como peregrinos en el camino de fe, podamos encontrar nuestro camino
hacia el Padre.
Fontes: NEWS.VA – Official
Vatican Network – 27/09/2015 – Internet: clique aqui;
e Santa Sé – Papa Francisco – Discursos –
Domingo, 27 de setembro de 2015 – Internet: clique aqui.
O Evangelho não é um produto a consumir,
diz Papa ao Clero
Letícia
Barbosa
Papa Francisco discursa sobre a família, o consumismo e
o relacionamento humano para os bispos no Encontro Mundial das Famílias
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PAPA FRANCISCO Saúda bispos que estavam participando do Encontro Mundial das Famílias Seminário São Carlos Borromeu - Filadélfia Domingo, 27 de setembro de 2015 |
Neste
domingo, 27 de setembro, em seu último dia de viagem em terras
norte-americanas, Papa Francisco encontrou-se com os bispos participantes do Encontro
Mundial das Famílias, no Seminário
São Carlos Borromeu, na Filadélfia (EUA).
Antes
de discursar ao clero, Papa Francisco contou que havia se reunido com jovens
abusados sexualmente. Diante disso, ele demonstrou sua profunda vergonha por
estes crimes e comprometeu-se a ajudar nos esclarecimentos de casos como este.
“Deus
chora profundamente por estes crimes. […] Os crimes de abusos sexuais não podem
ficar em segredo por mais tempo. […] Os responsáveis prestarão contas”, frisou
o Santo Padre.
Em
seu discurso, o Pontífice refletiu sobre as famílias, assim como vem dedicando
atenção especial sobre este tema no decorrer de seu pontificado. Ele destacou a
importância da família para a Igreja, ao comentar que “sem a família, a Igreja também não existiria: não poderia ser aquilo
que deve ser, isto é, sinal e instrumento da unidade do gênero humano”.
As
transformações nos relacionamentos humanos
Papa
Francisco chamou a atenção para as transformações ocorridas na forma com que as
pessoas se relacionam. Ele comparou essas relações fazendo alusão a um mercado
e a um shopping. Antigamente, as pessoas iam aos mercados ou pequenas vendas e
encontravam os produtos que a satisfaziam e por conhecerem o dono e
estabelecerem vínculos, muitas vezes compravam fiado. Entretanto, com o passar
dos anos e desenvolvimento da sociedade, nos shoppings encontra-se uma grande
variedade de produtos e você já não estabelece nenhum vínculo.
Para
o Sucessor de Pedro, o mundo se tornou
um “grande supermercado, onde a cultura adquiriu uma dinâmica competitiva”.
“Consumir relações, consumir
amizades, consumir religiões, consumir, consumir… Não importa o custo nem as consequências.
Um consumo que não gera ligações, um consumo que pouco tem a ver com as
relações humanas. As ligações são meramente um «meio» para satisfazer as
«minhas necessidades». O próximo, com o seu rosto, com a sua história, com os
seus afetos, deixou de ser importante”, salientou o Papa.
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PAPA FRANCISCO Discursa diante dos Bispos participantes do 8º Encontro Mundial da Famílias Seminário São Carlos Borromeu - Filadélfia |
O
sacramento do matrimônio na cultura atual
O
Santo Padre explicou que muitos jovens adiam o matrimônio à espera das
condições ideais de bem-estar. Mas, ele frisa que com isso a vida é vivida “sem sabor”.
“Estamos vivendo uma cultura
que impulsiona e convence os jovens a não fundar uma família, pela falta de
meios e por ter tantos meios que está cômodo assim. Essa é a tentação, não
fundar uma família”, alertou o Pontífice.
Missão
dos Bispos
O
Santo Padre convidou os bispos, como pastores de um rebanho concedido a eles
por Cristo, a não condenarem os erros
das pessoas, especialmente dos jovens, pois cresceram nessa sociedade. Mas,
para que tal situação seja modificada, o Papa explicou que o clero precisa incentivar os fiéis com palavras de esperança e ânimo,
pois o “Evangelho não é um produto a consumir, ele não entra nessa cultura do
consumismo”.
“Nós
pastores, seguindo os passos do Pastor, somos convidados a procurar,
acompanhar, erguer, curar as feridas do nosso tempo. Olhar a realidade com os
olhos de quem sabe que é chamado a mover-se, é chamado à conversão pastoral. O
mundo atual pede-nos com insistência esta conversão”, disse o Papa.
Não deixe de ler, na íntegra,
este discurso do papa aos bispos. Veja abaixo:
DISCURSO
Papa Francisco fala aos bispos no Encontro Mundial das
Famílias
Capela do Seminário São Carlos Borromeu
Filadélfia, Estados Unidos
Domingo, 27 de setembro de 2015
Queridos Irmãos Bispos!
Sinto-me feliz por ter a oportunidade de
partilhar estes momentos de reflexão pastoral convosco, na jubilosa ocasião do
Encontro Mundial das Famílias.
De fato, para a Igreja, a família não é primariamente um motivo de
preocupação, mas a feliz confirmação da bênção de Deus à obra-prima da criação.
Cada dia, em todos os cantos do planeta, a Igreja tem motivos para se alegrar
com o Senhor pelo dom daquele povo numeroso de famílias que, mesmo nas mais
duras provas, honram as promessas e guardam a fé.
Assim eu diria que o primeiro impulso
pastoral, que nos pede esta desafiadora transição de época, é precisamente um
passo decidido na linha de tal reconhecimento. A estima e a gratidão devem prevalecer sobre o lamento, apesar de todos
os obstáculos que enfrentamos. A família é o lugar fundamental da aliança
da Igreja com a criação de Deus. Sem a família, a Igreja também não existiria:
não poderia ser aquilo que deve ser, isto é, sinal e instrumento da unidade do
gênero humano (cf. Concílio Vaticano II, Lumen
gentium, 1).
Naturalmente a compreensão que dela
possuímos, plasmada com base na integração da forma eclesial da fé e da
experiência conjugal da graça, abençoada pelo sacramento, não deve fazer-nos
esquecer a profunda transformação do
contexto atual, que incide sobre a cultura social – e agora também legal – dos
laços familiares e que nos afeta a todos, crentes e não-crentes. O cristão não
está «imune» às mudanças do seu tempo; e este mundo concreto, com as suas
múltiplas problemáticas e possibilidades, é o lugar onde temos de viver,
acreditar e anunciar.
Em tempos passados, vivíamos num contexto
social em que as afinidades entre a instituição civil e o sacramento cristão
eram substanciais e compartilhadas: os dois estavam interligados e apoiavam-se
mutuamente. Agora já não é assim.
Para
descrever a situação atual, escolheria duas imagens típicas da nossa sociedade:
duma parte as conhecidas lojas, pequenos
negócios das nossas terras; da outra os
grandes supermercados ou centros comerciais.
Algum tempo atrás, podia-se encontrar numa
mesma loja todas as coisas necessárias para a vida pessoal e familiar – é certo
que expostas pobremente, com poucos produtos e, consequentemente, poucas
possibilidades de escolha.
Havia uma ligação pessoal entre o vendedor
e os clientes da vizinhança. Vendia-se a crédito, isto é, havia confiança,
conhecimento, proximidade. Um fiava-se do outro. Tinha a coragem de fiar-se. Em
muitos lugares, tal negócio era conhecido como «a venda local».
Entretanto, nas últimas décadas,
desenvolveram-se e expandiram-se negócios de outro tipo: os centros comerciais,
espaços imensos com grande variedade de mercadorias. O mundo parece que se tornou um grande supermercado, onde a cultura
adquiriu uma dinâmica competitiva. Já não se vende a crédito, não se pode confiar nos outros. Não há ligação pessoal, relação de
vizinhança. A cultura atual parece incentivar as pessoas a entrarem na
dinâmica de não se prender a nada nem a ninguém. Não confiar, nem fiar-se. É que hoje a coisa mais importante parece
ser esta: correr atrás da última tendência ou atividade.
E
isto também em nível religioso. O consumo é que determina o que é importante
hoje. Consumir relações, consumir amizades,
consumir religiões, consumir, consumir… Não importa o custo nem as
consequências. Um consumo que não gera
ligações, um consumo que pouco tem a ver com as relações humanas. As
ligações são meramente um «meio» para satisfazer as «minhas necessidades».
O
próximo, com o seu rosto, com a sua história, com os seus afetos, deixou de ser
importante. Este comportamento gera uma cultura que
descarta tudo aquilo que já «não serve» ou «não satisfaz» os gostos do
consumidor. Fizemos da nossa sociedade
uma imensa vitrine multicultural, atenta apenas aos gostos de alguns
«consumidores», enquanto muitos, muitíssimos outros «comem as migalhas que
caem da mesa de seus donos» (Mt 15,27).
Isto provoca uma grande ferida. Atrevo-me a dizer que uma das principais
pobrezas ou raízes de muitas situações contemporâneas é a solidão radical a que
se veem forçadas muitas pessoas. E assim, indo atrás do que «me agrada», olhando
ao aumento do número de «seguidores» numa rede social qualquer, as pessoas
seguem a proposta oferecida por esta sociedade contemporânea. Uma solidão temerosa de qualquer
compromisso, numa busca frenética de se sentir conhecido.
Devemos
condenar os nossos jovens por terem crescido nesta sociedade? Devemos
excomungá-los, porque vivem neste mundo? Será preciso ouvirem da boca dos seus
pastores frases como estas: «dantes era melhor», «o mundo está um desastre e,
se continuar assim, não sabemos como iremos acabar»?
Não, não creio que seja esta a estrada. Nós pastores, seguindo os passos do
Pastor, somos convidados a procurar,
acompanhar, erguer, curar as feridas do nosso tempo. Olhar a realidade com
os olhos de quem sabe que é chamado a mover-se, é chamado à conversão pastoral.
O mundo atual pede-nos com insistência esta conversão. «É vital que hoje a
Igreja saia para anunciar o Evangelho a todos, em todos os lugares, em todas as
ocasiões, sem demora, sem repugnâncias e sem medo. A alegria do Evangelho é para
todo o povo, não se pode excluir ninguém»
(Exortação apostólica Evangelii
gaudium, 23).
Enganar-nos-íamos
se interpretássemos a desafeição, que a cultura do mundo atual tem pelo
matrimônio e a família, só em termos de puro e simples egoísmo.
Será que os jovens deste tempo se tornaram todos irremediavelmente medrosos,
frágeis, inconsistentes? Não nos deixemos cair na cilada! Muitos jovens, no quadro desta cultura dissuasiva, interiorizaram uma
espécie de medo inconsciente, que os paralisa relativamente aos impulsos mais
belos e mais altos, e também mais necessários. Há muitos que adiam o
matrimônio à espera das condições ideais de bem-estar. Entretanto a vida é
consumida, sem sabor. É que a sabedoria dos verdadeiros sabores matura com o
tempo, como fruto de um generoso investimento da paixão, da inteligência, do
entusiasmo.
Estamos
vivendo uma cultura que impulsiona e convence os jovens a não fundar uma
família, pela falta de meios e por ter tantos meios que está cômodo assim.
Essa é a tentação, não fundar uma família.
Como pastores, nós bispos, somos chamados a
reunir as forças e a relançar o
entusiasmo pelo nascimento de famílias que correspondam mais plenamente à
bênção de Deus, segundo a sua vocação. Devemos investir as nossas energias
não tanto para explicar uma vez e outra os defeitos da atual condição hodierna
e os valores do cristianismo, como sobretudo convidar com audácia os jovens a serem ousados na opção pelo matrimônio
e pela família. Também aqui é preciso uma santa ousadia! Quantas mulheres
se lamentavam: meu filho tem 30 anos e não se casa! Temos que entusiasmar os jovens para que se casem. Temos que acompanhar
e fazer amadurecer o compromisso do matrimônio. Um cristianismo, que pouco
«faz» na realidade e «se explica» infinitamente na formação, vive numa
desproporção perigosa; diria, num verdadeiro e próprio círculo vicioso. O pastor deve mostrar que o «Evangelho da
família» é verdadeiramente a «boa notícia» num mundo em que a atenção para
consigo mesmo parece reinar soberana. Não se trata de fantasia romântica: a
tenacidade em formar uma família e levá-la por diante transforma o mundo e a
história.
O pastor anuncia serena e apaixonadamente a
Palavra de Deus, encoraja os crentes a apostarem alto. Tornará os seus irmãos e
irmãs capazes de acolher e praticar a promessa de Deus, que alarga a própria
experiência da maternidade e da paternidade para o horizonte duma nova
«familiaridade» com Deus (cf. Mc 3,31-35). O
pastor vela pelo sonho, a vida, o crescimento das suas ovelhas. Este «velar»
não nasce dos discursos feitos, mas do cuidado pastoral. Só é capaz de velar
quem sabe estar «no meio», quem não tem medo das perguntas, do contato, do
acompanhamento. O pastor vela, antes de tudo, com a oração, sustentando a
fé do seu povo, transmitindo confiança no Senhor, na sua presença. O pastor
permanece sempre vigilante, ajudando a levantar o olhar quando aparecem o
desânimo, a frustração ou as quedas. Seria
bom perguntar-nos se, em nosso ministério pastoral, sabemos «perder» tempo com
as famílias.
Sabemos estar com elas, partilhar as suas
dificuldades e as suas alegrias? Naturalmente, viver o espírito desta jubilosa familiaridade com Deus e propagar a sua
emocionante fecundidade evangélica é, em primeiro lugar, o traço fundamental do
estilo de vida do bispo. Assim nós mesmos, aceitando humildemente a
aprendizagem cristã das virtudes familiares do povo de Deus,
assemelhar-nos-emos cada vez mais a pais e mães (como Paulo; veja-se 1Ts
2,7.11), evitando transformar-nos em
pessoas que aprenderam simplesmente a viver sem família. De fato, o nosso ideal não é viver sem afetos.
A nós pastores nos tocam duas coisas: a
oração e a pregação. Qual é o primeiro trabalho do bispo? Orar, rezar. O
segundo trabalho que vai junto com esse: pregar. Ajuda-nos esta definição. O bispo tem a missão de pastorear com a
oração e o anúncio.
O bom pastor renuncia a afetos familiares
próprios, para destinar todas as suas forças – e a graça da sua vocação
especial – à bênção evangélica dos afetos do homem e da mulher que dão vida ao
desígnio da criação de Deus, a começar pelos afetos perdidos, abandonados,
feridos, arrasados, humilhados e privados da sua dignidade. Esta entrega total ao amor de Deus não é,
por certo, uma vocação alheia à ternura e ao bem-querer! Bastar-nos-á olhar
para Jesus, para entendermos isso (cf. Mt 19,12). A missão do bom pastor
segundo o estilo de Deus – só Deus o pode autorizar, não a sua presunção! –
imita, em tudo e para tudo, o estilo afetivo do Filho para com o Pai, que se
reflete na ternura da sua entrega: em favor, e por amor, dos homens e mulheres
da família humana.
Na perspectiva da fé, este é um tema
precioso. O nosso ministério tem
necessidade de desenvolver a aliança da Igreja e da família. Caso
contrário, definha; e, por nossa culpa, a família humana distanciar-se-á
irremediavelmente da Feliz Notícia dada por Deus.
Se formos capazes deste rigor dos afetos de
Deus, usando infinita paciência, e sem ressentimento, com os sulcos nem sempre lineares onde devemos semeá-los, até uma mulher samaritana com cinco
«não-maridos» se descobrirá capaz de dar testemunho. E, para um jovem rico que tristemente sente que
deve pensar ainda com calma, um maduro
publicano descerá precipitadamente da árvore e far-se-á paladino dos
pobres, nos quais nunca pensara até então.
Deus nos conceda o dom desta nova
proximidade entre a família e a Igreja. A necessidade da família, Igreja e
pastores. A família é o nosso aliado, a
nossa janela aberta para o mundo, a evidência duma bênção irrevogável de Deus
destinada a todos os filhos desta história difícil e maravilhosa da criação que
Deus nos pediu para servir!
Fonte: Canção Nova –
Especiais – Papa Francisco – Viagens – Estados Unidos / Cuba – Domingo, 27 de setembro
de 2015 – 10h55 – Internet: clique aqui.
“Todos precisam ser purificados, eu sou o primeiro”,
diz Papa
Letícia
Barbosa
Ao visitar os detentos do Instituto Curran-Fromhold, na
Filadélfia, (EUA),
Papa Francisco discursa sobre a misericórdia de Deus
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PAPA FRANCISCO Saúda e conversa com detentos do Instituto Curran-Fromhold em Filadélfia Domingo, 27 de setembro de 2015 |
Papa
Francisco encerrou a manhã de atividades na Filadélfia (EUA) ao discursar neste
domingo, 27, aos detentos do Instituto Curran-Fromhold.
O Santo Padre falou aos
internos que Cristo não pergunta por onde as pessoas andaram, apenas deseja que
sejam purificadas dos caminhos nos quais passaram. Segundo ele, todos são
pecadores e precisam passar por esse processo de purificação.
“Viver
comporta ‘sujar os nossos pés’ pelas estradas poeirentas da vida, da história. Todos precisamos de ser purificados, ser
lavados. Todos, eu sou o primeiro”, ressaltou o Papa.
O
Sucessor de Pedro convidou os detentos a não enxergarem esse tempo de reclusão
como uma expulsão da sociedade.
“[Jesus]
Quer ajudar-nos a recompor o nosso andar, retomar o nosso caminho, recuperar a
nossa esperança, restituir-nos a fé e a confiança. Quer que regressemos às
estradas da vida, sentindo que temos uma missão; que este tempo de reclusão nunca foi sinônimo de expulsão”, disse
Francisco.
Ao
término de seu discurso, o Santo Padre cumprimentou pessoalmente todos os
detentos.
Leia, abaixo, a íntegra do
discurso de Francisco aos detentos:
DISCURSO
Papa Francisco fala aos detentos do Instituto
Curran-Fromhold
Filadélfia – Estados Unidos
Domingo, 27 de setembro de 2015
Queridos irmãos e irmãs!
Obrigado pela recepção e a possibilidade de
estar aqui convosco compartilhando este período da vossa vida. Um período
difícil, cheio de tensões. Um período que – bem sei – é doloroso não só para
vós, mas também para as vossas famílias e toda a sociedade; porque uma sociedade, uma família que não sabe
sofrer com as dores dos seus filhos, que não as leva a sério, que as trata como
coisas «naturais» considerando-as normais e previsíveis, é uma sociedade
«condenada» a permanecer prisioneira de si mesma, prisioneira de tudo o que a
faz sofrer. Vim como pastor, mas sobretudo como irmão para compartilhar a
vossa situação e fazê-la minha também; vim para podermos rezar juntos e
apresentar ao nosso Deus aquilo que nos dói e também o que nos encoraja, e
receber d’Ele a força da Ressurreição.
Recordo o Evangelho em que Jesus lava os
pés aos seus discípulos durante a Última Ceia. Uma atitude que os discípulos
tiveram dificuldade em compreender, incluindo São Pedro que reage dizendo-Lhe:
«Tu nunca me hás-de lavar os pés!» (Jo 13,8).
Naquele tempo era costume, quando uma
pessoa chegava a casa, lavar-lhe os pés. As pessoas eram recebidas sempre
assim. Não havia estradas asfaltadas, eram estradas poeirentas, com o cascalho
que se enfiava nas sandálias. Todos percorriam caminhos que os deixavam
impregnados de pó, quando não se feriam em alguma pedra ou faziam qualquer
corte. No Cenáculo, vemos Jesus que lava os pés, os nossos pés, os pés dos seus
discípulos de ontem e de hoje.
Todos sabemos que viver é caminhar, viver é
seguir por várias estradas, diferentes caminhos que deixam a sua marca na nossa
vida.
Pela fé, sabemos que Jesus nos procura,
quer curar as nossas feridas, curar os nossos pés das chagas dum caminho cheio
de solidão, limpar-nos do pó que se foi agarrando a nós ao longo das estradas
que cada um percorreu. Não nos pergunta por onde andamos, nem nos interroga
sobre o que andávamos a fazer.
Pelo contrário, diz-nos: «Se Eu não te
lavar, nada terás a ver comigo» (Jo 13,8). Se não te lavar os pés, não poderei
dar-te a vida que o Pai sempre sonhou, a vida para que te criou. Ele vem ao
nosso encontro para nos calçar de novo com a dignidade dos filhos de Deus. Quer
ajudar-nos a recompor o nosso andar, retomar o nosso caminho, recuperar a nossa
esperança, restituir-nos a fé e a confiança. Quer que regressemos às estradas
da vida, sentindo que temos uma missão; que este tempo de reclusão nunca foi
sinônimo de expulsão.
Viver comporta «sujar os nossos pés» pelas
estradas poeirentas da vida, da história. Todos precisamos de ser purificados,
ser lavados. Todos, eu sou o primeiro. Todos somos procurados por este Mestre
que nos quer ajudar a retomar o caminho. O Senhor procura-nos a todos, para nos
dar a sua mão. É penoso constatar como às vezes se geram sistemas prisionais
que não procuram curar as chagas, curar as feridas, criar novas oportunidades.
É doloroso constatar como às vezes se pensa que só alguns precisam de ser
lavados, purificados, sem considerar que o seu cansaço, o seu sofrimento, as
suas feridas são também o cansaço, o sofrimento e as feridas duma sociedade. O
Senhor no-lo mostra claramente através dum gesto: lavar os pés para se sentar à
mesa; uma mesa, da qual Ele quer que ninguém fique fora. A mesa que foi
preparada para todos e para a qual todos somos convidados.
Este período na vossa vida só pode ter um
objetivo: estender a mão para retomar o caminho, estender a mão para que ajude
à reintegração social. Uma reintegração de que todos fazemos parte, que todos
somos chamados a estimular, acompanhar e realizar. Uma reintegração procurada e
desejada por todos: reclusos, famílias, funcionários, políticas sociais e
educativas. Uma reintegração que beneficia e eleva o nível moral de toda a
comunidade.
Jesus convida-nos a partilhar a sua sorte,
o seu estilo. Ensina-nos a ver o mundo com os seus olhos. Olhos que não se
escandalizam do pó da estrada; antes, procura limpar e curar, procura remediar.
Convida-nos a trabalhar para criar novas oportunidades: para os presos, para os
seus familiares, para os funcionários; uma oportunidade para toda a sociedade.
Desejo encorajar-vos a manter esta atitude entre vós, com todas as pessoas que
de alguma maneira fazem parte deste Instituto. Sede artífices de oportunidades,
artífices de caminho, de novas vias.
Todos temos alguma coisa de que ser limpos,
purificados. Que a consciência disto nos desperte para a solidariedade, para
nos apoiarmos e procurarmos o melhor para os outros.
Fixemos os olhos em Jesus que nos lava os
pés: Ele é «o Caminho, a Verdade e a Vida» (Jo 14,6), que nos vem fazer sair
do engano de crer que nada pode mudar, que nos ajuda a caminhar por sendas de
vida e plenitude. Que a força do seu amor e da sua Ressurreição seja sempre
caminho de vida nova.
Fonte: Canção Nova –
Especiais – Papa Francisco – Viagens – Estados Unidos e Cuba – Domingo, 27 de setembro
de 2015 – 12h22 – Internet: clique aqui;
Domingo, 27 de setembro de 2015 – 11h52 – Internet: clique aqui.
Missa, com Papa Francisco, conclui o
8º Encontro Mundial das Famílias
Míriam
Bernardes
Papa Francisco salienta a importância dos gestos
concretos de amor
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PAPA FRANCISCO Acolhe família durante a Missa Conclusiva do 8º Encontro Mundial das Famílias Parque Benjamin Franklin - Filadélfia (EUA) Domingo, 27 de setembro de 2015 |
Na
Santa Missa conclusiva do VIII Encontro
Mundial das Famílias que aconteceu neste domingo, 27, às 17h (horário de
Brasília), no Benjamin Franklin Parkway
na Filadélfia, Papa Francisco disse:
“Deus semeia a sua presença no nosso mundo, porque “é nisto que está o amor:
não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou primeiro.” (1Jo
4, 10).
O
Pontífice destacou também que a santidade,
assim como a felicidade, está ligada aos pequenos gestos que, mesmo
sendo mínimos, fazem toda a diferença na vida do outro. E chama de gestos
miraculosos as ações simples como a bênção
antes de dormir, o abraço ao
retornar de um dia de trabalho praticados por mãe, avós, pai, filho e
acompanhados de ternura, afeto.
“O
amor exprime-se em pequenas coisas, na atenção aos detalhes de cada dia que
fazem com que a vida tenha sempre sabor de casa. A fé cresce, quando é vivida e
plasmada pelo amor. Por isso, as nossas
famílias, as nossas casas são autênticas igrejas domésticas: são o lugar ideal
onde a fé se torna vida e a vida se torna fé.”
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PAPA FRANCISCO Profere a sua homilia durante a Missa que concluiu o 8º Encontro Mundial da Famílias Filadélfia - Estados Unidos |
No
decorrer de sua fala, relembrou do cuidado e paciência que é necessário ter com
as crianças e os avós e interrogou os presentes; “Eu lhes digo como pergunta,
para que respondam: ‘Em minha casa se
grita ou se fala com amor e ternura? Essa é uma boa maneira de medir nosso
amor.’”
E
continuou, após salientar sobre o desejo de Jesus, que coloquemos em prática os
gestos de amor, sinais da presença vida Dele e operante no nosso mundo: “Como
estamos a trabalhar para viver esta lógica nas nossas famílias e nas nossas
sociedades? Que tipo de mundo queremos
deixar aos nossos filhos (cf. Encíclica Laudato
si’, 160)? Não podemos
responder, sozinhos, a estas perguntas. É
o Espírito que nos chama e desafia a responder a elas com a grande família
humana.”
Francisco
fez o convite para que as famílias se abram aos milagres do amor e superem o
escândalo do amor mesquinho e desconfiado, fechado em si mesmo, sem paciência
com os outros e renovem sua fé na Palavra de Deus.
Caminhando
para a finalização da homilia, o Santo Padre falou: “Que o senhor nos dê a graça de sermos profetas da família, profetas do
Evangelho do amor!”.
Leia, abaixo, a íntegra da
homilia de Papa Francisco nesta missa de conclusão do Encontro Mundial das
Famílias:
HOMILIA
Santa Missa de Conclusão do VIII Encontro Mundial das
Famílias
Benjamin Franklin Parkway – Filadélfia
27 de setembro de 2015
Hoje, a Palavra de Deus surpreende-nos com
uma linguagem alegórica forte, que nos faz pensar; imagens vigorosas, que
questionam as nossas reflexões. Uma linguagem alegórica que nos interpela, mas
que anima o nosso entusiasmo.
Na primeira Leitura, Josué diz a Moisés que
dois membros do povo estão a profetizar, anunciando a palavra de Deus sem
qualquer mandato. No Evangelho, João diz a Jesus que os discípulos impediram
uma pessoa de expulsar os espíritos malignos em nome d’Ele. E aqui aparece a
surpresa: Moisés e Jesus censuram estes
colaboradores por serem de mente tão fechada. Oxalá fossem todos profetas
da Palavra de Deus! Oxalá cada um fosse capaz de fazer milagres em nome do
Senhor!
Por sua vez, Jesus encontra hostilidade nas pessoas que não aceitaram aquilo que
fazia e dizia. Para elas, a abertura
de Jesus à fé honesta e sincera de muitas pessoas, que não faziam parte do povo
eleito de Deus, parecia intolerável. Entretanto os discípulos estavam a
agir em boa-fé; mas a tentação de serem escandalizados pela liberdade de Deus, que faz chover tanto sobre os justos como sobre
os injustos (cf. Mt 5,45), ultrapassando
a burocracia, o oficial e os círculos restritos, ameaça a autenticidade da fé e,
por isso, deve ser vigorosamente rejeitada.
Quando nos damos conta disto, podemos
entender por que motivo as palavras de Jesus sobre o escândalo são tão duras. Para Jesus, o escândalo intolerável consiste em tudo aquilo que destrói e corrompe
a nossa confiança no modo de agir do Espírito.
Deus, nosso Pai, não Se deixa vencer em
generosidade, e semeia. Semeia a sua presença no nosso mundo, porque «é nisto que está o amor: não fomos nós que
amamos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou primeiro» (1Jo 4,10). Aquele
amor dá-nos uma certeza profunda: somos
procurados por Ele, Ele está à nossa espera. É esta confiança que leva o
discípulo a estimular, acompanhar e fazer crescer todas as boas iniciativas que
existem ao seu redor. Deus quer que todos os seus filhos tomem parte na festa
do Evangelho. Não ponhais obstáculo ao
que é bom – diz Jesus –, antes pelo contrário, ajudai-o a crescer. Pôr em dúvida a obra do Espírito, dar a
impressão de que a mesma não tem nada a ver com aqueles que não são «do nosso
grupo», que não são «como nós», é uma tentação perigosa. Não só bloqueia a
conversão à fé, mas constitui uma perversão da fé.
A fé abre a «janela» à presença operante do
Espírito e demonstra-nos que a
santidade, tal como a felicidade, está sempre ligada aos pequenos gestos.
«Seja quem for que vos der a beber um copo de água por serdes de Cristo, (…)
não perderá a sua recompensa», diz Jesus (Mc 9,41). São gestos mínimos, que uma pessoa aprende em casa; gestos de
família que se perdem no anonimato da vida diária, mas que fazem cada dia
diferente do outro. São gestos de mãe, de avó, de pai, de avô, de filho. São
gestos de ternura, de afeto, de compaixão. Gestos
como o prato quente de quem espera para jantar, como o café da manhã de quem
sabe acompanhar o levantar na alvorada. São gestos familiares. É a bênção antes de dormir, e o abraço ao regressar duma jornada de
trabalho. O amor exprime-se em pequenas coisas, na atenção aos detalhes de
cada dia que fazem com que a vida tenha sempre sabor de casa. A fé cresce, quando é vivida e plasmada
pelo amor. Por isso, as nossas famílias, as nossas casas são autênticas
igrejas domésticas: são o lugar ideal onde a fé se torna vida e a vida se torna
fé.
Jesus convida-nos a não obstaculizar estes
pequenos gestos miraculosos; antes, quer que os provoquemos, que os façamos
crescer, que acompanhemos a vida como ela se nos apresenta, ajudando a suscitar
todos os pequenos gestos de amor, sinais da sua presença viva e operante no
nosso mundo.
Este comportamento a que somos convidados
leva-nos a perguntar: Como estamos a trabalhar para viver esta lógica nas
nossas famílias e nas nossas sociedades? Que tipo de mundo queremos deixar aos
nossos filhos (cf.Laudato si’, 160)? Não podemos responder, sozinhos, a estas
perguntas. É o Espírito que nos chama e desafia a responder a elas com a grande
família humana. A nossa casa comum não pode mais tolerar divisões estéreis. O
desafio urgente de proteger a nossa casa inclui o esforço de unir toda a
família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois
sabemos que as coisas podem mudar (cf. ibid., 13). Que os nossos filhos
encontrem em nós pontos de referência para a comunhão! Que os nossos filhos
encontrem em nós pessoas capazes de se associarem com outras para fazer florir
todo o bem que o Pai semeou.
Sem meias palavras mas com afeto, Jesus
diz-nos: «Se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos,
quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que lho pedem?» (Lc
11,13). Quanta sabedoria há nestas palavras! De fato nós, seres humanos, quanto
a bondade e pureza de coração não temos muito de que nos vangloriarmos; mas
Jesus sabe que, relativamente aos filhos, somos capazes de uma generosidade sem
limites. Por isso nos encoraja: se tivermos fé, o Pai dar-nos-á o seu Espírito.
Nós cristãos, discípulos do Senhor, pedimos
às famílias do mundo que nos ajudem. Somos tantos a participar nesta celebração
e isto, em si mesmo, já é algo de profético, uma espécie de milagre no mundo de
hoje. Quem dera que fôssemos todos profetas! Quem dera que cada um de nós se abrisse aos milagres do amor a bem de
todas as famílias do mundo, para assim podermos superar o escândalo dum amor
mesquinho e desconfiado, fechado em si mesmo, sem paciência com os outros!
Como seria bom se por todo o lado, mesmo
para além das nossas fronteiras, pudéssemos encorajar e apreciar esta profecia
e este milagre! Renovemos a nossa fé na
palavra do Senhor, que convida as nossas famílias para esta abertura; que
convida todos a participarem na profecia da aliança entre um homem e uma
mulher, que gera vida e revela Deus.
Toda a pessoa que desejar formar, neste
mundo, uma família que ensine os filhos a alegrar-se com cada ação que se proponha
vencer o mal – uma família que mostre que o Espírito está vivo e operante –,
encontrará a nossa gratidão e a nossa estima, independentemente do povo, região
ou religião a que pertença.
Que Deus nos conceda a todos, como
discípulos do Senhor, a graça de ser dignos desta pureza de coração que não se
escandaliza do Evangelho.
Fonte: Canção Nova –
Especiais – Papa Francisco – Viagens – Estados Unidos e Cuba – Domingo, 27 de setembro
de 2015 – 18h55 – Internet: clique aqui;
e Domingo, 27 de setembro de 2015 – 17h51 – Internet: clique aqui.
Papa pede que vejam a Igreja como
companheira fiel em toda e qualquer prova
Rogéria Nair
Ao encontrar-se com organizadores, voluntários e
benfeitores do Encontro Mundial das Famílias, Papa pede que vejam a Igreja como
companheira fiel
Durante
a cerimônia de despedida, na noite deste domingo, 27 de setembro, Papa Francisco agradeceu
a todos que trabalharam pela concretização do Encontro Mundial das Famílias, de
modo especial, ao Arcebispo Chaput e à arquidiocese de Filadélfia, às
autoridades civis, aos organizadores e aos inúmeros voluntários e benfeitores.
O
Santo Padre desejou que esses dias de oração e reflexão sobre a importância da
família sirva como encorajamento para continuarem a lutar pela santidade e para
que vejam a Igreja como companheira fiel em toda e qualquer prova que tenham de
enfrentar.
Fez
seu agradecimento também aos que partilharam seu testemunho durante o encontro
das famílias e a todos que trabalharam por sua estadia em Washington e Nova
Iorque.
Recordou
dois momentos marcantes de sua estadia
em solo americano:
- a canonização de São Junípero Serra, momento que disse ter sido comovente; e
- sua visita ao Ground Zero [onde estavam os edifícios conhecidos como “torres gêmeas” do World Trade Center, em Nova York], local que para ele, recorda de forma eloquente o mistério do mal.
“Sabemos com toda a certeza
que o mal não terá jamais a última palavra e que, no plano misericordioso de
Deus, triunfarão sobretudo o amor e a paz”, afirmou Francisco.
Concluiu
pedindo que, assim como receberam muito de Deus de forma gratuita, que também
possam dar gratuitamente aos outros; e de modo especial, que os voluntários e benfeitores do Encontro
Mundial das Famílias não deixem apagar o entusiasmo por Jesus, pela Igreja,
pelas famílias e a família maior da sociedade.
Leia, agora, a íntegra deste
último pronunciamento de Papa Francisco em sua viagem aos Estados Unidos:
DISCURSO
Saudação ao Comitê organizador, aos voluntários e aos
benfeitores do
VIII Encontro Mundial das Famílias
Aeroporto Internacional da Filadélfia
Domingo 27 de Setembro de 2015
Amados Irmãos Bispos,
Queridos amigos!
Os meus dias entre vós passaram rápido, mas
cheios de graça para mim e – espero – também para vós. Neste momento em que
estou para partir, sabei que o faço com o coração cheio de gratidão e
esperança.
Sinto-me grato a todos vós e a quantos
trabalharam ardorosamente para tornar possível e preparar o Encontro Mundial das Famílias. Agradeço
de modo particular ao Arcebispo Chaput
e à arquidiocese de Filadélfia, às
autoridades civis, aos organizadores e aos inúmeros voluntários e benfeitores
que contribuíram cada qual segundo as próprias possibilidades.
Agradeço ainda às famílias que partilharam
os seus testemunhos durante o Encontro. Não é fácil falar abertamente do
próprio percurso na vida! Porém a sua sinceridade e humildade diante de Deus e
de nós mostraram a beleza da vida familiar e toda a sua riqueza e variedade. Rezo para que estes dias de oração e
reflexão sobre a importância da família para uma sociedade sadia possam encorajar as famílias a continuar a
lutar pela santidade e a ver a Igreja como uma companheira fiel em toda e
qualquer prova que tenham de enfrentar.
No final da minha visita, quero agradecer
também a todos os que trabalharam para a minha estadia nas arquidioceses de
Washington e Nova Iorque. Particularmente comovente para mim foi a canonização de São Junípero Serra, que
nos lembra a todos nós a chamada para ser discípulos missionários, bem como parar pessoalmente, junto com irmãos de
outras religiões, no Ground Zero, local que recorda de forma eloquente o
mistério do mal; mas sabemos com toda a certeza que o mal não terá jamais a
última palavra e que, no plano misericordioso de Deus, triunfarão sobre tudo o
amor e a paz.
Senhor Vice-Presidente, peço-lhe para
renovar ao Presidente Obama e aos membros do Congresso a minha gratidão,
juntamente com a garantia das minhas orações pelo povo americano. Esta terra foi abençoada com enormes dons e
oportunidades. Rezo para que sejais bons e generosos guardiões dos recursos
humanos e materiais que vos foram confiados.
Agradeço ao Senhor por ter contemplado a fé
da Igreja bem radicada neste País, como se manifestou nos nossos momentos de
oração em conjunto e se mostrou em muitas obras de caridade. Jesus diz nas
Escrituras: «Em verdade vos digo: Sempre
que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o
fizestes» (Mt 25,40). As atenções que tivestes para comigo e a vossa
recepção são sinal do vosso amor e fidelidade a Jesus. E é-o também a solicitude pelos pobres, os doentes e os sem-abrigo, os imigrantes,
a vossa defesa da vida em todas as suas
fases, bem como a preocupação com a
vida familiar. Em tudo isto, reconheceis que Jesus está no meio de vós e
que, cuidar um do outro, é solicitude pelo próprio Jesus.
No momento da partida, peço a todos vós,
especialmente aos voluntários e benfeitores que se prodigalizaram pelo Encontro
Mundial das Famílias, que não deixeis apagar-se o vosso entusiasmo por Jesus,
pela sua Igreja, pelas nossas famílias e a família maior da sociedade. Possam
estes dias, passados juntos, dar frutos que permaneçam, e a generosidade e
solicitude pelos outros possa continuar. Assim como recebemos muito de Deus –
dons oferecidos a nós gratuitamente e não merecidos pelas nossas forças –,
assim, em troca, procuremos também dar gratuitamente aos outros.
Queridos amigos, abraço-vos a todos no
Senhor e confio-vos aos maternos cuidados de Maria Imaculada, Padroeira dos
Estados Unidos. Rezarei por vós e vossas famílias, e peço-vos, por favor, para
rezardes por mim. Deus vos abençoe a todos. Deus abençoe a América!
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