REFUGIADOS NA EUROPA: O MAIOR DRAMA HUMANO DESTE A 2ª GUERRA MUNDIAL
Berlim se prepara para receber maior fluxo de
refugiados desde a 2ª Guerra
Jamil Chade
O governo alemão mobiliza-se para o maior fluxo de
refugiados desde a
2.ª Guerra; o país já conta com 11 milhões de
estrangeiros
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Imigrante esconde-se debaixo de trem para tentar embarcar e chegar à Sérvia. Foto: Boris Grdanoski / AP |
Eles
deixaram suas casas enquanto seus bairros eram bombardeados. Levaram semanas
para conseguir sair da Síria e
encontrar refúgio em um território vizinho. Ali, esperaram por meses em
barracas, na expectativa de que a guerra logo terminaria. Isso não ocorreu. A
opção foi tomar um longo caminho em direção à Europa.
De caminhão, à pé pela noite
ou em botes, esses refugiados passaram por Turquia, Grécia, Macedônia, Sérvia,
Hungria e Áustria. Mas, finalmente, após um périplo de meses, essas pessoas que
sobrevivem às bombas, ao mar, aos traficantes e ao controle das autoridades
chegam ao destino tão sonhado: a Alemanha.
O
governo de Berlim mobiliza-se para o maior fluxo de refugiados desde a 2.ª
Guerra. O país já conta com 11 milhões de estrangeiros e verá esse número
crescer de forma importante entre este ano e 2016 e, por isso, quer um acordo
europeu para compartilhar esse fluxo.
O Estado de S. Paulo
visitou a cidade de Passau que, nos
últimos meses, tem sido a porta de entrada para esse sonho de milhares de
refugiados. Na fronteira com a Áustria,
a pequena localidade de 55 mil habitantes à beira do Rio Danúbio começou a
receber por dia entre 400 e 700 refugiados nas primeiras semanas de agosto.
Mas, na terça-feira, o número saltou para 1,1 mil – 70% sírios. Em Munique,
chegaram mais 2 mil pessoas.
Um número significativo vem
pelas mãos de traficantes, que os deixam ainda pela madrugada nos bosques escuros perto do Rio
Danúbio. Vultos passaram a ser frequentemente vistos cruzando as estradas da região
e não são poucos os atropelamentos.
Pela
manhã, as rádios locais, além de informar sobre o trânsito, alertam os
motoristas sobre os pontos de cruzamento de refugiados. Placas de trânsito
estão sendo também instaladas nas rodovias para indicar aos motoristas para o
risco.
“Isso
está ocorrendo principalmente pela madrugada”, explicou Michael Walch, coordenador sanitário da Malteser Hilfsdienst, uma entidade de ajuda ligada à Ordem de
Malta. “A previsão é que esse movimento dure por ao menos um ano”. “Eles chegam exaustos e muitos recebem os
primeiros atendimentos médicos aqui, após meses de guerra e fuga.”
Khaled, de Damasco, evita usar a
palavra “traficante”. “Vim de Viena com um táxi, se é que você me entende o que
quero dizer com isso”, disse ao O Estado de S. Paulo. “Paguei euros 500 apenas para esse último trecho”,
lamentou, contando que também pagou por vários outros trechos e,
principalmente, para cruzar o Mar Mediterrâneo entre a Turquia e a Grécia.
Segundo
as autoridades gregas, 2,5 mil
refugiados chegaram a Lesbos apenas na quarta-feira, enquanto outros 15 mil
estão na ilha esperando ser transportados para Atenas.
Mas
a maioria apenas usa a Grécia para
chegar a cidades alemãs. Passau
foi obrigada a investir para poder receber esses refugiados. “Não acreditamos
que esse fluxo vai parar”, declarou ao Estado o representante da Polícia
Federal na cidade, Thomas Schweikl.
“Por
isso, estamos construindo um novo centro de acolhida, além dos outros quatro
que já temos.” Apenas em agosto, a
cidade recebeu 17 mil pessoas, mas grande parte foi distribuída por centros
de refugiados da região.
O
volume de policiais teve de ser aumentado, com reforços de outras localidades
da Alemanha, e ginásios em escolas foram transformados em instalações para os
refugiados.
“Há seis meses, o
departamento que se ocupava de refugiados menores de idade tinha um
funcionário. Agora somos 20”, declarou Ralf Grunow, responsável pela área.
Para
as autoridades, a generosidade da
população tem surpreendido, com doações frequentes, até de brinquedos. Mas também têm ocorrido atos de xenofobia.
Dois centros de acolhida foram incendiados e, ontem, um homem foi preso ao
atacar os refugiados com gás de pimenta.
Mas,
para os refugiados, o símbolo de generosidade passou a ser a chanceler Angela
Merkel. “Ela é a mama Merkel para muitos de nós”, brincou Ibrahim, de 28 anos,
que deixou a cidade síria de Alepo há dois anos. A França ofereceu 5 mil vagas para refugiados desde 2012, a Espanha, 2
mil e a Dinamarca, 14 mil. Mas a Alemanha diz que receberá 800 mil pedidos de
asilo apenas este ano. O governo garante que tem condições de receber esses
refugiados, mas sabe que a conta dos gastos sociais do governo será elevada e
quer, para os próximos anos, repartir essa população pelo continente europeu.
Para
o governo austríaco, a Alemanha vai pagar o preço pela generosidade e acusa
Berlim de estar criando “falsos sonhos” entre os estrangeiros. Viena teme que, estando na passagem
entre os Bálcãs e a “terra prometida” (Alemanha), acabe sendo obrigada a
receber milhares desses refugiados.
Entre
os imigrantes, o sentimento é de alívio. Mas, diante do trauma da guerra e das
incertezas vividas por anos, o tom também é de cautela. O temor é o de que a felicidade seja rapidamente substituída pela dura
realidade de ter de aprender uma nova língua, viver uma nova cultura e buscar
trabalho.
Ao
contrário do fluxo de pessoas que por anos chegou à Europa sem educação ou
treinamento, a nova onda de refugiados sírios é composta por estudantes de
economia, engenheiros, médicos e profissionais liberais que já sabem que terão
de adaptar suas vidas.
Mas
os mais jovens já fazem planos e contam ao O
Estado de S. Paulo que passaram os últimos meses elaborando a estratégia
para “recomeçar a vida”. “Acho que vou
querer ser alemão”, contou Ali
Hussein, apenas quatro dias depois de entrar no território.
Quem
já está na Alemanha há alguns meses, porém, alerta que a integração e o
processo burocrático não são fáceis. “Há
um ano estou aguardando apenas para que me interroguem sobre o meu caso”,
contou ao Estado o eritreu Kosay Abrahem.
“Até hoje aguardo para saber se vou receber status de refugiado ou não e,
enquanto isso, é como se a vida estivesse em suspense”, afirmou.
Fonte: Folha de S. Paulo – Internacional – Quinta-feira, 3 de
setembro de 2015 – Pg. A10 – Internet: clique aqui.
Foto de criança morta em praia turca torna-se símbolo
de crise migratória
Redação e
Agências Internacionais
Ao menos 12 refugiados morrem em naufrágio, incluindo
cinco menores
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Aylan Kurdi, criança síria de 3 anos de idade, encontrada morta por afogamento numa praia da cidade de Bodrum, Turquia Foto: Nilufer Demir / REUTERS |
A
face mais cruel da crise migratória na Europa foi evidenciada nesta
quarta-feira com uma foto marcante de uma criança encontrada morta na costa da cidade turca de Bodrum. O
motivo já é conhecido. Em busca do sonho europeu, o menino estava em um barco de refugiados que afundou ao tentar chegar
à ilha de Kos, na Grécia.
A
imagem está sendo amplamente divulgada nas redes sociais, como símbolo do fim
desastroso de alguns imigrantes que se arriscam em perigosas travessias para o
continente europeu, muitas vezes fugindo de conflitos, violência, pobreza, fome
e perseguição.
A
hashtag #KiyiyaVuranInsanlik
(humanidadelevadapelaságuas), em referência à foto, foi para o topo dos trending topics no Twitter.
A
foto foi publicada em vários jornais. “Se
essa imagem extraordinariamente poderosa de uma criança síria morta em uma
praia não mudar a atitude da Europa com os refugiados, o que irá?”, questionava
o título do britânico “The Independent”.
Já o português “Público” justificou a
publicação: “Vamos de forma paternalista proteger o leitor de quê? De ver uma
criança morta à borda da água, com a cara na areia? Não sabemos se esta
fotografia vai mudar mentalidades e ajudar a encontrar soluções. Mas hoje, no
momento de decidir, acreditamos que sim.”
Ao
menos 12 refugiados que viajavam em duas embarcações morreram nesta
quarta-feira, entre eles cinco crianças e uma mulher. Os corpos de algumas
vítimas, incluindo o de Aylan Kurdi,
de 3 anos, e de seu irmão Galip, de
5, foram vistos na areia, causando angústia entre as pessoas que estavam no
local. Sete pessoas foram resgatadas pela guarda costeira e duas estão
desaparecidas.
Acredita-se que os
passageiros sejam sírios que escapam de uma guerra civil que já matou mais de
200 mil pessoas.
A
rota por mar Bodrum-Kos é relativamente curta, mas não menos perigosa. As
agências humanitárias estimam que, ao longo do mês passado, pelo menos duas mil
pessoas tentaram cruzar Turquia e Grécia por essa via.
Fonte: O Globo – Mundo – 02/09/2015 – 10h45 –
Atualizado em 03/09/2015 às 13h00 – Internet: clique aqui.
A visionária Merkel
Gilles Lapouge
Os atos são importantes.
A Alemanha, este ano, acolherá 800 mil requerentes de
asilo!
A
chanceler alemã, Angela Merkel, não
é uma sentimental. É uma mulher racional, pudica, pragmática e melhor para ler
estatísticas bancárias ou algoritmos do que para fazer apelo aos sentimentos.
Seu discurso, normalmente, é isento de qualquer lirismo ou desses arroubos
"político-históricos" que pautam a afetação dos políticos italianos
ou franceses.
Mas
Merkel é a única dirigente na Europa que
se mostra à altura da trágica provação imposta ao continente com a chegada das
multidões de imigrantes vindos da vasta zona que começa no Paquistão e vai até
a Tunísia e a África Subsaariana.
Muito
bem, Merkel é a única (entre os políticos) que entendeu que há um movimento que
extrapola a categoria do político e encontra seu lugar definitivo - o da
"grande migração". Ela compreendeu isso.
Visionária,
Merkel também está em busca de soluções. E quando um responsável político
compreende a dimensão desse fenômeno é para estabelecer regras de comportamento
catastróficas. Os partidos fascistas,
por exemplo a Frente Nacional, na
França, mas também na Inglaterra, Itália, Áustria, depois de dar gritos de
horror, explicam que a Europa tem de se proteger atrás de imensas cercas de
arame farpado contra os perturbadores da ordem, os esfomeados, os humilhados,
os desesperados, cujas hordas vêm à afortunada Europa.
Entre
os "humanistas", do gênero socialista, não se fala em devolver os
migrantes ao mar, mas sugerem que a Europa adote soluções responsáveis,
bruscas, enérgicas, prudentes - em resumo, soluções "realistas", como
se diz. Mas onde está o "real"
no caso desta hemorragia de dois continentes sobre um terceiro: África e Ásia
sobre a Europa (hemorragia, aliás, provocada pelos erros cometidos pela
Europa)?
Merkel
utiliza outra linguagem. A da história. Da memória deste continente que foi a
Europa: "Os direitos civis universais, afirma, eram até agora associados à
Europa e à sua história. Se a Europa
fracassar na questão dos refugiados, esta não será mais a Europa da forma como
nós a representamos".
E
faz um alerta. Evocando aqueles que desejam - para solucionar o problema dessa
grande migração - que seja abolido o Espaço
Schengen, Merkel retruca que se a
Europa fracassar diante desse desafio então, sim, deverá abolir Schengen, mas
essa será uma enorme derrota da Europa.
Ela
resume a questão de uma maneira bela: "Não quero agora tirar para fora
todos os instrumentos de tortura. Queremos encontrar uma solução, como bons
camaradas". E sua voz se eleva como o de uma professora de escola um pouco
prussiana ao se dirigir aos insanos da extrema direita. "Não devemos ter nenhuma tolerância com aqueles que questionam a
dignidade de outros homens."
Como
esse discurso da chanceler alemã foi ouvido na França, o país mais amigo da
Alemanha? A França, há muito tempo
desviava o olhar do problema. Mas o drama ganhou força. Paris, por fim,
declarou que a França compartilha dos pontos de vista da Alemanha. Ou seja, a
generosidade, o sentimento de solidariedade, o respeito à dignidade do ser
humano. Antes tarde do que nunca.
Na
realidade, há bastante tempo a Alemanha se mostra mais humana do que a França
com relação aos refugiados. A Alemanha
não só acolhe mais refugiados, mas sobretudo lhes reserva uma acolhida mais
generosa. Na França é com o rosto crispado que entreabrimos a porta para os
migrantes. Depois, os encurralamos e abandonamos em terrenos baldios
abomináveis como em Calais,
autêntica vergonha da humanidade.
Claro
que há países piores que a França. A
Hungria acaba de erguer um muro, como se para conceder uma vitória póstuma aos
muros que a União Soviética tanto apreciava. A maior parte dos países da
Europa oriental é contra os migrantes. E, desnecessário dizer, a Grã-Bretanha continua a campeã em egoísmo
político. Com certeza, muita gente dirá que os discursos, mesmo o de
Merkel, embora menos mentirosa do que seus colegas europeus, não convencem
ninguém. Os atos são importantes. A Alemanha, este ano, acolherá 800 mil
requerentes de asilo!
Traduzido do francês por Terezinha
Martino.
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