5 pontos para você entender como o sistema financeiro leva nossa economia para o buraco
Ladislau
Dowbor
Carta
Maior
Julho de
2015
Nunca teve uma aula sobre dinheiro? Neste artigo você
pode entender
como o sistema financeiro, com seus juros altíssimos,
faz vazar o seu bolso.
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Os juros asfixiam a economia, paralisam todos os setores que poderiam fazer avançar a economia, ou seja: o consumo das pessoas, os investimentos das empresas e o investimento dos governos |
Quando
foi a sua última aula sobre dinheiro? Há muito tempo? Mais precisamente nunca?
Não se incomode, ninguém nunca teve uma única aula sobre dinheiro, a não ser
que tivesse estudado economia, e ainda assim terá ficado na dimensão assexuada
chamada elegantemente de Moeda. Eventualmente moeda e crédito. Mas não se
preocupe, trata-se apenas do principal estruturador da sociedade: papéis ou sinais
magnéticos que dão direito ao que o mundo produz. Não iríamos ensinar uma coisa
destas na escola. O resultado prático é que muito poucos entendem do dinheiro, e a imensa maioria da população não
entende como o sistema faz vazar o seu bolso. São processos modernos e sofisticados, hoje resumidos no conceito de financeirização.
A financeirização nos toca a todos e
diretamente. As pessoas tendem a imaginar a complexidade da “alta finança”, mas
se trata prosaicamente da forma moderna
de apropriação do produto por quem pouco ou nada produz. Com um patrão
explorador se apropriando da mais valia era até mais simples. Hoje é vital,
para os equilíbrios da sociedade, que muito mais gente entenda os novos
mecanismos. Daí a importância do exercício que Carta Maior vem desenvolvendo, no sentido de não só destrinchar o
funcionamento dos sistemas financeiros, como de generalizar a sua compreensão.
No
plano internacional temos avanços importantes, com os trabalhos de Piketty sobre a financeirização, a
armadilha da dívida pública e a concentração da riqueza no planeta; os estudos
da Tax Justice Network [TJN] sobre
os paraísos fiscais; da Global Financial
Integrity sobre a finança ilegal; da Oxfam
sobre a articulação da desigualdade de renda e da desigualdade de patrimônio
acumulado; do Crédit Suisse sobre as
grandes fortunas; do Instituto Federal Suíço
de Pesquisa Tecnológica sobre a rede mundial de controle corporativo, e em
particular dos grandes bancos. Não somos um caso isolado, fazemos parte de um
processo mundial. É vital entendermos como se dão estes processos no Brasil.
Juros: Os números aqui são estarrecedores. No plano aparentemente mais
prosaico dos crediários, encontramos
por exemplo juros médios para “artigos
do Lar” da ordem de 100%, quando o equivalente em redes comerciais
europeias é de 13%. Aqui temos a opção do crédito
consignado, buscando no banco para comprar à vista no comércio com juros da ordem de 25%, enquanto o
equivalente na França é de 3,5% ao ano. Juntando as diversas modalidades de
crédito ao consumidor, incluindo aqui o uso do cartão de crédito, constatamos
um imenso dreno sobre a capacidade de compra do consumidor, por parte de
intermediários. Segundo o Banco Central, em
março de 2005 a família brasileira destinava 19,3% da sua renda ao pagamento de
dívidas, enquanto em abril de 2015 destinava 46,5%.
Demanda: Impacto econômico? Quando a
massa da população, que constitui os que mais compram a prazo, gasta quase a
metade da sua renda para pagar dívida, naturalmente não irá estimular a
economia com mais demanda [= procura
por bem ou serviço no mercado em determinado momento]. O principal motor da
economia trava. E quando a demanda
trava, mais ainda trava o investimento empresarial, pois suspende toda
ideia de expansão, até o horizonte clarear. E como ademais os juros para pessoa jurídica são da ordem de quatro vezes maiores do
que nos países concorrentes, o investimento também aqui fica travado. A demanda
e o investimento são os dois
principais motores da economia. Ambos são hoje em boa parte asfixiados, em que
pesem os esforços do governo de fornecer alternativas.
Taxas de juros sobre a dívida pública: O terceiro motor é a
atividade do setor público. A perda da imensa fonte de enriquecimento dos
intermediários financeiros que era a hiperinflação foi compensada, a partir de
1996, com o sistema atualmente vigente
de elevadas taxas de juros sobre a dívida pública. Os bancos, mas também muitos empresários produtivos, têm a alternativa
de ganhar 13,75% sobre os títulos, com liquidez e garantia total, sem
precisar se envolver no processo trabalhoso de identificar, financiar e seguir
investimentos produtivos. Isto trava tanto a iniciativa dos bancos buscarem
fomento da economia, como trava a capacidade do governo expandir investimentos
em infraestruturas e políticas sociais, tão necessárias ao país. Como ordem de
grandeza, são mais de 300 bilhões de
reais drenados dos nossos impostos para intermediários financeiros.
Inflação: O grande argumento aqui é que se trata de proteger a população da
inflação. O que é curioso, pois na
maioria das economias o equivalente da taxa Selic é da ordem de 1% ou menos e,
no entanto, a inflação é baixíssima. E se queremos reduzir a demanda para
reduzir a pressão sobre os preços, isto já foi conseguido pelos mecanismos que
vimos acima, tanto assim que as empresas estão com estoques acumulados. Paul Singer diz com bom senso que são os
juros que estão inflando os preços ao consumidor. Mas encher os bolsos em
nome de proteger o povo da inflação, frente ao desconhecimento geral dos
mecanismos, funciona.
O resultado geral é esta situação curiosa
de uma economia travada pelo lado da demanda, do investimento empresarial e do investimento
público, com o PIB praticamente parado, mas lucros declarados dos bancos que aumentaram entre 20% e 30% em um ano.
E estão pedindo mais.
Paraísos Fiscais: Para onde vai tanto dinheiro que lucram, sem
financiar a economia, sem fomentar atividades econômicas que seria o papel
maior dos intermediários financeiros? Aqui vem a dimensão internacional do
processo, o nosso link com a financeirização mundial. O TJN mencionado estima
em 519 bilhões de dólares, equivalentes
a cerca de 28% do nosso PIB, o estoque de recursos que tem o Brasil em paraísos
fiscais. Portanto não só não são reinvestidos em termos produtivos, como
são alocados de forma a não pagar impostos. Só em fraudes em notas fiscais no comércio internacional, as empresas
situadas no Brasil drenam, segundo o GFI, cerca de 2% do PIB ao ano.
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